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    Câmara Cascudo - Um Homem Chamado Brasil  
    Gidson Oliveira  

Câmara Cascudo - Um Homem Chamado BrasilFreyre e Cascudo: as diferenças

     Gilberto de Mello Freyre e Luís da Câmara Cascudo foram grandes amigos. Eram considerados “irmãos”, filhos do Nordeste onde nasceram, viveram e produziram valioso acervo cultural, livros do mais elevado interesse e alcance nas áreas da Sociologia, História, Geografia, Folclore, Poesia, Etnografia e Antropologia, além de exemplos de humanidade, amor ao país e ao povo brasileiro.

     Por serem vizinhos, Gilberto morando no Recife e Cascudo em Natal, separados por apenas 288 quilômetros de estrada, costumavam se avistar ou se correspondiam com freqüência, por meio de inúmeras cartas, cartões e telegramas. Se estivessem vivos, completariam ainda neste século a mesma idade, 100 anos. Cascudo no dia 30 de dezembro de 1998, dois anos mais velho; Freire, em 15 de março do ano 2000.

     Apesar da importância e da popularidade que ambos desfrutaram no Brasil e no exterior, que diferenças poderiam ser apontadas entre eles, no estilo literário e na personalidade, sendo tão próximos no que escreviam e produziam, dentro do mesmo “ninho”?

     O filho de Gilberto, professor Fernando de Mello Freyre, presidente da Fundação Joaquim Nabuco, na abertura do seminário Cem anos de Câmara Cascudo, além de destacar o trabalho cultural do escritor natalense, demonstrou os laços entre os dois intelectuais e o respeito que se devotaram ao longo de suas vidas.

     No evento, ao abrir sua palestra, ele disse que aquela homenagem a Cascudo deveria ser considerada um ato de reconhecimento ao intelectual, ao pesquisador e ao cientista que, “amorosa e organicamente ligado ao seu país, à sua província e ao seu povo”, construiu uma obra que, hoje universalmente conhecida, “é indispensável, em todos os seus aspectos, para todos aqueles, brasileiros e estrangeiros, que desejam conhecer o Brasil nas suas origens e na sua diversidade”.

     Acrescentou que não faltava razão aos melhores intérpretes de Câmara Cascudo, levando-se em conta o conjunto que ele escreveu, para considerá-lo, como o considerava um dos seus mais completos e eruditos críticos, Américo de Oliveira Costa – “não uma ilha, mas um arquipélago, pela multiplicidade e variedade dos territórios que o integram”. Segundo ele, essa opinião coincide, em muitos pontos, com a impressão de Gilberto Freyre sobre Cascudo. Para o autor de Casa Grande e Senzala, Luís da Câmara Cascudo deu aos estudos folclóricos no Brasil o máximo de “dignidade intelectual”, fazendo deles estudos sistemáticos de Antropologia Cultural, História Social e Sociologia da História, desenvolvendo, nessas áreas, pesquisas de arquivo e de campo, visitando países, principalmente a África e Portugal, para melhor entender o folclore e as raízes dessas culturas, no que se refere ao Brasil. Voltando-se para os mitos e as crendices, realizou, “como mestre insigne na matéria, um esforço individual tão vasto que parece não ser o de um homem só, mas o de vários”. Enfatizou Fernando Freyre, ainda, que a obra de Cascudo tem amplitude e ao mesmo tempo solidez.

     “Talvez possamos dizer que nessas considerações sobre Cascudo – o folclorista, o antropólogo, o sociólogo e, ainda, o ensaísta, o memorialista, o cronista e tudo quanto foi, sempre superiormente ‘o notável estudioso brasileiro’–, Gilberto Freyre projetou o seu próprio modo de ser escritor. Pois Gilberto Freyre, da mesma maneira que Cascudo, escreveu uma obra igualmente vasta sobre assuntos os mais diversos da cultura brasileira. Acrescente-se também que, Luís da Câmara Cascudo, Gilberto Freyre foi fiel à sua afirmação de que cada pessoa deve ficar o mais possível no lugar onde nasceu – mesmo atravessando constantemente os oceanos, nunca deixou de ser um homem do Recife e de sua vivenda de Santo Antônio de Apipucos, do mesmo modo que Cascudo nunca deixou de ser do seu casarão da Junqueira Aires, 377, em Natal”, afirmou.

Gilberto Freyre e Câmara Cascudo     No passado, Gilberto Freyre, apoiado pelo conselho diretor da FJN, entregou a Câmara Cascudo, na sua casa de Natal, com seus livros, sua rede e seu charuto, a medalha Massangana, da Fundação Joaquim Nabuco – por tudo o que Cascudo havia feito como cidadão brasileiro, particularmente do Rio Grande do Norte, e como sábio, com sua produção científica, seus escritos.

     Ao final de sua fala, declarou que, pelo que fizeram e criaram, Cascudo e Freyre continuavam tão vivos como sempre foram. E a respeito de Cascudo, arrematou: “Um dos brasileiros mais ilustres, mais sábios e mais honrados que conheci”.

Excerto do capítulo Freyre e Cascudo: as diferenças, do livro Câmara Cascudo - Um homem chamado Brasil, do jornalista Gildson Oliveira. Para quem quer conhecer a vida de Cascudo, este livro é obrigatório. Gildson também é autor de outras duas importantes biografias: Luiz Gonzaga - O matuto que conquistou o mundo e Frei Damião - O santo das missões.

 

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