O
jornal intitulado Flor do Mal foi criado em 1971,
por Luiz Carlos Maciel, Rogério Duarte e pelos
poetas Tite de Lemos e Torquato Mendonça. Seu “desabrochar”
se deu em plena asfixia imposta pela ditadura militar,
principalmente com seu recrudescimento em 1968, com o
Ato Institucional de número 5.
Nesse momento de cerceamento de liberdade, a imprensa
alternativa se constituiu em forma de resistência;
sejam os alternativos de cunho político, ligados
aos esquerdistas ortodoxos ou daqueles, genericamente
rotulados de contraculturais. Este último foi caracterizado
pela efemeridade e, portanto, grande parte de sua produção
permaneceu no anonimato ou foi divulgada em círculos
restritos se relacionando com uma forma dissidente de
discurso contestador à ditadura, chamado por muitos
de “desbunde”, com conotação
provocativa para os conservadores tanto da direita militar
como também os da esquerda ortodoxa. A ampliação
do conceito de política, estendendo-a ao corpo
e a crítica às instituições
perpassavam as questões da materialidade, da luta
de classes, preconizada pelo discurso militante. Essa
“nova visão” era associada à
alienação e a uma versão “enlatada”
do movimento hippie norte-americano, pautada
no individualismo e no subjetivismo.
Editada pelo Pasquim Empresa Jornalística SA,
teve como editor responsável Sérgio Cabral,
que cumpria então uma promessa feita quando de
sua prisão pelo regime militar, junto a Luiz Carlos
Maciel, em 1971. No calor da hora, frente ao sentimento
de solidariedade entre presos, Maciel solicitou a Cabral,
apoio ao desenvolvimento de um projeto de cunho especificamente
marginal, diferente do que desenvolvia no Pasquim
com a coluna Underground, que tinha um caráter
informativo dos movimentos contraculturais no mundo. Segundo
Maciel, O Pasquim era um alternativo, porém
de caráter tradicional, feito por jornalistas,
e ao contrário, ansiava por experimentar
- verbo inerente a contracultura - fazendo um projeto
de jornal de caráter totalmente poético
e fora dos padrões estabelecidos.
O principal objetivo era dar voz aos artistas jovens,
de vanguarda, contraculturais, “malucos” que
não eram aceitos em nenhum órgão
de imprensa. Quem escrevia na Flor eram os próprios
Tite de Lemos, Torquato Mendonça, Rogério
Duarte e Luiz Carlos Maciel, assim como pessoas que eles
conheciam, “antenadas” com as idéias
contraculturais, entre eles: Antônio Bivar, Joel
Macedo, Waly Salomão, José Simão,
Antônio Capinam, Célia Maria e amigos da
clínica psiquiátrica que Rogério
tinha conhecido quando de sua internação.
Não havia projeto gráfico definido e a
proposta do produtor de arte, Rogério Duarte, era
a de que os textos deveriam ser escritos à mão,
e então que deveria contar com uma equipe de calígrafos,
como os da Idade Média.
A fotografia, que ilustra o primeiro número,
foi encontrada por Torquato Neto no chão da redação
do jornal Última Hora, pisoteada. Era
a foto de uma menina negra sorrindo, despida do peito
para cima, representando a pureza espiritual a que ansiavam.
Esta iniciativa durou apenas cinco números com
a tiragem de 40 mil exemplares, dos quais vendia-se a
metade.
As matérias que compunham o impresso abordavam
arte, cultura e comportamento, relacionadas a “nova
visão”: antipsiquiatria, sexualidade, orientalismo,
teatro, drogas, astrologia, entre outros temas pouco abordados
pela imprensa oficial.
O público-alvo da revista, segundo Maciel, era
“uma meia dúzia” de gatos pingados,
geralmente chamados de “loucos”, “hippies”,
“desbundados”, entre outros estereótipos
de quem não era apenas contra, mas também
que não queriam participar do estabelecido, ansiando
inventar seu próprio meio de expressão.
Da Flor do Mal, outras iniciativas nasceram,
resultando em diversas matrizes contraculturais, tendo
como eixo comum a luta pela produção e difusão
autônoma da informação, não
se enquadrando nos esquemas oficiais, comerciais e institucionais.
A luta ideológica se dava através da linguagem,
da experimentalidade que se estendia na poesia, nas artes
plásticas, na música, no comportamento e,
conseqüentemente, em novas formas de ser, sentir
e pensar de uma geração.
Patrícia
Marcondes de Barros, Doutora
em História Cultural (UNESP)e
autora do livro "Panis et Circenses":
a idéia de nacionalidade no
Movimento Tropicalista (Editora UEL,
2000)
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