Os
90 anos do Corvo
BRASÍLIA
- Polêmico. Este é o adjetivo mais
utilizado e que geralmente acompanha o nome de Carlos
Lacerda. E talvez a expressão “Não
se fazem mais políticos como ele”
seja a mais usada quando o assunto é o primeiro
governador da Guanabara. Eloqüente, sagaz, intempestivo,
passional, dono de uma oratória admirável,
Lacerda foi o último dos grandes nomes da política
brasileira capaz de inflamar paixões através
de um discurso. O nariz aquilino, os olhos vivos e a voz
que assustava os adversários – para ficarmos
nas explicações mais leves – lhe valeram
o apelido de “o Corvo”, dado por seus desafetos.
Nascido
no dia 30 de abril de 1914, no Rio de Janeiro, Carlos
Frederico Werneck de Lacerda estaria completando 90 anos
se estivesse vivo. Jornalista, escritor, empresário
e político – foi vereador, deputado federal,
governador e candidato à Presidência da República
–, além de ser um importante personagem durante
três décadas de História brasileira,
Lacerda ainda registrou o período com brios de
colecionador.
O
acervo de Lacerda foi doado à Universidade de Brasília
– UnB em 1979 como parte do processo de compra de
sua biblioteca, dois anos após a sua morte. São
aproximadamente 60 mil itens que durante 20 anos ficaram
guardados em caixas e foram utilizados apenas por pesquisadores
que sabiam de sua existência. Somente a partir de
dezembro de 1999, tendo como patrocinadora a Fundação
18 de Março – Fundamar, o material veio a
público e se transformou no Arquivo Carlos Lacerda,
que fica na Divisão de Coleções Especiais
da Biblioteca Central da Universidade de Brasília.
Liliane
Dutra, 19, estudante de Arquivologia e estagiária
da Biblioteca Central, explica que todo o material é
acessível ao público: 159.240 folhas de
documentos textuais, 4.426 fotos, 266 slides, 86 discos
de vinil e duas fitas de áudio. “Os
documentos que nós temos aqui não existem
nem no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro. São
documentos que ele guardou quando era governador, referentes
à administração dele”.
Perguntada se o público mais jovem sabe quem foi
Carlos Lacerda, Liliane é categórica: “Não.
Quando comecei a trabalhar aqui, eu também não
conhecia. Eu conhecia Júlio Tavares, que é
um dos pseudônimos que ele usou. As maiores referências
são políticas. Quando fazemos visitas orientadas,
falamos que ele foi governador da Guanabara, que foi candidato
a presidente e esteve envolvido na morte de Getúlio.
Aí as pessoas se interessam em saber mais”.
Para
marcar a passagem dos 90 anos de nascimento do jornalista,
o Arquivo organizou uma exposição que mostra
fotos, livros, textos originais, recortes de jornais,
curiosidades, cartas e homenagens recebidas por Lacerda.
“Ele
era muito cuidadoso, guardava tudo”,
conta Nora Magnólia, Chefe da Divisão de
Coleções Especiais, “estudar
Lacerda é estudar Brasil”,
completa. Sobre a mostra dos 90 anos, ela diz que “a
maioria do material desta exposição nunca
foi mostrado”.
Manuscritos,
diplomas e objetos de campanha são alguns dos atrativos.
Livros inteiros de assinaturas de admiradores com homenagens
que mostram a popularidade de Lacerda também estão
lá. “No
futuro poderão contar como lenda: Era uma vez um
homem bom que se impôs aos seus contemporâneos
pela intransigência na defesa dos princípios
de Liberdade, Trabalho e Honradez, eleito primeiro Governador
da Guanabara, trabalhou pela cidade tornando-a o símbolo
da Cidade Maravilhosa. Mas este homem existe. É
você Carlos Lacerda, que passará para a posteridade
como Paladino da Democracia no Brasil”,
está escrito na primeira página de um livro
de homenagens.
Lacerda
passou os últimos nove anos de sua vida com seus
direitos políticos cassados pelo regime que ajudou
a criar com o golpe de 64 e do qual viria a se tornar
um dos principais opositores, formando a Frente Ampla
com Juscelino Kubitschek e João Goulart. A exposição
na UnB é uma oportunidade de conhecer um pouco
a vida pessoal, política e intelectual do homem
que também ficou conhecido como “o
demolidor de presidentes”.
SERVIÇO:
Exposição - Comemoração dos
90 anos de Carlos Lacerda
Setor de Obras Raras – Biblioteca Central da UnB
– Brasília – DF
Até 17 de maio de 2004 – Segunda à
sexta, das 8 às 18h
Entrada franca
•
O
Cruzeiro - matérias e artigos sobre
Carlos Lacerda nas edições de 1964
• Arquivo
Carlos Lacerda – BCE/UnB
• Fundação
18 de Março – Fundamar
•
Pronunciamentos
Históricos – Senado – Áudio
da autodefesa de Lacerda
| LIVROS
DE E SOBRE CARLOS LACERDA |
|
•
A
casa do meu avô - Carlos Lacerda
• Xanam
- Histórias antigas e novas
• O
cão negro - Carlos Lacerda
• Discursos
parlamentares - Carlos Lacerda
Editados
em 2003 pela Fundamar e UnB
• 3
Peças inéditas de Carlos Lacerda
• 21
Contos inéditos de Carlos Lacerda
Biografia
e/ou ensaios
• Carlos
Lacerda: a vida de um lutador - John W. F. Dulles
• Carlos
Lacerda dez anos depois - Claudio Lacerda
Carlos
Lacerda - Biografia Resumida
-
1914: Filho de Maurício
Paiva de Lacerda e Olga Werneck de Lacerda,
nasce a 30 de abril, no Rio de Janeiro.
- 1929: Inicia carreira
no jornalismo escrevendo artigos para o
Diário de Notícias,
colaborando na página de educação
de Cecília Meireles, por quem viria
a ter eterna admiração e profunda
amizade.
- 1932: Ingressa na Faculdade
de Direito da Universidade do Rio de Janeiro.
- 1934: Aproxima-se da
Federação da Juventude Comunista,
órgão do PCB. Participa da
comissão organizadora do I Congresso
da Juventude do Brasil e combate a Ação
Integralista Brasileira (AIB).
- 1935: Abandona o curso
de Direito. Participa do grupo articulador
da Aliança Nacional Libertadora.
- 1937: É preso
pela polícia do Estado Novo.
- 1938: Passa a dedicar-se
ao jornalismo. Escreve para as revistas
Observador Econômico e Financeiro,
Diretrizes e Seiva e no
O Jornal. Casa-se com Letícia
Abruzzini.
- 1939: Rompe com as teses
comunistas publicando artigo na revista
Observador Econômico e Financeiro.
É acusado de ser traidor do Partido
Comunista.
- 1945: Filia-se à
UDN – União Democrática
Nacional.
- 1947: É eleito
vereador no Distrito Federal pela UDN, renunciando
ao mandato no mesmo ano.
- 1949: Funda o jornal
A Tribuna da Imprensa, que se tornaria
o veículo de comunicação
de maior oposição a Getúlio
Vargas.
- 1950: É eleito
membro do Conselho Diretor da Associação
Interamericana de Imprensa.
- 1953: Funda o Clube
da Lanterna, com o objetivo de combater
Getúlio Vargas.
- 1954: Adere à
coligação partidária
de oposição à Vargas;
sofre atentado na Rua Toneleros; é
eleito Deputado Federal pela Aliança
Popular com a maior votação
do Distrito Federal; é um dos líderes
da conspiração que tenta impedir
a posse de Juscelino Kubitschek e João
Goulart.
- 1955: Fixa-se em Norwalk
(EUA), onde atua como correspondente da
A Tribuna da Imprensa, O Globo
e O Estado de S. Paulo.
- 1956: Depois de um tempo
em Lisboa, volta ao Brasil e reassume, em
novembro, o mandato de deputado federal.
- 1957: Retorna com força
total à cena política ao ler
um telegrama secreto que fazia referência
a uma negociação de madeira
entre João Goulart e peronistas.
É eleito líder da UDN. Publica
O caminho da liberdade.
- 1959: É eleito
líder da minoria, representada pelo
bloco UDN e PL na Câmara Federal.
- 1960: É empossado
primeiro governador do Estado da Guanabara.
A UDN elege ainda Jânio Quadros como
presidente do país.
- 1961: Cria a Universidade
do Estado da Guanabara. Vende A Tribuna
da Imprensa por dificuldades financeiras.
- 1962: É acusado
por seus adversários de “Governador
Mata-Mendigos”.
- 1963: Uma Comissão
Parlamentar de Inquérito é
aberta para apurar as acusações
da oposição. Lacerda se recusa
a depor e os oposicionistas pedem seu impeachment.
A solicitação foi arquivada
por “falta
de bases concretas para a acusação”.
Publica O poder das idéias.
- 1964: Apóia o
golpe, acreditando que a permanência
dos militares no poder seria breve e que
as eleições do ano seguinte
estariam asseguradas. Lidera, em São
Paulo, a “Marcha
da Família com Deus para a Liberdade”,
com o objetivo de estimular o sentimento
anticomunista. Lança sua candidatura,
pela UDN, à Presidência da
República.
- 1965: Começa a
articular o Partido da Renovação
Democrática e publica Brasil
entre a verdade e a mentira.
- 1966: Assina, juntamente
com Juscelino Kubitschek e João Goulart,
um manifesto de lançamento da Frente
Ampla.
- 1967: O regime militar
proíbe sua presença na televisão.
- 1968: É preso
e tem seus direitos políticos suspensos
por dez anos. A Frente é proibida
de atuar.
- 1969: Cansado e desgastado
com a ditadura militar, dedica-se ao jornalismo.
Torna-se correspondente dos jornais O
Estado de S. Paulo e Jornal da
Tarde na Europa e na África.
- 1971: Publica O cão
negro.
- 1975: Publica Em
vez.
- 1977: Publica Xanam
e Outras Histórias e A Casa
do Meu Avô: pensamento, palavras e
obras. Falece em 21 de maio, no Rio
de Janeiro. Postumamente são publicados
Depoimento (1978), resultado de
34 horas de gravações de uma
longa entrevista concedida ao Jornal
da Tarde e O Estado de S. Paulo
em três finais de semana entre março
e abril do ano anterior, e Discursos
Parlamentares (1982).
Fonte:
Inventário do Fundo Carlos Lacerda
- Brasília, 2000
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