fevereiro 15, 2010 – 9:00 am
Quem me conhece, sabe que não sou do tipo que curte carnaval. Sou uma pessoa muito reservada, pareço um matuto da cidadezinha do interior mais distante. Daqueles que entre amigos é super engraçado e extrovertido, mas que na presença de estranhos não passa de um mero ouvinte, chego a ser completamente mudo. Talvez seja por isso que eu escreva tanto, aqui estou sempre entre amigos.
Eis que em um ano, alguns amigos me convenceram de que eu deveria experimentar e “curtir” o carnaval. Eles me levaram para cidade de Macau, no Rio Grande do Norte. A grande tradição por lá neste período é o “bloco do mela-mela” – ou simplesmente “Mela”, onde alguns caldeirões de mel são espalhados pelo bloco e as pessoa se divertem enchendo copos, garrafas e jogando nas pessoas que passam. Achei estranho que isso pudesse realmente ser divertido, mas enfim, não discuti. Fomos para Macau.
Chegando lá, fui me informar onde acontecia a festa e, dada a minha curiosidade que chega a ser doentil, segui para ver como era. Quanto mais eu chegava próximo ao local, mais me sentia bonito, cheiroso e limpo. Resolvi continuar e só olhar para ver o que acontecia. Me encostei na parede e fiquei olhando as pessoas passando pela rua. Imagine ruas de cidade de interior onde passam 2 carros (lado a lado), casas de um lado e do outro e eu encostado em uma porta. Foi este o cenário durante trinta minutos, aproximadamente.
Muito engraçado ver que além do mel, existia um ingrediente que eu não havia sido informado, era a tal da farinha de trigo. Não conseguia imaginar as pessoas se divertindo virando um bolo ambulante, mas tudo bem, até que alguém me viu. Tratei logo de me fazer de desentendido e virei para o outro lado. Era o único que parecia não estar se divertindo, estava só olhando – como sempre faço. Adoro observar, acredite, eu me divirto muito assim.
Momentos depois, aparece uma pessoa muito feliz ao meu lado. Desconfiei, mas, como de costume, virei para o lado e comecei a observar o outro lado da rua até que vieram em minha direção muitas pessoas felizes… pareciam predadores felizes e quando você vê predadores felizes e não consegue identificar quem é a presa, você é a presa.
O que eu fiz? Corri! Muito! Até que me vi em um filme, daqueles de zumbi, onde todo mundo quer te pegar. Quanto mais eu corria, mais chamava atenção e aguçava a vontade de ser “melado” pelos zumbis, antes tivesse ficado parado, chamaria menos atenção. Consegui correr muito, até que um deles conseguiu me melar. Parei para tentar descobrir quem foi – e este foi meu maior erro. De repente vieram outros e outros até que eu tinha tanto mel, mas tanto mel, que até para abrir a boca era difícil dada a quantidade de cola – sim, o mel vira cola – que tinha em meu rosto.
Pensei em voltar para casa, pois era tanta a minha insatisfação. Isso durou uns quinze minutos antes de eu olhar para o outro lado da rua e ver uma pessoa que destoava das demais. Ela estava limpa e estranhamente aquilo fez eu me sentir muito bem.
Muita coisa aconteceu depois disso. Esta “cena” de carnaval passa como se fosse um filme na minha cabeça até hoje, e me fez entender muita coisa e a principal delas é que, para muitos, você precisa ser igual para se sentir bem. Eu me senti bem no momento que vi que existe lugar para pessoas diferentes que sabem se adaptar e se divertem a sua maneira. Tem gente que nasceu para muvuca, e, como diria um amigo: “desculpa, mas eu nasci para camarote”.
Viva o carnaval!
José Luiz Coe, 28 anos, engenheiro e webmaster
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