Depoimento

     O texto abaixo é o roteiro do programa Depoimento TV Cultura – Cascudo, da Secretaria de Cultura, Ciência e Tecnologia do Governo do Estado de São Paulo, produzido em 1978. Nele temos depoimentos de pessoas que conviveram com Cascudo e que colaboraram com considerável material para a construção deste site como Carlos Lyra, Vicente Serejo, Diógenes da Cunha Lima e Anna Maria Cascudo. Temos também o próprio Cascudo falando de si mesmo. O programa foi depois exibido pela TV Universitária, em Natal, na série Memória Viva.

Cantadores: David Nogueira e José Alves Sobrinho

Amanheci balançando
e uma viola tocando
e o repente tá sonhando
no que possa imaginar
o que posso contentar
ao lado de Zé Sobrinho
pegado no velho pinho
e no quadrão da beira mar

Beira mar, beira mar, beira mar
O quadrão só é bonito
Quando é feito a beira mar

Tenho amor e carinho
através do velho pinho
meu prezado amiguinho
nós temos que apresentar
nossa terra potiguar
e este bom torrão daqui
José Alves e David
Num quadrão da beira mar

Beira mar, beira mar, beira mar
O quadrão só é bonito
Quando é feito a beira mar

Tô na terra de Poti
Nas margens do Potengi
Terra mais linda e Ceci
Do que possa admirar
A cultura popular
E nela somos estudo
E admiramos Cascudo
Num quadrão da beira mar

Beira mar, beira mar, beira mar
O quadrão só é bonito
Quando é feito a beira mar

Luís da Câmara Cascudo
Que toda hora eu saúdo
Por isso eu conheço tudo
Eu me posso representar
O seu prêmio popular
E a sua filosofia
Num abarca a poesia
Num quadrão da beira mar

Beira mar, beira mar, beira mar
O quadrão só é bonito
Quando é feito a beira mar

Carlos Lyra

Carlos Lyra     Existe no Rio Grande do Norte dois grandes monumentos históricos: esta Fortaleza do Reis Magos, que serviu de ponto de apoio para a dominação portuguesa do Norte e Nordeste do país, e Luís da Câmara Cascudo, nosso grande mestre, monumento vivo, telúrico, que a cidade toda venera.
     E esta veneração chega ao ponto de seu nome estar tanto num terreiro de umbanda, como no Museu de Antropologia da universidade. É placa da rua onde nasceu, e está até na entrada da cidade, num painel bem grande: Esta é a terra de Luís da Câmara Cascudo.

Luís da Câmara Cascudo

Cascudo - Foto de Carlos Lyra     Tenho a impressão de ser o que chamam na Itália, Uomo qualunque, um homem igual aos outros. Toda a minha vida se resume naquele dois versos de Afrânio Peixoto: Ensinou e escreveu, nada mais aconteceu.
     Sou de famílias tradicionais do Norte de Portugal e da ilha de São Miguel do Açores, vindas para o Rio Grande do Norte no começo do século XVIII. Não tiveram grande notoriedade, nem nota de desabono. Foram proprietários, fazendeiros, pequenos industriais, membros do Partido Conservador, por isso é que eu sou Cascudo, não o escaravelho, nem o peixe, o precostomus loricariae, mas, simplesmente, porque meu avô paterno era um dos chefes do Partido Conservador, e o Partido Conservador que chamavam Saquarema, também tinha um apelido de Partido Cascudo, quer dizer, teimoso, obstinado, e deram para chamar o meu avô de “o velho Cascudo”. Como eu sou filho único, para não desaparecer o título, comecei a usar também, porque meu pai foi o único a usar. Assim, não há família Cascudo, é um apelido que se tornou patronímico.
     Fui uma criança profissionalmente enfermiça: pálida, doente, com pulmões suspeitos. Assim, não tenho recordações de infância, nunca corri, nunca subi uma árvore, nunca brinquei livremente, passava a vida sentado vendo figuras e os jogos parados. Não tive companheiros de infância, decorrentemente, para meu destino, já a minha meninice, a minha infância, foi uma infância de livros, de ver figura e ver a paisagem que se transformou numa paisagem humana, e aí começa o mistério da vocação.
     Sempre amei as histórias contadas pelas amas e pelos espetáculos populares: a feira, o mercado, as procissões. Sempre amei o cotidiano e não o excepcional, e decorrentemente, os meus livros vêm dessa paixão pelo normal e pelo cotidiano.

Américo de Oliveira Costa

     A obra de Cascudo é tão numerosa quanto importante. Ela se distribui por mais de quase 150 livros publicados. E esta obra é a do historiador, é do antropólogo, é do etnólogo, é do folclorista, é do sociólogo, e até do romancista de costumes animais, como ele diz ser no livro chamado Canto de muro.
     Muito interessante, é salientar que essa grande obra, essa vasta obra foi toda construída aqui no Rio Grande do Norte. Daqui Cascudo pouco saiu, para pesquisas, como andou fazendo pela África, para o seu grande livro, A História da alimentação no Brasil, mas aqui em Natal, na sua casa na Junqueira Aires, é que ele construiu toda a sua grande obra: Literatura oral, Superstições e costumes, Coisas que o povo diz, e dentro da sua obra, o que significa sobretudo, é a presença do pesquisador.

Luís da Câmara Cascudo

Câmara Cascudo - Foto: Carlos Lyra     Eu gostaria de saber qual o traço mais marcante da cultura popular brasileira. Gostaria de saber, pelo seguinte, porque uma cultura popular é milenária e contemporânea. É de todas as épocas e do momento. A nossa vem das fontes mais antigas e variadas. Das indígenas, de onde vieram os nossos indígenas, qual as fontes étnicas culturais deles; quantas raças a África exportou nos navios negreiros para o Brasil.
     Cada um grupo étnico, era uma cultura, uma memória, uma projeção na nascente cultura brasileira, que era a miscigenação. Portugal é um tabuleiro de raças. Ali estavam todos os romanos, os celtas, os árabes e tudo isso veio para o Brasil, e naturalmente, logicamente, desse atrito a forma foi a mais inesperada, e a força de concentração mantém os elementos perenes, mas o tempo vai diferenciando, aculturando todas essas coisas.

João Alfredo Rabaçal

     Cascudo apresenta a maior credibilidade nas suas pesquisas. Ele recolhe, ele analisa, ele interpreta, ele vai à procura das origens dos fatos que registra. Sua vastíssima obra, nós poderíamos destacar o Dicionário do Folclore Brasileiro, fonte de consulta indispensável a todos aqueles que querem conhecer, que querem estudar a chamada cultura brasileira, a cultura popular brasileira, aquela cultura espontânea, que não advém de pressões de nenhuma natureza, mas que brota, que vem como o próprio homem na sua formação.

Luís da Câmara Cascudo

Câmara Cascudo - Foto: Carlos Lyra     Posso dizer que o Dicionário do Folclore Brasileiro, que eu fiz em tantos anos, representa, incontestavelmente, o mural das minhas habilidades no tempo e no espaço. Ali estão as minhas curiosidades, o segredo, a alegria da minha preferência.

Carlos Lyra

Carlos Lyra     Cascudo é um provinciano incurável, mas ele viajou seis passaportes, como ele costuma dizer. Ele, apenas, ficou em Natal, mas da província projetou-se no mundo.
     O que diferencia Cascudo de um scholar de Oxford, é que Cascudo é acima de tudo um repórter. Um exemplo, Cascudo na África estudando alimentos para escrever a História da alimentação do Brasil. De repente ele se vê preso, atento ao andar rebolado de uma negra que passa. Presta atenção: ela rebola quando anda ou quando dança? Requebrado que ele estudou no Made in África (1965).
     O professor de uma universidade americana, alemã, é incapaz de sair do assunto, porque ele só sabe seguir o tema único, e Cascudo como repórter, topa, a primeira coisa interessante ele vê, desperta sua atenção e registra o fato. O professor fica na unidade, ele só vai estudar isto, tem milhares de assuntos interessantíssimos que passam, esfregando as ventas dele, não vê.
     É como numa partida de futebol, o bom repórter documenta também a arquibancada, a assistência, o juiz ladrão e o vendedor de sorvete, está vendo tudo. Quando chega em Natal, sabendo este gesto de influência polinésia, ele vai com a sua erudição, pesquisá-lo aqui na província.
     Cascudo também responde perguntas triviais, como no caso de um pai de uma noiva, que chega aflito querendo saber que braço deve dar a filha ao conduzi-la ao altar? E, às vezes, as indagações chegam às raias do absurdo, como no caso do poeta Newton Navarro, altas horas da noite, com uma turma de amigos etilizados, vem indagar do mestre:
     - Mestre, devo soltar o canário desta gaiola?

Vicente Serejo

Vicente Serejo     Eu sempre o vejo como um arquivo vivo e muito importante para o exercício jornalístico, pelo volume de informações que Cascudo sempre tem para o jornalismo. Se alguém procurar Cascudo, por exemplo, para fazer uma matéria sobre a origem da rede de dormir, não vai encontrar Cascudo com a postura de um historiador, nem do etnógrafo. Cascudo vai receber o repórter com uma simplicidade muito grande, dentro de sua própria rede, vai falar da rede de sua avó, de seus pais, vai puxar gravuras antigas, vai se aprofundar no tema, sem necessariamente, perder a noção de primeiro plano. Cascudo é sempre um grande repórter, que informa pra gente, com a precisão de um jornalista, de uma linguagem seca, pela informação precisa. E ele é capaz de responder a qualquer pergunta sem, necessariamente, cair no academicismo, nem no bacharelismo. Cascudo foge a esse tipo de coisa. Para o jornal eu, como repórter, não vejo condições de se esquecer Cascudo.
     Ele, embora tenha uma casa com coisa velhas e seja aparentemente um velho, é um arquivo vivo capaz de revelar, inesperadamente para o grande jornal, o lead técnico que o jornalista busca. Ele não sabe, necessariamente, a técnica de jornal, mas ele sabe o que é jornalístico e sabe o que nós precisamos. Eu sou da geração que não sabe escrever sem ouvir Cascudo, principalmente sobre traços culturais, sobre a tradição da cultura brasileira.

Luís da Câmara Cascudo

Câmara Cascudo - Foto: Carlos Lyra     Meu pai fundou um jornal em 1914, e em 15, com dezessete anos eu era repórter. O hábito, a vida de repórter, junto as leituras de movimento, fizeram de mim a curiosidade viva pelo povo, ouvindo, anotar e divulgar. Fui, pois, um bom repórter, decorrentemente, um etnógrafo. Em 1918, comecei a ser professor...

Reitor Domingos Gomes de Lima

     O mestre Cascudo foi meu professor de Direito Internacional, na antiga Faculdade de Direito, da nossa universidade. O mais interessante como professor, é que comumente ele aproveitava os momentos destinados a sua aula, para falar de sua experiência como homem e, sobretudo, da gente, do povo, das visitas que ele fazia aos países, e eu me lembro muito bem, agora, quando de uma viagem que ele fizera a África, ele comparando os costumes e os hábitos nordestinos com os africanos. Como ele mostrava para nós alunos, a identificação do povo africano com o povo nordestino. E, como aluno, pouco aprendi de Direito Internacional com o velho mestre, mas aprendi sobretudo, do meu velho mestre, do mestre de todos nós, tudo sobre o folclore, tudo sobre cultura popular, sobre o hábito e costumes da nossa gente e do nosso povo.

Luís da Câmara Cascudo

Câmara Cascudo - Foto: Carlos Lyra     O que eu acho que define o homem brasileiro, é a rapidez da sua adaptação. É a sua miscigenação mental. O pau de arara, quatro anos depois, em São Paulo, é tão paulista como o caipira de Santos ou de Piracicaba. No Amazonas ninguém pode diferenciar o cearense de um local. Assim, vejo a facilidade de adaptação do brasileiro em toda parte: em Portugal, na Espanha, na França, só é diferente a pele e a pronúncia, mas os hábitos, as interjeições, o andar, são impecáveis. É o que eu acho. É um perigo, porque essa descaracterização brasileira não muda e não toca a perenidade medular do seu temperamento. Em certos momentos ele é o brasileiro legítimo.

Veríssimo de Melo

     Eu trabalhei muitos anos no jornal A República, ficava quase vizinho à casa de Cascudo. E achava estranho, todo dia, às duas horas da tarde, ele saía de casa, paletó, gravata, chapéu, charutão no bico, sozinho, em direção à Ribeira. O que é que Cascudo vai fazer todos os dias, duas horas da tarde, lá pra Ribeira, bairro comercial nosso? Um dia vou seguir Cascudo, pra saber o que faz.
     Certo dia eu o segui. Ele atravessou a rua Doutor Barata, conversando com um com outro, abraçando um e outro, finalmente dobrou a avenida Tavares de Lyra e entrou num barzinho, um barzinho vagabundo. Eu tive até certo acanhamento de entrar. Demorei um pouco, finalmente tomei coragem e entrei: ele estava sentado na cabeceira de uma mesa, ao lado uma garçonete, e do outro lado um motorista da praça, todos os três tomando cerveja. Eu disse:
     - Mestre, o que está fazendo aqui?
     - Você num está vendo, meu filho, estudando costumes.

Olívio Domingues da Silva

     Aqui tem passado diversas pessoas, inclusive o Cascudinho, um homem de uma simplicidade extrema, não tem grande nem pequeno pra ele prestar atenção, que cativa a gente. Aqui ele conviveu com muitas pessoas, com generais, oficiais da Marinha. Aqui ele trouxe José Amado, aqui ele trouxe Amélia, José Condé, Carlos Pena Filho, inclusive o Príncipe de Bragança. Aqui ele trouxe todo esse pessoal e aqui conviveu nesse pequeno ambiente, você está vendo, e aonde ele chamou por muitas vezes, escritório dele. Um homem simples, convivendo com todo o mundo, todo o mundo gostava dele, juntava aqui gente, ele ficava horas e horas conversando e o povo todo escutando ele aqui.

José Alexandre Garcia

     Para falar sobre Câmara Cascudo numa mesa de bar, só falando sobre o boêmio Cascudinho, não aquele monstro sagrado das letras, mas aquele homem popular, que saía do seu castelo na Junqueira Aires, e se juntava com o povo nas mesas dos bares. Eu me recordo de Cascudo, aqui neste Bar Delícia, quando nós estávamos numa mesa onde estava Newton Navarro, o tipógrafo Moisés Vilar, e chega Cascudo, e perguntou qual era o motivo que estávamos tomando aquela cerveja.
     - Não há motivo nenhum, simplesmente porque hoje é um dia comum, e nós estamos alegres e resolvemos tomar esta cerveja.
     Então, Cascudo vira-se e diz:
     - Eu tenho a impressão que hoje é o aniversário de Moisés Vilar.
     E então, depois que Cascudo disse isso, com aquela boemia dele, com aquela expressão amiga, fumando aquele charuto, transformou-se realmente no aniversário de Moisés Vilar.
     Moisés compenetrou-se que era o aniversário dele, mandou baixar cerveja, pagar cerveja, os amigos também se compenetraram que era o aniversário, foram comprar um bolo, compraram um presente, houve discursos e, então, aquilo ficou uma noitada feliz aqui no Bar Delícia, com Cascudo falando, com os amigos falando, com Moisés se emocionando e até chorando.
     E então toda a vez que eu me encontrava com Cascudo dias depois disso, eu perguntava:
     - Cascudo, qual é o aniversariante do dia, porque nós precisamos festejar?

Newton Navarro

     O que impressiona mais em Cascudo, é a fidelidade à terra. Ele é uma planta do Rio Grande do Norte que tem nome: Luís da Câmara Cascudo.

Pedro Barbosa

     Então vou relembrar aqui nesta hora, neste momento, na minha vida funcional, um funcionário público estadual, há 42 anos no Estado, sem uma repreensão até hoje, graças ao bom Deus. Mas na época, antes de eu completar os 42 anos, eu cometi um erro - este erro não pode ser dito aqui - , e ele então, nesta casa, por intermédio da saudosa memória que eu disse a senhorita, chamava-se Alcides Cicco, então ele me chamava de compadre, mas não havia nada de compadre, era compadre de brincadeira, era compadre só da hora da bebida, era compadre deste casa velha.
     O erro que eu pratiquei na minha vida funcional, ele teve o gesto para comigo. Eu recebia os vencimentos dele nessa época. E todas as vezes que eu chegava lá, eu dizia: “Cadê o compadre?” E nesse dia ele chegou, e eu ia ser suspenso por quinze dias, por Américo de Oliveira Costa, o papel já estava na máquina. E todos os funcionários diziam: “Pedrinho estás acabado. Vais ser suspenso por quinze dias”. Eu fiquei completamente nervoso, quando se aproxima Luís da Câmara Cascudo, e disse:
     - O que que há com o meu compadre?
     Aí saía nesta hora, o homem que era doutor Américo de Oliveira Costa e ia me dar quinze dias de suspensão.
     - E ele é seu compadre?
     - Não estou dizendo, o que que há com o meu compadre! Neste momento, subiram e rasgaram a minha punição, e eu tenho esse marco para com ele, para dizer, e digo a verdade, ainda hoje tenho com ele, esta alegria, esta saudação.

Luís da Câmara Cascudo

Câmara Cascudo - Foto: Carlos Lyra     Porque, há mais de sessenta anos, estudo os mesmos motivos. Porque tenho amor a eles. Eu pesquisava nos criouléus, nas praias, nas feiras, nos mercados. A cidade foi a minha universidade.

Reitor Domingos Gomes de Lima

     Cascudo foi a universidade antes dela ter sido criada. Ele foi o embrião da nossa universidade, e criou, muito antes de se pensar na nossa universidade, a universidade popular, a universidade sem muros, a universidade sem hábito, a universidade do povo. E hoje nós temos ainda alguns professores que participaram, como ele, ensinando Grego, Latim, mas ensinando, também, a arte do povo, ensinando os costumes, discutindo com o povo os aspectos que interessavam, os aspectos sociais econômicos que interessavam ao povo natalense, ao povo potiguar. Por isso ele se antecipou no Rio Grande do Norte, como professor e como homem identificado com o seu povo, povo que ele representa como símbolo, como temos ainda hoje em Cascudo, o símbolo nosso.

Luís da Câmara Cascudo

Câmara Cascudo - Foto: Carlos Lyra     Fui professor de Direito e daí pensar que os órgãos tem direito de aposentadoria, aposentadoria plena. A minha audição aposentou-se, e com ela perdi as intimidades do som. Ora, para um professor de cinqüenta anos de exercício, falando sem ler, habituado às narrativas, aos pareceres e às disputas, não ouvir a voz humana, não ouvir o canto e a música, para quem foi vinte e cinco anos professor de História da Música e pianeiro. Não ouvir, pois, a voz humana, que é a projeção mais viva da individualidade, o timbre, a entonação, a veemência, a doçura... nada. Mas a surdez em Renier, em Beethoven, foi uma força propulsora, em mim é uma virtude contemplativa, é a maneira de ensimesmado, eu fazer os meus depoimentos silenciosos do meu passado e a história ainda indecisa do meu futuro.
     Longe de exasperar-me, a surdez torna mais suave os contornos da vida. Eu penso em Manoel Bandeira, que era surdo também, e toda vez que dizia que era surdo, completava “Graças a Deus”, porque a surdez o livrara de milhares e milhões de frases inúteis, de pareceres e de confidências dispensáveis.
     Por isso, eu agradeço, eu, não Manoel Bandeira, eu agradeço a surdez ter me evitado tanta coisa desagradável. Ouço o que me apraz, porque quem está falando para mim, eu transformo a gesticulação em idioma, e empresto valores fisionômicos a sua eloqüência.
     Assim, é sempre agradável ouvir o que não se ouve, ouvir com a sensibilidade.
    Sou uma coisa rara. Sou, sabidamente, um velho bem humorado. É porque a surdez põe muito de distância, arminho e pelúcia nos pensamentos. É preciso muita obstinação para me ser desagradável, é preciso escrever e insistir, mesmo assim a mensagem contundente, perde os ganchos e as arestas, e eu transformo os cacos de vidro em bolinhas para os meus netos brincarem.

Diógenes da Cunha Lima

Diógenes da Cunha Lima     Cascudo é um homem preocupado com coisas pequenas, menores, e as coisas que ele considera universais. Um dia eu cheguei na casa dele, perguntei: - Professor, o que diabo quer dizer nhem-nhem-nhem? O povo diz, “fulaninho fica naquele nhem-nhem-nhem e não resolve nada”. E ele me mandou embora. Mais de um mês depois, ele me manda um bilhetinho: “Favor baixar no meu terreiro”. Eu fui, e ele estava com a explicação e, verdadeira ou não, é linda. Ele dizia que nhem-nhem-nhem era do verbo tupi, quer dizer, falar, então, fica falando sem resolver as coisas.
     Esse é o Cascudo, que tem um humor permanente na vida dele, brinca com todas as coisas. Faz milhares de prefácios de natalenses, de pessoas daqui, sobretudo, e se recusa, às vezes, a fazer prefácios de figuras nacionalmente conhecidas. Uma vez ele escreveu sobre um livro de poemas daqui, que era uma caixinha de música de porcelana chinesa. E um dos nossos amigos, o procurou:
     - Cascudo, dê-se a respeito. Você diz que um homem, um trovadorzinho daquele é uma caixinha de música de porcelana chinesa... (uma trova ruim que ele fazia).
     - Meu filho, o que é uma caixinha de música de porcelana chinesa? É aquele negócio que faz dlim, dlim, dlim, acabou-se.

Luís da Câmara Cascudo

Câmara Cascudo - Foto: Carlos Lyra     Porque resisti aos feitiços da política eleitoral e os amavios dos postos administrativos, ainda tão sedutores. Simplesmente porque não encontrava neles equivalência amável as minhas predileções. Resisti mesmo ao Senado, insistência do doutor Getúlio Vargas. Nunca fui secretário de Estado, nem oficial de gabinete, fui sempre presidente da minha república, escravo das minhas predileções, escravo negro de eito, cantando, cortando cana ou despolpando algodão nas minhas propriedades invisíveis, mas existentes em mim mesmo.
     Fui, como serei até fechar os olhos, um grande trabalhador nos terrenos da minha simpatia. Os outros, tão respeitáveis para mim, não existem, nem podem existir na minha participação.

Vicente Serejo

Vicente Serejo     Como jornalista, a produção de Cascudo no Rio Grande do Norte, foi a mais densa e a mais demorada possível. Durante trinta anos, Cascudo manteve uma coluna diária nos jornais, onde ele não apenas registrava as coisas da cidade, como ele fixava perfis de figuras humanas da cidade. E foi exatamente esse calor humano, essa permanência de Cascudo na imprensa, que fez com que Cascudo fosse a grande ponte, na época do modernismo, entre o Rio Grande do Norte e São Paulo.
     Foi pelas mãos de Cascudo que foi levado Jorge Fernandes para a Revista de Antropofagia. Foi pela amizade de Cascudo com Oswald de Andrade, com Mário de Andrade, que toda essa ponte entre a imprensa do Rio Grande do Norte e a imprensa do Sul do país foi possível. Sem Cascudo, certamente, o nosso modernismo teria sido mais tarde ainda.

Menotti del Picchia

     Câmara Cascudo é um dos velhos daqui, e companheiro mesmo, quando nós aqui, em São Paulo, desencadeamos o movimento da Semana Moderna, ele aderiu porque tem um espírito muito curioso, muito presente em todas as coisas. Eu, afinal das contas, tenho me correspondido com ele, e sei que ele está lá no Norte, como um nababo, cercado de tanto carinho e de tanta admiração, tão justa, que o povo brasileiro faça a um homem de tanto valor como ele.
     Agora, eu por mim, da minha parte, eu desejava que ele entrasse para a Academia Brasileira de Letras. Dizem que ele é um eterno noivo, eu então queria ser padrinho desse casamento. Teria muito prazer de vê-lo sentado com aquela nossa armadura de ouro, tão esfuziante e tão inútil, porque não é ali que está a grandeza do acadêmico, mas está na sua cabeça. Eu queria ter a alegria de tê-lo companheiro numa daquelas cadeiras que celebrizam, que dizem que imortalizam até os mortais.
     É uma coisa extraordinária. De modo que não eu encontrei nele, uma ajuda para realizar este meu desejo e esse nosso sonho. A Academia não perde com a ausência dele, porque a sua obra, ela está no espírito da nossa terra e da nossa gente, é uma obra imortal e ele não precisa de farda para ser imortal dentro da literatura brasileira.

Raimundo de Menezes

    Luís da Câmara Cascudo acaba de ser galardoado com o prêmio o Intelectual do Ano de 1977, prêmio Juca Pato, com o seu livro Antologia da Alimentação Brasileira. Tratando-se de uma figura ímpar da intelectualidade nacional, mereceu ele por isso, o prêmio que lhe foi galardoado pelos associados da União Brasileira de Escritores, e por todos os intelectuais brasileiros.
     É pela primeira vez, que a União Brasileira de Escritores sai de São Paulo, para entregar a um intelectual premiado, o prêmio Juca Pato. Isso fizemos em conseqüência do estado de saúde de Luís da Câmara Cascudo. Foi uma festa de uma repercussão amplamente nacional, e a ela compareceram intelectuais de vários pontos do país. Ficamos satisfeitos com essa repercussão, mormente, porque Luís da Câmara Cascudo merece esse prêmio, por ser o seu nome tido não só no Brasil, como no estrangeiro, como primeiro folclorista brasileiro.

Luís da Câmara Cascudo

Câmara Cascudinho - Foto: Carlos Lyra     Surpresa, foi a União Brasileira de Escritores proclamar-me o Intelectual do Ano. E a Folha de São Paulo doar o troféu, o Juca Pato, e me entregar na Academia Norte-Riograndense de Letras, justamente no dia em que eu recebia a beca de Doutor Honoris Causa. Dizem a láurea mais alta culturalmente do Brasil. Para mim é um símbolo da cordialidade e da comunicação da União Brasileira de Escritores, os trabalhadores do Nordeste.
     Condecorações: tenho-as das mais altas, Grande Oficial, Comendador, dadas pelo Exército, Marinha, Aeronáutica, Ministério das Relações Exteriores, os Estados, condecorações estrangeiras, tantos países. Guardo-as com estranho carinho, para que atestem aos meus descendentes, que eu mereci dos meus contemporâneos, essas provas evidentes de homenagem e de alta distinção.
     Aqui está, por exemplo, o que ninguém viu, todo o mundo conhece mais ninguém viu: uma vara de condão, feita pela minha neta Daliana quando tinha oito anos, para presentear o avô. Eu tenho uma vara de condão, e dado pela neta numa idade em que podia fazer milagres. Os meus netos Daliana, Newton, Camilla, são os meus grandes colaboradores, em mímica, em expressão fisionômica, em timbres de linguagem. Para mim, etnógrafo, é como se o futuro prestasse ao presente, um depoimento de informação. Isto, além da ternura, do interesse humano, da graça infinita que irradiam diante de si.
     Outra virtude miraculosa de meus netos é o segredo de transmitir a juventude. E assim, eu abandono os meus oitenta anos e volto a ter a idade que eles têm, e que tive também.

Anna Maria Cascudo

Anna Maria Cascudo     Meu pai para mim representa, acima de tudo, uma escola de vida. E uma escola de vida diferente, com escalas de valores bem diversos do das minhas amigas, das moças do meu tempo, da turminha que eu freqüento, porque ele valoriza coisas, que não são valorizadas normalmente. Por exemplo, as minhas cantigas de ninar foram, acima de tudo, a cantiga de viola. Minha maior brincadeira de criança foi assistir as Ararunas, foi assistir Bambelô, foi assistir Reisado no colo de papai, papai me explicando. Então, no tempo que não era muito certo, moça de família boa assistir a essas coisas, eu não só assistia, como participava. Participava ativamente, já queria bem, e de repente me vi Diana, no Pastoril. E comecei a viver a arte e a cultura popular, com um amor e uma vivência incrível: pelo dia-a-dia, pelos olhos do meu pai, pela mão de meu pai e, depois, por mim mesma. A primeira coisa que papai nos ensinou, foi nós voarmos por nossas próprias asinhas, meu irmão, mais velho do que eu e eu. Agora o que eu acho sensacional em meu pai mesmo, é como ele é humano, como ele é carinhoso, como ele nos dá uma sensação assim... ele é um galanteador. No dia-a-dia ele me galanteia, de manhã, às vezes, eu acordo:
     - Oi, pai, tudo bem?
     - Puxa, você está bonita!
     Fala pra mim assim “Você tá ótima!”, e pro meu garoto “Você está ótimo!”. Ele é profundamente carinhoso, super carinhoso. Por exemplo, eu moro aqui, tenho uma vontade imensa de ter minha casa, mas ao mesmo tempo não tenho coragem de deixá-lo, pelo carinho que a gente tem um pelo outro.
     - Existe algum ônus em ser filha de Cascudo?
     Poxa, mas se existe! Os ônus são incríveis, cobram da gente coisas fora de série. Eu aos sete anos, no colégio, a minha professora me entregou uma composição e disse:
     - Muito bom, dê os parabéns ao seu pai.
     - Obrigada madre, é um grande elogio, meu pai está em Portugal.
     Por muito tempo, meu irmão e eu tentamos nos libertar, não da figura maravilhosa do nosso pai, mas sermos nós mesmos, e conseguimos a duras penas. Ainda tem gente que nos esnoba, ainda tem gente que faz certa discriminação: “Não, não pode, que o pai é muito homenageado”, enquanto nós dois estamos vencendo em campos diferentes. Então, eles nos cobram e, ao mesmo tempo, nos tiram a oportunidade, por sermos filhos de Câmara Cascudo.

Dahlia Freire Cascudo

     Eu era uma menina, quase uma menina moça, adolescente, propriamente dita, mas me atraí por ele, em grande parte pelos lindos olhos verdes que ele tinha. Conheci usando na lapela umas violetas, um raminho de violetas, mas, depois, no começo do nosso namoro, ele substituiu a violeta por uma dália. Os anos passam rápido, nos casamos.
     Eu acho como esposa de escritor, que ela precisa se doar e, também, ter muito de renúncia. Eu conto isso pelo fato meu próprio. Era recém casado, não, mas de algum tempo de casado, já tinha filhos e muita vezes tentei, desejei que ele me acompanhasse.
     Nós tínhamos uma horário muito diferente, é claro, porque ele trabalhava até quase ao amanhecer. Trocava, muitas vezes, a noite pelo dia, quer dizer, amanhecia trabalhando em sua biblioteca.
     Uma noite, já mais para a madrugada mesmo do que para a noite, eu já estava agasalhada, mas era uma noite chuvosa, vamos dizer, na intimidade, gostosa. Eu levantei-me, fui até a porta de sua biblioteca que era velada por uma cortina, não deixei que ele me visse, apenas eu abri, entreabri a cortina, e ele estava absorvido totalmente. Eu senti que naquele momento era o escritor, e não o homem. Se eu o chamasse naquele momento, não encontraria o homem, nem o marido, e sim o escritor.
     Porque veio na minha imaginação, na minha lembrança, ele me disse “que o escritor trabalhando em sua biblioteca, que equivale a um laboratório de pesquisa, não deve, não pode ser interrompido”. Seria assim, como se fosse, disse ele para mim, “um pombal, onde estivessem reunidos todos os pombos, e alguém viesse, naquele momento, e abrisse a porta do pombal”. A revoada de pombos seria uma coisa evidente. Então, aquela imaginação que me veio foi muito feliz, porque eu me venci a mim mesma, renunciei naquele momento o marido, fechei a cortina sem ser notada por ele e voltei.

Luís da Câmara Cascudo

Câmara Cascudo - Fonte: Carlos Lyra     O amor para mim foi um estímulo, não só no que realizei culturalmente, como na serenidade do meu lar, a fidelidade àquela menina de 1925, que eu casei-me em 29, e continua com a idade com que eu a conheci. Mas mesmo para Dáhlia, para minha mulher, para Dalequinha, nós atravessamos a diversidade dos amores: o amor do namoro, do noivado, do matrimônio, da paternidade, dos filhos, dos avós.
     A vida foi mudando e o nosso amor foi tomando nuanças mais penetrantes, de variedades que a nossa sensibilidade empresta. Assim, nós dois de mãos dadas, vemos a paisagem hoje com olhos que não víamos quando éramos namorados. Não sei qual foi a escritora, penso que foi Mme. de Sevigné que disse: “Veja as belezas da Itália enquanto não se apaixona, porque depois de se apaixonar verá as coisas todas diferentes”.
     Mas para um trabalhador mental como eu, o amor foi um estímulo, a força, a fidelidade, a alegria do trabalho e da posse. Ainda posso ficar ao lado da minha mulher muito tempo de mãos dadas, sendo suficiente a sua presença. Ao mesmo tempo mando, dou de comida as duas rolinhas que estão passeando. Essa diversidade, essa sensibilidade omnímoda pelas coisas vem do amor, da ternura com que se dê a paisagem humana e a figura que, lentamente envelhece ao nosso lado.

     Natal, minha cidade Natal, é o cenário imóvel na minha memória. Natal foi a impressão primeira, o ambiente emocionador da minha meninice, adolescência e madureza. O homem é a cidade em que nasce. O povo da minha cidade foi a minha curiosidade inicial, a pesquisa do repórter, a análise do estudioso. O povo na convivência termina sendo a grande família anônima, da qual nós vivemos. Por isso, eu acredito aos oitenta anos, que quem não tiver debaixo dos pés da alma, a areia de sua terra, não resiste aos atritos da sua viagem na vida, acaba incolor, inodoro e insípido, parecido com todos.

Oferenda a um historiador: Manoel Rodrigues de Melo
Voz: Celso da Silveira

     Luís da Câmara Cascudo, receba da cidade do Natal, receba dos seus amigos de todas as idades, receba do pobre, do rico, do preto, do branco, receba dos habitantes do litoral e do sertão, receba do cangaceiro e do tocador de viola, receba dos vaqueiros e dos agricultores, receba do patriarca e da matrona sertaneja e litorânea, receba dos caboclos do bumba-meu-boi, receba da mestra e da contramestra das lapinhas, receba do todos os grupos folclóricos da cidade, receba dos pescadores das praias nordestinas, receba dos intelectuais e ignorantes, receba de todo o Rio Grande do Norte, de pé pelo Brasil, a saudação mais efusiva, mais terna, mais doce, mais amorosa que a sua cidade, a cidade do Natal, cidade que tanto lhe deve, que tanto lhe estima, que tanto lhe preza, que tanto se desvela pela sua vida, pela sua obra, pelo seu patrimônio intelectual, que é a única coisa que ficará para sempre na história, padrim Cascudo.

Produção: Zita Bressane
Cinegrafista: Adilson Nucci
Auxiliar de cinegrafista: José Pedro da Silva
Som direto: Wladimir Rocha Martins
Cine-montagem: Manoel F. Viudes
Assessoria na Cidade do Natal: Carlos Lyra
Cantadores: David Nogueira e José Alves Sobrinho
Edição de VT: Vilson Dowe
Sonoplastia: Waldir Luiz
Video: Oscar Arias e Ely Espirito Santo
Telecine: Antônio J. Ribeiro
Direção de TV: Egberto Luiz
Realização: TV 2 Cultura

 

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