Duas armas mataram Afrânio

Apresentou-se a Tenório outra testemunha importante. Não estava no paiol de provas do Deputado. Veio com os próprios pés, voluntàriamente. Representa mais um cartucho na batalha para salvar Bandeira. É um homem de bem, homem de trabalho. Seu depoimento ajuda a descobrir a trama judiciária que jogou o Tenente na Penitenciária Central do Rio. Leiam com os próprios olhos o que esta testemunha dirá em Juízo. E vocês tirem as conclusões.

Ubiratan: - Você tem conhecimento de que, no dia do julgamento de Bandeira, o marginal Walton Avancini estava no Rio, apesar de o promotor Emerson de Lima afirmar que o dispensava, no referido julgamento, por encontrar-se o mesmo no Paraná, numa fazenda? Você certamente conhece aquela afirmação do Promotor, transmitida por um locutor da sala do Tribunal do Júri, não é verdade? Você pode adiantar alguma coisa a respeito?

Tenório: - A sua pergunta, Ubiratan, eu a respondo através do chofer de praça Kléber Cordovil, de 33 anos, com 11 de profissão, casado, residente na Rua Enes Filho, 549, e que, na época do julgamento, fazia ponto na Circular da Penha. Você verá que o Promotor Emerson de Lima foi muito mais criminoso do que os próprios autores da morte do bancário. Além de criminoso, por ter contribuído conscientemente para a condenação de um homem que sabia inocente, êste Promotor foi mentiroso. A mentira foi a sua nota contínua em todo o curso do processo.

(Tenório inicia o diálogo com o motorista, na presença do repórter.)

Tenório (para Kléber Cordovil): - Você leu, em 1952, algo sôbre o crime do Sacopã?

Kléber: - Li nos jornais e ouvi pelo rádio.

Tenório: - Conhece algumas das personagens do caso?

Kléber: - Pessoalmente, só conheço Hélio Vinagre e Walton Avancini. Os outros só conheço pela imprensa e rádio.

Tenório: - Como os conheceu?

Kléber: - O Vinagre conheci pelo fato de morar êle, há anos, perto de minha casa, na Rua Tomás Lopes, na Penha. Vinagre e Avancini, no dia do julgamento de Bandeira, tomaram o meu carro, das 11 horas da manhã até as duas da madrugada.

Tenório: - Onde Avancini e Vinagre pegaram e em que circunstâncias?

Kléber: - Vinagre era amigo íntimo do meu patrão, isto é, do proprietário do carro no qual eu trabalhava na época. Não foi a mim que êle procurou, inicialmente, mas ao meu patrão. Como êste não podia fazer o serviço, indicou a mim, como pessoa de confiança.

Tenório: - Esta viagem teve início em que local?

Kléber: - Na esquina do Café Acadêmico, na Rua Lôbo Júnior, com a Estrada Brás de Pina, na Estação da Circular da Penha.

Tenório: - E qual foi o itinerário?

Kléber: - Primeiro rodamos para a residência de Hélio Vinagre, onde tomamos uma bicada de cachaça especial, oferecida por Vinagre. Era uma boa cachacinha de Minas. Daí começou a nossa intimidade. Vinagre e Avancini falavam com desembaraço.

Tenório: - Você poderia reconstituir o roteiro?

Kléber: - Perfeitamente. Tenho-o vivo na lembrança. Rodei com ambos durante 15 horas. Da casa de Vinagre fomos direto para a Ilha do Governador, onde escalamos em vários bares escondidos, todos pertencentes a amigos dos meus fregueses. Almoçamos num restaurante que fica no trecho compreendido entre Cocotá e Freguesia. Daí rumamos para vários pontos de Governador. Parávamos em lugares ermos. Apenas para ouvir, pelo rádio, a transmissão do julgamento de Bandeira.

Tenório: - Êles conversaram dentro do carro?

Kléber: - Pouco e baixo. O que os preocupava era a reportagem radiofônica do julgamento. Recordo que perguntei a Avancini, naquela ocasião, se êle viu mesmo Bandeira matar o bancário, atendendo a que era êste o ponto fundamental da acusação. Até hoje me lembro da sua resposta: Deixa isto pra lá. Vamos tratar da gente. Deixa êle se bombardear por lá.

Tenório: - Nenhum outro fato lhe chamou a atenção?

Kléber: - Sim. Foi quando o locutor Carlos Palluí (que fazia a transmissão) disse que Avancini não compareceria ao julgamento, por encontrar-se no Paraná. Foi quando eu disse para Avancini: Será que a Ilha do Governador agora é Paraná? Avancini riu e não comentou o fato.

Tenório: - Por que o rádio ficou todo o tempo ligado?

Kléber: - O rádio só era desligado quando parávamos para comer. Avancini o ligava logo que entrávamos no carro. O seu estado era de inquietação. Escutava o rádio por todos os poros. Acompanhava os debates com vivo interêsse.

Tenório: - Êles não fizeram recomendações a você, para que guardasse segrêdo da presença dêles no carro?

Kléber: - Não foi necessário. Eu fui apresentado a êles como pessoa de confiança. Já lhe disse isto, Deputado.

Tenório: - Você que andou com êles das 11 da manhã às duas da madrugada, não ouviu nenhuma revelação que os comprometesse?

Kléber: - Doutor, já faz muito tempo. Um diálogo no interior do carro não se pode guardar por inteiro. Êles fugiam de abordar o caso comigo, embora eu me mostrasse interessado. Só sei que êles não permitiram que eu saísse da Ilha. Temiam a cidade, onde poderiam ser identificados. Isto me deixou intrigado.

Tenório: - A que horas você se despediu de Vinagre e Avancini?

Kléber: - Já lhe informei: às duas da madrugada.

Tenório: - Você se recorda se era sábado ou domingo?

Kléber: - Não tenho certeza do dia. Mas não era sábado, nem domingo.

Tenório: - Por que afirma isto?

Kléber: - Por que nos sábados faço casamentos. E não costumo trabalhar aos domingos.

Tenório: - Quando você deixou Avancini e Vinagre o julgamento já estava terminado?

Kléber: - Não, porque continuei ouvindo o julgamento na minha casa, pelo rádio.

Tenório: - Tem certeza de que Avancini dormiu na casa de Vinagre a seu convite?

Kléber: - Tenho porque ouvi Vinagre aconselhar Avancini a dormir ali.

Tenório: - Quanto você cobrou pela corrida?

Kléber: - Cobrei à base do taxímetro. Recordo que Avancini me gratificou também. Não tenho, de memória, a importância.

Tenório: - Depois do julgamento, você teve contato com os dois?

Kléber: - Com Avancini não. Quanto a Vinagre, eu o vi muito tempo depois, pois êle mora no meu bairro.

Tenório: - Você conheceu Afrânio?

Kléber: - Somente pelos jornais.

Tenório: - Sabe se Afrânio visitava Vinagre, na Penha?

Kléber: - Há uma conversa no bairro de que o Citroen de Afrânio era visto, com freqüência, na Rua Tomás Lopes, onde mora Vinagre. Eu não cheguei a ver êste carro. Mas a D. Denancy, espôsa do Vereador Carlos Lopes de Souza, conversou comigo a respeito. Ela poderá ser de grande utilidade, para esclarecimento dêste fato. O que lhe posso garantir, Deputado, é isto: pode contar comigo, em Juízo.

P.S.: - Lembramos aos leitores que Vinagre e Avancini são marginais ligados por vários casos de roubo e furto. Ambos eram clientes do advogado-escroque Leopoldo Heitor. São os mesmos que estiveram escondidos na Fazenda da Grama, no barraco de um lavrador - fato que tratamos na última reportagem dêste caso. Avancini é a principal testemunha de acusação de Bandeira. O seu depoimento está eivado de mentiras. Êle mesmo já se confessou testemunha falsa, embora depois tenha recuado, ao saber que isto lhe custaria uma pena de 6 anos de reclusão. Uma revisão criminal do caso Bandeira resultaria, no desmascaramento desta testemunha de opereta.

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