A vida e o teatro

     Trechos de uma entrevista de duas horas concedida a Sandro Fortunato em junho de 1992, quando Jesiel Figueiredo passava por um dos momentos mais difíceis de sua vida ao perder seu teatro que iria completar 10 anos. Originalmente publicada no jornal de arte e cultura Lúdico.

A oferta e a retomada

     “O teatro tem nove anos. Nós iríamos completar dez, agora em novembro. Esse prédio me foi oferecido por esses padres do Sagrada Família. Eles ofereceram e insistiram que eu deveria ficar no prédio porque eles não tinham condição de mantê-lo e, seu eu não ficasse, eles iriam transformá-lo numa grande loja de automóveis alugada para alguém. Muito bem. Então eu assumi e graças à colaboração dos colegas daqui da companhia e também do apoio da própria cidade, nós conseguimos fazer com que o teatro chegasse a quase dez anos. Acontece que de uns três anos pra cá, eles (os padres) resolveram fazer uma campanha para nos tirar daqui. Essa campanha teve umas pinceladas bastante sujas, tipo propaganda na igreja contra a gente, dizendo que aqui era uma casa de pecado, de prostituição; infelizmente não abertamente, mas por debaixo do pano. É como sempre aquela coisa bem própria da Igreja de trabalhar no subterrâneo, né? Sempre trabalhou. E isso foi me desgastando demais, porque eu sempre procurei fazer daqui uma casa de cultura, uma escola para jovens. E também outra coisa: eu sempre pautei a minha vida por lutas em campo aberto, luta de peito aberto, sem escudo nenhum. E eu não sei lutar no subterrâneo. Essa coisa de falsear por trás eu não sei fazer bem. E como eles sabem fazer isso muito bem, eu vi que o derrotado no final das contas estava sendo eu e, no caso, a cultura do estado e resolvi fazer um acordo para entregar o prédio e não ficar brigando por ele. E outro detalhe: também porque eu acredito muito nessa coisa de destino, eu agora tenho que partir para outra, fazer do mesmo jeito que em 82, aquela primeira fase do Teatro Alberto Maranhão tinha terminado. Eu senti isso na hora em que os padres me ofereceram isso aqui. Eu acho que agora a minha fase de Teatro Jesiel Figueiredo, nesse prédio velho dos padres, terminou e pode ser que recomece amanhã. Naturalmente, deve começar outra fase bastante diferente”.

História e ética

     “Eles me ofereceram o prédio. Então aqui e ali, passavam e me chamavam para conversar, para saber se eu queria continuar no prédio. Quer dizer, era um prédio abandonado, só com criação de morcego, era todo de madeira velha, não sei como já não caiu nas cabeças das pessoas. Então quando nós provamos a viabilidade do prédio, eles abriram o olho em cima, ‘tacaram’ o olho em cima. E eu tenho certeza que a coisa foi somente essa porque nós nunca demos brecha para que nada fosse comentado. Eu sempre pautei o meu grupo de teatro por uma disciplina muito rigorosa. É uma coisa que até poderia ser chamada de careta, porque aqui dentro do teatro se faz apenas teatro. Quantos jovens nós não lançamos aqui? Quantas pessoas não foram preparadas aqui? Quantos espectadores não foram iniciados aqui? Mas eles têm outros interesses. O lado prático da religião, o lado mercenário da religião, eu não entendo porque eu não vivo dentro de nenhuma igreja. A gente sabe por informações e escândalos que acontecem quase diariamente. Mas esse lado prático da religião eu não entendo, aquela história de vender o Cristo, eu não entendo muito. Nós aqui fazemos diferente. Nós nos doamos. Uma companhia de amadores trabalhando efetivamente por quase dez anos. Talvez isso tenha magoado eles, porque nós somos concorrentes desleais, porque nós não ganhamos dinheiro. E na igreja qualquer coisa é paga”.

Ameaças

     “Se eu continuasse fazendo o jogo dos padres, o jogo da intriga, do envenenamento de oásis — que eles são especialistas — eu ia terminar tendo um infarto aqui dentro, de graça, de uma maneira totalmente inglória. Eu quero ter um infarto trabalhando pra 3 mil pessoas, com o teatro com a acústica muito boa e muito bem iluminado, com um figurino bonito e a platéia adorando o espetáculo. Aí se eu tiver que ter um infarto em cena, que seja num negócio desses, mas não numa coisa decadente, que as pessoas estão planejando minha morte diariamente. Eu vou ficar aqui por que? Nesse jogo eu recebi ameaças. Passaram dias telefonando lá pra casa, ameaçando incendiar o prédio, de me dar uma surra, coisa desse tipo. Sempre andei de peito aberto na rua, não tem problema, não estou devendo nada a ninguém. Não tem problema. Se tiver que me bater, bata. De qualquer maneira não iriam me tomar o prédio com uma surra que me dessem, né? De maneira nenhuma. E devem ter desistido porque descobriram que eu não ia ficar parado, lesado em casa, esperando novos telefonemas. Eu ia denunciar pra ver se descobria quem era. Eu sei que ameaçaram uns dias... foi muito pressão, sabe? Os fiéis eram instruídos a dizer piadas com a gente quando passavam pela porta. Só podiam ser instruídos. Em nove anos não disseram nada. Por que passaram a dizer? ‘Tomara que já acabe com essa imoralidade’, uma coisa absurda. As pessoas foram jogadas contra nós, mas não fazem mal. Agora tudo vai mudar e recomeçar. Só quero sair daqui com vida e saúde. Vou continuar trabalhando e meu trabalho fica. E a campanha feita entra pra História porque vai ter um livro contando. Entra para a História do Rio Grande do Norte”.

O livro

     “Já existe. Falta sair. São os depoimentos e apelos feitos por artistas e intelectuais do Brasil todo pra não deixar fechar o teatro. Eu vim pra cá contar apenas a verdade. Se essa verdade vai doer a alguém, a pessoa que fez vai sentir: ‘eu fiz uma coisa errada’. Mas aí já vai ter entrado para a História como bandido. Cada um escolhe seu papel na vida, não é? Logo vai sair. É porque não é coisa somente minha, porque eu estava com medo. Fiquei mal e precisei ir ao médico, tomar tranquilizantes. Mas precisava, vinha pra cá apavorado. Aí contactei com cinco amigos em lugares e posições diferentes e comecei a fazer uma espécie de ‘dossiê Roque Santeiro’. Porque na hora em que eu morresse isso seria publicado. Graças a Deus, eu não morri e vou ver a publicação vivo... ainda”.

Apoio

     “Recebi muito apoio de artistas de fora. Como Natal é uma cidade sem classe, nós não recebemos praticamente nenhum apoio daqui. As pessoas que se aproximavam dizendo que queriam nos apoiar, no final das contas queriam era subir um degrauzinho em popularidade às nossas custas, às custas da nossa situção. Isso foi comprovado porque quando eu senti a coisa e dei um corte, a pessoa pulou fora, não queria apoiar. No mais, as pessoas se omitiram em Natal. Em compensação, os deputados apoiaram, por unanimidade, uma moção de solidariedade. A Câmara dos Vereadores também. Mas isso ficou só na teoria.
     “Escritores e teatrólogos de vários locais do país, artistas do nível de Irene Ravache, Raul Cortez, Bibi Ferreira, Eva Wilma, essas pessoas mandaram telegramas de apoio. Para mim, estas são pessoas boas e importantes para o Brasil e eu tenho a impressão que, para os padres do Sagrada Família, essas pessoas são ilustres desconhecidos, porque a maioria deles não teve sequer uma resposta.
     “A imprensa local foi ótima. Com exceção de um jornalista que... bem, mas não é bem jornalista, é colunista social. Ele disse que eu ‘já devia ter entregue isto aqui, que já tinha aproveitado demais isto aqui’. Eu achei muito engraçado. E essa notinha está no meu livro. Eu achei tão interessante - ‘eu aproveitar’ - acho que a pessoa nunca entrou aqui, porque aproveitar um negócio destes (risos). Ah, meu Deus! A cidade é que se aproveitou de mim. Eu sou um peão trabalhador”.

Múmias

     “ ‘O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever’. Você já ouviu isso, né? Pois é. Se cada um cumprir com o seu dever... Tem pessoas que faziam teatro, pessoas talentosas. Eu escolheria dez. Se elas estivessem comigo hoje, contando que tivessem continuado fazendo teatro, nós teríamos um dos elencos mais importantes do país. Porque as pessoas se aculturaram. Essas pessoas se formaram. Quase todas elas têm um anel enorme no dedo e um canudo pendurado no pescoço, por isso deixaram de fazer teatro. São minhas múmias precoces”.

Estrelas

     “Quando alguém vem dizer ‘eu sou estrela’, eu digo, ‘estrela em Natal? Você está é louco’. Porque ser estrela no Brasil é uma merda, imagine ser estrela em Natal. Tem um cara aqui em Natal — engraçado isso — ele fez uma peça num grupo (eu estou contando a história que eu não sei se virou folclore, se já é folcore), faz pouco tempo isso, ele fez uma peça com um grupo e botou tanta banca que, quando o grupo quis fazer outra temporada, ele exigiu um hotel três estrelas durante a temporada — ele saiu da casa dele pro hotel — e todas as noites tinha que receber flores no camarim. Quer dizer... pirou! Não é loucura? Então o cara vê que isso não tem condição de continuar e desiste. Porque não é brincadeira esse negócio...se faz uma peça teatral, aplausos, a televisão dá um apoio danado, jornais, todo mundo... aí os amigos dizem que está ótimo. Crítica, não. Porque em Natal não tem gente com capacidade para fazer crítica teatral. Aí seria loucura mesmo, né? No Brasil, tem pouquíssimos. Dois ou três. Imagine em Natal! Esta cidade reconhecidamente analfabeta”.

Recado

     “Humildade, força de trabalho para trabalhar mesmo. Trabalhar duro diariamente e consciente de que nós somos antes de tudo, trabalhadores. Muitas vezes iluminados. Quando a gente é artista mesmo é iluminado. Mas isso aí já é outra história, porque a luz não é nossa, é emprestada por Deus. Só temos a obrigação de polir o vidro da lâmpada para a luz sair boa. Mas a luz não é nossa. Então deixa a vaidade besta, deixa de lado e vai para o trabalho, pro dia-a-dia, para a cultura geral. Não é só ler teatro. É ver os problemas da religião no mundo, porquê da decadência do futebol no Brasil, porquê nós somos cidadãos e temos de pensar nisso tudo. É descer do pedestal e ficar no palco. Ali, trabalhando e sentindo o cheiro do pó de serra e suor. Daí a possibilidade de fazer alguma coisa e manter o teatro aqui. Eu posso não ser excepcionalmente bom em algumas das coisas do teatro, mas eu sei que sou um homem de teatro muito competente. Porque eu sou um homem de teatro completo. Eu faço de abrir o plano ao papel principal se for necessário. O problema de ser excepcionalmente bom é para a platéia julgar. Agora, que eu sei fazer, eu sei. Então, é necessário que o homem de teatro de hoje, os jovens, também sejam completos. E olha que eles têm tudo na mão. Eu fui para o livro, livro de teoria teatral em espanhol porque não tinha tradução no Brasil. Eu fui pro livro. Hoje está tudo de graça: curso de graça, professor de graça, vem gente de fora ensinar e cadê? O povo lê o título, bota debaixo do braço e pronto: é intelectual de sovaco. E assim, quando você parte para conversar, é uma desgraça. Trabalhar. É só isso. Trabalhar, fé em Deus e pé na tábua. Na tábua mesmo, a tábua do palco. Pronto, só isso”.

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