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    Câmara Cascudo, um brasileiro feliz
    Diógenes da Cunha Lima

Câmara Cascudo, um brasileiro felizUm símbolo de brasilidade

     “Fiquei na província e trabalhei sem prêmio”. Luís da Câmara Cascudo

     Certo dia perguntei a Anália, criada da casa de Câmara Cascudo há mais de cinqüenta anos:

     - Anália, eu quero saber de você se realmente Cascudo é um homem culto, preparado.

     - Dr. Diógenes, pro senhor eu não posso negar não. O senhor é quase da família, um filho dele. O Dr. Luís não é tão preparado assim não. Ele estuda e escreve, estuda, estuda, estuda a noite inteirinha...

     Cascudo não parece com ninguém, é ele mesmo. Faz bem aos que dele se aproximam. O desconhecimento do saber e do ser da gente anônima constituía, aos seus olhos meninos, desordem espiritual, dissolução, desfiguração do íntimo profundo. A perfeição exige a ordem. Mestre Cascudo, fidalgo jagunço, defende o que é nosso, fala, ensina e aconselha. O extrovertido nele é uma tentativa de aperfeiçoar seus semelhantes. Desde criança, aprendeu a nunca divorciar o afetivo da sabedoria. Seu pai, o coronel Cascudo, dizia orgulhoso e feliz:

     - Meu filho é um monstro para trabalhar, mas só procura trabalho que não dá dinheiro...

     A mãe, Don’Anna, dispensava o professor particular, Franciscco Ivo Cavalcanti, argumentando:

     - O meu filhinho está dormindo. Estudou até de manhãzinha.

     Na juventude, recebia os amigos no casarão dos pais, conhecido como “O Principado do Tirol”. Ele, o príncipe, outorgava títulos nobiliárquicos aos amigos. Adauto da Câmara era Grão-Duque Chanceler. João de Vasconcelos, Conde de Babuá. Clóvis Benavides, Marquês de São Tomé. Jaime Wanderley, Duque da Floresta. Havia muitos outros, os títulos eram outorgados generosamente.

     Por volta de 1930, um comerciante que sempre havia gozado de excelente situação financeira, entra em dificuldades. Ao bacharel em Direito Luís da Câmara Cascudo coube a tarefa de cobrar 1.800 contos de réis aos devedores do coronel Cascudo. Nunca o fez. Mas pagou as dívidas da família até o último tostão e passou a se sustentar com os minguados vencimentos - um conto de réis - de Secretário do Tribunal de Justiça.

     A cidade não perdoou o rico empobrecido. Por essa época, foi fundada A Gazeta, que fez violenta crítica ao primeiro livro de Câmara Cascudo, Alma Patrícia. O jornal A Imprensa, criado e mantido de 1914 a 1927 pelo coronel Cascudo quis responder à crítica, mas o criticado impediu, argumentando com o editor:

     - Seu Gobat, Natal não consagra nem desconsagra ninguém.

     Continuou a ordenar o mundo maravilhoso em que queria viver. Nunca teve voz amarga, nenhuma palavra de rancor ou de fel.

     A inveja e a perseguição jamais o atingiram. Sua memória prodigiosa - memória auditiva como a dos rabinos que guardaram os salmos, melodia e texto, como dizia o maestro Waldemar de Almeida - não era capaz de reter o insulto. Rápido esquecia a ofensa... e quem a fazia.

     Era singular o seu amor pela correção, pelo perfeito. Certa vez, pegou um avião e foi a Fortaleza, para avisar aos diretores do Lions que não poderia fazer a conferência prometida.

     A integração de Câmara Cascudo na paisagem física e humana da nossa terra, de tão constante e uniforme, faz-nos perder a sua melhor perspectiva. Nossa música, nossos costumes, danças, alimentação, redes de dormir - tudo vário, lindo, típico, fica valorizado pelo conforto salomônico e científico do passado e do presente. Muito fácil, consequentemente, entender-se sua dedicação a nossa história, costumes, animais e plantas, porque é a sua maneira de compreender que, semanticamente, é quase amar.

     Escreveu dezenas de prefácios. Quando não podia apresentar o poeta, ensinava o que é poesia. E assim juntava ao livro prefaciado, mesmo ao mais insignificante, sua cultura, inteligência e sensibilidade.

     Cascudo era um apaixonado pelo ser humano, porque sentia no homem o halo de Deus.

     Anália tinha razão: Cascudo não fez coisa além de estudar. Sua vida inteira foi dedicada ao estudo e seus desdobramentos: escrever, observar, comparar, deduzir, descobrir as matrizes do comportamento humano do homem brasileiro, da sua origem a sua destinação. Em quase 150 livros publicados, registrando suas pesquisas com beleza e precisão de estilo, Luís da Câmara Cascudo é uma fonte permanente de consulta e ensinamento, guia e exemplo de dedicação às coisas superiores. Falava a linguagem da sabedoria universal com sotaque nordestino.

     Sou testemunha de que Cascudo não fazia concessões quando trabalhava. Sempre registrou com total fidelidade o que viu e ouviu. Desconfiava da interpretação apressada e... imaginária. Sabia que, quando se cava um poço, a primeira água sai barrenta.

     Foi meu professor de Direito Internacional Público, na antiga Faculdade de Direito de Natal. Como muitos de seus alunos, perdíamos outras matérias para voltar as suas aulas. Aprendemos Direito à luz da Etnografia e da Antropologia, em exposições brilhantes. Aprendemos com ele que as palavras são o continente das ações humanas, o instrumento da cultura.

     Em Luís da Câmara Cascudo, a erudição se acomoda tão bem como pijama velho. A verdade não precisa receber uma camada de pátina e gravidade para ser verdade. O bem-querer pelos estudos, a imensa biblioteca de obras mestras, as leituras noturnas e diuturnas - foi isso que possibilitou seus livros, sua tarefa de limpar metais para que não oxidem, seu trabalho de restauração do conhecimento humano e do brilho primitivo das palavras.

     Câmara Cascudo nasceu na rua das Virgens (que hoje tem seu nome), Natal, em 30 de dezembro de 1898. Foi o único filho do coronel Francisco Justino de Oliveira Cascudo e Don'Anna da Câmara Cascudo. Batizou-o o padre João Maria Cavalcanti de Brito, o popular padre João Maria, canonizado pelo amor do povo norte-rio-grandense. Teve infância de filho único de pais ricos, criado com zelo e temor às doenças que levaram seus três irmãos na primeira infância. Em O tempo e eu, Cascudo descreve, como dizia Machado de Assis, a sua primeira alegria pública:

     “Fui menino magro, pálido, enfermiço. Cercado de dietas e restrições clínicas. Proibiram-me movimentação na lúdica infantil. Não corria. Não saltava. Não brigava. Nunca pisei na areia nem andei descalço. Jamais subi a uma árvore. Cuidado com fruta quente, sereno, vento encanado! Brincava com meninas. Um quarto cheio de brinquedos para exercícios sedentário, tudo rodando no solo ou em cima de uma mesa de mármore, que ainda possuo. Aprendi a ler quase sozinho, aos seis anos, graças ao ‘Tico-Tico”, proezas de Chiquinho e Jagunço, Juquinha e Gibi, solfejando as cançonetas de Eustórgio Wanderley, que conheceria no Instituto Arqueológico Pernambucano, emocionando-o porque cantava muitas.

     “Minha primeira professora foi dona Totônia Cerqueira, magra, imperiosa, serena, voz seca, adivinhando métodos intuitivos, mas carinhosa e acolhedora de convívio. Aprendi com ela os fundamentos inabaláveis de tudo quanto sei. No fim de ano, amarrou-me uma fitinha azul no braço, declarando-me aprovado no curso adorável onde fui o único aluno. Todas as comendas e condecorações posteriormente recebidas não tiveram a significação jubilosa daquela fitinha azul. Alguns dias andei com ela no braço, exibindo-a como um troféu. Minha primeira alegria pública”.

     Antes de estudar no Atheneu Norte-Riograndense, então a mais alta instituição de ensino do estado, o menino Cascudo enfrentou o Externato Sagrado Coração de Jesus, dirigido por duas irmãs, Guilhermina e Maria Emília de Andrade. Depois, estudou em casa, com o professor Pedro Alexandrino - literatura clássica - e com o professor Francisco Ivo Cavalcanti, conhecimentos gerais. Este último mais conhecido como Ivo Filho, era poeta, jornalista, advogado, conhecedor de pintura, música e teatro. Em 1914, Cascudo com 16 anos, Ivo Filho conclui que já havia ensinado tudo ao aluno e deseja, por escrito, que ele “desenvolva o seu belíssimo talento”. Nessa fase, Câmara Cascudo sentiu o peso da solidão, a ausência de companheiros. Mas a solidão enriqueceu sua vida interior, aguçou o seu sentido de observação, fez crescer sua capacidade de amar os livros.

     Também viveu no sertão, quando menino. Mas confessa que voltou “deliciosamente” para Natal e cresceu com a cidade. Compreendeu-lhe os encantos e desencantos, descobriu-lhe os aspectos provinciano e universal. Construiu no sobrado da avenida Junqueira Aires, 377, um patrimônio cultural que há de desafiar os tempos. Neste século, não houve iniciativa científica, artística ou literária no Rio Grande do Norte em que não houvesse a presença, o halo, a inspiração do Mestre Cascudo.

     Na juventude, usava monóculo, polainas e uma bengala da Índia. Era elegante, disputado pelas moças de Natal. Com a finalidade de ter seu próprio laboratório e para ser um doutor, como convinha ao status de sua família, Luís da Câmara Cascudo estudou Medicina na Bahia e no Rio de Janeiro. Abandonou o curso no quarto ano, resolveu estudar na Faculdade de Direito do Recife, onde se formou em 1928.

     Além dos livros, teve uma grande paixão na vida: uma menina que completara 16 anos quando ele a conheceu. Tinha a delicadeza e o nome de uma flor: Dahlia. Foi um namoro romântico, com cartas apaixonadas que o noivo mandava do Recife, onde estava terminando seus estudos. Trechos dessas cartas:

     “Toda minha saudade não permite expressão de palavras. Tenho tua figura dentro dos olhos e a vejo por toda parte. Na solidão das minhas noites silenciosas e vazias, ouço tua voz, inesquecível e linda, soando no espírito como uma chuva de ouro!...

     “Releio todos os dias as tuas letras. É uma hora de saudade serena e doce. Minha garota. chamo-te assim porque te amei quando eras criança. Inda te vejo de saia azul, meias negras, e a bolsa de colegial.

     “Noite alta, sem dormir, preso à lembrança de teu nome e à saudade de teus olhos, ouvia tua voz... tudo isso está longe de mim. Só o luar não mudou.”

     Continuou sendo pela vida afora um romântico incurável.

     Luís da Câmara Cascudo foi um santo que fez milagres em casa. O carinho e o respeito populares sempre estiveram a seu lado. Estudantes e professores pediam-lhe orientação diária, a quem nunca se negou. Pelo contrário, aproveitava para dar lições de sabedoria e bom humor. O acadêmico Onofre Lopes o chamava de “nossa mais antiga universidade”. Jorge Amado, no período do governo militar, reclamava:

     “Estivéssemos num tempo menos melancólico e limitado, estivéssemos num tempo de democracia e cultura, e por toda parte do Brasil seriam levantados monumentos a esse homem que atravessou sua existência (pobre de bens materiais, mas rico de alegria criadora) no estudo e na invenção da pátria, da verdadeira nação brasileira, do homem brasileiro. Temos muitos escritores importantes, sábios de alta qualidade, artistas magníficos, temos intelectuais de grande valor. Mestre, porém, temos poucos. Mestre no sentido amplo da palavra: construtores da realidade, da verdade brasileira, assim como Luís da Câmara Cascudo”.

     A bibliografia do Mestre é espantosa, em quantidade e qualidade. A História da alimentação no Brasil seria bastante para consagrar qualquer autor nacional. Civilização e Cultura é obra de um sábio. O Dicionário do Folclore Brasileiro, primeira e grande sistemática do folclore no Brasil, não é trabalho para ser feito por um só homem, mas por uma universidade. Cascudo fez tudo sozinho, sem sair de Natal.

     Fui designado advogado pelo Mestre Cascudo para que ele tivesse reconhecido o direito de não votar na velhice e para propor uma ação contra uma editora inglesa, que havia publicado Superstições e Costumes sem sua autorização. Estabeleci contato com o advogado londrino da editora, que se mostrou favorável à possibilidade de indenização, mesmo dizendo que a editora também havia sido lesada. Alguns dias depois, recebo um bilhete de Cascudo, pedindo que eu baixe em seu terreiro. Ele estava feliz e tinha uma comunicação a me fazer:

     - Desisti da ação. A editora me mandou 50 exemplares. A tradução é bem feita, boa impressão, e respeitaram até meus parágrafos. E o melhor: estou em inglês, “lively!”

     Pouca gente sabe que Cascudo escreveu poesia, embora o seu Canto de muro seja considerado um grande poema em prosa. O poeta Câmara Cascudo (que o leitor vai conhecer nos quatro poemas incluídos neste livro) também está presente em algumas de suas pesquisas marcadas por intensa beleza poética, de que são exemplos Meleagro, Vaqueiros e cantadores, Flor de romance trágicos.

     Escritor, historiador, folclorista, etnógrafo, antropologista cultural, crítico, sociólogo, orador, conferencista, Luís da Câmara Cascudo possui, acima de tudo, o dom da prosa animada, viva, cintilante, com a faculdade rara de espalhar bom humor e irradiar simpatia. Ele se confundia com a sua cidade Natal, onde era amigo de todos, do mais humilde pescador das Rocas ao governador do Estado. Como há símbolos merecedores de nossa veneração, bandeiras, brasões, cores que identificam a nossa emoção, há homens que, pelo comportamento, pela produção, pelo pendor de amar as coisas e as gentes, passam a ser venerados como um símbolo. Luís da Câmara Cascudo é o nosso símbolo de Brasilidade.

     Um pau-brasil humano. Um brasileiro que cumpriu sua vocação irresistível de ser feliz.

Capítulo introdutório do livro Câmara Cascudo, um brasileiro feliz, de Diógenes da Cunha Lima.

 

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