Os Últimos Compassos de Dircinha Batista

Cinebiografias estão em alta. Principalmente as de cantoras. A tendência ganhou força com Piaf – Um Hino ao Amor (2007), um filme não americano que concorreu a três categorias no Oscar e levou duas; uma delas, a de melhor atriz. No Brasil, onde a televisão é mais poderosa que o cinema, o fenômeno migrou para as telinhas. Maysa – Quando Fala o Coração (2009) e Dalva e Herivelto – Uma Canção de Amor (2010) fizeram bastante sucesso, mas ninguém tentou levar a história de uma grande cantora brasileira para o cinema. Não até agora.

Os Últimos Compassos, filme dirigido por Dimas Oliveira Junior, vai mostrar uma parte da vida de Dircinha Batista, a primeira Rainha do Rádio. Irmã da também cantora Linda Batista, Dircinha marcou época no rádio e no cinema e sentiu na pele como a falta de memória do brasileiro pode ser cruel. O filme de Dimas pretende reparar essa injustiça.

Dividida entre a loucura de seu amor pelo locutor Carlos Frias e a relação possessiva de sua mãe, Dircinha Batista ainda tinha que enfrentar e suportar uma relação tempestuosa com a irmã, Linda Batista.  Sua personalidade frágil não aguentaria essa situação de competição profissional entre ambas por muito tempo. A disputa era abafada pela imprensa que sempre apresentava uma ótima relação entre as irmãs. Dircinha e Carlos Frias tentam por diversas vezes manter o romance complicado, mas as constantes ameaças da mãe fazem com que a relação termine de vez. Cansado da situação e da permanente pressão familiar, Frias decide deixar Dircinha e se casar com uma atriz de teatro. A cantora prossegue em sua carreira, sua popularidade é imensa, mas a felicidade pessoal não existia mais e Dircinha Batista caminha para a autodestruição.

O filme estreará no dia 7 de abril, no Cine Olido, em São Paulo. A atriz e cantora Rosy Aragão representa Dircinha. Carlos Frias é vivido por Marcelo Schmidt. Os Últimos Compassos tem roteiro de Erkah Barbin e Dimas Oliveira Junior.

* * *

Memória Viva conversou com o diretor Dimas Oliveira Junior para saber mais detalhes.

Como surgiu seu interesse pela história de Dircinha Batista?
Conheci Dircinha Batista pessoalmente, em 1987. Antes disso, sempre tive uma grande paixão por ela, como cantora, mesmo podendo dizer que não é uma cantora de minha geração, pois tenho 52 anos hoje, mas Dircinha sempre me emocionou muito. Quando a conheci, já internada e, uma clínica de repouso, consegui ganhar sua amizade e tivemos um bom relacionamento até sua morte.

E quando teve a ideia de fazer o filme?
Nunca me conformei com o quadro que vi naquela clínica. Aquele ídolo abandonado por todos, por amigos, companheiros, público, mídia. Isso sempre me revoltou. E jurei que iria sempre divulgar o nome de Dircinha. Quando conheci a atriz Rosy Aragão, em 2007, vi que tinha encontrado a intérprete ideal para fazer Dircinha. A partir disso, comecei a produção do filme.

Fale um pouco sobre o roteiro.
O filme inicia em 1999, ano da morte da Dircinha, quando o personagem central, o jornalista interpretado por Luiz Araújo, vai buscar respostas da vida de Dircinha Batista junto a ex-companheiros dos anos 50. A partir disso, o filme caminha para 1946, 1950, 1952… sempre com ligações no ano de 1999. O roteiro é de Erikah Barbin, uma excepcional profissional, atriz e drmaturga, que se apaixonou pela ideia do filme. Todo o material de pesquisas, eu forneci a ela. O ator Marcelo Schmidt, que interpreta o grande amor de Dircinha, o locutor Carlos Frias, também colaborou imensamente para cenas do roteiro. Foi um trabalho de paixão de todos os envolvidos. Tive muita dificuldade em gravar certas cenas, principalmente as que mostram Dircinha Batista na clínica de repouso. Por ter vivido aquela situação, foi difícil controlar a emoção.

Rosy Aragão também é cantora. É ela quem canta no filme?
Tomei o cuidado de utilizar os fonogramas originais de Dircinha para não perder a fidelidade histórica. As músicas do filme foram todas remasterizadas para garantir uma boa qualidade.

Você tem uma vasta experiência em documentários para TV. Com o crescente interesse de produções do gênero pela TV, você não pensou em partir para um trabalho desse tipo e atingir um público maior?
Acho que seria uma minissérie fantástica, mas cada vez que precisamos apresentar um trabalho ou um projeto na TV, existe uma canseira muito grande e um descaso maior ainda. Então, decidi por um filme para cinema, pois estou livre para ir a festivais nacionais e internacionais. Nosso plano é mandar o filme legendado para Cannes. Acredito que depois de pronto e exibido, o filme possa ser uma apresentação, um piloto de uma minissérie. Se alguma emissora tiver interesse, encaramos o desafio. Queremos mostrar nosso trabalho, e sobretudo, resgatar a memória nacional. O filme também faz referências importantes à política da época, personalidades artísticas que fizeram parte da Urca e muito mais.

Você tem uma preocupação com a memória e a história. De onde vem isso?
Nasci com o passado em minha vida. Sempre consegui assimilar o passado mais do que o presente. Não sei o que deve ter acontecido, mas para mim é muito natural o passado. Ele é hoje! Tenho uma identificação muito intensa com isso. Tenho dificuldades com o presente. Quando me chamam pra um trabalho atual, tenho que fazer laboratório, conversar com pessoas e conhecer os dias de hoje. Estranho isso.

Algum motivo especial para o lançamento no Cine Olido? Depois, entrará em circuito comercial?
O motivo de ser no Olido é que quando eu estava procurando um local para a estreia, nao tive muita atenção de outros espaços. No Olido, tive uma recepção fantástica. Eles ficaram muito interessados pelo tema do filme. Senti que aconteceu uma reação de amor ao filme. Circuito comercial, somente depois da ronda nos festivais. Pretendemos lançar em DVD até o segundo semestre. A Smart Videos cuidará de toda a parte de distribuição. A data de 7 de abril é devido ao aniversário de Dircinha. Se fosse viva, ela estaria completando 89 anos.

* * *

Veja cenas do making of de Os últimos Compassos.



.

Herivelto Martins

Nasceu no dia 30 de janeiro de 1912, no Distrito de Rodeio (atualmente Município de Engenheiro Paulo de Frontin), no Rio de Janeiro. Ainda menino, trabalhou na confeitaria do pai, Félix Bueno Martins, foi caixa de um botequim e contabilista numa loja de móveis. Aos 18 anos, mudou-se com a família para São Paulo. Não se adaptou e mudou para o Rio de Janeiro. Foi morar em uma pensão com seu irmão Hedelacy e mais seis pessoas.

Com o irmão, aprendeu o ofício de barbeiro e acabou indo parar em uma barbearia no Morro de São Carlos, onde conheceu o compositor José Luiz Costa, o Príncipe Pretinho, que o apresentou a seu futuro parceiro, J. B. de Carvalho, do conjunto Tupy. Herivelto mostrou a J.B. sua primeira composição, Da cor do meu violão, e este a gravou, em 1932.

Entrou para o conjunto de J.B. e conheceu Francisco Sena, com quem formaria a dupla Preto e Branco. Ainda em 1932, conheceu sua primeira mulher, com quem teve dois filhos: Hélcio e Hélio. Em 1935, Sena faleceu e Herivelto formou nova dupla com Nilo Chagas. No ano seguinte, o casamento terminou e Herivelto conheceu Dalva de Oliveira. Em 1937 nasceu Pery Ribeiro, que viria a ser cantor, e em 1940, Ubiratã.

No fim da década de 1940, acaba o casamento e o Trio de Ouro, formado pelo casal e Nilo Chagas. O Trio deixou 22 discos e seis aparições em filmes nacionais. Inspirado pela dor da separação, Herivelto escreve belas canções retratando seu momento. Começa o duelo musical com Dalva. De um lado, Herivelto e David Nasser; de outro, Dalva, com letras e músicas de Ataulfo Alves, Nelson Cavaquinho, Mário Rossi, J. Piedade e Marino Pinto.

Tudo começou com o samba Cabelos Brancos, respondido por Dalva com Tudo acabado. Seguiram-se Caminhemos, Quarto Vazio, Caminho Certo e Segredo, de Herivelto; rebatidas por Calúnia, Errei sim e Mentira de Amor, cantadas por Dalva.

Em 1950, Herivelto formou um novo trio. Seriam várias formações até a década de 80. Em 1952, casou-se com a terceira esposa com quem teve três filhos.

Herivelto Martins faleceu aos 80 anos, em setembro de 1992, em consequência de uma embolia pulmonar.

Informações de Anna Vachianno,
curadora da exposição As estrelas Dalva de Oliveira e Herivelto Martins

Veja Herivelto Martins cantando Ave-Maria no Morro com seu filho Pery Ribeiro.



Dalva de Oliveira

A Rainha da Voz nasceu Vicentina Paula de Oliveira, em 5 de maio de 1917, em Rio Claro, estado de São Paulo. Foi a primeira das quatro filhas do casal Alice do Espírito Santo e Mário Carioca. A família vivia de forma modesta, mas feliz. Após a morte do pai, a vida foi bem mais dura. Vicentina passou por um orfanato, foi arrumadeira, babá, costureira e ajudante de cozinha, até conseguir um emprego de faxineira em uma escola de dança, onde havia um piano. Cantando e improvisando após o expediente, conseguiu integrar um grupo musical ao ser ouvida por um professor. O grupo durou pouco e a jovem procurou fazer um teste na Rádio Mineira, em Belo Horizonte. Foi aprovada e, por sugestão do maestro pianista Antônio Zovetti, adotou o nome Dalva de Oliveira.

A carreira profissional começou por volta de 1934, na Rádio Ipanema, no Rio de Janeiro. Na mesma época, começou a trabalhar no Teatro Cancela, onde conheceu Herivelto Martins, que cantava na dupla Preto e Branco. Logo passou a cantar com eles.

Dalva de Oliveira e a Dupla Preto e Branco, como passaram a se chamar, foram batizados como Trio de Ouro no programa de Cesar Ladeira, na Rádio Mayrink Veiga. Passaram pelos rádios Tupi, Clube e pelo Cassino da Urca. No final dos anos 30, Dalva e Herivelto já estavam juntos.

Em 1947, o fim do casamento foi manchete em todos os jornais e provocou uma polêmica musical jamais acontecida no Brasil. Em 1949, o Trio de Ouro era desfeito e Dalva partia para carreira solo. Em 1950, Dalva e Herivelto passariam a discutir e se acusar mutuamente pelo fracasso do casamento através de músicas: Tudo acabado, Que será e Errei sim. Mais sucesso na carreira profissional, mais problemas na vida pessoal.

Em agosto de 1965, Dalva sofre um acidente. Recupera-se, volta a cantar, mas os tempos eram outros. Ela se afasta para retornar somente em 1970 e estourar com Bandeira branca, marcha-rancho de Max Nunes e Laércio Alves. Em 1972, morre de uma hemorragia no esôfago.

Informações de Anna Vachianno, curadora da
exposição As estrelas Dalva de Oliveira e Herivelto Martins

Abaixo, Dalva interpreta Estrela do Mar (vídeo) e Que será (áudio)








Dalva e Herivelto – Uma Canção de Amor

Estreia nesta segunda, na TV Globo, Dalva e Herivelto – Uma Canção de Amor, protagonizada por Adriana Esteves e Fábio Assunção. A minissérie de cinco capítulos foi escrita por Maria Adelaide Amaral e dirigida por Dennis Carvalho e Cristiano Marques. A exibição será feita após a novela Viver a Vida.

Dalva de Oliveira e Herivelto Martins marcaram a época de ouro do rádio. A minissérie conta a história destes que foram dois dos maiores nomes do samba-canção brasileiro e mostra suas trajetórias de grandes conquistas e perdas significativas.

Dalva de Oliveira sempre teve uma bela voz e o apoio de sua mãe Alice para tentar seguir a profissão de artista. Mas sua carreira deslanchou mesmo quando conheceu Herivelto Martins, memorável compositor e o grande amor de sua vida. Ele, rígido e disciplinador, fez dela sua criação. Cuidando desde o repertório até os arranjos, figurino e coreografia.

A parceria entre os dois, no entanto, era melhor nos palcos do que em casa. Eles são até hoje lembrados não apenas por suas músicas, mas também pela paixão que tiveram. Após o término de treze anos de relacionamento, expuseram suas dores e mágoas por meio das letras de suas canções, embalando o Brasil em seus conflitos conjugais.

Embora muito apaixonada por Herivelto, Dalva nunca chegaria a ser completamente feliz no primeiro casamento. O compositor tinha muitas aventuras extraconjugais, o que a enlouquecia. Ele, no entanto, sempre retornava para casa. Até o dia em que conheceu Lurdes, uma mulher linda, jovem aeromoça, filha de uma tradicional família gaúcha. Foi amor à primeira vista. Para ela, Herivelto fez serenatas, compôs canções e cartas de amor. Por ela, terminou o casamento com Dalva de Oliveira, que teve muita dificuldade em aceitar o fim do relacionamento.

Veja cenas da minissérie.