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Centenário
do nascimento de Luís da Câmara Cascudo - Vicente Serejo
Re(vi)vendo Cascudo Sanderson Negreiros
Quem relê, por exemplo, o prefácio de Vaqueiros e cantadores- este livro que serviu também de prefácio à extraordinária obra de etnologia do Mestre da Junqueira Aires, cuja suma teólogica é o nunca assaz louvado Cultura e civilização -, vai encontar uma prosa poética das mais inesquecíveis. A memorialística nele confunde-se com o poema em prosa, tão patente, tão vitorioso, que fácil seria publicar de Cascudo, o que seu Talvez poesia: poemas desentranhados de uma prosa em estado permanente de exaltação lírica. Certa vez, em tarde libérrima do bairro da Ribeira, ouvimo-lo falar horas inteiras, em tom menos professoral, mas de evidente didatismo empático, sobre a história da poesia no mundo, desde as antigas civilizações, a caldéia e a mesopotâmica, quando o homem olhava nas estrelas do céu, contando-as astronomicamente, seu encantório espanto diante de Deus, que se revelava, em poesia, na mecânica celeste. Até chegar os poetas modernos de sua admiração. E, ninguém, mais moderno, dentro da moldura do seu espírito, do que, por exemplo, Dante, lido e relido religiosamente, a cada ano, na época de carnaval, que o fez escrever um livro único – a presença da Divina Comédia na poesia popular. Cascudo tem a cordialidade espantosa na compreensão goetheana do mundo e do universo. Estudioso dos crepúsculos, extasiou-se quando, na África, viu o pôr-do-sol no mar, singrado pela sua imaginação, sertaneja e brasileira. Quantas vezes, acordou dona Dahlia, sua mulher, em plena madrugada, para mostrar-lhe a Estrela Dalva! Outro tema ainda não explorado: o epistológrafo. Foi o diuturno escrevente de cartas, para o mundo inteiro, que o fez relacionar-se, em qualquer lugar, com tudo e com todos. Tivemos em mãos, para leitura apresentada, toda a sua correspondência recebida. Eram mais de 40 cartas de Mário de Andrade, hoje, obviamente significativas para o estudo da cultura brasileira. Como também as de Monteiro Lobato. Mas o maior número de cartas, que seria a história de uma bela e humana amizade, relaciona-se com a correspondência entre ele e Nilo Pereira, o barão do Guaporé, que deve cobrir quase cinqüenta anos de confidências e anotações à margem de duas vidas riquíssimas. Outro tema para o estudioso de Cascudo: suas amizades e admirações através dos oferecimentos dos livros, recebidos de todos os centros culturais do mundo, mas também de autor anônimo, perdido na pequena cidade, a quem Cascudo nunca negou uma palavra de incentivo, um prefácio fulgurante, de simpatia e apreço intelectuais. Isso, em certa época, serviu de crítica e remoque a ele: Cascudo nunca negara um prefácio a ninguém. A vida é tão curta e a matéria literária e intelectual tão relativas, que uma palavra coberta de ânimo ou prêmio nunca fez mal a ninguém... Mas é de assinalar os belos oferecimentos escritos por Guimarães Rosa e Gilberto Amado a Luís da Câmara Cascudo – vindos de dois grandes espíritos, lá dos cimos olímpicos, para quem a planície muitas vezes não conta. No caso, a planície submersa da província. Isso tudo, para quem nunca somou fracassos, como ele mesmo disse. E procurou ser o que quis: um pesquisador da sabedoria do povo, que em 1928, como professor do Atheneu Norte-Riograndense, por falar em lobisomem, quase perdeu a cátedra. E o bonde famoso da História. * * * Sanderson Negreiros é jornalista, poeta e membro da Academia Norte-Riograndense de Letras.
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