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    Saturnino, Cascudo e o Clube dos Inocentes
    José Melquíades

Saturnino, Cascudo e O Clube dos InocentesConvite e Iniciação

     As “iniciações”, no começo, limitavam-se a um convite e aquiescência tácita aceitas pelo grupo. Mais tarde, Cascudo introduziu um “ritual”, na sua casa. Depois de selecionado o nome do novo integrante, reuníamo-nos em sua biblioteca para a “cerimônia” da aprovação. Via-se o recipiendário sentado numa cadeira de palhinha e nesse trono improvisado era coroado com a “mitra” espelhada de um “galante” do boi-de-reis. O “neófito” segurava um cetro também improvisado, às vezes um cipó de jucá, simbolizando o tirso na mão de Dionísio.

     O Clube tinha a sua senha: rei-vassalo - repetida obrigatoriamente quando nos encontrávamos. Como toda senha é um sinal convencionado para reconhecimento das pessoas, a nossa era transmitida e explicada: ao mesmo tempo rei e vassalo, príncipe e súdito. Esse dualismo de concepções opostas foi idéia de Cascudo para nos lembrar o nosso princípio de “inocência”, a criança que brinca de rei e cria seus “castelos no ar”.

     Nisso residia uma parcela do epiurismo tão repetido por Saturnino, aquela parte que recomenda a humildade; ou não era nada, apenas fruto de nossa “inocente” imaginação. Nas reuniões em casa de Cascudo, quando a cerveja espumava ou o vinho fermentava nos copos, era ele mesmo quem, lá para as tantas da fresca madrugada, tomava a iniciativa de apanhar as suas comendas e as distribuir entre nós outros, condecorando cada um a seu modo. Assim, pois, todos passavam a comendador nesse ou naquele grau. Saturnino, como professor da Marinha, recebia sempre a medalha do Mérito Naval, chistosamente, por mim identificado como a medalha do Almirante Tamanduá. Cada inocente era agraciado com uma daquelas medalhas penduradas no pescoço. Pela abundância e riqueza de detalhes no verso e anverso, essa distinção de amizade pendurada ao peito me dava a impressão da medalha milagrosa pela maneira como estava momentaneamente honorificado. Saturnino, já um tanto avinhado e avermelhado, Cascudo costumava repetir: eis o nosso conde... coroado.

Capítulo Convite e Iniciação, do livro no qual José Melquíades fala do Clube dos Inocentes. “O Clube não tinha estatuto, dispensava ata, não exigia anotação de espécie alguma. Nossa filosofia: Inocentes das maldades alheias”.

 

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