A última entrevista

     Última entrevista de Jesiel Figueiredo. Concedida a Sandro Fortunato em abril de 1994, quatro meses antes de sua morte. Originalmente publicada na revista RN Econômico, edição 284, em 16 de abril de 1994.

L’ENFANT TERRIBLE

     A boca maldita do teatro natalense está de volta. Depois de alguns meses em companhia de seus bodes e galinhas, ele volta à imprensa um pouco mais comedido, mas sempre com as agulhas prontas para espetar. Entusiasmado com o seu trabalho no Teatro do Sesi e prestes a lançar um livro sobre sua vida, uma das mais inteligentes figuras da arte em Natal, o ator e diretor Jesiel Figueiredo fala — numa manhã chuvosa, numa pequena sala do Teatro Sandoval Wanderley — sobre seus planos, seu exílio voluntário, seus amores e desafetos, sua prisão durante a ditadura e, é lógico, sobre sua grande paixão: o teatro.

     Só tem uma coisa que ele não revela sob hipótese alguma: sua idade. “Tenho a idade de meus personagens”, ele diz. E o que você fazia antigamente? “Antigamente eu não era nascido”, diz o espirituoso Jesiel.

O que você está fazendo atualmente?
     Eu estou fazendo O marido da fidalga, um infantil, e o Teatro do Sesi, que eu acho a coisa mais importante que se faz aqui no estado. Há 22 anos, a companhia foi fundada e vem oferecendo ao operário da indústria um enriquecimento cultural. Nós passamos de Dias Gomes, França Júnior, Coelho Neto a Shakespeare, Ariano Suassuna, ...

É o Sesi que diz que autores devem ser encenados?
     Não. Desde o início, o repertório foi escolhido por mim. Eu comecei querendo dar a informação do que era teatro brasileiro. Eu comecei com Como se faz um deputado, de França Júnior, depois a gente entrou com Lauro César Muniz, que já mostra costumes do interior paulista e fomos alternando até chegar a outros autores e diretores como Boal e Guarnieri.

Como começou esse trabalho?
     Quando nós começamos foi como uma coisa bem popular e viemos melhorando isso até chegarmos a uma linguagem mais rebuscada, até porque o operário vem acompanhando o processo, até que eu encenei um Moliére. Foi uma recepção maravilhosa, tanto aqui quanto no interior. Nós apresentamos em cidades como Caicó e Mossoró, até outras pequenas como Caiçara do Norte, onde o pescador foi assistir, de sandálias ou descalço, e no fim todo mundo entendeu. E eles nunca tinham visto teatro.

Como foi o primeiro contato?
     O primeiro contato foi fascinante. Apavora, às vezes, pois a gente vê aquela multidão de pessoas. Nós já nos apresentamos para duas mil pessoas. Felizmente o local tinha acústica, as paredes funcionaram, Deus ajudou. Mas a gente precisava ter uma conversa, para dizer ao público, antes, o que eles vieram assistir, porque eles estavam ali convidados pela prefeitura, pelo Sesi. Em cinco minutos, isso está resolvido. E o comportamento deles é maravilhoso, exemplar.

Você prefere encenar para esse público do que para um público mais erudito?
     Não é que eu prefira, é que Natal não tem “um público mais erudito”. Natal teve uma elite, não tem mais.

Quando?
     Sei lá. Eu acho que quando eu era criança, quando eu comecei no teatro. Nós sabíamos a quem levar a peça. Nós fazíamos só três dias e já sabíamos quem eram as famílias que comprariam os camarotes, as que comprariam as frisas e as que comprariam poltrona. Então, antes da peça estrear, nós já havíamos vendido isso. E essas pessoas não só compravam, ela iam ao teatro. Então eu arriscava montar um Hamlet, montar um Calígula, porque tinha um público para isso. Hoje eu não quero mais montar um espetáculo para levar três dias. Menos de 30 apresentações, eu acho uma sacanagem com o ator porque você não tem tempo de amadurecer o personagem nem sentir bem a peça. E aquele público foi desaparecendo.

Quem é o público de teatro hoje?
     O público de teatro hoje é muito pouco. O universitário não vai. Os colégios particulares deveriam ser como nos países civilizados e unir educação e cultura. Aqui são duas coisas separadas. Eu tenho um interesse muito grande em conquistar o público adolescente. Eu tenho o teatro infantil. O Teatro Infantil Jesiel Figueiredo é uma marca, nós não precisamos de propaganda nem de nada. Agora mesmo, nas comemorações dos 90 anos do Teatro Alberto Maranhão, nós tivemos uma prova disso. A maior quantidade de público para um espetáculo local foi nosso. Mas há uma carência muito grande. Quando o menino tem 9 ou 10 anos ele me abandona e fica só, pois não tem mais quem faça teatro para ele.

E essa decadência do público começou quando e por que?
     Não sei se foi por falta de continuidade... Houve uma época em que eu estava praticamente só fazendo teatro. Outra coisa: a chamada “elite”, eu abandonei quando fui para o Teatro do Sesi. O Teatro do Sesi foi - e hoje ainda é - um pouco esnobado pela própria classe. Alguns colegas de teatro ficaram estarrecidos porque eu estava me “misturando com o operariado em cima do palco”. Veja a cabeça das pessoas! Como eu resolvi que, daí em diante, eu me “misturaria” mais ainda, hoje eu não perco oportunidade nenhuma de aparecer numa peça do Sesi.

E quem eram essas pessoas?
     Gente muito pequena. Morreu, desapareceu.

E o que está se fazendo de bom, atualmente, no teatro aqui em Natal?
     Sem nenhuma esnobação ao movimento, eu não estou lendo jornais desde dezembro. Pelo que sei, está se fazendo alguma coisa, eu resolvi me desligar da realidade local. Eu estou muito cansado. Há quinze anos não tenho férias. Comecei a precisar de neurologista, logo eu que sempre fui auto-analisado, precisei de um cara para ver porque eu estava tremendo tanto. Eu estava à beira de um colapso. Eu resolvi me poupar.

E por que você não se dá férias?
     Porque não foi possível. Eu fui acumulando um excesso de atividades e eu não quero pará-las de repente. Eu tenho uma necessidade compulsiva de trabalhar, muito neurótica.

Você assiste as montagens de outros diretores locais?
     Assisto. Mas a minha cabeça tem uma necessidade seletiva muito grande. Então, às vezes, eu iria para me aborrecer. Então eu prefiro não ir. Dou uma desculpa e não vou. Eu prefiro ver um bom filme no vídeo do que sair para ver um espetáculo ruim.

E o nível dos atores aqui em Natal? Tem surgido algum talento promissor?
     Tem surgido muito pouca gente. Pelas coisas que eu vi, não tem surgido nenhum “talento” que chamasse a atenção. Não tenho visto um desbunde de ator. Lamento. Mas essas coisas não acontecem todo dia.

E sua vida fora dos palcos?
     Estou revendo a História do teatro português. Inclusive tem um primo meu, Roberto Figueiredo, que está fazendo uma pesquisa da nossa árvore genealógica e descobriu a origem nobre da família. Mas, nobreza à parte, foi uma surpresa para mim, descobrir que, em vários séculos, tem um Figueiredo no teatro português, atores e encenadores. Vários Figueiredo. Nenhum notável, mas ficaram na História.

O que mais?
     Bem, no ano que eu perdi o Teatro (92), eu também perdi o meu pai. Foi uma porrada dupla. Foram duas cajadadas num só coelho. E, de lá para cá, eu estou muito neurótico, mas até que eu controlo a neurose. Ela é muito bem administrada. Mas as pequenas alegrias, as pequenas coisas da vida — conversar com meu cachorro, por exemplo — valem muito mais do que um jantar em um local sofisticado ou sei lá o que. Nós nunca fomos ricos, mas minha mãe nos deu uma educação muito esmerada.

E isso levou a que?
     Isso resultou em um refinamento natural. Eu não gosto de baixarias. Mas, por outro lado, eu não tenho nenhuma frescura. Uma vez uma estrelinha teatral me criticou porque saiu uma foto no jornal onde eu aparecia sentado naquele boteco do Teatro Jesiel Figueiredo, de bermuda, camiseta, cervejinha e com um cigarro na mão. Ela achou que eu era uma estrela do teatro e que eu não deveria descer ao ponto de sentar em um boteco e tomar uma cerveja. Eu adoro boteco, adoro cerveja e adoro cigarro. Que estrela é essa? Eu não sou estrela, sou gente.

E no trabalho, esse seu jeito ajuda ou atrapalha?
     Tem personagens que a minha natural sofisticação, claro que trabalhada por mamãe — dizem que lá em casa todo mundo é metido à besta; não somos metidos não, somos bestas mesmo. Mas somos todos muito simples, graças a Deus —, quase me impede de fazer. Quando eu vou fazer um Zé do Burro, minha sofisticação me incomoda, porque o Zé do Burro é um homem do povo, pisa diferente, gesticula diferente. Para mim, quanto mais sofisticado o personagem, melhor. Representar Moliére, para mim, é um prato cheio.

Você acha que a classe teatral ainda lhe vê como alguém que faz teatro para o povo, uma espécie de teatro marginalizado?
     Não. A cidade é muito generosa comigo. Mesmo porque eu incomodo muito pouco. Acho que eu sou uma espécie de representantes deles. Quando se procura uma referência de teatro, cita-se meu nome. Eles se veêm na obrigação de admitir isso, mas eles gostariam que eu não existisse, com certeza. É aquela coisa da inveja, de cidade pequena, de que muita gente pensa de que para ter um lugal ao sol, é preciso tirar o seu. Isso é muito ruim.

Você já sofreu algum tipo de boicote?
     De repente, tem uma fundação cultural e um grupo eleito por essa fundação — não estou falando atualmente — fica ali por quatro anos e fazem só os seus trabalhos. Não estou falando agora. Mesmo porque Iaperi Araújo sempre deu o maior apoio à cultura.

Por falar em boicote e policiamento, o que você estava fazendo há trinta anos, quando estourou o golpe militar: Você sofreu alguma perseguição?
     Bem, eu usava o seguinte truque. No ensaio geral — que tinha sempre alguém da censura para saber o que podia passar ou não —, nós não interpretávamos, apenas dizíamos o texto. Então se eu tenho que dizer uma fala “Achas que um militar possa ser inteligente?”, e eu falo assim, normalmente, passa. Eles viam lá escrito, achavam que eu não ia dar reforço nenhum e no dia do espetáculo a gente fazia como queria.

Aconteceu algum episódio interessante nessa época?
     Aconteceu uma coisa interessante comigo que seria cômico se não fosse trágico. Eu estava ensaiando A prostituta respeitosa, de Sartre, logo quando estourou a coisa. Estava em fase final de montagem. Nós só tínhamos uma atriz na época e a peça só tinha um papel feminino, então resolvemos encená-la. Eu fui chamado pelo exército para perguntarem porque eu estava montando A prostituta respeitosa. Eu disse e eles me perguntaram: “O senhor sabe quem é Sartre?” E eu disse que sim. Eles perguntaram: “E o senhor sabe qual é a posição política dele?”, “Sei”. E a coisa foi nesse nível até chegarem ao problema do preconceito racial, pois tem um negro na peça que é injustamente acusado de um assassinato. “O senhor sabe que a peça trata de racismo?”, “Sei”, “E o senhor sabe que falando mal dos Estados Unidos, o senhor está favorecendo a Rússia?”, e eu disse “Não”. Pois “aconselharam-me” a guardar a peça no baú imediatamente.

E o que você achou disso?
     Eu achei uma graça. Eles foram prender Sófocles no Rio. “Onde é que mora?” E absurdos assim. Atos de extrema burrice. Eu fiquei na minha e consegui fazer porque fazia teatro pelo teatro. Eu acho que fazer teatro já é um ato político. Eu fui muito patrulhado por isso. Na época, por não fazer comício, a turma que fazia me patrulhava horrores. Só que, quem me patrulhava, hoje está mamando nas tetas do poder e não quer nem saber a cor da vaca. Mamando e sobrevivendo às custas disso.

Quem são essas pessoas?
     São múmias aposentadas. E eu continuo sendo l’enfant terrible que, uma vez ou outra, diz umas coisas que abalam todo mundo. Os esquerdistas fizeram o maior barulho para liberarem os textos de Vianinha, depois disso, cadê que montaram Vianinha? Aí vem o Sesi e obriga a lembrar, porque quem quiser concorrer a 15 mil dólares tem que montar Vianinha. Nelson Rodrigues era esnobado aqui, com cinco textos dele em estudo no ano passado. É uma loucura. Eu não ligo. Essas coisas passam.

Você acha que eles ainda lhe veêm como a boca maldita do teatro em Natal?
     Não sei. As cabeças coroadas tem medo de mim porque elas acham que eu empano o brilho delas. As cabeças burras. As inteligentes não.

E como é o seu relacionamento com o poder?
     Eu tenho uma atitude humilde. Se você é meu chefe, eu passo sempre para você a peteca. Se alguém vem me entrevistar sobre o prêmio Sesi de Teatro, eu falo “não, vá entrevistar o superintendente, o assunto não é comigo”. Normalmente, ele, como uma pessoa inteligente, manda me chamar e entrega o jornalista na minha mão. Tem pessoas que se assustam com isso.

E fora do teatro, quais seus planos?
     Fora do teatro, eu pretendo somente criar meus bodes, o que está dando muito certo. E tem a história do livro. Eu tenho um dossiê. Quando eu fui preso, o que é uma outra história para contar no livro...

Por que você foi preso?
     Eu fui preso como “dono de antro de homossexuais, traficante de drogas, toxicômano, corruptor de menores” e mais algumas coisas, em 65. Em setenta e duas horas me soltaram dizendo que eu não era nada disso, mas a imprensa já havia dito que eu era. O processo foi arquivado por falta de provas. Mas isso me valeu demais, porque me fez crescer. Porque eu era filhinho de papai e de mamãe e de repente descobri que era um adulto. Setenta e duas horas de cadeia deixa qualquer um bom da cabeça ou faz pirar de vez. Eu não pirei, fiquei bom. Curadinho. Descobri que tinha crescido, descobri que não era mais criança e era responsável pelos meus próprios atos. Papai não podia ficar lá na cadeia no meu lugar. Mas eu fiquei com uma paranóia de gente rica, daquelas que tem analista. Então, preocupado com as pessoas que me acusaram e não conseguiram provar nada, eu comecei a fazer um dossiê e mandar cópias para cinco amigos meus. Isso virou uma terapia.

E o livro vai trazer o nome dessas pessoas?
     Não. O livro não é para isso, para dedurar ninguém. Vão constar alguns nomes, lógico. Mas eu acho que a minha experiência teatral é que deve ser estudada pelos outros. Se não servir para nada, pelo menos que sirva para que façam o contrário do que eu fiz. É claro que eu não posso dissociar a minha vida particular da profissional. Eu faço teatro com muita paixão e normalmente os melhores espetáculos que eu fiz foi apaixonado ou com raiva de alguém. Eu já dediquei meu sucesso a muita gente safada. Mas eu não quero fazer um livro para ficar bagunçando a vida das pessoas, dizendo quem dormiu comigo. Eu acho isso de uma deselegância terrível.

Você está apaixonado agora?
     Agora eu estou. Aliás, sempre estou. Eu acho que vou morrer velhinho, apaixonado por alguém..

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