Carlos Chagas

carlos_chagas.jpgO programa De Lá Pra Cá desta segunda, 31 de agosto, faz uma homenagem aos 130 anos de Carlos Chagas. São convidados o biólogo Pedro Lagerblad, responsável por sequenciar o genoma do barbeiro, inseto transmissor da doença de chagas; e o médico e escritor Moacyr Scliar. Eles comentam a história e carreira de um dos pesquisadores mais importantes no combate às doenças infecciosas americanas, como a malária e a febre amarela.

Carlos Justiniano Ribeiro Chagas, o médico conhecido como Carlos Chagas, nasceu em Minas Gerais, no dia 9 de julho de 1879. Considerado um dos maiores cientistas brasileiros, foi o único no mundo a desvendar todo o processo de uma doença infectocontagiosa. Seu nome está associado à sua maior descoberta: a tripanossomiase americana – o mal de Chagas. Mas essa não é sua única contribuição à saúde pública.

Ele definiu também novos métodos de combate à malária e debelou a epidemia de gripe espanhola, que castigava o Rio de Janeiro, em 1918, depois de matar milhões de pessoas em todo o mundo. Recebeu vários prêmios e honrarias, inclusive duas indicações para o Nobel de Medicina.

De Lá Pra Cá vai ao ar hoje, às 22h, na TV Brasil e pode ser assistido pela web nos seguintes endereços: www.tvbrasil.org.br e www.tvu.ufrn.br (em tela cheia).

O programa será reprisado no próximo domingo, 6 de setembro, às 18h.

 

Dom Getúlio Vargas, Primeiro e Último

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Excerto de texto de autoria de Constantino Paleólogo, escritor, tradutor, jornalista e advogado, na revista A Cigarra, da qual era diretor, em 1954.

gv_cigarra.jpgTenho hoje trinta e dois anos de idade, sendo vinte quatro vividos sob o signo de Getúlio Vargas. Posso falar, por conseguinte; posso prestar o meu depoimento; posso dizer em que espécie de atmosfera vivi durante esse período no qual se formou a minha personalidade. Quando eu usava calças curtas, meu pai costumava chamar-me e, diante das visitas, fazia-me a indefectível pergunta: “Quem vai ganhar as eleições?” Respondia-lhe eu, com absoluta convicção: “Getúlio Vargas”. E desde então, até a trágica madrugada de agosto, uma só e única figura dominou de maneira completa, onipresente e onisciente, o panorama da vida brasileira: Getúlio Vargas.

(…)

O Sr. Getúlio Vargas, na trágica madrugada do mês de agosto, deu um tiro no coração e retirou-se da vida, desta vida que lhe foi pródiga em toda espécie de benefícios. Contava mais de setenta anos, alcançara o máximo que um político pode alcançar. Apeado do poder em 1945, foi eleito pelo povo na campanha memorável que o trouxe de volta ao Catete. As esperanças de todos concentravam-se nele, inclusive a minha, de toda a minha geração, mas vimo-lo cercar-se desde os primeiros dias dos piores tipos de homens, vimo-lo, por intermédio do Sr. Jango Goulart, lançar-se deliberadamente na criação de um novo clima que lhe possibilitasse destruir a nossa frágil democracia renascida.

Afastaram-se do Sr. Getúlio Vargas todos os homens que poderiam reclamar para si algum respeito. Permaneceram apenas os que lhe exploravam a autoridade e velho prestígio que a sua personalidade magnética e fascinante lhe dera junto ao povo. E quando a imprensa, pela voz de Carlos Lacerda, desmascarou a hediondez moral dos que o cercavam, só restou a Getúlio Vargas matar-se, para não ver os seus últimos anos de vida maculados com a pior das manchas.

Não nos alegramos com a sua morte porque a morte não é motivo de alegria para ninguém. Não nos entristecemos com sua morte porque a nossa também é certa, hoje ou amanhã.

Lamentamos apenas que tenha sido preciso o seu sangue para marcar o início de uma nova era, a era realmente democrática pela qual todos os brasileiros ansiavam, sobretudo aqueles que em 1930 ainda usavam calças curtas e passaram a mocidade privados de todos os direitos políticos, de todos esses direitos que tornam digna de ser vivida a vida do cidadão de uma República. Teremos, doravante, governos medíocres, governos excepcionais, governos medianos, segundo a consciência política dos eleitores, mas em cada qüinqüênio manifestaremos de maneira positiva e contundente a nossa aprovação ou o nosso repúdio àqueles aos quais delegamos poderes para governar-nos.

Getúlio Vargas ocupa, sozinho, uma grande porção da nossa História, com algumas realizações cujo mérito ninguém poderá discutir. Não haverá outro que o imite. Isto nos deixa tranqüilos e nos permite trabalhar em paz.

 

De Lá Pra Cá relembra a carreira política de Getúlio Vargas

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gvdela.jpgO programa De Lá Pra Cá desta segunda, 24, debate o legado de Getúlio Vargas, nos 55 anos de sua morte, e recebe os historiadores Boris Fausto; Maria Celina D’Araujo; a vereadora Aspásia Camargo; a neta de Getúlio, Celina Vargas; e o dramaturgo Aderbal Freire Filho.

Getúlio foi o presidente brasileiro que ficou mais tempo no poder com dois mandatos em épocas distintas. O primeiro aconteceu de 1930 a 1945 e se caracterizou por ações populistas como a Consolidação das Leis Trabalhistas e a instituição do salário mínimo. Em 1937, ele fecha o Congresso Nacional e instalou o Estado Novo no Brasil, que durou até 1945. O gaúcho voltou ao poder em 1950, eleito democraticamente.

De Lá Pra Cá vai ao ar hoje, às 22h, na TV Brasil e pode ser assistido pela web nos seguintes endereços: www.tvbrasil.org.br e www.tvu.ufrn.br (em tela cheia).

O programa será reprisado no próximo domingo, 30 de agosto, às 18h.

 

Bilhetes de Getúlio Vargas são encontrados

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A Folha de S. Paulo, em sua edição de hoje, 24 de agosto, traz matéria do repórter Marcos Strecker sobre a descoberta de bilhetes redigidos pelo presidente Getúlio Vragas ao seu chefe da Casa Civil entre 1951 e 1954, Lourival Fontes.

Segundo a matéria, publicada no caderno Ilustrada, “a existência dos documentos de Lourival Fontes era conhecida desde os anos 60, mas sua extensão e seu paradeiro eram ignorados. Estavam com a família de outro político sergipano – Lourival Baptista”. Seu filho, que mora em Florianópolis, mostrou ao jornal os primeiros 454 manuscritos de 1951, encontrados neste ano.

Leia mais em www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u613851.shtml.

 

“Ao ódio respondo com o perdão”

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Revista Manchete – 30 de agosto de 1954 – Edição Extra

Pouco depois de circular a notícia do suicídio do sr. Getúlio Vargas, o povo tomava conhecimento da carta que escrevera antes de consumar o seu gesto trágico. Eis a íntegra de seu texto:

gv_manchete6.jpg“Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se novamente e se desencadeiam sobre mim.

Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de um revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao Governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a Justiça da revisão do salário-mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente.

Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores de trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre nossa economia a ponto de sermos obrigados a ceder.

Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no meu pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos em meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão. E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue terá o preço do seu resgate.

Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História”.

Os últimos instantes do Presidente Vargas – III (final)

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Revista Manchete – 30 de agosto de 1954 – Edição Extra

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Na segunda reunião ministerial, na ausência de Vargas, os seus auxiliares diretos estudaram então uma fórmula capaz de contornar a dramática situação já perfeitamente delineada. Foi quando o Ministro Tancredo Neves levantou a sugestão do licenciamento, fórmula em que não se tinha ainda pensado. Todos postos de acordo, redigiram a nota oficial que é do conhecimento público e levaram-na ao Presidente, recolhido aos seus aposentos particulares. O próprio Ministro da Justiça comunicou-lhe o texto da nota. Depois de lê-la, com tranqüilidade, o Presidente manifestou sua anuência: sim, concordava com o licenciamento por noventa dias, até que se apurassem, por inteiro, as responsabilidades do atentado da Rua Toneleros. Os chefes militares, representados nos três ministros da Guerra, da Aeronáutica e da Marinha, davam-lhe plena garantia, sob compromisso de honra, de que a ordem seria mantida e as instituições não seriam feridas. Eram quase quatro horas da manhã. A reportagem, ansiosa, aguardava o desfecho dos acontecimentos e, pouco depois, às 4,45, tomava conhecimento da nota que anunciava o licenciamento.

Tudo parecia terminado. Já o rádio proclamava o fim da crise, com a ordem pública perfeitamente assegurada. Mas estava-se longe de imaginar o que viria depois. Nos seus aposentos, o sr. Getúlio Vargas, sozinho, parecia repousar, ou, quem sabe, meditar sobre os acontecimentos. Junto a ele, já pela manhã, estava o barbeiro presidencial (Barbosa), a quem Vargas pediu que se retirasse, para que pudesse dormir um pouco. Deixando o seu gabinete, o Presidente passou a outra dependência do Palácio, ainda na parte residencial, e apanhou o revólver com que iria pôr fim à vida. Às 8,43, ouviu-se o estampido que chamou a atenção de todos os presentes. O ministro Osvaldo Aranha e o General Caiado de Castro estavam entre os primeiros que acorreram aos aposentos do Presidente – e já o encontraram agonizante. Aranha, não resistindo ao choque emocional, abraçou-se ao cadáver de seu amigo de tantos anos, em pranto. O General Caiado de Castro, igualmente traumatizado, teve um desfalecimento. Em pouco, chegavam as demais pessoas presentes no Catete. O sr. Lutero Vargas, chorando convulsivamente, constatou o óbito de seu pai, que já não pôde ser socorrido quando chegou a Assistência. Em sua casa, o ex-ministro João Goulart repousava, já tendo mesmo dormido. Recebera, pela madrugada, a carta de Vargas, que lhe dissera:
- Toma, guarda esta carta e só a leias depois.

Acordado pela trágica notícia, o sr. Goulart abriu o envelope e encontrou as amargas palavras que toda a Nação iria em pouco conhecer. Em cima da secretária do presidente, estava o bilhete já mencionado. Depois de concordar com o seu licenciamento, o sr. Getúlio Vargas não mais se avistara com qualquer dos seus auxiliares e ministros. Apenas um de seus familiares o procurara, no quarto, e comunicara-lhe a versão que certamente contribuiu para precipitar o gesto extremo do Presidente: o licenciamento por noventa dias era apenas um recurso encontrado para o seu afastamento do Poder, mas, na verdade, aquilo significava a renúncia definitiva, pois Vargas, dada a situação político-militar, não mais voltaria ao Catete como Chefe do Executivo.

O suicídio do Presidente aclarou as suas palavras a algumas pessoas que por último o viram. Quando o marechal Mascarenhas de Morais fora comunicar-lhe a sugestão dos brigadeiros, Vargas apenas disse:
- Daqui só saio morto. Estou muito velho para ser desmoralizado e já não tenho razões para temer a morte.

Ao sr. Café Filho, que lhe fora propor uma renúncia dupla, de ambos, Presidente e Vice-Presidente, o sr. Getúlio Vargas disse também, enfática e repetidamente:
- Daqui só morto. Daqui só morto.

Ouvindo em silêncio as ponderações do sr. Café Filho, com os olhos baixos, o Presidente, depois de examinar a sua proposta, repetiu a decisão de não renunciar. Nos pequenos intervalos do diálogo, segundo o próprio depoimento do Vice-Presidente, Vargas repetia, inabalável:
- Daqui só morto.

Na madrugada de 24, quando a crise parecia solucionada, o Presidente Vargas poderia dar a impressão de que apenas se preparava para repousar. Seu repouso era justo, depois de tantos dias de ansiedade e sofrimento e sobretudo depois de tão longa vida pública, sem similar na História do Brasil.
- Sai, que eu quero dormir um pouco – disse ele ao último serviçal que o viu.

E de fato dormiu, não um pouco, mas para sempre. Deus o guarde na Sua infinita misericórdia.

 

Os últimos instantes do Presidente Vargas – II

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Revista Manchete – 30 de agosto de 1954 – Edição Extra

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O Presidente, que não deixou de ler os jornais e de informar-se minuciosamente sobre a marcha do inquérito e de suas repercussões político-militares, percebeu então a gravidade da situação com que iria defrontar-se. De ânimo firme, porém, depois de meditar sobre o rumo por que se encaminhava a crise já então francamente declarada, o sr. Getúlio Vargas tomou a decisão de não abandonar o Poder. Fora eleito pelo povo, em pleito livre e secreto, e cumpriria, até o último dia, o seu legítimo mandato. Foi essa decisão que ele comunicou a várias pessoas que o ouviram a respeito. Foi essa decisão que ele transmitiu ao sr. Gustavo Capanema, quando o líder do Governo na Câmara dos Deputados, foi pedir-lhe instruções a respeito de como deveria encaminhar os debates no Parlamento. Foi essa mesma decisão que ele exprimiu no discurso de Belo Horizonte, por ocasião da última visita oficial que realizaria em sua vida.

A crise político-militar agravou-se. O Governo, ouvidos os setores militares, anunciava a sua disposição e capacidade de defender o mandato presidencial até o fim. No domingo, porém, precipitaram-se os acontecimentos, com a reunião dos oficiais-generais da FAB. O brigadeiro Eduardo Gomes, na liderança efetiva de sua corporação, levou aos ministros militares e ao chefe do Estado Maior das Forças Armadas a moção da Aeronáutica pela renúncia de Vargas. A Marinha, sem demora, aderiu ao movimento, tendo o Almirantado comunicado a sua decisão ao Ministro Guillobel. O Presidente, porém, mesmo diante dessas manifestações inequívocas dos líderes de duas das três armas, reafirmou a sua inabalável disposição de não abandonar o Catete. Consultou o Ministro da Guerra sobre a lealdade do Exército, e obteve resposta otimista: o general Zenóbio garantia-lhe o controle de noventa por cento de seus comandados. Diante disso, foram expedidas, em nome do Governo, por inspiração direta de Vargas, as duas notas oficiais de que a Nação tomou conhecimento na noite de domingo: uma do Ministro da Justiça e outra do Chefe da Casa Militar, ambas confirmando que o Presidente da República iria “cumprir e fazer cumprir a Constituição”, isto é: nada de renúncia forçada, ou mesmo voluntária.

Na segunda-feira, pela manhã, os líderes do Governo, insones e estremunhados, confirmavam para a imprensa e o rádio a decisão de que estava imbuído o Presidente. “Não haverá novo 29 de Outubro” – declarou, enfaticamente, o Ministro da Aeronáutica. Por sua vez, o sr. Getúlio Vargas, ouvido pelos repórteres, fazia à Nação a sua advertência dramática, primeiro sinal das disposições que já trazia no seu íntimo:
- Só morto sairei do Catete.

Os observadores da crise político-militar perceberam, então, o impasse para que se caminhava, com a perspectiva de conseqüências imprevisíveis. Ao mesmo tempo, divulgava-se que o Presidente da República só se afastaria de sua posição diante do iminente e irremovível perigo de derramamento de sangue.

Na segunda-feira, a movimentação dos meios militares prosseguiu. Os generais, em cujo meio já se tinha insinuado o desejo da renúncia, reuniram-se, no Palácio da Guerra, com o Ministro Zenóbio da Costa. Depois de uma reunião histórica, o titular da pasta da Guerra dirigiu-se ao Catete, para levar ao sr. Getúlio Vargas a notícia de que, infelizmente, já não podia garantir-lhe, como na véspera, a solidariedade do comando do Exército. Trinta e cinco generais já se tinham comprometido com seus colegas da Aeronáutica e da Marinha, no propósito de levar ao Presidente a sugestão de sua renúncia, para “restaurar a tranqüilidade do país”.

Diante disso, o Presidente convocou uma reunião do ministério. Era 1 hora da madrugada. Como sempre, Vargas sentou-se à cabeceira da mesa e presidiu à reunião de seus auxiliares diretos, aos quais se juntavam alguns familiares e pessoas de sua intimidade. A disposição do Presidente não era diferente: não renunciaria. Às 2 horas e alguns minutos, o sr. Getúlio Vargas levantou-se e fez a comunicação que, mais tarde, seria dada a conhecer:
- Já que os senhores não decidem, eu vou decidir. Minha determinação aos Ministros-Militares é no sentido de que mantenham a ordem e respeitem a Constituição. Nestas condições estarei disposto a solicitar uma licença, até que se apurem as responsabilidades. Caso contrário, se os insubordinados quiserem impor a violência e chegarem até o Catete, levarão apenas o meu cadáver.

Diante desse dramático comunicado, alguns dos presentes tiveram a percepção de que o Presidente da República estava então anunciando o seu propósito suicida. A serenidade de Vargas não parecia, porém, alterada. Suas palavras eram firmes, seus gestos, normais.

Naquele momento, no entanto, já o sr. Getúlio Vargas tinha escrito a carta que encerraria o seu testamento político. Fizera-a datilografar em três vias, assinara uma delas (a que mais tarde entregou a João Goulart) e guardara duas consigo, no seu gabinete particular. No princípio da reunião, os presentes notaram que o Presidente tinha nas mãos alguns papéis: entre eles, estava, com certeza, a carta do homem que, pouco depois, iria matar-se. Enquanto durou a reunião ministerial, observou-se também que o Presidente escrevia qualquer coisa numa folha de papel. Só mais tarde viriam todos a saber que ele transmitia ao país as suas últimas palavras: “À sanha dos meus inimigos, deixo o legado de minha morte. Levo o pesar de não ter feito pelos humildes tudo que desejava”.

Finda a reunião, Vargas recolheu-se aos seus aposentos. Os ministros, ainda perplexos com os rumos da crise, já se dispersavam, quando ocorreu a idéia de uma nova reunião entre eles, sem a presença do Presidente. Movera-os, a alguns pelo menos, a suspeita de que o sr. Getúlio Vargas levava desígnio sinistro de uma saída dramática para a crise. De qualquer forma, já era geral a convicção de que o Presidente não se deixaria intimidar.

 

Os últimos instantes do Presidente Vargas – I

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Revista Manchete – 30 de agosto de 1954 – Edição Extra

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A notícia do trágico suicídio do sr. Getúlio Vargas caiu sobre a Nação como um raio, como disse, em feliz expressão, o sr. Café Filho. O rádio levou aos quatro ventos a terrível informação: o Presidente da República acabara de matar-se com um tiro de revólver no coração. O país ficou estarrecido. A opinião pública foi traumatizada por um choque emotivo jamais igualado em nossa História.

Agora, passados os primeiros momentos de estupefação, já se pode reconstruir os últimos momentos da vida do sr. Getúlio Vargas, refazendo, com base no depoimento das pessoas que com ele conviveram até os últimos instantes, toda a série vertiginosa de sucessos que culminaram com o seu gesto surpreendente.

De acordo com esses testemunhos, o sr. Getúlio Vargas estaria já disposto ao suicídio desde alguns dias antes da manhã de 24 de agosto. A sua inabalável decisão de não se afastar do Poder em hipótese nenhuma, ainda que abandonado por todos, ainda que lhe faltasse a solidariedade das Forças Armadas, já escondia, em última análise, o pensamento da morte, que ele afinal pôs em prática. Todavia, a sua conduta era, até os últimos momentos, de perfeita serenidade aparente. Ninguém suspeitava, pelo menos no princípio, o terrível debate que se passava no íntimo do Presidente e que o levou, finalmente, a optar pelo gesto que comoveu a Nação.

gregorio.jpgLogo após o atentado da rua Toneleros, que foi a origem de toda a crise político-militar, o sr. Getúlio Vargas, desejoso de saber se pessoas do círculo palaciano estariam envolvidas naquele episódio, chamou à sua presença o Tenente Gregório Fortunato e perguntou-lhe, de maneira franca e decisiva:
-    Gregório, alguém da guarda está envolvido nisso?

O seu fiel guarda-costas respondeu-lhe que não. O Presidente, sondando-o com um olhar inquiridor, repetiu-lhe a pergunta e teve a mesma resposta: não. Poucos dias depois, chegava ao Palácio a informação dada pelo Ministro da Justiça, de que um dos autores do atentado era Climério Euribes de Almeida, elemento da guarda pessoal da Presidência. Quando tomou conhecimento da nova, o sr. Getúlio Vargas fez vir à sua presença o Tenente Gregório e pediu-lhe confirmação da notícia: Climério era, de fato, da guarda do Catete? O famoso “anjo negro” não teve outro recurso senão confessar que sim, que, de fato, o era. Foi quando o Presidente, assaltado pelas primeiras dúvidas sobre a conduta e a fidelidade de seu antigo serviçal, indagou dele de novo:
-    E tu, Gregório, não estás metido nisso?

Gregório, de olhos baixos, respondeu ainda que não, mas, já dessa vez, o sr. Getúlio Vargas não guardou silêncio. Manifestou claramente o seu pensamento:
-    Ninguém me convence de que não estejas nesse caso…

Gregório, envergonhado, profundamente humilhado, retirou-se do gabinete presidencial e comentou para alguns elementos presentes então no Palácio:
- Duvidou de minha palavra o homem que nunca poderia duvidar de mim… Tudo posso aceitar, menos que o Presidente não acredite no que lhe digo.

Andamento do inquérito policial-militar viria confirmar a suspeita que a argúcia de Vargas, velho conhecedor de homens e de consciências, tinha levantado contra o chefe de sua guarda pessoal. Gregório estava, de fato, comprometido com os lamentáveis acontecimentos que acabaram no assassínio do major Rubens Vaz.

Getúlio recebe a última visita do povo

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Revista Manchete – 30 de agosto de 1954 – Edição Extra

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9 HORAS – Desfilaram perante o Presidente Vargas, de nove horas em diante, os seus parentes, seus ministros, íntimos e altas autoridades. Os jornalistas e fotógrafos esperavam num espécie de ilha formada em frente ao Catete, a uns cem metros do portão principal. Os seis quarteirões adjacentes se encontravam fortemente policiados por tropas do Exército armadas de metralhadoras portáteis, e o povo era mantido à distância. Desde que as estações de rádio começaram a noticiar, para o país atônito, o trágico acontecimento, todas as casas comerciais cerraram suas portas, e comerciários, funcionários, estudantes, donas de casa e crianças saíram para a rua, foram chorar nas ruas desoladas a morte desse estranho homem, esse extraordinário homem que com seu sorriso e o seu charuto buleversou, na vida e na morte, o povo do seu país.

10 HORAS – Havia indícios de que a exaltação da massa crescia com o correr do dia. Já às dez horas ela experimentava a resistência das tropas que isolavam o Palácio, aos gritos de “Getúlio! Getúlio! Queremos ver Getúlio!”, e o rádio informava incessantemente sobre o movimento humano na Avenida Rio Branco, Largo da Carioca e cercanias. Havia famílias inteiras chorando lado a lado nas calçadas vazias, pessoas de todas as condições sociais: havia grupos mais exaltados que, tomados de um revolta insopitada e sem objetivo, procuravam alguma coisa em que desafogá-la, depredando instintivamente vitrinas e cartazes de propaganda eleitoral de candidatos oposicionistas.

11 HORAS – Continuavam a chegar ao Palácio figuras de projeção em nossa vida política. Já agora a multidão se estendia por quarteirões e quarteirões, do Largo do Machado à Glória, engarrafando o trânsito de veículos para a Zona Sul. A imprensa continuava do lado de fora. As sucessivas edições dos vespertinos, com suas páginas ocupadas quase que exclusivamente por manchetes, eram esgotadas num segundo.

MEIO-DIA – A mensagem póstuma do Presidente Vargas era lida e comentada entre lágrimas em todos os cantos da cidade. Ao mesmo tempo se tomava conhecimento das palavras do Sr. Café Filho, nas quais o sucessor legal do morto pedia que a população se conservasse tranqüila naquela hora dolorosa. Nessa altura a população começava a sentir fome, sede e cansaço, e, embora alguns apenas conseguissem se sentar no meio-fio, não podendo, como os que permaneciam em pé, saciar a sede nem a fome, porque todos os bares estavam fechados, ninguém se retirou; às seis horas da tarde lá estaria aquele mesmo povo, esperando com impaciência o momento de dizer adeus a Getúlio Vargas.

13 HORAS – Foi franqueada a entrada do Catete para os jornalistas e fotógrafos presentes. Pelos jardins espalhava-se um grande número de coroas. O pavimento superior, aonde se encontrava o corpo, era freqüentado apenas pelas pessoas de intimidade da família Vargas. O General Caiado de Castro podia ser visto, em atitude compungida, num dos salões do andar térreo.

14 HORAS – Sendo informado pelo rádio que o povo poderia desfilar diante do corpo do Presidente a partir de uma hora, formou-se imediatamente uma enorme fila que chegou a atingir Botafogo. As ambulâncias não cessavam de ir e vir, socorrendo as vítimas de insolação, vertigem, etc. Dois carros de reportagem da Rádio Globo eram queimados em plena rua, por populares, e começavam a chegar notícias alarmantes dos outros estados, principalmente do Rio Grande do Sul. As emissoras transmitiram programas de músicas fúnebres e sacras. No Palácio, num momento de grande emoção, o Marechal Mascarenhas de Morais avistava, pela última vez o rosto sereno de Getúlio Vargas.

17 HORAS – Inicia-se o desfile do povo diante dos restos mortais do Presidente. Milhares de pessoas, que tinham esperado horas a fio pelo momento de penetrar no Palácio do Catete, para ver, pela última vez, o rosto sereno de Getúlio, organizam-se, ordeiramente, em fila indiana, que se estende por quarteirões e quarteirões, atingindo desde a Glória até Botafogo. No Palácio, à medida que o povo desfila, cenas comoventes se sucedem, com explosões de dor incontida. Muitos choram diante do cadáver. Por toda parte, na cidade, faz um silêncio fúnebre. A Nação está de luto.

“Só morto sairei do Catete”

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Revista Manchete – 30 de agosto de 1954 – Edição Extra

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O Palácio do Catete esteve sempre intimamente ligado à vida de Getúlio Vargas. Ele o freqüentou, primeiro, como deputado federal, pelo Rio Grande do Sul; depois, como ministro da Fazenda do Presidente Washington Luís. Governador de seu Estado em seguida, de lá voltaria na liderança do movimento que fez a revolução de 30 e que o instalou no Catete como chefe do governo provisório. Sem solução de continuidade, ali continuou, como presidente da República, eleito pela Assembléia Constituinte, em 1933. Em 37, com o golpe de estado, continuou à frente do governo, até 1945, quando foi deposto. Em 1950, voltou eleito pelo povo e ali esteve até sua trágica morte. Pouco antes, dissera ele: “Só morto sairei do Catete”. Ninguém suspeitaria que, naquela declaração, já se ocultava a sua determinação suicida. “O povo subirá comigo as escadas do Catete” – disse Vargas, em sua campanha de 50. Em 54, o povo subiu as escadas do Catete para buscá-lo, numa última homenagem ao homem que – pondo em prática a sua dramática advertência – já não era um Presidente, mas um cadáver.