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Centenário
do nascimento de Luís da Câmara Cascudo - Vicente Serejo
Mestre Cascudo Manoel Onofre Júnior
“Em Cascudo, o que mais me interessava era a sua permanente alegria de viver. Dentro ou fora de casa, nas reuniões de intelectuais ou gente do povo em geral, Cascudo demonstrava sempre uma alegria esfuziante. Ninguém poderia comparar-se a ele nesse particular. Criava coisas muito mais próprias de meninos danados do que de gente grande e austera”. Eu conheci Cascudo, fui seu aluno na Faculdade de Direito, fiz várias visitas ao mestre, em sua casa da rua Junqueira Aires (2), e um dos aspectos de sua personalidade, que maior impressão me causava, era justamente esse, ressaltado por Veríssimo. Cascudo tinha uma vitalidade incrível. A primeira vez em que o vi, era ainda menino de calças curtas. Acompanhando meu pai, eu ia passando defronte ao Palácio Potengi, quando deparei-me com aquele senhor bem vestido, que fazia mesuras, gaiatamente exageradas, para um seu companheiro, nas escadarias do palácio. A cena me chamou atenção. Quem ousava comportar-se com tamanha irreverência, em plena sede do Governo? Papai me disse: — “Aquele é Câmara Cascudo, o homem mais culto do estado”. Não mais o esqueci, e quando já estudante do Atheneu, fui, certo dia, até a sua casa para pedir-lhe um depoimento sobre o jornalzinho estudantil que eu, então, dirigia – o Jornal do Estudante. Ele me atendeu prontamente. Parece que o estou vendo, em seu escritório, cercado de livros, bonachão, risonho, charuto entre os dedos. Mandou que eu me sentasse em sua cadeira, junto ao birô, diante da máquina de escrever: Escreva aí... Eu me desmanchei em agradecimentos, mas
ele, cortando-me a palavra, brincalhão, disse-me: Anos depois, reencontrei-o como meu professor de Direito Internacional Público, na Faculdade. Suas aulas eram mais conversas bem-humoradas do que propriamente aulas. Amigo dos alunos, generoso nas notas, logo conquistou toda a turma. Passei a admirá-lo e a estimá-lo cada vez mais. Chamava-me, afetuosamente, Cruviana. Em seu livro Na ronda do tempo, subintitulado Diário de 1969, ele faz referência a mim e ao meu avô materno, ao relacionar as visitas que recebeu no dia 30 de outubro daquele ano. Diz: “Vêm (...) o Des. João Vicente da Costa, que não envelhece, o escritor Manoel Onofre de Souza Júnior, meu ex-aluno e que apelidei Cruviana”. Cruviana – esclareço – por causa do conto de minha autoria, assim denominado. Conto de inspiração folclórica, parece ter causado viva impressão ao mestre. Em 1967, ele foi indicado para o Conselho
Federal de Cultura, e eu, então repórter do jornal Tribuna
do Norte, fui entrevistá-lo. Recebeu-me bem-humorado, largando,
de vez em quando, gargalhadas imensas. Conversamos, longamente. A certa
altura, disse-me: “Considero-me um homem feliz, pois estou aposentado e
tenho o que fazer”. Havia interrompido o seu trabalho sobre Nomes da
Terra, para preparar a terceira edição do Dicionário
do Folclore Brasileiro, cuja extensão e importância o
absorviam de maneira total. A publicar, tinha um novo livro – Motivos
de Espanha- , ao qual referiu-se nos seguintes termos: Este livro não foi publicado. Que fim levou? Ainda na referida entrevista, a afirmativa de que “foi o Prof. Bruno Pereira quem me ‘envenenou’ no folclore”. Em 1922, Bruno Pereira – também jornalista e advogado – deu de presente a Cascudo um exemplar do Folclore do Brasil, de João Ribeiro, cuja leitura despertaria, no jovem literato e historiador, o interesse pelo novo campo de estudos. Anos depois, Mário de Andrade, o papa do Modernismo, aconselhou o amigo Cascudinho: que não perdesse o tempo escrevendo sobre o Conde D’Eu; abraçasse de vez a cultura popular. Daí em diante, Cascudo, efetivamente, voltou-se para a etnografia e o folclore. Mário de Andrade,
quando visitou Natal (dezembro de 1928 / janeiro de 1929), hospedou-se
no “Principado do Tirol”, a chácara do Coronel Francisco Cascudo,
pai do amigo. Em Natal e Bom Jardim, engenho de família de Antônio
Bento, fez pesquisas, posteriormente, aproveitadas em livros (Danças
dramáticas do Brasil, Os cocos). Mário andou,
em companhia de Cascudo, pelo interior do estado, foi até Catolé
do Rocha (PB), passando por Macau, Assu, Augusto Severo (hoje Campo Grande),
Caraúbas, Gavião (hoje Umarizal) e Martins. De todos estes
lugares, o que mais agradou ao grande escritor paulista foi Martins. Chegando
lá, no alto da serra, extasiou-se com a beleza da paisagem: Mário e Cascudo demoraram cinco horas na serra, tomaram uma fartada de frutas, após o almoço, na casa do prefeito. Às 12 e 20 partiram “pra vencer a penúltima etapa da viagem: Caicó”. No caminho de Catolé do Rocha fizeram parada numa venda beira-estrada e, como a tarde era azul e perfeita, tomaram em celebração um pileque de cerveja preta, com queijo do Seridó. Relembra Cascudo: De Mário de Andrade a conversa descambou para Guimarães Rosa, então um nome na crista da onda. “Sou fã dele. Considero uma das organizações mentais mais poderosas de todos os tempos”. A admiração era recíproca, como se vê na dedicatória de Grande Sertão: Veredas - “Grande sábio, grande homem, grande amigo”. Rosa insistiu para que Cascudo se candidatasse
a uma vaga na Academia Brasileira de Letras. Mas, Cascudo esquivou-se,
com uma risada: Admirável figura humana, Cascudinho era bem “o sábio jovial”, uma alma boa, um tipo inesquecível. (1) Dos Grandes, um Pouco – Academia
Norte-rio-grandense de Letras – Natal / centro Gráfico do Senado
Federal – Brasília, 1992. * * * Manoel Onofre Júnior, desembargador aposentado, escritor e pesquisador da cultura do Rio Grande do Norte. É membro da Academia Norte-Riograndense de Letras e autor de vários livros, dentre os quais Chão dos Simples, Ficcionistas do Rio Grande do Norte e Literatura e Província. O texto acima faz parte deste último, mas aqui está em uma versão inédita, revista e ampliada.
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