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Uma pequena mostra do bom humor e do pensamento de Cascudo
* * * Faço questão de ser tratado por esse vocábulo que tanto amei: professor. Os jornais, na melhor ou na pior das intenções, me chamam folclorista. Folclorista é a puta que os pariu. Eu sou um professor. Até hoje minha casa é cheia de rapazes me perguntando, me consultando. * * * O vício da literatura grego-latina vacinou-me contra as ditaduras mentais contemporâneas. * * * As mulheres de Maria Boa (famoso prostíbulo de Natal) tem uma predileção pelo grego, em detrimento do latim. Usam a palavra “gala”, e não esperma. Gala é leite em grego. * * * O Brasil não tem problemas, só soluções adiadas. * * * De 1920 a 1926, quantos tipos de rapazes e meninas ensinaram-me muito mais do que aprenderam comigo. * * *
* * * Eu chamo a minha biblioteca de A Babilônia. * * * Amizade é amor sem sexo. * * * Domingo, 21 de abril, 39o aniversário do meu casamento. Ao despertar, a noiva de 1929 desaparecera. Fora assistir à missa na capela do Hospital. De regresso, beijos, abraços, congratulações. Dália declara não estar arrependida e me confesso capaz de reincidência com a mesma vítima. * * * Eu não conheço Carlos Drummond pessoalmente, mas somos amigos íntimos. Ele ainda estava em Minas Gerais e já se correspondia comigo. O que acho é que Drummond é superior ao prêmio Nobel. Você vai entender essa minha independência de julgar. Quem concede o prêmio Nobel? Ninguém sabe o que é a Academia de Ciências de Estocolmo. Você não sabe o valor dos homens que a compõem. Não conhece nenhum livro, nenhuma frase, nada deles. Eu faço muita questão de conhecer a idoneidade do juiz para julgar a sentença. * * * Eu o conheci em 1919, ele morreu em 21. Passando pela Faculdade de Medicina, ele foi nos visitar. Estava em campanha presidencial, competindo com Epitácio Pessoa. Alguém chegou esbaforido e avisou: “Rui Barbosa vem aí”. Não ficou um estudante na cadeira. Todo mundo arribou, inclusive os professores. A faculdade não existe mais, era na praia Vermelha, na Urca. De volta, tomamos a rua, de braços abertos, e ele teve que parar. Fez um pequeno discurso do automóvel, até hoje eu guardo um trecho na memória: “A política, senhores estudantes, é uma verminose brasileira. Inclina o carão severo e sinistro, aceita o falsete da voz insidiosa e burla as consciências, falando todos os idiomas da mentira”. Só Rui fazia isso. Efetivamente a mentira é poliglota. Só Rui dizia isso. * * * É o cinema em casa, o mundo em casa. É o tapete mágico de Aladim, em que você viaja sem sair do lugar. Tem função deturpadora, e não orientadora ou elevadora. Mas para os velhos surdos, meio cegos e jumentos como eu, aos 83 anos, é a vida. Para quem não chega à janela, não lê jornais como eu, a televisão é minha vida, a minha viagem. * * * Não me interessei por nada no mundo. Daí a minha fidelidade mental ao meu trabalho. Sou um brasileiro feliz, diz Diógenes. Vivia minha vida e não a vida indicada pelos outros. Não fui o que quiseram, fui o que senti, a volição de ser. Hoje, sou um resto de idade, estou fora do ar, tenhos dias eufóricos, compreendeu? O trabalho para mim não era maldição. Era como o trabalho gostoso de fazer um filho. Prazer. * * * Se eu pedisse, o meu pai compraria pra mim a Ursa Maior. * * * Exame oral. O estudante é Sylvio
Piza Pedroza, que depois seria governador do Rio Grande do Norte. * * * De 1920 a 1932 fui devorador de livros e Henrique Castriciano seguia o ritmo delirante porque não era capaz de disciplinar-me quem nunca tivera disciplina. * * * Fecha esta máquina fotográfica, meliante. Há 70 anos que sou perseguido por tua espécie. Agora, repórter eu já fui. Lembro-me que, quando íamos entrevistar, nossa liberdade era grande. Se o homem não dizia nada, a gente inventava. Em 1915, meu pai possuía um jornal. Nele comecei como repórter. * * * Temo as reportagens completas, as confissões pormenorizadas, obtidas pelos jornalistas * * * Não se assombre, em Natal eu sou o único pecador profissional. Os outros são amadores. * * *
* * * A recompensa do trabalho é a alegria de realizá-lo. Quando termino um trabalho, estou pago. * * * Sou um homem que não desanimou de viver e acho a vida cheia de encantos. * * * Eu sou apenas uma célula, uma pequenina célula que procura ser útil na fidelidade da função. * * * Sou um homem mais de fé do que de culto. Posso recusar a extrema-unção, vou me entender pessoalmente com Deus. * * * Termino com saudades meu trabalho, libertador das erosões destínicas e demais cortesãos da velhice. * * * Um jornalista de Luanda entrevista o futuro
autor de A História da alimentação no Brasil e
Made in Africa. * * * Foi apresentado a um figurão da
diplomacia, no Itamaraty.
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