Cascudo é tema de enredo carnavalesco

Câmara Cascudo é o tema do enredo deste ano da Escola de Samba Nenê de Vila Matilde, uma das mais tradicionais escolas de samba da cidade de São Paulo.

Um vôo da Águia como nunca se viu! Também somos folclore do nosso Brasil! é o título do samba-enredo que homenageia o estudioso e comemora os 110 anos de seu nascimento.

Cascudo já havia sido homenageado, indiretamente, no carnaval carioca, em 1999. Naquela ano, a cidade de Natal, onde ele nasceu e sempre morou, completava 400 anos e foi tema do enredo da Salgueiro.

Nenê de Vila Matilde será a última escola a desfilar na primeira noite – sexta, 1º de fevereiro – de apresentação do Grupo Especial.

O samba da escola paulistana é uma composição de Seu Nenê, fundador e presidente de honra, Adriano Bejar e Sulu.

Cem anos de Memorial de Aires

9 de janeiro

Ora bem, faz hoje um ano que voltei definitivamente da Europa. O que me lembrou esta data foi, estando a beber café, o pregão de um vendedor de vassouras e espanadores: “Vai vassouras! vai espanadores!” Costumoouvi-lo outras manhãs, mas desta vez trouxe-me à memória o dia do desembarque, quando cheguei aposentado à minha terra, ao meu Catete, à minha língua. Era o mesmo que ouvi há um ano, em 1887, e talvez fosse a mesma boca.

A ação teria se passado há exatos 120 anos. É o início de Memorial de Aires, publicado há um século, último livro de Machado de Assis, que morreria no mesmo ano (1908), em setembro.

Machado de Assis nasceu no dia 21 de junho de 1839, no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro. Tido por muito, até hoje, como o melhor contista e o melhor romancista da História da Literatura brasileira, foi autor de Helena, Iaiá Garcia, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borbas, Dom Casmurro, Esaú e Jacó, dentre outros clássicos.

Sempre reverenciado, suas histórias já foram transformadas em peças teatrais, filmes e revistas. Há pouco mais de dois anos, alguns de seus livros foram adaptados pela Coleção Literatura Brasileira em Quadrinhos, da Escala Educacional. Mais recentemente, a Agir/Ediouro iniciou a coleção Grandes Clássicos em Graphic Novel com O Alienista.

Machado de Assis é um dos nomes que ganhará seu próprio espaço no Memória Viva em 2008, ano em que o site completa uma década de existência.

Henfil – 20 anos de saudades

Hênfil? Rênfil? Renfíl? Henfil-fil, como um assovio? Henrique Filho, hemofílico, a tônica era no i, explica o caricaturista Cássio Loredano em seu texto para a exposição/livro Henfil do Brasil. Mas essa confusão foi só no início. Quem nunca acompanhou os versos de João Bosco e Aldir Blanc na voz de Elis? Meu Brasil/ Que sonha com a volta do irmão do Henfil/ Com tanta gente que partiu...

Henrique de Souza Filho, mineiro de Ribeirão das Neves, estreou n O Pasquim já na segunda edição. Com os FradinhosBaixinho e Comprido –, que já existiam desde 1964. Nasceram graças à insistência de um cara lá de Minas, contou Henfil em entrevista à revista Veja, de 28 de abril de 1971. O cara era o jornalista Roberto Drummond, então diretor da revista Alterosa, que em 1975 escreveria seu primeiro livro – A morte de D.J. em Paris – e seria laureado com o Prêmio Jabuti de revelação de autor. O mesmo Drummond de Hilda Furacão.Ele queria que eu criasse um personagem. Como na época, 1964, eu convivia muito com os frades dominicanos, acabei vestindo os personagens com o hábito deles. Curioso é que o Roberto Drummond, o jornalista, foi o único sujeito a acreditar em mim, numa época em que nem eu acreditava. Eu era um péssimo desenhista. Meus desenhos poderiam servir, no máximo, para um catálogo de esquizofrênicos, ou uma coleção de desenhos de débil mental, explicou.

Quem diria? O Roberto Drummond diria! Depois dos Fradinhos vieram Graúna, Zeferino, Bode Orelana, Orelhão, Tamanduá, Cabôco Mamadô, Ubaldo, o paranóico e uma galeria de personagens que entraria para a história do humor brasileiro.

No final de 1970, boa parte da redação de O Pasquim foi presa. Millôr, Miguel Paiva e Henfil desenhavam e assinavam como os detidos. Em 1972, Henfil assumiria a editoria do semanário. Dois anos depois, mudaria para os Estados Unidos e começaria a publicar nos jornais de lá. Aventura rápida. Os americanos não estavam preparados para o humor cáustico de Henfil. No ano seguinte, já estaria de volta ao Brasil. Em 1976, cansado do Rio de Janeiro, foi morar em Natal, onde passou dois anos.

Além d O Pasquim, Henfil trabalhou no Jornal do Brasil, Jornal dos Sports, O Dia, O Sol, A Notícia, Istoé, O Globo, Última Hora, Diário de Minas, O Estado de S. Paulo e na TV Globo. Publicou vários livros, dentre eles, Diário de um Cucaracha, Hiroshima, meu Humor, Diretas Já! e Henfil na China. Este último – um clássico até hoje – freqüentou a lista dos dez mais no ano de seu lançamento (1980). É em Diretas Já!, de 1984, que se encontram os versos ouvidos e por ele imortalizados. No texto Novembro de 1982 (ps 62 e 63), ele termina assim:

SE NÃO HOUVER FRUTOS
VALEU A BELEZA DAS FLORES
SE NÃO HOUVER FLORES
VALEU A SOMBRA DAS FOLHAS
SE NÃO HOUVER FOLHAS
VALEU A INTENÇÃO DA SEMENTE

É nessa época que Henfil se espanta com uma nova doença, a AIDS, da qual ele e seus irmãos, Betinho e Chico Mário, seriam vítimas. Hemofílicos, foram infectados com o vírus HIV em transfusões de sangue. O diagnóstico viria em 1986. Em outubro de 1987, uma tira da Graúna n O Estado de S. Paulo, resumiria o humorista genial, socialmente engajado e que não se abalava nem com a perspectiva da morte próxima. Três meses depois, no dia 4 de janeiro de 1988, aos 43 anos, Henfil dava por encerrada sua missão nesta vida.