JK não quer ficar

Vai largar o Govêrno na data certa e ser fazendeiro no Planalto Central, perto de Brasília. - Acredita na vitória de Lott, não emitiu um cruzeiro êste ano e espera safras abundantes. - Tomou posse pela 2ª vez em 23 de novembro de 1956. - Viajou 3 milhões de km pelo interior do Brasil, permanecendo no ar 5 mil horas. - O Brasil bate no momento 8 recordes mundiais.

Texto de CARLOS CASTELLO BRANCO
Fotos de ANTÔNIO RUDGE

O PRESIDENTE Juscelino Kubitschek vai comprar uma fazenda no Planalto Central, nas proximidades de Brasília, para lá instalar-se como fazendeiro depois de 31 de janeiro de 1961. Pode ser que muita gente não acredite nisso - disse-nos o Presidente, - mas a verdade é que, quando deixar o Govêrno, no próximo ano, o que quero ser é fazendeiro.

Lembramos ao Presidente que o problema político do momento é saber como êle encara as especulações sôbre uma eventual alteração do quadro sucessório de maneira a permitir sua reeleição.

- Essas especulações - respondeu o Sr. Juscelino Kubitschek - são feitas e espalhadas por pessoas que são contrárias a Brasília, as quais procuram desencadear uma atmosfera de desconfiança sôbre meus objetivos políticos. Querem com isso atingir o Presidente da República e dificultar, tornando-a suspeita, a transferência da capital. Tive oferecimentos de várias origens para que se deflagrassem movimentos que permitissem minha reeleição, mediante reforma da Constituição. Recusei tudo o que me sugeriram, como prorrogação de mandatos, mandato-tampão etc., opondo-me tenazmente a qualquer iniciativa que quebrasse nosso sistema constitucional.

O Presidente deu ênfase à declaração seguinte:
- Vou sair daqui com a Constituição virgem. E tem mais: cumpri todos os dispositivos constitucionais, que até então eram simples letras mortas, como o que manda transferir a capital da República para o Planalto Central e o que determina que 10% da arrecadação da União sejam aplicados no setor da educação pública.

Perguntamos ao Sr. Juscelino Kubitschek qual sua opinião pessoal, independentemente da questão de conveniência política, sôbre o artigo da Constituição que proíbe a reeleição do Presidente da República.
- Eu considero - disse - que quem realmente trabalha durante cinco anos com a intensidade e o devotamento com que o fiz, não pode nem de longe pensar em continuar na Presidência.
Indagamos do Presidente se achava realmente importante que a Constituição permanecesse virgem.
- Considero indispensável - respondeu - Nenhuma nação pode-se desenvolver sem ter sua ordem jurídica consolidada.
E prosseguiu:
- Um dos títulos de que me orgulho é de ter sido o mais intransigente respeitador da Constituição. O resultado aí está: o País está calmo. Essa história de continuísmo é o último estertor dos homens contrários à mudança da capital.

O Presidente Juscelino Kubitschek recebeu-nos, para esta entrevista exclusiva, às 10 horas da manhã do dia 15 de março. Tínhamos um hora para interrogá-lo, antes que chegasse o Vice-Presidente João Goulart para uma conversa política, programada na véspera. Fomos interrompidos duas vêzes: o Presidente atendeu telefonemas dos Srs. Amaral Peixoto e Sette Câmara. Esgotado com seu pronunciamento incisivo o caso da reeleição, os outros problemas tipicamente políticos se apresentavam secundários. O Presidente, ao que se sentia no desenrolar da conversa, não teria qualquer constrangimento em responder às perguntas. Assinalamos a êle essa circunstância, indicativa de uma quebra de tensão, de uma mudança radical na situação política do Govêrno. Em duas oportunidades anteriores, em que o entrevistamos no Palácio do Catete ou ali mesmo nas Laranjeiras, o Sr. Juscelino Kubitschek debatia-se com crises delicadas, que continham suas palavras e o obrigavam a se armar contra o repórter. Em junho de 1956, cancelou diversas perguntas do nosso questionário e, em 1958, limitou-se em muitos casos a respostas confidenciais. Agora êle ali estava eufórico, de certo modo desafiante.
- Gostaria de que você registrasse êsse contraste - disse o Presidente. - Êsse testemunho me interessa.

Perguntamos ao Chefe do Govêrno se realmente se interessava em promover a candidatura do Governador Juracy Magalhães a Presidente da República.
- Depois de 3 de outubro de 1958, - respondeu - depois de eleito governador da Bahia o presidente da UDN, analisando a situação do País, verifiquei que muitas de nossas dificuldades decorrem dos ódios provenientes ainda da Ditadura. Senti que me cabia tentar eliminar essas dificuldades e tranqüilizar definitivamente o País. A sucessão presidencial oferecia uma oportunidade para a pacificação. A solução era evidentemente encontrar um candidato que harmonizasse os grandes partidos brasileiros, especialmente o PSD, o PTB e a UDN.

Com isso, encheríamos o fôsso de ódio que ainda separa o País, como conseqüência remota do período ditatorial. Encontrando-me com o Governador Juracy Magalhães, trocamos idéias sôbre o assunto. De minha parte, não cogitava na oportunidade, de um nome pessedista, porque, conhecendo a situação e a UDN, como conheço, já verificara que quem estivesse na disposição de promover a pacificação nacional só poderia contar com a cooperação udenista se fôsse para eleger um presidente da UDN. Embora pessedista, senti que a pacificação total do Brasil valia êsse preço, tanto mais quanto nas hostes da UDN impunha-se um homem como Juracy Magalhães, sem incompatibilidades definitivas com qualquer das outras fôrças. Nesse sentido, consultei os principais dirigentes do meu partido e do PTB e minha tese foi por todos esposada. O assunto não teve prosseguimento, porque como é notório, as dificuldades partiram da própria UDN.

- Está satisfeito com o rumo que tomaram as deliberações sôbre a sucessão presidencial?
- Estou satisfeito. O País está tranqüilo. Os candidatos estão em plena campanha. O Govêrno demonstra que o Brasil suporta perfeitamente, sem riscos nem ameaças de qualquer espécie, uma campanha sucessória. Desta vez não está acontecendo nem acontecerá nada parecido com o que se procurou fazer durante a minha campanha. O Govêrno confia nas instituições e no regime.
- Qual sua posição em relação às candidaturas?
- Já declarei que sou inteiramente solidário com a candidatura apoiada pelo meu partido. Como Presidente me conduzirei com a dignidade do cargo que exerço.
- Vai participar da campanha?
- Cada um interprete como melhor lhe pareça minha declaração anterior.
- O senhor eliminou a hipótese da sua continuação no Govêno, por reeleição ou qualquer outro processo. Admite, porém, sua volta, em 1965?
- Isso depende do povo.

Voltamos por um instante ao continuísmo e lembramos ao Presidente que, embora êle atribua a manobras adversárias os rumôres sôbre sua continuação, há muitos de seus correligionários e admiradores que pensam a sério na sua continuação.
- Com meu consentimento - disse - ninguém falará nesse assunto. Não autorizei ninguém a tomar iniciativa nesse sentido e desautorizarei qualquer iniciativa que surgir.
- Acredita na vitória do Marechal Lott?
- Acredito.
- Qual sua opinião pessoal sôbre o Senhor Jânio Quadros?
- Em entrevista em Belo Horizonte, respondi a pergunta semelhante. A minha convivência com o Sr. Jânio Quadros, enquanto êle foi governador de São Paulo, foi da maior cordialidade e êle procedeu sempre para comigo de maneira correta, durante todo aquêle período.
- Acha que o Marechal Lott está em condições de prosseguir no mesmo ritmo a obra do seu govêrno?
- Não tenho a menor dúvida. O Marechal conhece todos os detalhes do meu govêrno, no qual colaborou com uma palavra sensata em todos os momentos. Não foi êle sòmente o consolidador da ordem pública e das instiutições, mas um excelente companheiro nessa luta pelo desenvolvimento nacional. Sua probidade, seu entusiasmo pelo Brasil, o fundamento nacionalista da sua consciência, fizeram com que durante quatro anos combatesse pelos mesmos propósitos. Estou certo de que o Marechal Lott dará ao Brasil dias tranqüilos e horas solares do seu progresso.
- Que conselho gostaria de dar ao seu sucessor?
- Há um provérbio que diz que conselho só se dá a quem pede e assim mesmo para não ser seguido. Os candidatos à Presidência da República são homens que já trazem um longo acervo de experiência própria.
- Ao fim do seu mandato, que lhe diz a experiência: são excessivos realmente os podêres de um Presidente da República no Brasil?
- Eu acredito no jôgo democrático. Acho que nosso regime presidencialista permite um equilíbrio perfeito dos três podêres. Não há qualquer hipertrofia do Executivo e não fôssem as perrogativas, dadas pelo sistema ao Presidente da República, nada de construtivo se realizaria neste País. Tenho recebido ùltimamente visitas de diversas personalidades estrangeiras, gente ilustre e experimentada, que, observando os resultados da política de desenvolvimento que empreendemos, consideram que demos a mais cabal demonstração de que, sob um regime democrático, uma nação pode tomar grande impulso no seu progresso. Órgãos da imprensa norte-americana, ainda recentemente, registraram que as duas nações que mais se desenvolvem no momento são o Brasil a China, com a diferença de que aqui o povo desfruta de ampla liberdade, o mesmo não acontecendo naquele país, comandado por uma filosofia bem diferente da nossa.
- Considera que a inflação pode ser utilizada como instrumento de progresso?
- Os técnicos informam que o desenvolvimento econômico se faz com a importação de capitais estrangeiros ou com sacrifício de um povo. Êsse último foi o caminho seguido, por exemplo, pels Estados Unidos. Sacrifício provisório, representado pelos ônus que recaem sôbre todos que anseiam por viver uma nação mais rica e mais livre.
O Presidente acrescenta:
- Felizmente, já iniciamos a fase da recuperação. Êste ano não emitimos ainda um só cruzeiro. As safras são abundantes, justificando prognósticos otimistas sôbre a situação do País num futuro próximo.
- Esperava chegar ao fim do seu govêrno com a popularidade de que desfruta hoje?
- Muita gente não esperava, pois a crença comum era a de que os frutos da minha obra viriam após o término do meu mandato. Eu, entretanto, esperava que acontecesse o que está acontecendo: o Brasil há muitos anos esperava por obras de estatura, que iniciassem sua libertação econômica, e o povo brasileiro está orgulhoso dêsses empreendimentos. Dom Hélder Câmara, numa conversa intima, disse-me outro dia que Deus abençoava minha obra, pois eu mesmo estava colhendo os frutos da àrvore que plantei.
- O senhor é criticado por não governar em equipe, com seus ministros, preferindo agir sòzinho, assessorado por um gabinete pessoal.
- A crítica não tem fundamento. O avanço de cinqüenta anos em cinco, que realizamos, atesta a eficiência com que trabalhamos no Govêrno.
Contamos ao Presidente que, recentemente, num programa de televisão, o Sr. Jânio Quadros foi interrogado sôbre se acreditava que o Brasil vinha progredindo cinqüenta anos em cinco.
- E que respondeu êle?
- Que considerava êsses números arbitrários, pois o progresso não pode ser medido de maneira tão simplista.
- Respeito o seu pronunciamento, mas reafirmo que, no mínimo, as metas do meu govêrno correspondem a um avanço de 50 anos. Quem tiver disposição de visitar as obras, espalhadas pela vastidão do Brasil, fàcilmente se convencerá disto.

O Sr. Juscelino Kubitschek governou Minas e o Brasil sob regime de coligação. Perguntamos-lhe se a experiência era positiva ou se, na base dela, podia aconselhar uma mudança de sistema, de maneira a permitir os governos de um partido só.
- Modéstia à parte - disse - o êxito de uma coligação depende da habilidade do governante. A qualidade fundamental é ter uma paciência de Job para superar as divergências entre os partidos e encontrar uma fórmula satisfátoria de convivência. Sei que a experiência democrática revela a tendência de reduzir a dois o número de partidos. Nós, no Brasil, já estamos vivendo há quinze anos com sistema de coligação, e nossa democracia se consolidou definitivamente.
- Os problemas da coligação governista estão todos resolvidos?
- Diariamente, numa coligação, surgem problemas de ajustamento. Tenho contado com a compreensão dos presidentes dos partidos coligados e com o patriotismo de todos êles, a tal ponto que chegamos a um verdadeiro milagre, que é a coligação ter atravessado todo o Govêrno e chegado ao fim com candidatos comuns à minha sucessão. É claro que, para um êxito semelhante, é necessário vinculação também afetiva entre o Presidente e os chefes dos partidos e essa vinculação é uma conquista que levo do meu govêrno.
- Pretende ainda alterar o Ministério para atender a problemas da coligação?
- Não tenho qualquer propósito de alterar o Ministério.
- E a Oposição, como se comportou durante seu govêrno?
- A Oposição agiu patriòticamente e constituiu-se em vigilante fiscalizadora dos meu atos.
- Tem ainda algum problema de ordem pública ou de ordem institucional?
- Considero todos superados.
- Pressentiu Aragarças?
- Senti inquietação, naqueles dias, em vários setores, mas o movimento de Aragarças me apanhou de surprêsa.
- Qual foi o maior momento do seu govêrno?
- Foi a 23 de novembro de 1956. Nesse dia tomei posse pela segunda vez.
O Presidente não entrou em pormenores. Talvez quisesse aludir aos acontecimentos desencadeados após a homenagem (espada de ouro) da Frente de Novembro ao então Ministro da Guerra. O Almirantado subscrevera, na ocasião, um manifesto hostil ao Govêrno, o General Juarez deitou entrevista contra o Presidente e na Aeronáutica um documento de rebeldia recebia assinaturas de oficiais. O Presidente mandou fechar o Clube da Lanterna e a Frente de Novembro, prender o General Juarez, provocou um desmentido do Ministro da Marinha e exigiu ação eficaz e rápida do Ministro da Aeronáutica. O exercício pleno da autoridade devolveu-lhe as rédeas da situação.
- Tive a impressão - comentou - de que se preparava um 24 de Agôsto. Mas em poucas horas todos sentiram que eu não estava disposto a me matar.
- Depois de exercer a Presidência, modificou-se sua maneira de encarar o povo brasileiro?
- Para melhor. A matéria-prima é formidável. Com ela pode-se fazer um grande país.

O Presidente Juscelino Kubitschek tem sido o maior divulgador das obras do seu govêrno. Nas suas sucessivas conversas com o povo pelo rádio e a televisão, sua técnica é dar números e dados objetivos, que exaltam a imaginação de grandeza do nosso povo. Êle acredita e confia nesses números, que repete em tôdas as oportunidades. As viagens que fêz pelo interior do Brasil totalizam 3 milhões de quilômetros, o suficiente para dar a volta ao mundo 75 vêzes. Permaneceu no ar cêrca de cinco mil horas. E, neste momento, o Brasil, sob seu govêrno, bate diversos recordes: 1) constrói-se aqui, em Três Marias, a maior barragem em construção no mundo, neste momento; 2) Furnas é a maior usina elétrica em construção neste momento; 3) Belém - Brasília - Pôrto Alegre é o maior tronco rodoviário em construção no mundo; 4) o maior arco de ponte de concreto que se faz atualmente na Terra é o que se ergue sôbre a ponte entre o Brasil e o Paraguai, no Rio Paraná; 5) o ritmo de crescimento da nossa indústria automobilística é o maior do mundo; 6) realizamos agora as maiores vendas de café já feitas pelos países produtores; 7) erguemos no Planalto Central, em três anos, o maior monumento urbanístico de todos os povos; 8) temos a maior acumulação de águas destinadas a açudes, produção de energia, irrigação e abastecimento das populações etc. (Quando assumiu o Govêrno a água acumulada para aquêles fins no Brasil era da ordem de 7 bilhões de litros, e ao deixá-lo, estarão acumulados 80 bilhões).

- No dia 21 de abril - disse-nos o Presidente - vou para Brasília, onde espero iniciar um nova marcha pelo progresso do País. Como Chefe do Govêrno não poderia deixar de agradecer à nobre cidade do Rio de Janeiro a hospedagem cordial que por 200 anos deu ao Govêrno da República.
- Quando se mudar para Brasília, virá muitas vêzes ao Rio?
- Virei ao Rio como vou a todos os pontos do País. Sou Presidente do Brasil.
Deixará em funcionamento no Rio algum palácio presidencial?
- O Palácio do Catete será transformado em Museu da República e o Palácio das Laranjeiras terá o destino, a que foi dedicado inicialmente, de abrigar os hóspedes ilustres da Cidade. Quando aqui vier, ficarei neste Palácio. O Rio, com seus encantos, jamais deixará de ser um centro de interêsse e atração não só para os brasileiros como para todo o mundo.
- É partidário do Estado da Guanabara ou acharia a fusão com o Estado do Rio de Janeiro melhor solução para a cidade?
- Não tomei posição nesse debate, mas considero que esta cidade, pelo papel que exerceu, tem uma repercussão tão profunda e um significado tão especial na vida brasileira, que deve continuar como uma unidade independente.
- Já escolheu o primeiro interventor do Estado da Guanabara?
- Ainda não, mesmo porque o Congresso ainda não tomou qualquer decisão a respeito do assunto.

Sôbre a exigência da Oposição, a respeito da concessão ao Congresso de uma estação radiodifusora, o Presidente diz-se favorável ao seu atendimento, pois, a seu ver, os trabalhos parlamentares devem ter a maior divulgação. Quanto à efetivação da medida, tudo dependerá da resolução que o próprio Congresso votar.
O Sr. João Goulart foi anunciado. Estava êle na sala ao lado, seu secretário conduzindo debaixo do braço uma grossa pasta. Perguntamos ainda ao Presidente de sua saúde, se estabilizara. Êle disse que sim. Seu aspecto era perfeitamente saudável, não revelava qualquer cansaço.
- O que o senhor teve foi simples estafa ou alguma coisa mais grave?
- Foi cansaço. Os médicos me aconselharam a reduzir o ritmo do meu trabalho. Eu quero sair vivo do Govêrno.

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