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A presença de Câmara Cascudo em Goiás
Getúlio Araújo

A presença de Câmara Cascudo em GoiásUma tarde com Câmara Cascudo

     Na chuvosa manhã de domingo tomei um avião da Varig de Goiânia com destino ao Rio Grande do Norte, cidade do Natal.

     Esta viagem de sonho a Natal, cidade do sol, famosa pelas búcolicas praias de Ponta Negra, Genipabu, Areia Preta e Redinha, foi para nós um reencontro com a terra de nossos pais e ancestrais - terra nordestina - que apredemos a amar.

     Foi em companhia do seridoense e amigo Luiz G.M. Bezerra, que na ensolarada tarde de fevereiro de 1980, visitamos o professor Luís da Câmara Cascudo, no seu casarão da Av. Junqueira Aires, construído no século passado, de cujas sacadas eu e Luizinho contemplamos o esplêndido pôr-do-sol no rio Potengi, paisagem agora escondida pelas novas construções dos casarios. Ir a Natal e não visitar o Mestre Câmara Cascudo é qualquer coisa parecida como ir à Itália e não ver o Papa no Vaticano.

     Conheci a sua biblioteca de livros raros, acervo de pintura primitivista, medalhas, condecorações e várias esculturas espalhadas no assoalho do velho casarão.

     Como observou o primo Luiz G.M. Bezerra, Câmara Cascudo estava num dia de bom humor, com vontade de conversar e disposição para nos receber.

     A sensação que tive ao abraçá-lo naquele momento de êxtase, foi a mesma que experimentei, em visita ao artista plático de Goiás, Antônio Poteiro, no seu desarrumado atelier de pintura, recolhida no Jardim América na clausura de sua arte primitivista.

     Cascudo apareceu de pijama, sorridente, em companhia de Dona Dhália Freire (sua esposa), acomodou-se em sua cadeira de balanço, acendeu um charuto Havana que médico nenhum o convenceu a abandonar.

     Conversamos sobre o Seridó, folclore e outras amenidades. Tive a honra de receber autógrafo no livro A vaquejada nordestina e sua origem - “Para Getúlio Pereira com um aboio afetuoso de Luís da Câmara Cascudo, Natal, 04-02-80”.

HUMOR CASCUDIANO

     “Sou o único potiguar que não pode negar a idade (81 anos), porque ela está marcada na porta da minha casa”. Placas de bronze enfeitam a entrada da casa do grande folclorista brasileiro. Todas com data do seu nascimento: 30 de dezembro de 1898.

     Ao abordá-lo sobre o progresso de Natal, respondeu:

     - Vejo a morte desses casarões da Ribeira da mesma forma que vejo a morte dos meus velhos amigos - respondeu o velho professor Cascudo. - Eles deram seu recado, agora não têm mais funções.

     Carlos Lyra, no seu ensaio fotográfico Uma Câmara vê Cascudo, Fundação José Augusto, Natal-RN, obteve as seguintes frases antológicas:

     - Eu sou da geração do recado. Enquanto Nabuco andou de sege e automóvel, minha geração começou a cavalo e terminou no avião a jato.

     - O homem que foi à lua levou consigo uma figa de guiné. Continua o mesmo: nascendo, amando, sofrendo, comendo e morrendo igual ao homem das cavernas. Não modificou os sistemas digestivo nem supersticioso.

     - Chacrinha? Sou fã. Movimento, cor, comunicabilidade brasileira.

     - Eu aprendi o folclore ouvindo o aboio dos vaqueiros.

     Gostava de ler na rede, seu lugar predileto, fumar charutos Havana e prosear com seus diletos amigos.

     Autor de livros importantes: Dicionário do Folclore Brasileiro, História da alimentação no Brasil, Vaqueiros e cantadores, Meleagro, Canto de muro, Literatura oral, Flor de romances trágicos, Civilização e cultura, Conde D'Eu, Geografia do Brasil Holandês, Made in África, Jangada, Jangadeiros, O prelúdio da cachaça, Rede de dormir e Coisas que o povo diz.

     Recebeu o prêmio Juca Pato (1977) e o prêmio Machado de Assis. Foi Comendador da Ordem de Rio Branco, da Ordem Militar do Cristo (Portugal), da Ordem dos Cisneiros (Espanha) e da Ordem de São Gregório (Santa Sé).

     Luís da Câmara Cascudo foi um grande espírito, iluminado por uma forte e bela inteligência.

Capítulo do livro A presença de Câmara Cascudo em Goiás. Texto do organizador do livro, Getúlio Araújo.

 

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