Mestre Cascudo

Manoel Onofre Júnior  

          Amigo e discípulo de Luís da Câmara Cascudo, Veríssimo de Melo revelou o lado humano do escritor, em depoimento publicado no Jornal do Commércio, do Recife, e posteriormente em livro (1). Dessa página admirável destaco o seguinte trecho:

     “Em Cascudo, o que mais me interessava era a sua permanente alegria de viver. Dentro ou fora de casa, nas reuniões de intelectuais ou gente do povo em geral, Cascudo demonstrava sempre uma alegria esfuziante. Ninguém poderia comparar-se a ele nesse particular. Criava coisas muito mais próprias de meninos danados do que de gente grande e austera”.

     Eu conheci Cascudo, fui seu aluno na Faculdade de Direito, fiz várias visitas ao mestre, em sua casa da rua Junqueira Aires (2), e um dos aspectos de sua personalidade, que maior impressão me causava, era justamente esse, ressaltado por Veríssimo.

     Cascudo tinha uma vitalidade incrível.

     A primeira vez em que o vi, era ainda menino de calças curtas. Acompanhando meu pai, eu ia passando defronte ao Palácio Potengi, quando deparei-me com aquele senhor bem vestido, que fazia mesuras, gaiatamente exageradas, para um seu companheiro, nas escadarias do palácio. A cena me chamou atenção. Quem ousava comportar-se com tamanha irreverência, em plena sede do Governo? Papai me disse: — “Aquele é Câmara Cascudo, o homem mais culto do estado”.

     Não mais o esqueci, e quando já estudante do Atheneu, fui, certo dia, até a sua casa para pedir-lhe um depoimento sobre o jornalzinho estudantil que eu, então, dirigia – o Jornal do Estudante. Ele me atendeu prontamente. Parece que o estou vendo, em seu escritório, cercado de livros, bonachão, risonho, charuto entre os dedos. Mandou que eu me sentasse em sua cadeira, junto ao birô, diante da máquina de escrever:

     Escreva aí...
     E começou a ditar.
     Em poucos minutos, eu tinha em mãos, exultante, um belo texto que ainda me lembro – começava assim:
     Jornal do Estudante, órgão de classe, bem merece o interesse solidarista de seus companheiros de trabalho e desejo. Os estudantes podiam e deviam ter a sua imprensa, mesmo contando com a solidariedade dos jornais destinados ao interesse público e de perspectiva mais ampla”.

     Eu me desmanchei em agradecimentos, mas ele, cortando-me a palavra, brincalhão, disse-me:
     – Agora, vá baixar noutro terreiro.

     Anos depois, reencontrei-o como meu professor de Direito Internacional Público, na Faculdade. Suas aulas eram mais conversas bem-humoradas do que propriamente aulas. Amigo dos alunos, generoso nas notas, logo conquistou toda a turma. Passei a admirá-lo e a estimá-lo cada vez mais.

     Chamava-me, afetuosamente, Cruviana. Em seu livro Na ronda do tempo, subintitulado Diário de 1969, ele faz referência a mim e ao meu avô materno, ao relacionar as visitas que recebeu no dia 30 de outubro daquele ano. Diz: “Vêm (...) o Des. João Vicente da Costa, que não envelhece, o escritor Manoel Onofre de Souza Júnior, meu ex-aluno e que apelidei Cruviana”.

     Cruviana – esclareço – por causa do conto de minha autoria, assim denominado. Conto de inspiração folclórica, parece ter causado viva impressão ao mestre.

     Em 1967, ele foi indicado para o Conselho Federal de Cultura, e eu, então repórter do jornal Tribuna do Norte, fui entrevistá-lo. Recebeu-me bem-humorado, largando, de vez em quando, gargalhadas imensas. Conversamos, longamente. A certa altura, disse-me: “Considero-me um homem feliz, pois estou aposentado e tenho o que fazer”. Havia interrompido o seu trabalho sobre Nomes da Terra, para preparar a terceira edição do Dicionário do Folclore Brasileiro, cuja extensão e importância o absorviam de maneira total. A publicar, tinha um novo livro – Motivos de Espanha- , ao qual referiu-se nos seguintes termos:
     “Das minhas leituras, viagens pela Espanha e pesquisas no Brasil resultou o encontro de um grande número de motivos legitimamente espanhóis integrados na cultura popular brasileira. Dei-me ao trabalho de fazer uma investigação para fundamentar esta influência em alta percentagem inteiramente desconhecida quanto às suas fontes. O livro está terminado e parece até aqui não haver interessado a editor do Sul. Também, é verdade, eu não o tenho oferecido. Acredito ser uma contribuição legítima para a valorização da presença espanhola no Brasil”.

     Este livro não foi publicado. Que fim levou?

     Ainda na referida entrevista, a afirmativa de que “foi o Prof. Bruno Pereira quem me ‘envenenou’ no folclore”. Em 1922, Bruno Pereira – também jornalista e advogado – deu de presente a Cascudo um exemplar do Folclore do Brasil, de João Ribeiro, cuja leitura despertaria, no jovem literato e historiador, o interesse pelo novo campo de estudos. Anos depois, Mário de Andrade, o papa do Modernismo, aconselhou o amigo Cascudinho: que não perdesse o tempo escrevendo sobre o Conde D’Eu; abraçasse de vez a cultura popular. Daí em diante, Cascudo, efetivamente, voltou-se para a etnografia e o folclore.

     Mário de Andrade, quando visitou Natal (dezembro de 1928 / janeiro de 1929), hospedou-se no “Principado do Tirol”, a chácara do Coronel Francisco Cascudo, pai do amigo. Em Natal e Bom Jardim, engenho de família de Antônio Bento, fez pesquisas, posteriormente, aproveitadas em livros (Danças dramáticas do Brasil, Os cocos). Mário andou, em companhia de Cascudo, pelo interior do estado, foi até Catolé do Rocha (PB), passando por Macau, Assu, Augusto Severo (hoje Campo Grande), Caraúbas, Gavião (hoje Umarizal) e Martins. De todos estes lugares, o que mais agradou ao grande escritor paulista foi Martins. Chegando lá, no alto da serra, extasiou-se com a beleza da paisagem:
     –Oh! Isto é Teresópolis!
     –Não. Teresópolis é que é Martins – rebateu Cascudo.
     (De O turista aprendiz- ed. 1976, pág. 292 – consta: “Às 7 e 15 chegamos a Martins, lugar pra héticos, a igreja azul e branca, largos com árvores, feira dominical no mercado, uma gostosura. Caímos nas mangas”)

     Mário e Cascudo demoraram cinco horas na serra, tomaram uma fartada de frutas, após o almoço, na casa do prefeito. Às 12 e 20 partiram “pra vencer a penúltima etapa da viagem: Caicó”. No caminho de Catolé do Rocha fizeram parada numa venda beira-estrada e, como a tarde era azul e perfeita, tomaram em celebração um pileque de cerveja preta, com queijo do Seridó.

     Relembra Cascudo:
     “Mário passou o resto da viagem bradando, de vez em quando: ‘Sou um homem feliz’. Na cidade era dia de festa, havia uma procissão, que eles acompanharam, anônimos. Finda a excursão, os dois estavam mais amigos. Um foi para São Paulo, outro ficou aqui, mas nenhum se esqueceu daquela aventura pelo sertão.
     “Se não morre - diz Cascudo - seria padrinho do meu filho Fernando Luís”.

     De Mário de Andrade a conversa descambou para Guimarães Rosa, então um nome na crista da onda. “Sou fã dele. Considero uma das organizações mentais mais poderosas de todos os tempos”. A admiração era recíproca, como se vê na dedicatória de Grande Sertão: Veredas - “Grande sábio, grande homem, grande amigo”.

     Rosa insistiu para que Cascudo se candidatasse a uma vaga na Academia Brasileira de Letras. Mas, Cascudo esquivou-se, com uma risada:
     – Não pedi a mão de minha mulher. Quem pediu foi meu pai. Como, então, pedir votos para eleger-me acadêmico? Não tenho coragem.

     Admirável figura humana, Cascudinho era bem “o sábio jovial”, uma alma boa, um tipo inesquecível.

(1) Dos Grandes, um Pouco – Academia Norte-rio-grandense de Letras – Natal / centro Gráfico do Senado Federal – Brasília, 1992.
(2) Hoje Av. Luís da Câmara Cascudo.

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Manoel Onofre Júnior, desembargador aposentado, escritor e pesquisador da cultura do Rio Grande do Norte. É membro da Academia Norte-Riograndense de Letras e autor de vários livros, dentre os quais Chão dos Simples, Ficcionistas do Rio Grande do Norte e Literatura e Província. O texto acima faz parte deste último, mas aqui está em uma versão inédita, revista e ampliada.

 

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