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Aquele casal
Aquele casal, o marido me honra com suas
confidências:
- Ultimamente, a Elsa anda um pouco estranha.
Não sei o que é, mas não me agrada a sua evolução.
- Como assim?
- Deu para usar estampados berrantes, de
mau gosto, ela que era tão discreta no vestir.
- É a moda.
- Pode ser o que você quiser, porém
minha mulher jamais se permitiu esses desfrutes.
- Deixe Dona Elsa ser elegante. Não
há desfrute em seguir o figurino.
- Se fosse só o figurino. São
as maneiras, os gestos.
- Que é que tem as maneiras, os gestos?
- A Elsa parece uma menina de quinze anos.
Ficou com os movimentos mais leves, um ar desembaraçado que ela
não tinha, e que não vai bem com uma senhora casada.
- Posso dar opinião? As senhoras
casadas não perdem a condição feminina, e pode até
realçá-la por uma graça experiente.
Fixou-me suspeitoso:
- Que é que está insinuando?
- Nada. A mulher casada desabrochou,
não é mais um projeto, pode revelar melhor o encanto natural
da personalidade.
- Pois fique com suas teorias, que eu não
quero saber de minha mulher revelar seu encanto a ninguém.
- Perdão, eu...
- Já sei. Estava querendo desculpar
a Elsa.
- Desculpar de quê?
- De tudo que ela vem fazendo.
- Eu ignoro tudo, e adivinho que não
há nada senão...
- Senão o quê?
- Aquilo que o dicionário chama de
ente de razão, uma fantasia completamente destituída de
razão.
- Acha então que estou maluco?
- Acho que está sonhando coisas.
- E a flor que ela trouxe ontem para a casa
é sonho? Me diga: é sonho?
- Que é que tem trazer uma flor para
casa?
- Veio do oculista e trouxe uma rosa. Acha
direito?
- Por que não?
- Eu apertei, ela me disse que foi o oculista
que deu a ela. Estava num vaso, ela achou bonita, ele deu.
- E daí?
- Então uma senhora casada vai ao
oculista e o oculista lhe dá uma rosa? Que lhe parece?
- Que ele é gentil, apenas.
- Pois eu não vou nessa gentileza
de oculista. Não há rosas nos consultórios de oftalmologia.
E que houvesse. Tem propósito uma coisa dessas? Ela acabou chorando,
dizendo que eu sou um bruto, um rinoceronte. Engraçado. Minha mulher
vem com uma rosa para casa, uma rosa dada por um homem, e eu não
devo achar ruim, eu tenho que achar muito natural.
- Desde quando é proibido uma senhora
ganhar flor de uma pessoa atenciosa? Que sentido erótico tem isso?
- Tem muito. Principalmente se é
rosa. Ora, não tente negar o significado das ordens florais entre
dois sexos. O oculista não podia dar essa flor, nem ela podia aceitar.
O pior é que não deve ter sido o oculista.
- Quem foi, então?
- Sei lá. Numa cidade do tamanho
do Rio, posso saber quem deu uma rosa a minha mulher?
- Vai ver que ela comprou na loja de flores
da esquina, e disse aquilo só para fazer charminho.
- Ela nunca fez isso. Se fez agora, foi
para preparar terreno, quando chegar aqui uma corbelha de antúrios
e hibiscos.
- Não diga uma coisa dessas.
- Digo o que penso. Estou inteiramente lúcido,
só me conduzo pelo raciocínio. Repare no encadeamento: os
vestidos modernos; os modos (só vendo a maneira dela se sentar
no sofá); a rosa, que ela foi correndo levar para a mesinha de
cabeceira do quarto. Cada uma dessas coisas é um indício;
reunidas, são a evidência.
- Permita que eu discorde.
- Discorda sem argumentos. A Elsa não
é mais a Elsa. Demora mais tempo no espelho. Fica olhando um ponto
no espaço, abstrata. Depois, sorri. Estou decidido.
- A quê?
- Vou segui-la daqui por diante. Contrato
um detetive. E logo que tenha a prova, me desquito.
- Não vai ter prova nenhuma, juro.
Ponho a mão no fogo por Dona Elsa.
- Pensei que você fosse meu amigo.
Fiz mal em me abrir. Vamos mudar de assunto que ela vem chegando. Mas
repare só que os olhos de Capitu que ela tem, eu nunca havia reparado
nisso!
Esquecia-me de dizer que meu amigo tem 82
anos, e Dona Elsa, 79.

Carlos Drummond de Andrade © Graña
Drummond

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