Câmara Cascudo, um brasileiro feliz

Diógenes da Cunha Lima  

Diógenes da Cunha Lima e Câmara Cascudo     “Nova Cruz do meu tempo de menino era o trem, a feira, o Rio Curimataú, a Matriz de Nossa Senhora, as ruas, o outro lado do rio. Tudo aos meus olhos era grande, bonito, necessário. E definitivo. Seguramente, Nova Cruz era o centro do Universo”. Foi então no centro do “Universo” (que fica no interior do Rio Grande do Norte), que em 1937 nasceu Diógenes da Cunha Lima.

     Formado pela Faculdade de Direito, foi Secretário de Estado de Educação e Cultura, reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e também professor do curso de Direito da mesma instituição. Exerceu ainda as funções de Presidente do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras e de Consultor Geral do Estado. Presidente a Academia Norte-Riograndense de Letras. Publicou oito livros de poesia e quatro de prosa.

     Aqui ele nos fala, com exclusividade, sobre seu convívio com Luís da Câmara Cascudo e sobre a reedição de seu livro Câmara Cascudo, um brasileiro feliz, em comemoração ao centenário de nascimento do mestre.

     “Quando eu vim para Natal, aos treze anos, eu já gostava de literatura, literatura do interior e meu pai me disse o seguinte: ‘Em Natal tem um rio chamado Luís da Câmara Cascudo, o resto é tudo riacho’. Com isso eu me aproximei do velho e ele me recebeu. Eu fiquei encantado porque ele me tratava como uma pessoa adulta, como uma pessoa interessada em cultura. Depois ele foi meu professor na Faculdade de Direito. A partir daí se estabeleceu uma cumplicidade fantástica. Ele me elegeu o seu aluno predileto, talvez até pelo meu atrevimento. Eu discordava e ele ‘baseado em quê?’... Terminado o curso eu comecei a frequentar a casa dele e a pedir orientação. Então ele me deu um curso singular, um curso diferente. Como era? Ele me emprestava um livro, um clássico - um grego, um romano ou Shakespeare - e eu tinha a obrigação de ler e voltar para ele fazendo um resumo e um comentário do que eu achei inusitado em relação à época de hoje e ao Brasil.

     “Eu frequentei a casa dele durante vinte anos quase todos os dias. Era uma espécie de sobremesa do meu dia. Eu passava o dia correndo, trabalhando, e o momento de descanso era ver o velho, pedir a benção a ele. Ele foi meu padrinho de casamento. E tivemos então toda uma ligação, uma ligação íntima e fraterna. O que eu era pra ele? Eu fui o carteiro. Ele tinha uma longa correspondência com o mundo inteiro e eu tinha que levar as cartas para o correio. Eu tinha que examinar as contas dele, da aposentadoria, às vezes de contratos que ele fazia com as editoras. Era um homem encantador, que me seduzia para que eu fizesse pesquisas para ele. (...) Era um encantamento de presença, de emoção, de simpatia. Como eu ensinava português, fui indicado por José Melquíades para “pingar o livro”. O que era pingar o livro? Cascudo escrevia à maneira dele. Ele escrevia, por exemplo, a palavra “peior” e dizia que era do latim, que ele tinha aprendido a escrever assim. Eu dizia ‘mas no dicionário se escreve ‘pior’, professor’; e ele, ‘mas o dicionário está errado’. Mas não adiantava. Eu tinha que pingar o livro antes de ir para a editora.

     “Houve momentos de muita emoção. Momentos graves. Já reitor, ele me pediu para mandar fazer a ‘roupa da viagem’. Ele era Professor Emérito. Eu brinquei, tentei desviar a conversa, ‘o senhor vai viajar para onde?’; e ele, ‘você sabe, a roupa da viagem. Eu não quero aquela de vermelho. Eu quero aquele de arminho, que rima com velhice e com carinho’. Eu mandei fazer essa roupa e ele saiu para a última viagem com ela. Ele pediu a mulher para sair da Academia Norte-Riograndense de Letras, que ele havia fundado e eu presidia.

     “Ele foi um homem de encantamento e emoção. Dois registros que faço: aluno dele, apaixonado. Eu era devoto dele, porque para mim ele é um santo. Ele ia me deixar no portão todos os dias, como se eu fosse uma personalidade. Eu era um aluno e o vivia adulando. Eu levava para ele chocolates e charutos, que ela proibido durante certo tempo. E ele vivia dizendo que, em vez de alimentar as prováveis virtudes dele, eu alimentava os vícios. Ele colocou um retrato meu na porta do quarto dele - eu com o ministro da Educação Ludwig - e dona Dahlia (esposa de Cascudo) me disse e depois ele registrou, está gravado em um depoimento lindo, que toda noite ele passava, jogava um beijo para mim e dizia: ‘Deus te dê uma noite tranquila e um dia de rei’. Era o máximo que uma pessoa podia desejar: um dia de rei, depois de uma noite tranquila.

     “Isso era Câmara Cascudo. Um homem de bom humor, de simpatia, de extraordinárias virtudes humanas”.

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Diógenes da Cunha Lima é advogado, presidente da Academia Norte-Riograndense de Letras e autor do livro Câmara Cascudo, um brasileiro feliz. O depoimento acima foi concedido com exclusividade ao site MEMÓRIA VIVA, em 22 de outubro de 1998.

 

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