Até o livro de registros foi rasurado na Central

Tenório marca mais um tento importantíssimo após uma longa conversa com o Senhor Getúlio Moura, vice-presidente da Rêde Ferroviária Federal. Sua luta por uma revisão do processo do Sacopã ganha novas perspectivas, depois que o Sr. Getúlio Moura despachou favoràvelmente ao pedido de Tenório para um inquérito na Central do Brasil. Êste inquérito (rigoroso) deverá corroborar os depoimentos de testemunhas (como Waldemar e Amâncio) e assim mostrar as irregularidades havidas na garagem subterrânea da Central.

 

Palavra de Getúlio Moura: inquérito será rigoroso na ferrovia.

Tenório está, também, armado de um livro. Um livro que traz nomes, datas, horários de saídas e chegadas de viaturas da Central. Sôbre êste ângulo, eis outro diálogo entre o repórter e o Deputado fluminense:

Ubiratan: - É verdade que você conseguiu encontrar um livro com entradas e saídas de viaturas da Central? Um registro de movimentos de viaturas, referente ao ano de 52, o ano do crime do Sacopã?

Tenório: - É verdade. O livro está em meu poder. Sairá das minhas mãos para a revisão do processo.

Ubiratan: - Como pôde um documento oficial ir parar nas suas mãos?

Tenório: - Não, Ubiratan, os documentos oficiais desapareceram. Foram queimados. O que tenho é um simples borrador. Serve, apenas, como elemento indiciário. Como atalho para o caminho da verdade: a inocência de Bandeira.

Ubiratan: - É verdade que consta do livro a saída de uma viatura da Central, na noite do crime, viatura que só regressou à garagem no dia seguinte?

Tenório: - É verdade.

Ubiratan: - Que mais pode dizer a respeito?

Tenório: - O seguinte, Ubiratan: existe na Central do Brasil uma camioneta que, na ocasião do assassínio do bancário, estava à disposição do chefe do policiamento da ferrovia, Sr. João Amâncio dos Santos, e era dirigida pelo motorista Tavares, hoje guarda-civil da Estrada. Esta camioneta, realmente, saiu da Central, na noite de 7 de abril de 52, e só voltou no dia seguinte. Tempos depois, foi para São Paulo, onde tomou o número 194.401. Voltou logo após para o Rio, onde recebeu outro número, 14.037. Quando foi para São Paulo, não rodou com as próprias rodas. Transportou-a uma prancha da ferrovia, número 8943, por ordem do chefe de transportes da Central, Sr. Ari Pereira Gomes, homem de primeira água. Era chefe da garagem, na ocasião, o Sr. Waldemar Guilherme de Carvalho, hoje chefe das oficinas de São Diogo, com quem conversei longamente. Êle e o Sr. Ari deram-me tôda a história dêsse carro. Há fortes indícios de ter sido o mesmo que foi visto no local do crime, o mesmo que trouxe os criminosos de volta do lugar, onde o bancário foi assassinado. Até o momento não posso afirmar se tal camioneta serviu aos criminosos. Estou recolhendo elementos, nesse sentido, para estudá-los. Sei que êsse carro saiu na noite do crime, e só voltou no outro dia. Quem o dirigiu, segundo o livro que tenho, foi o motorista Tavares, que ficou dez dias de serviço. Chamei o Tavares, seu Ubiratan, e mostrei a êle o livro. Dirigi a sua atenção para o fato de existir a sua assinatura, no dito livro, sinal de que êle tinha dirigido o carro. Eis quando, para minha surprêsa, Tavares afirmou que alguém havia falsificado a sua assinatura no livro. Aquela letra não era a dêle, e sim de outro. E, igual tempo, reconheceu, no mesmo livro, outras assinaturas suas, verdadeiras, mas sem relação com a saída do carro no dia do crime. Aliás, Ubiratan, a falsificação é grosseira. E pode ser fàcilmente periciada. Há uma rasura no espaço reservado para o destino do carro - lugar onde o dito rodaria no livro em aprêço. Alguém, depois de rasurar o dito espaço, escreveu com letra recente as palavras: Engenho de Dentro, em caligrafia diferente. Aliás, a êsse respeito, volto-me principalmente para a outra camioneta, a de madeira, a da tipografia, a referida por Waldemar, a que era objeto das atenções de Giovan ou Gilvan. E anote mais isto: o mesmo chofer que conduziu a camioneta de madeira para a garagem da Central é o mesmo que dirigiu o Citroen de Afrânio, com êste, morto, dentro do carro.

Ubiratan: - Por que faz esta afirmação peremptória?

Tenório: - Por um infinidade de motivos que acho cedo para publicá-los, antes de Joventino depor. O que devo dizer é que Joventino não guiou o Citroen. Estou quase certo que o Citroen foi dirigido pelo homem da papelaria, amigo de Geovan ou Gilvan. Dirigir um Citroen não é o mesmo que dirigir outro carro qualquer. Citroen tem certas peculiaridades, principalmente o de Afrânio.

Ubiratan: - Tenório, você sabe se Avancini sabia dirigir Citroen?

Tenório: - O que sei me foi dito pelo Cel. Gilberto Cordeiro de Miranda, oficial do Gabinete do Ministro da Aeronáutica. Êste coronel possuiu um Citroen, adquirido do Capitão Meireles. Pois êsse carro pertenceu a Pedro Avancini, e hoje está com um sargento, que serve na escola de especialista de Guaratinguetá. Por que a polícia não apurou que Avancini era ou não um exímio motorista de Citroen?

Ubiratan: - Tenório, mas você disse que acreditava não ter sido Avancini o motorista do Citroen, e, sim, o homem da tipografia. Você não está fazendo confusão?

Tenório: - Claro que não. O que disse é que estava quase certo de que era o homem da tipografia. Nem por isso, entretanto, excluo o nome de Avancini, com base nas informações daquele coronel.

Tenório aponta duas novas testemunhas: elas estão prontas
a depor em Juízo, em prol da justa libertação de Bandeira.


Eis outra testemunha que tirará o riso do rosto macilento de Joventino Galvão da Silva. Uma testemunha que desmascara, aqui, mais uma mentira do bandido. Recordamos, a propósito, que Joventino, ao ver uma foto publicada pelo
O Cruzeiro, que prova a sua presença no Rio e desmente a sua afirmação ousada , segundo a qual êle deixou o Distrito Federal há vários anos, alegou tratar-se de um equívoco nosso. Aquêle homem sem bigodes, da foto, não era êle, Joventino, mas, sim, outro môço. O Deputado Tenório, que nos cedeu a foto, estaria, para o cangaceiro, usando de malícia. Pois bem: corram os olhos neste diálogo, e vejam se Joventino não se afunda, a cada instante.

Ubiratan (para Tenório): - Que acha você do retrato de Joventino publicado pelo O Cruzeiro? Aquêle, do qual êle disse não ser o seu? Aquêle em que Joventino aparece sem bigodes? Você estaria enganado, Tenório?

Tenório: - Só abro a boca com provas, Ubiratan. Não sou homem de fazer afirmações levianas. Você sabe quem é o môço baixo, que está defronte da sua máquina de escrever?

Ubiratan: - Não, quem é?

Tenório: - Pois fique conhecendo o rapaz. Apresento-lhe Manoel Constantino da Silva. Simplesmente o Manèzinho, ex-empregado da Farmácia Pedro II (aquela da Central do Brasil, da qual era sócio o próprio Diretor da Ferrovia), hoje investigador de polícia da Central. Êle vai, na sua presença, conversar comigo sôbre a foto, objeto de sua pergunta, abordando também detalhes paralelos de grande importância.

(Tenório dirige-se, agora, para Manèzinho, que responde, com calma, às perguntas do Deputado.)

Tenório: - Manèzinho, onde você conheceu Joventino? Em que circunstâncias?

Manèzinho: - Eu o conheci, Deputado, quando era empregado da Farmácia Pedro II. Joventino era secreta da Ferrovia. Recebia pela verba secreta. Êle visitava a farmácia com assiduidade e era íntimo dos meus patrões.

Tenório: - E com relação a foto que você me deu? Foto tirada na Praia de Ramos? Como foi que isso aconteceu?

Manèzinho: - Vou contar esta história. Joventino pediu a mim que o levasse à praia. Disse que havia tirado o bigode e precisava queimar o rosto. Reconstituir a fisionomia num só tom. Foi assim que combinamos ir à praia, por sinal, a de Ramos.

Tenório: - Isso aconteceu em que época, mais ou menos, você está lembrado?

Manèzinho: - Mais ou menos em 52. Depois do Carnaval.

Tenório: - Pense bem nisto: foi antes ou depois do crime do Sacopã?

Manèzinho: - Foi depois do crime. Recordo, porque no bar da praia - ocasião em que Joventino foi fotografado por um amigo nosso - êle falou muito de seus crimes, na Paraíba, e vez por outra se referia ao caso do Sacopã. Eu, então, passei a desconfiar de Joventino, e até recomendei que falasse pouco e parasse, também, com a exibição da arma. Joventino mostrava o seu revólver, um 32 cano longo, deixando que os banhistas o vissem. Disse-lhe eu, naquela ocasião: Joventino, peixe morre pela bôca. E você, que não tem porte de arma, pode dar-se mal com a Polícia do Rio, que não é a da Paraíba. - Joventino respondeu: Polícia, para me desarmar, ainda não nasceu. Revelou que estava acostumado a lidar com a Polícia, e que o revólver que possuía era da Central, e que não entregaria aquela arma a ninguém. Foi nessa ocasião que um companheiro, que estava com uma máquina fotográfica, bateu duas chapas do nosso grupo. Uma, de Joventino com chapéu na cabeça, outra sem chapéu.

Depois disso, aconselhei a Joventino que se retirasse dali, porque a sua falação estava despertando curiosidade. Êle tinha bebido alguns copos de cerveja e contava coisas de arrepiar.

Tenório: - Joventino chegou a lhe fazer confissões sôbre o crime do Sacopã?

Manèzinho: - Deputado, não era necessário confissões. Não há ninguém, na Central do Brasil, principalmente do policiamento, que não saiba que foi Joventino quem matou o bancário. Isto corria de bôca em bôca, apenas não se podia falar alto. Sei que, um dia, um colega meu comentou alto o fato, e o Diretor da Ferrovia teve conhecimento disso. Sabe o que aconteceu com êle? O pobre-diabo foi colocado dentro de uma geladeira, por momentos, de onde saiu em estado de coma. Êste colega ainda é vivo e está tuberculoso, em conseqüência dessa tortura.

Tenório: - Joventino tinha intimidade na farmácia?

Manèzinho: - Já lhe informei que tinha. Era homem de prestígio junto ao Diretor.

Tenório: - Você sabe se Joventino foi embora depois do crime? Para onde foi, sabe?

Manèzinho: - Soube que foi para São Paulo e quem o levou foi o chefe de policiamento da Central do Brasil.

Tenório: - Você sabe mais alguma coisa sôbre êste caso?

Manèzinho: - Ora, Deputado, não me arranje mais confusões. Bôca calada, não entra môsca.

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