Páginas negras do Sacopã

As primeiras ondas furiosas batem no barco de provas do Deputado Tenório Cavalcanti, cujo dedo aponta, cada minuto, mais peremptório, para um Joventino Galvão da Silva acovardado, bambo de mêdo, desidratado por um fantasma que o cerca: o pavor de confessar-se culpado. Cada detalhe acusador que voa do Rio para os ouvidos do cangaceiro, em Araçatuba, é uma martelada cruel nos seus nervos tensos. Cada sílaba de Tenório, uma chibatada no corpo moral do jagunço. O bandoleiro adoece cada vez que percebe um fragmento da sua história no ar. Tenório, veterano de marés fortes, segura firme o leme de suas convicções. Não recua um palmo na alternativa transmitida por êle ao Presidente Juscelino: provem que mente, mistifica, ou apurem a sua denúncia. O que não quer é o silêncio como resposta ao seu grito. Não recusa provas. Tampouco o anima a intenção de um pinga-pinga de acusações, com base em fatos, em depoimentos. Quer Joventino no Rio, serenamente defronte de um Juiz. Quer sentir o bandido, com tôdas as garantias constitucionais - êste mesmo Joventino que arrancou, a ponta de punhal, os olhos de um viajante -, sob o impacto de um interrogatório inteligente. Uma inquirição maciça, que revele fatos que o cangaceiro teme. Só assim Tenório mostrará tôdas as armas. Convencerá a Nação de que tem motivos para acusar o facínora pelo assassínio do bancário Afrânio. O que não fará - êle repete - é exibir as cartas mais fortes, despir todos os seus trunfos, enquanto Joventino faz estação de águas em Araçatuba, no papel prosaico de devoto à minuta, de padroeiro municipal, tranqüilo rezador de rosário de mãos ensangüentadas. Enquanto o Deputado produz os seus diálogos, que pincelam o quadro de culpa do cangaceiro, certas vozes sinceras marcham em refôrço de sua tese, bem mais persuasivas que outras que tentam obstruir a sua estrada. Eis, a propósito, o depoimento do criminalista Serrano Neves aos telespectadores de David Nasser. Êle afirma, com base na interpretação do laudo de exame cadavérico, que havia, no corpo do bancário, perfurações de dois calibres. Só êste detalhe - e os há às centenas, dentro ou fora do processo - bastaria para inocentar o Bandeira do cubículo 21. Não menos vigoroso é o eco do chamado príncipe dos criminalistas brasileiros, o Sr. Romeiro Neto, altiplano da sapiência jurídica, que os jurados de Bandeira derrotaram. Proclama que a prova dos autos é uma vergonha para a Justiça brasileira. Acusa, frontalmente, alguns atôres do processo-farsa: Delegado Hermes Machado, Comissário Rui Dourado, Promotor Emerson de Lima e o advogado-escroque Leopoldo Heitor - êste, o zangão da curriola ilustre. Neste capítulo - não seriam tantos se Joventino não se grudasse a Araçatuba -, o Deputado Tenório Cavalcanti dá mais elementos de convicção a favor da inocência do Tenente. São depoimentos, embora parciais, de testemunhas valiosas. Fatos que Joventino não gostará de ouvir. Principalmente quando souber que o Ministro da Aeronáutica, Major-Brigadeiro Francisco de Melo, apertou mesmo as mãos de Tenório. Estuda, apenas - e para logo mais - um jeito legal de participar na apuração da denúncia do Deputado fluminense.

Ubiratan de Lemos

 
Texto de Ubiratan de Lemos   -   Fotos de Indalécio Wanderley

Testemunha viu carro oculto

Êste é o diálogo entre o Deputado Tenório Cavalcanti e o Sr. Waldemar Guilherme de Carvalho, chefe da garagem da Central do Brasil ao tempo do crime do Sacopã. Os leitores observarão, nesta página dos fatos extraprocesso, maiores elementos de prova, no que se relaciona ao movimento de viaturas, na Central, na noite do crime. Vejam se isto não lança mais luz no mistério que começa a aparecer.

Tenório: - Você era chefe da garagem da Central do Brasil, na época em que ocorreu o crime?

Waldemar: - Era, sim.

Tenório: - Você tem algum fichário que identifique os veículos que saíam e que entravam, com o respectivo número e horário de entrada e saída, bem como os nomes dos motoristas?

Waldemar: - Deputado, para ser franco, na garagem da Central existem os tais documentos que V. Ex.a deseja conhecer, de todos os anos, menos os de 52. Êstes foram extraviados.

Tenório: - Medite no que está dizendo, Waldemar, extraviado, como? Como, se eram documentos públicos?

Waldemar: - Não era nada de mais, Deputado. Era documento de pouca importância, que não interessava muito ao serviço da Central. Apenas registro, para contrôle do serviço de transporte.

Tenório: - E como é que eu vou saber a entrada e a saída da Dodge 91.861 (chapa oficial) que no dia 7 de abril de 52 (dia do crime) saiu da Central, dirigida pelo motorista Tavares? E de outro veículo chapa oficial 88.979, saída, no mesmo dia, às 19:45 horas, sendo que o primeiro regressou às 14:50 horas e segundo, só no dia seguinte? Como vamos explicar isto?

Waldemar: - Ah, Deputado, êste negócio é meio complicado. Não me mêta em enrascada. Faz muito tempo e eu, de memória, não posso me lembrar de muita coisa.

Tenório: - Você sabe da existência dêsses carros, sempre dirigidos pelo motorista Tavares?

Waldemar: - Sei, sim. Era uma Dodge. E o outro era um jeep.

Tenório: - Você tem conhecimento de que um dêsses carros, a que me refiro, saiu da garagem às 19:45h do dia do crime, e não regressou naquela noite, tendo dormido fora da garagem?

Waldemar: - Esta resposta eu darei mais adiante, Deputado. Agora acho cedo.

Tenório: - Você poderia informar-me quem poderia requisitar êstes carros, para serviço?

Waldemar: - Qualquer chefe de seção, que estivesse autorizado pela Direção da Estrada.

Tenório: - Qual era o serviço que mais requisitava carros?

Waldemar: - Era o serviço de policiamento.

Tenório: - É verdade que era comum entrar na garagem da Central uma camioneta, carroçaria de madeira, pára-lamas pretos, com capota esverdeada, que pertencia a uma tipografia, situada na Rua do Lavradio, 163, da firma Gráfica Editôra Nap S/A? Camioneta esta dirigida por um certo Giovan ou Gilvan, empreiteiro da Central, intimamente ligado à Direção da Estrada? Camioneta que entrou pela rampa da garagem e foi colocada onde tem hoje uma grade de ferro, que dá acesso para um depósito de materiais, no lugar mais oculto da garagem? Camioneta que ficou dois meses oculta ali, sendo visitada por Geovan ou Gilvan, que fazia recomendações severas a respeito do veículo? Diga, Waldemar, tudo o que sabe sôbre êste detalhe. Ajude-me, homem de Deus, você que sei ser pessoa honrada, espírita, e, como todo religioso, sincero. Homem que presta contas à sua consciência.

Waldemar: - Bom, Deputado, já que é para esclarecer tudo, eu vou contar o que sei. Tudo o que o Sr. está dizendo é verdade, menos com relação ao motorista. Quem dirigia esta camioneta da tipografia, camioneta que transportava habitualmente papel impresso para a Central, era um rapaz forte, pouco mais alto que Bandeira, de cabelos um pouco encaracolados, moreno, íntimo amigo de Geovan ou Gilvan, porque eu sempre os vi juntos. Esta figura talvez ainda seja empregado da tipografia da Rua do Lavradio. Era êle o chofer da camioneta. Foi êle quem deixou a camioneta na garagem. Giovan ou Gilvan (aquêle que testemunhou contra Bandeira, dizendo que o viu, no Citroen, ao lado de Afrânio e Avancini) ia me recomendar para não deixar ninguém se aproximar da camioneta. Consta que mudaram a chapa dessa camioneta, mas confesso ao Sr. que não vi quem mudou. Sei que ela também saiu da garagem, depois de ali ter ficado dois meses. Ouvi falar que a camioneta rodou para Juiz de Fora. Não sei a quem foi vendida, nem quem a levou, porque, no dia, eu não estava de serviço.

Tenório: - Mas mudaram a pintura dessa camioneta na garagem da Central, e eu disso tenho provas seguras. Também mudaram as placas. Fale sobre isso, Waldemar.

Waldemar: - Eu não minto, Deputado. A mudança da pintura dêste carro não foi feita na garagem da Central. Ali êle foi apenas ocultado.

Tenório: - Você sabe se êste carro pertencia ao Diretor da Central ou a um parente seu?

Waldemar: - Deputado, não me arranje confusão. Sou um velho funcionário da Casa, e quero viver em paz. Estou pronto a repetir o que lhe disse, em Juízo. Direi que a camioneta foi escondida na garagem e que todos lá sabiam que ela era vigiada por Geovan ou Gilvan, também sabiam que a camioneta não era da Central.

Tenório: - Você sabe da existência de um livro velho, tipo borrador, no qual era registrada a saída e entrada dos carros, na garagem, registro depois transcrito no fichário. Livro êste do qual constava o nome do requisitante do veículo, do motorista, o dia em que saía, a hora da saída e chegada e mais o serviço programado?

Waldemar: - Sei, mas êste livro desapareceu há muito tempo.

Tenório: - Não, Waldemar. Êste livro já está comigo. Tenho-o debaixo de sete chaves.

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