
Revista Manchete – 30 de agosto de 1954 – Edição Extra

O Presidente, que não deixou de ler os jornais e de informar-se minuciosamente sobre a marcha do inquérito e de suas repercussões político-militares, percebeu então a gravidade da situação com que iria defrontar-se. De ânimo firme, porém, depois de meditar sobre o rumo por que se encaminhava a crise já então francamente declarada, o sr. Getúlio Vargas tomou a decisão de não abandonar o Poder. Fora eleito pelo povo, em pleito livre e secreto, e cumpriria, até o último dia, o seu legítimo mandato. Foi essa decisão que ele comunicou a várias pessoas que o ouviram a respeito. Foi essa decisão que ele transmitiu ao sr. Gustavo Capanema, quando o líder do Governo na Câmara dos Deputados, foi pedir-lhe instruções a respeito de como deveria encaminhar os debates no Parlamento. Foi essa mesma decisão que ele exprimiu no discurso de Belo Horizonte, por ocasião da última visita oficial que realizaria em sua vida.
A crise político-militar agravou-se. O Governo, ouvidos os setores militares, anunciava a sua disposição e capacidade de defender o mandato presidencial até o fim. No domingo, porém, precipitaram-se os acontecimentos, com a reunião dos oficiais-generais da FAB. O brigadeiro Eduardo Gomes, na liderança efetiva de sua corporação, levou aos ministros militares e ao chefe do Estado Maior das Forças Armadas a moção da Aeronáutica pela renúncia de Vargas. A Marinha, sem demora, aderiu ao movimento, tendo o Almirantado comunicado a sua decisão ao Ministro Guillobel. O Presidente, porém, mesmo diante dessas manifestações inequívocas dos líderes de duas das três armas, reafirmou a sua inabalável disposição de não abandonar o Catete. Consultou o Ministro da Guerra sobre a lealdade do Exército, e obteve resposta otimista: o general Zenóbio garantia-lhe o controle de noventa por cento de seus comandados. Diante disso, foram expedidas, em nome do Governo, por inspiração direta de Vargas, as duas notas oficiais de que a Nação tomou conhecimento na noite de domingo: uma do Ministro da Justiça e outra do Chefe da Casa Militar, ambas confirmando que o Presidente da República iria “cumprir e fazer cumprir a Constituição”, isto é: nada de renúncia forçada, ou mesmo voluntária.
Na segunda-feira, pela manhã, os líderes do Governo, insones e estremunhados, confirmavam para a imprensa e o rádio a decisão de que estava imbuído o Presidente. “Não haverá novo 29 de Outubro” – declarou, enfaticamente, o Ministro da Aeronáutica. Por sua vez, o sr. Getúlio Vargas, ouvido pelos repórteres, fazia à Nação a sua advertência dramática, primeiro sinal das disposições que já trazia no seu íntimo:
- Só morto sairei do Catete.
Os observadores da crise político-militar perceberam, então, o impasse para que se caminhava, com a perspectiva de conseqüências imprevisíveis. Ao mesmo tempo, divulgava-se que o Presidente da República só se afastaria de sua posição diante do iminente e irremovível perigo de derramamento de sangue.
Na segunda-feira, a movimentação dos meios militares prosseguiu. Os generais, em cujo meio já se tinha insinuado o desejo da renúncia, reuniram-se, no Palácio da Guerra, com o Ministro Zenóbio da Costa. Depois de uma reunião histórica, o titular da pasta da Guerra dirigiu-se ao Catete, para levar ao sr. Getúlio Vargas a notícia de que, infelizmente, já não podia garantir-lhe, como na véspera, a solidariedade do comando do Exército. Trinta e cinco generais já se tinham comprometido com seus colegas da Aeronáutica e da Marinha, no propósito de levar ao Presidente a sugestão de sua renúncia, para “restaurar a tranqüilidade do país”.
Diante disso, o Presidente convocou uma reunião do ministério. Era 1 hora da madrugada. Como sempre, Vargas sentou-se à cabeceira da mesa e presidiu à reunião de seus auxiliares diretos, aos quais se juntavam alguns familiares e pessoas de sua intimidade. A disposição do Presidente não era diferente: não renunciaria. Às 2 horas e alguns minutos, o sr. Getúlio Vargas levantou-se e fez a comunicação que, mais tarde, seria dada a conhecer:
- Já que os senhores não decidem, eu vou decidir. Minha determinação aos Ministros-Militares é no sentido de que mantenham a ordem e respeitem a Constituição. Nestas condições estarei disposto a solicitar uma licença, até que se apurem as responsabilidades. Caso contrário, se os insubordinados quiserem impor a violência e chegarem até o Catete, levarão apenas o meu cadáver.
Diante desse dramático comunicado, alguns dos presentes tiveram a percepção de que o Presidente da República estava então anunciando o seu propósito suicida. A serenidade de Vargas não parecia, porém, alterada. Suas palavras eram firmes, seus gestos, normais.
Naquele momento, no entanto, já o sr. Getúlio Vargas tinha escrito a carta que encerraria o seu testamento político. Fizera-a datilografar em três vias, assinara uma delas (a que mais tarde entregou a João Goulart) e guardara duas consigo, no seu gabinete particular. No princípio da reunião, os presentes notaram que o Presidente tinha nas mãos alguns papéis: entre eles, estava, com certeza, a carta do homem que, pouco depois, iria matar-se. Enquanto durou a reunião ministerial, observou-se também que o Presidente escrevia qualquer coisa numa folha de papel. Só mais tarde viriam todos a saber que ele transmitia ao país as suas últimas palavras: “À sanha dos meus inimigos, deixo o legado de minha morte. Levo o pesar de não ter feito pelos humildes tudo que desejava”.
Finda a reunião, Vargas recolheu-se aos seus aposentos. Os ministros, ainda perplexos com os rumos da crise, já se dispersavam, quando ocorreu a idéia de uma nova reunião entre eles, sem a presença do Presidente. Movera-os, a alguns pelo menos, a suspeita de que o sr. Getúlio Vargas levava desígnio sinistro de uma saída dramática para a crise. De qualquer forma, já era geral a convicção de que o Presidente não se deixaria intimidar.