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Procura-se um pai
O rapaz dirigia seu carro pela Avenida
Brasil, rumo ao aeroporto do Galeão, onde ia receber o pai, que
voltava do Chile, e eis senão quando...
O resto, imagina-se. Foi naquela noite de
fevereiro em que o Rio, mais uma vez, transbordou de seu nome, e a cidade
voltou a padecer os desmoronamentos, os desabrigos, as angústias
e as mortes injustas de uma enchente. Na rua congestionada, ninguém
avançava. Chuva matraqueando, tempo fugindo, todas aquelas pessoas
em prisões de lata e vidro, temendo o pior. E o pai que deveria
chegar às 20 horas. O pai chegando. O pai chegou? Ele não
está familiarizado com esta bagunça em forma de cidade.
É idoso. Mora em outro Estado. Como é que o pai sairá
desta?
Inútil pensar nessas coisas, porém
elas se pensam por si, na cabeça impotente. Nisto se abre, por
milagre, um espaço suficiente para manobra, mas em sentido inverso
ao do Galeão. O rapaz, menos por iniciativa própria do que
por imposição dos motoristas que vinham atrás, aciona
o motor, que pega também por milagre. A duras penas, sem saber
como, volta para casa. Madrugada alta quando ele chega, mulher e filhos
na maior aflição.
- Meu pai?
- Uê, você não trouxe
seu pai? Aqui ele não apareceu.
Nem podia aparecer, claro. O Galeão
fora do mapa. Que fazer? Os telefones, naturalmente, mudos. O jeito é
esperar que a manhã traga serena tranquilidade, com esperança
de aeroporto e salvamento. Sem dormir. Quem dorme numa dessas? O rapaz
espera os escritórios se abrirem, na manhã ensopada. Corre
ao escritório da companhia de aviação:
- Meu pai, o professor X, chegou?
- Bem, o avião chegou, mas sobre
seu pai não podemos informar.
- Como não podem? Então sabem
que o avião chegou e não sabem quem veio nele?
- É, não sabemos.
De novo, rumo ao Galeão. O trânsito
ainda está difícil, porém não impossível.
Pelo caminho, trágicos sinais deixados pelo temporal. No Aeroporto,
a pergunta continua sem sorte:
- Não sabemos se ele desembarcou
ou não.
- E a lista de passageiros?
- Não está conosco.
- Está com quem, então?
- Não sabemos.
Um informante, melhor, um desinformante
faz ironia:
- Numa sessão espírita, o
senhor encontra seu pai.
- Eu só desejo que um dia o senhor
se veja na minha situação, para ouvir isto de alguém,
e sentir vontade de fazer com ele o que eu sinto vontade de fazer com
o senhor.
- Desculpe, eu...
Mas o filho já demandava outro balcão,
fazendo a eterna pergunta, e ninguém sabia dizer-lhe onde estava,
se é que estava em algum lugar, o pai vindo do Chile. Chile? A
palavra soava diferente, como se contivesse não sei que partícula
perigosa. As autoridades sabiam tanto quanto a empresa, isto é,
nada.
Classificado no Jornal do Brasil:
Perdeu-se um pai na Ilha do Governador. Botar também no rádio.
Meu pai, meu pai. Como pôde sumir assim? Aconselham-me a ir
à Polícia Marítima e Aérea, na Praça
Mauá. Mas daqui não saio sem vasculhar todo o Aeroporto.
Ali está uma garota de chapeuzinho verde...
Felizmente para as histórias confusas
de hoje, existe moça de chapeuzinho verde, fada ou coisa semelhante,
que descobre o perdido e, de bonificação, ainda sorri para
a gente. O rapaz expõe-lhe o problema do pai. Pela primeira vez
alguém ouvia, considerava e buscava resolver o problema. Ela saiu
e voltou, com outro sorriso no rostinho de relações-públicas.
- Seu pai chegou sem novidade. O nome dele
está na relação de passageiros desembarcados.
- E para onde o levaram, que não
aparece?
- Para lugar nenhum. Deve ter dormido por
aí, até o temporal passar.
- Mas não apareceu em casa.
- A essa hora já deve estar lá.
Volte e há de encontrá-lo.
Não é que estava? Calmo, contando
à nora e aos netos uma noite em banco de aeroporto, resignado,
à espera de o toró passar.
Meu pai! Que susto! Que desinformação!
Que alívio! Etc. O rapaz lembrou-se de Londres, onde perdera duas
pastas num táxi, com passaporte e tudo, e na manhã seguinte
a polícia o chamava para receber de volta os objetos recolhidos
por um serviço policial que só não resolve o caso
de quem perdeu a memória. Tivera vontade de telegrafar para Londres:
Procurem meu pai na enchente aqui no Brasil. Felizmente, repito, a moça
de chapeuzinho verde, sozinha, valia tanto quanto a Metropolitan Police.

Carlos Drummond de Andrade © Graña
Drummond

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