O
Cruzeiro e o surgimento de Brasília
BRASÍLIA
- Hertz Wendel de Camargo, 30 anos, é
publicitário e sempre tem dificuldade para responder
uma pergunta que, para a maioria das pessoas, é
muito simples: “Onde
você mora?”
Professor universitário em Cascavel (Paraná),
mestrando em Educação, Conhecimento, Linguagem
e Arte pela Unicamp (Campinas, São Paulo), editor
da revista Diversa (www.revistadiversa.com.br),
em Santa Bárbara (São Paulo), ele “mora”
mais nas estradas entre essas cidades do que propriamente
nelas. Além de tudo isso, ele ainda encontra tempo
para ser pai de Calvin, um garoto com nome de pestinha
americano e carinha de japonês. E onde aconteceu
a entrevista? Em Brasília, quando fazia pesquisa
de campo e buscava exemplares da revista O Cruzeiro
para sua tese de Mestrado.
Fale
um pouco sobre sua pesquisa com O Cruzeiro.
Surgiu do projeto de mestrado da Unicamp, da Faculdade
de Educação. Participo de um grupo de pesquisa
que é o OLHO (Laboratório de Estudos Audiovisuais
da Faculdade de Educação da Unicamp) que
possui uma pesquisa interessante e profunda sobre a relação
imagem e homem contemporâneo. Em O Cruzeiro,
estudo as imagens da cidade e da natureza, e como essas
imagens performam e constroem o conhecimento do homem
urbano contemporâneo. Estudo, mais especificamente,
como a revista participou da idéia de crescimento/progresso
do meio urbano em termos de cultura, linguagem e arte,
enfim, conhecimento através da relação
entre imagem, suporte e leitor. A primeira parte da pesquisa
foi o recolhimento de exemplares de O Cruzeiro,
na Biblioteca do Senado e no Memorial JK, em Brasília.
Então a viagem à Brasília rendeu
algo?
Sim, foi bom conhecer um pouco o universo político
brasileiro e sua relação com O Cruzeiro,
descobrir como são coisas completamente diferentes
ao vivo e no papel.
De
que forma O Cruzeiro abordou a construção
da cidade?
Ela fazia o seu papel, como um grande painel publicitário,
ela ajudou na construção da idéia
do crescimento da cidade, na idéia de que a cidade
é como um organismo, vivo, que cresce, se desenvolve,
vive. Porém, evidentemente, não era a única
personagem dessa “educação
política”.
O progresso, o futuro, sempre performaram o clima da pólis,
principalmente na década de 30. São interessantes
as maneiras que a revista utilizava para fazer com que
o leitor (da cidade ou do interior) estivesse participando
ativamente do progresso urbano, a seção
de cartas que os leitores perguntavam sobre os mais variados
assuntos, a seção foto-teste, as reportagens
comemorativas sobre os 10 mandamentos dos namorados, sobre
a família, etc. São ações
da revista que davam a ilusão no leitor de participar
do crescimento do organismo-cidade. Aí é
que reside a natureza.
Outras
revistas - como Manchete, por exemplo - entrarão
nesse trabalho?
Apenas como fonte de consulta, para verificar o que outros
meios/veículos abordavam.
Você
pretende entrevistar pessoas que acompanharam a construção
da cidade?
Possivelmente. Mas da construção cultural,
epistemológica, intelectual.
Você
poderia falar algo sobre o método de pesquisa e
o que tem aprendido com ela?
Descobertas as imagens, é feito um estudo paralelo,
através de leituras, buscando analisar também
imagens cinematográficas, documentais, estudos
de linguagem que se relacionem com a arte. Tudo isso através
de uma perspectiva da Educação porque a
arte é uma forma diferente do conhecimento acadêmico,
é uma outra forma de conhecer, de ter uma outra
visão de mundo. Percebo que a natureza como a vemos
e conhecemos, não existe. Que natureza e cidade
são irmãs siamesas, filhas da mesma mãe:
a cultura. Sentimos a cidade como um imenso organismo,
como um ser vivo, que possui ciclos de vida diferentes
durante o dia e durante a noite, que o trânsito
flui como o sangue que alimenta o corpo, a poluição
como doença dos pulmões, a cidade que adoece,
a cidade que tem movimentos, sons, que pode se transformar
em cidade-fantasma (subentendendo-se que possui vida/alma),
onde somos caçados pela violência, ambiente
de conflitos, obsessões, desejos, fantasias, tensões...
ambiente onde competimos pelo alimento (dinheiro), no
qual caçamos e cortejamos parceiros sexuais, enfim,
a cidade que cresce, que nasce, que morre, que tem braços
abertos, que se fecha, que pune seus filhos rebeldes.
E qual foi a única cidade que vimos “nascer”?
Brasília. Aliás, muito bem retratada por
O Cruzeiro. Bem, daí cheguei à
idéia da construção do nada, ou seja,
como O Cruzeiro trabalhou a idéia de que
não havia nada antes da construção
de Brasília? Já que havia cerrado, índios,
animais... Futuramente, no doutorado, isso será
transformado em um documentário.
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