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    Viagem ao Universo de Câmara Cascudo
    Américo de Oliveira Costa

Viagem ao Universo de Câmara CascudoDentro do jornalismo

     Numa das passagens de O tempo e eu, assinala Cascudo: “Trabalhando em jornal e livro desde outubro de 1918...”

     Data dessa época, exatamente 18 de outubro de 1918, o início de sua carreira jornalística e, mais especificamente, intelectual. O jornal era A Imprensa, de propriedade de seu pai, que circulava desde 1914. A crônica foi a primeira de uma série que continuou, depois, em A República: Bric-a-Brac. Este tipo de trabalho jornalístico-literário sem sequência constituirá uma espécie de signo para sua obra: a continuidade no trato de assuntos em cadeia.

     Os próprios títulos genéricos das seções já sugerem essa continuidade, a “santa continuidad” de Eugênio D’Ors, de citação tão frequente nos seus livros. Ensaios literários, Cartas do Rio, Notas de História, Biblioteca, Actas Diurnas não são, evidentemente, rótulos para artigos isolados e ocasionais. Significarão, no tempo, uma após outra, as séries de suas colaborações em A República, já citada e no Diário de Natal.

     A Acta Diurna exige mais que uma simples menção, sobretudo por ser a mais importante das séries.

     Representou ela, durante vários anos, a corrente de comunicação do escritor com o grande público de sua província. Através delas, Cascudo penetrava áreas ilimitadas, de acesso mais difícil à revista e ao livro. Através delas, ficava ao alcance de leitores de todos os círculos da população. O livro seria talvez, a sua torre-de-marfim, aberta apenas a iniciados. A crônica era, ao contrário, sua descida à praça pública, às ruas, ao contacto do quotidiano ao seu derredor.

     Os assuntos preferidos? A terra comum, os seus homens e fastos, os seus atos e legendas, episódios literários ou artísticos. Em quase todas, caracterizava-se magnificamente aquela “poeira da História”, de Lemaître: sempre uma lição, um testemunho, uma evocação, uma presença, sensíveis na jornada coletiva, através dos tempos e das gerações. Reunidas, dariam material para vários volumes. Outros encargos poderá ter desempenhado, mesmo ocasionalmente, como homem de jornal: correspondente de agência estrangeira, repórter. Mas a crônica, o colunismo, a seção assinada, ou mesmo apenas identificada com as iniciais, abordando temas e coisas de sua predileção, ou correlacionados com os seus estudos, é que o distinguiu no exercício da profissão.

     Numa dessas crônicas, uma Acta Diurna, aliás, se define, como uma profissão de fé, como uma pronúncia de votos sagrados, todo o alto e nobre labor intelectual de seu autor, irradiando-se além das fronteiras do jornal. Possui a intemporalidade das coisas marcadas com o selo do Espírito.

     Foi publicada a 25 de setembro de 1943, em A República, e intitula-se O tonel das Danaides:

     “As Danaides eram cinqüenta filhas de Danao, rei de Argos. Seu irmão, Egito, tinha cinqüenta filhos. Mandou a filharada masculina casar com as primas. Danao não queria o casamento. Combinou com as filhas um plano.
     Os cinqüenta recém-casados tiveram a mais estranha noite de núpcias de que há notícias no mundo.
     Foram todos assassinados pelas esposas. Só escapou um, Linceu, poupado por sua mulher, Hipernestra.
     Júpiter condenou as Danaides às penas do Tártaro, que era o Inferno daquele tempo.
     As Danaides enchiam um tonel sem fundo. Séculos e séculos, sem pausa, sem descanso, interrupção, as moças carregavam água, despejando-a no barril furado.
     Teodoro de Banville contou o fim dessas Danaides, na Lanterna mágica.
     Os Titãs venceram os Deuses. O Tártaro ficou sem chefe, despovoado de sofredores, todos perdoados.
     Astperio anuncia a terminação da sentença:
     - Acabou vosso suplício. Largai essa penitência. O tonel está cheio.
     As Danaides pararam, pela primeira vez, há milênios. Enxugaram a fronte, descendo as bilhas infatigáveis. E dizem confusas e desapontadas :
     - Está cheio o tonel? Pois bem! Que havemos de fazer? Já estamos habituadas com o trabalho contínuo, mesmo inútil.
     Não perguntem, pois amigos, por que escrevo sempre, com ou sem leitores, com ou sem compreensão, estímulo ou tolerância.
     Deixem-me com o meu barril sem fundos. A tarefa finda significaria o repouso incômodo, a displicência, a preguiça mortal.
     Por isso, mesmo sem ter ofendido Apolo, encho, obstinado e tranquilo, a talha imperfeita, escondido num recanto de província.
     Quando não mais ouvirem o rumor da água agitada, não se dirá que Júpiter sucumbiu.
     Será que, para sempre, desfaleceu na Morte, o braço humilde do trabalhador...”

Capítulo do livro Viagem ao Universo de Câmara Cascudo, de Américo de Oliveira Costa.

 

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