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Centenário
do nascimento de Luís da Câmara Cascudo - Vicente Serejo
A 22a Lenda Sandro Fortunato
O menino tinha tudo para ser uma criatura mimada, estragada mesmo. Se tivesse pedido, seu pai lhe teria dado a Ursa Maior. Teve como padrinho o governador e a primeira-dama da província. Foi batizado pelas mãos de uma padre que anos mais tarde viraria santo pela vontade do povo. Nasceu no que era o centro do lugarejo e depois se mudou para um local mais à altura de seu destino: um principado. Era mesmo um príncipe o menino e como tal viveu até sua mocidade. Pelo gosto do pai seria médico. Até tentou, mas seu caminho não era aquele. O Direito seria uma opção viável e assim aconteceu. Sentiu um ímpeto de escrever. Então o pai montou um jornal para ele. Luvas e monóculo faziam parte da mise-en-scène do dândi. A província podia se orgulhar de seu príncipe. Um dia olhou para uma jovem menina, na flor da idade, ainda sem corpo de mulher. Enamorou-se da forma pueril coberta por um vestidinho azul e longas meias brancas. Apesar de ser um príncipe, de início os pais da menina não aprovaram a idéia de um romance. Até mesmo a aceita postura de viver em uma sociedade onde só homens entravam, então signo de poder e posição social, não era vista com bons olhos pela família extremamente religiosa. Mas pela jovenzinha o príncipe renegaria qualquer coisa. E como até então não conhecera dificuldades, conseguiu também a mão da menina. Tempos depois, a vida resolveu que o príncipe já estava adulto, maduro o suficiente para andar com as próprias pernas, e tirou-lhe as facilidades materiais. Seu pai já não era rico. Perdera tudo e o dândi agora começava a ser olhado como um simples mortal. A província não perdoaria o novo pobre que em seu primeiro livro, falando dos poetas e escritores de sua terra, foi duramente criticado. Os amigos que restaram, os verdadeiros, quiseram responder à afronta, mas o ex-príncipe, sempre majestoso, disse que não, pois aquela província jamais consagraria ou desconsagraria alguém. Já tinha descendentes o outrora rico príncipe, mas para eles já não havia o que deixar. O que fazer então? Olhou ao seu redor e viu que as riquezas que conhecera não estavam mais ali. Mas como Deus é justo, era certo que abriria outra porta que o levaria a um caminho ainda melhor do que aquela que havia sido fechada. Olhou para o povo e descobriu ali sua riqueza. A do povo e a sua própria. Nunca mais deixou de estudar e, aprendendo, ensinava sempre mais a quem o procurasse. Começou a distribuir riquezas. Não as materiais como seu pai fazia, mas uma riqueza que quando mais ele dava, mais possuía. O príncipe agora era um homem do povo. Bares e prostíbulos eram seus redutos. Ali estava em casa. Percebeu que o povo e seus costumes eram muito mais ricos do que aqueles aos quais havia se acostumado. A partir de então nunca mais deixou de vasculhar e descobrir os mistérios daquele maravilhoso mundo. Não havia o que não soubesse e se por acaso houvesse seria por pouco tempo. Sua fama percorreu todo o país e mesmo o mundo. O homem virara um dicionário ambulante, uma verdadeira enciclopédia. Lia, escrevia e ensinava alucinadamente, mas já sem os ares de nobre. Era agora um homem do povo. Um homem que adorava uma rede. E charutos. Talvez estes lhe mantivessem um resquício de ar aristocrático. Sua obra - gigantesca - ficaria para sempre. Era esse o destino do garoto nascido em berço de ouro. Descobrir seu povo. Um dia, já com os sentidos aposentados, achou que era hora de deixar este mundo. A província, agora sem sua lenda viva, precisava fazer algo. Quem sabe sagrá-lo um herói. Mas fizessem o que fizessem, seria sempre pouco. Não haveriam solenidades e homenagens que lhe bastassem. Fora criado sem limites e viveu a vida inteira assim, apesar de ter nascido e morrido na mesma província. Cem anos depois de seu nascimento, o povo voltou novamente sua atenção para ele. Mas a província era pequena demais para o mito. O mundo inteiro lhe rendia graças pelo que lhe fora legado. Nada mais poderia ser feito a não ser agradecer. Agradecer com sinceridade, com alegria, com devoção. Porque aquele homem de hábitos às vezes encapetados era um santo. Um santo que garantiria para sempre a maior riqueza de um povo: sua História. Seu nome? Todos sabem. Todos o repetem a todo tempo, de maneira um tanto profana. Hoje, no dia em que se comemora o centenário de seu nascimento, fica aqui o registro da lenda do homem que deu um cocorote, uma castanha, um croque na nossa cultura. Um homem chamado Natal. Um homem chamado Brasil. Um homem chamado Cascudo. * * * Sandro Fortunato, jornalista, é o criador e mantenedor do site MEMÓRIA VIVA. Este texto foi originalmente publicado n’ O Jornal de Hoje, em Natal (RN), em 30 de dezembro de 1998, dia do centenário de Câmara Cascudo.
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