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Postado em 13 de dezembro de 2006, quarta

Chee Chow

Em chinês Chee Chow significa o sete místico, as sete peças engenhosas. São sete pedacinhos de madeira, marfim, jade, ouro, figuras geométricas, acomodáveis entre si, sob qualquer ângulo, e formando casas, bichos, coisas variadas.

Cinco peças são triângulos isósceles. Há um paralelogramo e um quadrilátero. Com esses retalhos o chinês passa horas e horas arrumando e desarrumando, construindo e destruindo, tentando novas formas, tipos originais.

Com as sete peças do Chee Chow permitem mil e duzentas combinações.

A regra preliminar é armar as figuras sem recorrer a explicação que ensina a disposição dos elementos, a carpintaria do jogo. Na China é fácil encontrar Chang-Kai-Schek ou o Presidente da República, um general do exército vermelho ou o arcebispo de Cantão, inteiramente absorvidos no manejo das sete pecinhas.

Chinês que não brinca com o Chee Chow não é chinês.

Quando fui para a Europa, a bordo do Santa Cruz, vi o Chee Chow matar as horas lentas do dia. Missionários, viajantes, industriais, senhoras, debruçavam-se tentando combinações novas do Chee Chow. Sempre no salão havia alguém com as sete plaquinhas verdes de Chee Chow. Acabei tomando interesse. Em Portugal e Espanha deparei noutras vezes com o passatempo chinês e, dentro do imenso e reboanteConstellation que sobrevoava o Saara e o Atlântico, o Chee Chow estava presente.

Fiquei respeitando esse jogo infantil e primário. Há mais de três mil anos que os filósofos, os imperadores, os guerreiros e os bonzos da China o conhecem e o amam.

Confucius era grande jogador de Chee Chow. Trinta séculos depois, era devoto de Chee Chow o fundador da República Chinesa. O último imperador, o menino Pu Yi, abandonou o Palácio do Jade da Cidade Sagrada levando na mão a caixinha de xarão com o seu Chee Chow.

Americanos e ingleses aceitaram e divulgaram o jogo de paciência, vindo de tão nobre passado político, militar, intelectual e elegante. Fábricas na Inglaterra e nos Estados Unidos estão espalhando o milenar passatempo pelo mundo ocidental.

Por isso, aqui na cidade do Natal, o Chee Chow chegou e tem amigos.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 17 de janeiro de 1948

 
Postado em 6 de dezembro de 2006, quarta

O Milagre da Montanha

Falando aos gregos, depois de Maratone, Temistócles, num arroubo, valorizava o elemento humano, princípio e fim das civilizações. O general ateniense perorava: - A pátria não está nas muralhas, mas nos homens. São esses cidadãos e não os edifícios, que fazem as cidades.

Muitos esquecem essa imagem. E vêem nas cidades os edifícios, as fábricas os laboratórios, os quartéis. Falam nas cidades grandes, nos rios vencidos pelas pontes, nas montanhas derrotadas pelos túneis. Do trabalho humano, pequenino, diário, obstinado, maravilhoso, pouco, muito pouco falamos. Há quase trinta anos que sugiro uma nova redação nos compêndios de História do Brasil. Sugiro que se inclua o trabalho humano na conquista da terra, na fixação da cidade, na criação do plantio, na semeadura das indústrias. Insisto em dizer que uma indústria que nasce, amplia-se, desdobra-se, determina um acréscimo demográfico, uma técnica, uma visão nova, uma geração de trabalhadores, atira a bandeira do Brasil para todos os lados, limpa e bonita, erguida em mãos fortes, levando uma expressão consoladora de vitória pacífica, de campanha sem sangue, de vidas magníficas curvadas numa tarefa que explica o esplendor. Li esse lindo Milagre da Montanha, de Álvaro Franco e Sinhorinha Maia Ramos de Franco. O milagre é a cidade de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul. Campo dos Bugres que acabou erguendo para o céu uma floresta de chaminés fumegantes, atestando o labor ininterrupto dos homens.

E outro milagre é o esforço de um italianozinho, Abramo Eberle, com 16 anos, comprando por seiscentos mil réis, em 1896, ao Pai, uma funilaria humilde. Seu primeiro trabalho foi uma lâmpada de flandres, lamparina cuja luz indecisa aluminou o primeiro serão, teimoso, na noite fria. Cinqüenta anos depois essa lamparina é um símbolo, força inicial de quinze mil tipos de objetos criados pela mão magnífica que a fizera, pequenina e fiel. A Metalúrgica Abramo Eberle Ltda fornece quase tudo a quase todos os brasileiros. E a obra intelectual de Álvaro Franco a resume, inteira e comunicativa em sua simplicidade humana, defendendo-a da incompreensão e da indiferença.

Estátua, festa, nome da rua, placa de bronze, dinheiro, batismo de arranha-céu, discurso, banquete, baile, tudo passa ou tudo fica sem expressão na memória coletiva. O livro fica. Acima de tudo, o livro fica contando a história daquele que trabalhou, amou, sofreu. A indústria de Abramo Eberle continuará nas mãos fiéis dos filhos. A lamparina não se apagará. O livro, verídico, contará aos futuros a vida bonita do forjador que venceu a Morte...

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 9 de janeiro de 1948

 
Postado em 30 de agosto de 2006, quarta

Frutas

Natal velha possuía poucas fruteiras e mesmo os antigos eram admiradores muito restritos de frutas. Laranjas, bananas, mamões bastavam para o regime. Não herdamos o gosto pela fruticultura nem os devotamentos de sua inclusão nos nossos cardápios.

De um reparo antigo, de 33 anos, relembro: - Os antepassados não nos legaram, talvez, duas centenas de árvores frutíferas. Não existe em toda cidade uma vintena de mangueiras seculares, e há quinze anos passados o sapotizeiro era inteiramente desconhecido entre nós, como o era igualmente o abacateiro... Os primeiros habitantes levaram tão longe o seu desamor pelo cultivo dos pomares, que, mesmo em relação às poucas árvores que plantaram, não tiveram o menor cuidado na seleção das sementes sucedendo serem os seus frutos pouco saborosos, quando não intragáveis. (A República, 14/11/14). A nota fixa o estado da cidade do Natal em 1914. No primeiro ano da administração de Ferreira Chaves.

Os frutos dos tabuleiros e praias, cajueiros, mangabas, maçarandubas, guagirus, oitis, ubáias, araçás, camboins (abundante na parte sul da cidade, dando nome a uma rua, entre a Pio X e a av. Apodi, a rua do Camboin), pitombas não constituíam, como as duas primeiras, espécies regulares de consumo, indicadas nas mesas, inseparáveis em certas épocas.

Ferreira Chaves divulgou a manga-rosa, outrora raríssima, vendida a preços altíssimos (um cruzado!) e vindas do Recife. Eram mais consideradas pela beleza e aveludado da coloração que pelo sabor, mesmo excelente, mas tornado acre no custo acima da pecúnia vulgar. Ferreira Chaves espalhou as mangas-rosas, presenteando as mudas, mandando-as aos amigos, pedindo-lhes que plantassem e tomando interesse como se tratasse de uma afilhada.

As mangas-rosas popularizaram-se, multiplicadas até o infinito. Hoje são banais. Não foi possível obter resultado com as laranjas-seletas, laranjas-limas e as chamadas da Baia, enormes e sem caroço. Nem as uvas mereceram as simpatias teimosas. Certo é que, de 1914 a 1947, o caminho andado foi muito grande. E muita melhoria houve, tomando por base a denúncia citada.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 31 de outubro de 1947

 
Postado em 23 de agosto de 2006, quarta

Internacional da Poesia

Na sessão de encerramento da Comissão Executiva do Congresso Luso Brasileiro de Folk Lore em Lisboa, o Sr. Antônio Ferro fez um discurso sugestivo. Discurso conversando e sem pretensão de eloqüência. Não ergueu a voz. A sala era pequena e acolhedora. O Palácio da Foz, em vermelho e branco, é um dos mais lindos da Europa. Casa fidalga do século XVIII, cheia de recordações graciosas, de festas que deixaram saudades, de elegância, de bom gosto, ambiente em que a conversa era uma Arte e o espírito um estado normal da inteligência. O Sr. Antônio Ferro, fixando a importância essencial da defesa do Folk Lore, como fisionomia coletiva em sua expressão natural e poderosa de beleza, lembrou que o povo imprime aos seus objetos um pormenor de graça, de colorido e de emoção incomparável e lógico. A poesia e o canto, o desenho coreográfico e a indumentária, todo material etnográfico, constitui uma força viva, mobilizada automaticamente para a guarda da alma popular na profundeza de sua sinceridade, do seu direito de expressar-se sem obediência e submissão ao Ganon exterior, efêmero e sucessivo, da Moda...

A valorização do Folk Lore pelos Governos é um ato natural. Tão natural como a organização de suas Forças Militares. É um exército invisível e perpétuo, vivendo nas almas, de geração em geração, defendendo o País, idioma, hábito, cultura oral, costume, a técnica secular conquistadora de maravilhas. Se os Governos forem, um a um, valorizando, sistematizando, divulgando, fixando o seu Folk Lore, estarão criando uma Internacional de Poesia, pacífica, invencível, a mais natural, a mais democrática, a mais profunda de todas as organizações sociais, unindo, através dos idiomas e das religiões, das culturas e das civilizações, do tempo e do espaço, todos os homens, de todas as raças, numa continuidade de beleza, de lirismo, de confiança e de solidarismo humano. Os temas cantados em todas as línguas, em cem fórmulas musicais, dizem um mapa comum, determinando a aproximação, o entendimento, o conhecimento intelectual pela sensibilidade da tradição. Será uma Internacional de Poesia em serviço, em defesa e conservação da Paz. Folk Lore é cultura popular, independente, omnimoda, universal e nacional, coletiva, é una, milenar e presente. Valorizá-lo, como o faz o Governo de Portugal, é assumir uma atitude em serviço da Paz pela presença afetuosa da inteligência anônima dos povos.

O Sr. Antônio Ferro fez, sem intenção e sem vaidade, o seu discurso de inauguração do Congresso. E, velho enamorado da Arte Popular Portuguesa, expôs, aos seus companheiros do Folk Lore Brasileiro, o programa inicial de sua doutrina radicular e natural.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 27 de dezembro de 1947

 
Postado em 16 de agosto de 2006, quarta

Espanha... Espanha...

Depois de ler as correspondências, os observadores imparciais e os telegramas desinteressados, cheguei a conclusão de que a Espanha estava desaparecendo da face do mundo, envolta em chamas, molhada de sangue, cheia de violência, bestialidade e opressão horrenda. Por toda a parte patrulhas guardando escombros fumegantes. Descargas de fuzilamento. Fome. Fome. Fome. Escuridão. Fim de um dramalhão romântico com clarões de fogo fátuo, visão do cemitério e descidas de brancas almas do outro mundo. Essa era a Espanha sob o domínio do caudilho Franco.

Quando cheguei a Vigo, admirei um pouco a tranqüilidade da gente que olhava o grande navio. Meu passaporte não estava visado para a Espanha. O navio arribara. Não conhecia vivalma em Vigo. Não dei um passo para descer. As exigências seriam demasiado ferozes para quem desejasse ir à Espanha com passaporte, quanto mais em se tratando de um passageiro sem documentos. O pessoal de bordo levou-me o caso à Polícia. Uma hora depois estava autorizado a descer e andar por onde quisesse. Revirei Vigo para lá e para cá. Fui a Baiona. Fui a Santiago de Compostela. Dois meses depois repassaria o rio Minho indo de Caminha a La Guardia. Comi nos restaurantes melhores e nas ‘fondas’ típicas. Não vi gente morrendo de fome nem condenada a morrer de frio. Havia tudo para o dinheiro. Pouca gasolina, mas os automóveis iam rodando. Os comboios não pararam. Toda a Galiza litoral é zona de pescaria, moderna, intensa. As longas composições ferroviárias espalham o pescado por todas as regiões. A abundância de frutos e de vinhos garantem o resto. Naturalmente o espanhol não come como comia antes da Guerra Civil, cataclismo que devastou a terra e arrancou as raízes da tranqüilidade nacional. Mas na situação da Espanha estão os povos felizes. Melhor, um pouco, que a Espanha, existe Portugal e talvez Suíça e Suécia. O resto está passando meia fome para exportar e conquistar as divisas. Essa é a verdade clara e alta. O contrário é intencionalismo de qualquer lado e de qualquer cor.

De conversa em conversa ia-se adivinhando algo de nuevo. Muita indignação contra os vermelhos. Casos de arrepiar, narrados com veemência de voz e tempestade de gesto. Ninguém é mais eloqüente que um espanhol. Vi o trabalho admirável de homens e de mulheres. A confiança em vencer. Vencer o quê? Vencer a campanha de ódio em que confundem governo e povo espanhol. Decisão em resistir. É a impressão de quem haja visto, mesmo parcialmente, a vieja Espanha.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 24 de dezembro de 1947

 
Postado em 9 de agosto de 2006, quarta

Eça de Queiroz contra a nobreza?

O centenário natalício de Eça de Queiroz teve a homenagem de duzentos volumes e dois mil artigos. Certamente uma alta e boa percentagem dá uma lembrança saudosa do Santo Ofício.

Muito autor serviu-se de Eça de Queiroz para porta-voz de palavreado pessoal. Outros encheram o escritor de cores e trapos que lhes sobraram das alminhas da cor de café-com-leite, como o daquele tenente coronel de Garcia Lorca.

Raros olharam mesmo para o Homem, para o ambiente vivido, para a época, especialmente para as idéias categóricas que viviam dentro da cabeça dos amigos e do próprio Eça de Queiroz. Fui um leitor teimoso, decorador de Eça de Queiroz. Raro será o episódio que não o tenha de cor e salteado. Fui em Portugal um peregrinador, visitando onde Eça de Queiroz passara, residência dos amigos, o monumento na praça Barão de Quintela, o túmulo simples no cemitério lisboeta.

Um dos dogmas ensinados como uma dedução dos livros de Eça de Queiroz era a sátira à Nobreza titulada de Portugal. Todos os nobres que ele registrou foram Ribamar, Abranhos, Gouvarinho, fixados na escala social mais alta e na tabela mental mais baixa.

O autor convivera com os tipos mais expressivos da velha e legítima nobreza de Portugal. Fora amigo de Arnoso, Pindela, Ficalho, Rezende, amigo íntimo. Casou com uma filha do Conde de Rezende. Hoje, os descendentes de Eça de Queiroz estão confundidos com os Rezendes depois de múltiplos matrimônios.

O Conde dAurora examinou esse aspecto numa conferência de notável repercussão, Eça de Queiroz e a Nobreza. Evidenciou que a nobreza evocada pelo escritor fora a falsa aristocracia nascida da eleição, os nobres da política partidária, titulares e jamais fidalgos, vivendo nas cidades, agarrados às funções do mando artificial, longe da terra, distante do trabalho, esquecidos de todos os elementos típicos da Nobreza, radicada a gleba, cercada de povo, vivendo como uma grande árvore, para espalhar a sombra e o fruto. Mostrou que ninguém mais nobre, intelectualmente, que Eça de Queiroz. E sua obra, sob a influência incomparável da esposa, Dona Emília de Castro (Rezende) fora uma exaltação às formas palpitantes e eternas da Nobreza do esforço e da inteligência. E uma sátira definitiva aos condes e barões ministeriais, sem o sangue da terra e da tradição. Uma das mais autênticas e lindas homenagens a Eça de Queiroz foi a conferência do Conde dAurora.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 22 de dezembro de 1947

 
Postado em 2 de agosto de 2006, quarta

A primeira coragem...

O conde João Maurício de Nassau investiu na cidade do Salvador em Abril-Maio de 1633 e foi repelido. Essa derrota diminuiu-lhe o prestígio junto ao Conselho dos PIX. O halo de invencibilidade interrompera-se e o fidalgo contou maior número de críticas de adversários, e candidatos ao seu cargo, oferecendo-se a administrar o Brasil Holandês com menos pompa, menos nos preços e maior eficácia. Essa tentativa sobre a Bahia marca o ponto mais alto na carreira militar de Nassau. Houve gesto posterior valente e muita atitude digna de registro ainda foi feita e Barleu anotou no cronicão louvador. Mas a importância pinacular de uma conquista à capital do Brasil Português, sede holandesa treze anos antes, ofuscaria a gesta anterior. Falhando, Nassau foi descendo, degrau a degrau, para o embate miúdo e voraz com os subalternos alvoroçados ante a possibilidade da herança.

Repelido, destroçado, em Maio de 1638, a vitória trouxe os prêmios aos valentes. O napolitano Conde de Ragnuolo passou a Príncipe. O Governador Penri da Silva é agraciado com o título de Conde de São Lourenço e houve distribuição de comendas, brasões e pensões por Felipe III d’Espanha e Portugal. Entre os distinguidos estava o nosso Dom Antônio Felipe Camarão recebendo uma comenda nos Moinhos de Soure.

Mas há muito escuro na organização dessa vitória decisiva na história do Brasil. O que se sabe, documentativamente, é que Bagnuolo e o Governador eram desafetos. Quando Nassau apareceu, foram ambos reconhecer o estado da força inimiga e Bagnuolo ao voltar declarou incapaz de defender a Bahia e foi-se meter no seu arraial, sem dar um passo diante do inimigo. O Governador fez outro tanto, isto é, nada fez, porque não lhe competia a parte militar. Os grandes chefes estavam esperando ordens que não vinham. Ia-se perder a cidade com Souto, Camarão, Barbalho Bezerra, impacientes de luta? Houve uma coragem, a primeira coragem que desperta, coisifica, reúne os vacilantes e decide. Foi o vereador mais velho do Senado da Câmara, o Sargento Mor João Álvares da Fonseca Coutinho. Vendo o princípio de abandono, o pânico, Coutinho faz tocar o sino da Câmara. Agrupou os vereadores e foi à frente deles, em nome de Deus e de El Rei, pedir e exigir que a cidade fosse defendida por quem tivesse espada e a soubesse honrar. Tudo se organizou. O Governador aceitou renunciar a jurisdição urbana e Coutinho decidiu Bagnuolo a chefiar a defensão. O napolitano, interesseiro, recebeu todos os oferecimentos e promessas. Coutinho foi a primeira coragem. Sem ele Nassau tomaria a cidade ante a desorganização interior.

Na vitória, Coutinho teve apenas um hábito de Cristo com a pensão de sessenta mil réis. É um pequenino nome que se esconde na ressonância dos chefes vencedores. No Porto conheci a Dom Antônio Xavier da Gama Pereira Coutinho (Soydos), descendente do Sargento Mor João Álvares da Fonseca Coutinho. O neto repôs o avô no justo lugar. Reunindo documentação irrespondível, treze certidões preciosas, examinando historiadores de todos os tempos, Dom Antônio Pereira Coutinho escreveu um ensaio que esclarece, nítida e completamente, o papel dos chefes e a voz oportuna do vereador mais velho, tangendo o sino comunal da cidade, congregando, pacificando, animando, unindo todos para o combate. O ensaio responde a uma necessidade de informação. E fixa uma fisionomia seiscentista, cheia de valor moral e de grandeza de espírito, o talento-de-servir, tão raro, tão alto, quase divino.

E para os historiadores do Brasil, Dom Antônio Pereira Coutinho expôs, como um mestre, proposições meridianamente certas. A iniciativa da defesa da Bahia é lidimamente portuguesa

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 20 de dezembro de 1947

 
Postado em 26 de julho de 2006, quarta

Coleções Africanas

Na Exposição do Mundo Português as colônias africanas enviaram para Lisboa coleções magníficas no domínio etnográfico. Dificilmente será possível outra visão mais completa da vida comum, doméstica, guerreira, religiosa, da Guiné, do Congo, de Angola e Moçambique.

Vieram as cubatas com os utensílios diários. Vieram as armas dos guerreiros, lanças, adagas, escudos, dardos, enfeites de chefes, sobas, sobetes, régulos, penachos, cintas de capins, de peles, cadeiras trabalhadas, objetos decorativos, milhares de pequeninas estatuetas, imagens e deuses graúdos e miúdos do céu africano, maravilhas negras de cor, originalidade, beleza nova para nossos olhos americanos.

A Exposição do Mundo Português foi visitada por mais de um milhão de pessoas. Estudiosos e técnicos de todas as nacionalidades estavam presentes, enviados pelos seus governos. O Brasil mandou delegados eminentes, historiadores, poetas, jurisconsultos, soldados, oradores. A tradição deixada é de alta e sonora admiração.

Mas o Presidente Getúlio Vargas não mandou a Portugal um etnógrafo, nem um arqueólogo, nem um antropologista, nem um curioso de Folk Lore. As riquezas expostas interessavam muito e muito ao Brasil. Era uma ocasião única de confrontar e estudar material etnográfico africano, de tantas regiões, além da documentação fotográfica. O Governo Português ofereceria o que se pedisse das coleções. Especialmente em se tratando do Brasil a oferta seria graciosa. Ninguém se interessou pelas coleções africanas. Ficaram meses desafiando a cobiça. Dispersaram-se para sempre.

Foram para colecionadores. Para museus europeus. Alguma coisa que ficou em Portugal andei visitando, rosnando de raiva. Em Coimbra, no Portugal-para-os-pequeninos e no Museu de Etnografia, que Francisco Lage dirige em Lisboa, ficou um saldo desse mundo negro, tão rico em sugestão e memória para nós. Perdemos para sempre essas coleções. Nem as vimos. Nenhuma página, nenhum livro de informação etnográfica pôde aparecer, escrito por mão de brasileiro. O governo não quis mandar dois ou três da meia dúzia de lunáticos etnográficos. Outros, com muitíssimo menor interesse cultural, saborearam a lição e ficaram com cada belezinha que nem tenho coragem de recordar...

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 19 de dezembro de 1947

 
Postado em 19 de julho de 2006, quarta

A bilha d’água da ermida de São Jorge

A batalha de Aljubarrota foi ao entardecer de uma segunda-feira, 14 de Agosto de 1385. Decidiu-se a autonomia de Portugal. O Rei de Castela, casado com a filha única de dom Fernando, o derradeiro Rei português da dinastia que Afonso Henrique iniciara, viera conquistar pelas armas o que dizia pertencer-lhe pela herança. O Exército castelhano era dez vezes maior. Dom João I, Mestre de Aviz, Rei jurado nas Cortes de Coimbra e defendido pelo povo, jogava toda a sorte num encontro guerreiro. O Condestável era Nuno Álvares Pereira, flor de Cavalaria, o Galaaz de Portugal, último Cavaleiro do São Graal, puro, forte e bom. Dom Nuno Álvares Pereira entricheirou-se numa elevação, esperando a carga da cavalaria castelhana na floresta de lanças que os peões enfiavam no chão, para agüentar o embate contra o peito das montadas. Ninguém esperava que os portugueses resistissem, mínimos e fracos, ante o esplendor castelhano, deslumbrante de luxo e pompa protocolar. Mas os portugueses venceram. Vi os troféus nas Igrejas. Vi o cimo do Rei no Museu Militar. A espada de Nuno Álvares. A cota defensiva em Guimarães. O oratório do rei de Castela, em prata cinzelada, foi abandonado e o Rei o doou à Matriz de Guimarães. Fui vê-lo.

Até os imensos caldeirões de cobre, cheios de sopa para a criadagem do rei de Castela, foram encontrados. Dom João ofereceu-os aos frades de Alcobaça. Estavam todos lá. Resta ainda um, enorme, na sala vazia do Capítulo, visitada por mim.

Um episódio famoso foi à sede do Condestável. Sofreu-a o dia inteiro para não abandonar o Exército. Na Luta prometeu construir uma ermida a um santo de sua devoção. São Jorge. Venceu a luta e construiu a ermida, num lindo românico acolhedor.

A Capela fica à margem da rodovia moderníssima, no caminho para o Mosteiro da Batalha, para o Norte, para Fátima, indo-se de Lisboa, à direita... Há um muro de meio metro, com entrada ampla e fácil que jamais se fecha.

Junto à porta, em oferecimento perpétuo à sede terrível que o Condestável, o Santo Condestável, padeceu em Aljubarrota, há uma bilha d’água fresca e um copo de barro, à disposição de quem passe, a qualquer hora do dia ou da noite.

Inda agora na capela
De São Jorge, lá se vê
Em memória da batalha,
A bilha da nossa fé.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 15 de dezembro de 1947

 
Postado em 12 de julho de 2006, quarta

A visão imóvel

ossuímos uma visão interior de objetos, entidades, valores, avaliados numa escala criada pela nossa simpatia. Cada coisa significa o que queremos que signifique e não o que realmente vale e se constitui.

Esse fenômeno de deformação inconsciente é comum. Nomes, civilizações, doutrinas, passam para a nossa sensibilidade através de leituras, informações verbais e possivelmente viagens. Os anos passam, mas a visão inicial, gravada na placa ainda virgem da sensibilidade pessoal, resiste às modificações posteriores quando não verificadas diretamente. A impressão primeira tornou-se convenção, dogma, tabu e todo raciocínio que vier depois filtrar-se-á através dos juízos velhos e já acomodados ao nosso maquinismo psicológico. O que se ajustar, fica incorporado ao corpo velhinho do juízo formado.

O que contrariar, está errado. É crime, blasfêmia. No mínimo de observação. Não há namorado distante, anos e anos, da namorada, que a julgue diferente da época em que a deixou. A mocidade viajou nos olhos do ausente. Ninguém admite uma transformação. O Tempo não existe. O natalense que vive fora da sua cidade há meio século tem na memória visual a paisagem antiga, Natal do seu tempo. Evoca-o, descreve-o, fica casas, costumes, fisionomias. Quando há o encontro desse exilado natalense com um outro conterrâneo, moço e atual, há uma divergência totalitária. Não se entendem. Cada um possui a sua Natal, com povo, costumes, fisionomias diversas. De raro em raro é que surge uma coincidência. Contam de um velho natalense que vivera longamente no sul do país, regressado para ver a cidade, comentava assombrado:
- Menino! Do meu tempo só encontrei Chico Herôncio e o mar!...

Tudo mudara. A visão imóvel é a soma dos valores fixados na memória. Muita gente tem a visão de um Portugal de 1908 ou 1910 imóvel dentro da memória. Está convencido que nenhuma força modificaria o Portugal julgado verídico. Pensam num e é outro Portugal. Diversíssimo. Nada anedótico. Nada imóvel. Mas teimam. Portugal é o outro, o interior imóvel, anedótico, amorfo. Não serve depoimento de quem viu. Basta a força da inércia de quem teima.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 13 de dezembro de 1947

 
Postado em 5 de julho de 2006, quarta

A primeira barba

Leonardo Mota registra essa tradição, Violeiros do Norte, 240:- Antigamente, para um rapaz sertanejo fazer a barba pela primeira vez, tinha de pedir licença ao pai. Ainda hoje em lugarejos do alto sertão nordestino perdura este costume. O Padre Vicente Bezerra, Vigário da freguesia cearense de Aurora, andava em desobriga pelas capelas de sua paróquia, quando um rapagão matuto lhe perguntou:- Seu Vigário, a gente fazê a barba pela primeira vez, sem licença do pai da gente, é pecado venial ou mortal? Todos os estudiosos do Brasil tradicional fixaram esse costume. Ainda o alcancei no sertão e todos sabem de sua veracidade. Recebemo-lo de Portugal. Leite de Vasconcelos registrara:- O rapaz que se barbeia a primeira vez, e não o fazia antigamente sem licença do pai, e sem este declarar ao barbeiro que a concedia (costume ainda agora vigente, por exemplo, na Estremadura, no Algarve, etc.), passa, por assim dizer, da adolescência à juventude: quase se torna, ou torna-se viril. Essa é a informação do maior etnográfico de Portugal.

Fazer a barba não era senão um ato de iniciação, um verdadeiro rito de passagem como classificará Van Gennep. A passagem de uma a outra fase da vida sempre se acompanhava, nas sociedades primitivas, de ritos e cerimoniais destinados a deixar no espírito moço uma funda impressão duradoura. A barba anunciava a idade viril e para seu ingresso, além do empurrão decisivo da natureza, havia o convencionalismo doméstico, exigindo reverenciais que se articulavam com dezenas de cultos desaparecidos, mas residindo nos hábitos e temidos nas superstições. Em Roma a primeira barba era cercada de cerimoniais religiosos, havendo o ato de oferecê-lo a um deus, Depositio Barbae. Os primeiros pêlos da face e queixo eram postos numa bola ou caixa de ouro e consagrados a uma divindade. O Imperador Nero – conta-nos Suetônio – oferecera a sua primeira barba a Júpiter Capitalino, numa caixa de ouro, ornada das mais preciosas pérolas; barbam primam possuit, conditamque in aurean pyxidem, et pretiossimis margaritis adornatam Jovi Capitolino consecravit. Essa é a origem do respeito à primeira barba, da necessidade de uma permissão. São vestígios de cultos domésticos, rito de passagem, cerimonial de iniciação.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 30 de outubro de 1947

 
Postado em 29 de março de 2006, quarta

A estória singular...

O casal residia numa cidade tranqüila. A mulher mudou de gênio e tornou a casa difícil. Discussões, disputas, bate-boca diário. Os vizinhos falando. O bairro sabendo. A cidade comentando... A vida ficou impossível. O homem exasperava-se, ameaçava, pedia, sossegava. Depois o círculo recomeçava, pedia, sossegava. Depois o círculo recomeçava. Assim o tempo passou sem melhoria. Notaram que a mulher desaparecera. O marido não explicou. Não disse palavra aos vizinhos. A Polícia mandou-o buscar e interrogou-o. Disse então que a mulher fugira de casa há um mês sem deixar indício da viagem. A Polícia mandou investigar e não encontrou ponto com ponto.

Correu o boato que o marido matara a mulher e a enterrara no campo. O homem não adiantava pormenor quanto ao sumiço da cônjuge. Prenderam-no. Começou inquérito. Testemunhas, depoimentos longos, curiosidades. As estórias eram terríveis. Tinham ouvido, certa noite, gemidos, rumor de luta abafada. Outros, no escuro, julgam ter entrevisto a figura do assassino carregando o cadáver da vítima para enterrá-lo misteriosamente. Procurou-se o corpo. O homem negava obstinado. As provas iam nascendo e caindo na cabeça do acusado. O inquérito terminou, seguiu para o juiz de Direito e o promotor denunciou. O homem, preso há três, quatro meses, protestava. A Justiça seguiu, triturando, na caçada da verificação e do esclarecimento. Numa cidade próxima uma criada de servir, doente, triste, teve um súbito acesso de loucura. Os donos da casa chamaram a Polícia e esta levou a mulher para o hospício. Trataram-na pacientemente. A mulher sossegou. E na manhã seguinte, tranqüilamente, disse que era casada com o Sr. Antônio Marinho Falcão, residente na cidade de Guarabira e que fugira do marido sem rastos e que este devia tê-la procurado como agulha no palheiro. O delegado de Polícia, Alfredo Campos, ouviu os patrões da mulherzinha, na Praça Senador Guerra, cidade do Natal, e telegrafou para Guarabira dizendo que possivelmente a pseuda defunta desaparecida fosse a alienada recolhida ao Hospício. No dia 17 de Novembro de 1919 o Sr. Antônio Marinho Falcão, livre da culpa de uxoricídio, chegou de Guarabira e levou, no dia seguinte, a mulher. Acabou-se a estória. Outrora era assunto de um bom drama em três atos.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 11 de novembro de 1947

 
Postado em 22 de março de 2006, quarta

Lauro Sodré e o Rio Grande do Norte

As gerações moças ignoram a história política do Brasil. Conhecemos apenas a tempestade eleitoral com seus vulcões de lama. Como não possuímos o historiador político, o conhecimento das fases anteriores é precário, fixado ao sabor das simpatias pessoais. No Rio Grande do Norte, por exemplo, há uma atitude de coragem coletiva, de fidelidade moral, de satisfação ao dever, sumamente consagrada às nossas afirmativas de soberania espiritual no domínio partidário e nunca relembrada.

É uma história que não vem na História. Presidia o Brasil Prudente de Morais, cuja sucessão ia-se discutir-se. O chefe político supremo era Francisco Glicerio, o general Glicerio que dá nome a uma rua da nossa cidade. Glicerio fundara e dirigia o Partido Republicano Federal, o famoso P.R.F. Graças ao deputado J. J. Seabra o P.R.F. cindiu-se, ficando parte sob a orientação de Prudente e o restante fiel a Glicerio.

Entre os fiéis, Pedro Velho e com ele o Rio Grande do Norte. O Partido fez então duas convenções. A prudentista escolheu Campos Sales e Rosa e Silva para presidente e vice-presidente. A patrulha de Glicerio indicou Lauro Sodré e Fernando Lobo como candidatos.

A propaganda era intensa, não diretamente ao povo que naquele tempo existia bem precariamente como elemento decidinte, mas aos chefes, governadores, senadores e deputados. A máquina universal do louvor e do pavor, da carícia e da ameaça, funcionou sonoramente.

Para muitos chefes de grandes Estados era um atrevimento do Rio Grande do Norte jurar fidelidade na oposição ao candidato do presidente da República, Campos Sales, então governador de São Paulo. Pedro Velho teimou em cumprir quanto prometera. A candidatura de Lauro Sodré foi extremamente popular no Rio Grande do Norte. Vivavam o nome do candidato até nas festas religiosas. A eleição ocorreu a 1o. de Março de 1898. Dois Estados, apenas dois Estados, Paraná no Sul e Rio Grande do Norte no setentrião, levaram às urnas Lauro Sodré e Fernando Lobo. Campos Sales ganhou com vantagem. Ficou a Pedro Velho as alegrias do dever cumprido. Era uma derrota que o glorificava. Lauro Sodré viveu mais quarenta anos. E dizia, referindo-se ao Rio Grande do Norte, - Moralmente, é um dos maiores Estados do Brasil!...

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 6 de novembro de 1947

 
Postado em 15 de março de 2006, quarta

Viagem às ruínas históricas

Aqui trago aos olhos modernos uma carta de 33 anos passados. Escreveu-lhe a Henrique Castriciano, de Nápoles, ao seu amigo Rodrigues de Carvalho. É uma impressão rápida da viagem sentimental feita pelo poeta às ruínas históricas, às terras de lenda, de tradição indefinida no escuro do passado. Carta íntima, bem merece fazê-la voltar ao sol de 1947 porque os reparos não perderam cor e vibração, oportunidade e justiça na aplicação e lembrança.

Meu caro Rodrigues. Recebi, há três dias a tua carta. Recebi-a com pequena demora, pois mandei que a minha correspondência viesse para aqui, uma vez que pretendia, como fiz, voltar por Jerusalém do Egito, tendo-me demorado uma semana na Terra Santa.

As ruínas do Egito são as que há de mais assombroso. Fui a Tebas, a cidade de cem portas, e fiquei atordoado. Tanta coisa grande e desfeita! Passou por ali uma grande civilização e dela só restam alguns destroços de arte.

Vi a estátua de Memon.

O colosso lá está, mas já escalavrado e não diz mais patavina, salvo... salvo quando alguém se trepa o que é difícil porque aquilo é estupidamente grande, e se põe a bater nos flancos da figura. Ao passar por lá, o sacripante de um egípcio ofereceu-me para fazer a estátua falar como nos outros tempos, mediante uma piastra (pouco mais de 100 réis). Bateu com um pedaço de ferro e a velha Memon falou... como qualquer aresta dos rochedos do teu sertãozinho. E se visse a figura do sacripante. De camisa azul e completamente nu das coxas para baixo! Jerusalém causou-me uma profunda tristeza. O santo sepulcro e as outras coisas arranjadas pela suja mão humana dão uma impressão desagradável.

Mas a paisagem acorda na gente uma imensa lembrança dos mortos amados, dos velhos, dos que nos meteram a cartilha na mão. Vi o Jordão, o Mar Morto, o Jardim das Oliveiras, a Casa de Marta, o Monte da Tentação, etc.

E tudo me despertou uma saudade pungente dos tempos de meninice. Estou farto de ruínas. Ainda agora chego de Pompéia e Egito e Jerusalém e tudo quanto cheira a destroços só serve para a gente arraigar-se à idéia que Gonçalves Dias sintetizou:- Tudo é vão, tudo é vão, exceto a Morte!

Não merecia leitura?

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 28 de outubro de 1947

 
Postado em 8 de março de 2006, quarta

Aluisio de Azevedo

Tenho notado que entre as obras completas que estão aparecendo abundantemente de mortos e vivos, nenhum editor incluiu Aluisio de Azevedo. Será que não há mercado para seus livros? Ou não há mercado porque os livros estão esgotados? Certamente não haverá o entusiasmo de 1888-1900 por Aluisio, o grande, elegante e forte Rui Vaz que Coelho Neto fixou na Conquista. Não haveria o entusiasmo pelos processos naturalistas da época, seu relativo pudor em face ao que temos lido nos contemporâneos. Zola, Maupassant, foram mestres mas não determinaram caminhos senão inicialmente. Aluisio abandonou logo a mania de imitar a série dos Rougon Maequart. Possuiu fisionomia indiscutida. Como nenhum outro fixou a paisagem social brasileira em certas classes e momentos atravessados. O Cortiço e Casa de Pensão representam o que melhor possuímos no romance brasileiro de costumes até os primeiros anos do século XIX. Equilíbrio e segurança, simplicidade e sugestão foram os elementos naturais de Aluisio. Aproximar O Cortiço ou Casa de Pensão de um dos nossos romances made às pressas é consagrar o labor, a lentidão de um artista que grava, para durar, e não o instantâneo que o tempo amarelará.

O naturalismo zolaresco foi tão dominante que não se concebia o romance sem a maneira do falso solitário de Meudon. Aluisio não reagiu, mas modificou e sua maneira ainda é sensivelmente a mesma do Brasil. Ninguém, exceto José Américo de Almeida no primeiro romance, Bagaceira, deixou de ser fixado pelo sensível radar da influência de Aluisio.

Devo ainda dizer que a influência independe do conhecimento. Não ler Aluisio não significará a libertação de sua influência. Pode-se ser influenciado por um elemento aluisiano, indiretamente. Morto em Buenos Aires em 1913, o corpo de Aluisio Azevedo seis anos depois veio para o Brasil. Do Rio viajou para o Maranhão, a bordo do Baía, acompanhado por Arthur Azevedo Filho, seu sobrinho.

Em Natal o navio chegou a 23 de outubro de 1919. H. Castriciano, Galdino Lima, Palmira, Carolina, Lauro Wanderley, Luis Potiguar Fernandes, Adauto da Câmara, Alfredo Campos, Flodoaldo de Góis, Francisco Palma, J. C. Britto, João Soares de Araújo e eu, Palmira e Carolina levaram flores. Foi a nossa homenagem...

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 27 de outubro de 1947

 
Postado em 1° de março de 2006, quarta

Criados de servir

Uma das críticas mais ferozes e repetidas aos Maias de Eça de Queiroz é sobre a conversa de gente de sociedade alta, falando, longamente, de criados. Eça se defendia fazendo ter copiado as cenas da própria natureza social do ambiente. Era o mais comum e mais encontrado de todos os assuntos. E os Maias são de 1888, tempo de vida doce, de servos submissos, sorridentes e bons. João do Rio, tão esquecido, perguntava em 1911 se dentro de dez anos o Rio de Janeiro teria ainda criados.

A conversa absorvente, maciça, indispensável quando duas senhoras se avistam e têm tempo de sentar e falar, é o problema da criadagem, a cozinheira, a copeira, a ama de criança, astral, rara, preciosa como um lírio azul. Revistas cariocas têm dado reportagens curiosas sobre o tema, dando depoimentos de empregadas, a tabela dos preços e o protocolo das exigências, sempre ascendentes.

Lógico é que o problema se agravaria com a facilidade da vida noutros aspectos, noutras atividades, funções que uma cidade apresenta mais e mais. Os norte-americanos que sofrem de tecnicismo já pensaram nesse plano e há técnicos no sentido da criadagem. Um desses ‘experts’ Edith M. Barber, autora do popular Speaking or Servants (Nova York), depois de muita conversa mole atinou que a educação doméstica resolverá o problema.

Sabem como resolverá? Dispensando-se a empregada porque cada moça que se casar é dona e criada de casa. A aparelhagem elétrica, mecânica, simplificará os encargos. Lavar pratos, dissolver gorduras, fazer café, torrar pão, bater sorvete, uma maquinazinha vai prestando obsequiosos serviços. E o almoço? E o jantar – compra-se feitos no ‘restaurante’ em pratos de papel, atirados fora depois de cada refeição. A geladeira guarda e conserva os frios para as fomes imprevistas.

Argumenta-se que esse quadro é índice de um rendimento mensal dez vezes superior à média de um funcionário público... estadual e honesto. Urge, dentro de toda legislação, ouso da caderneta doméstica, a responsabilidade real da empregada e concomitantemente sua credencial nos sucessivos empregos. E um tratamento de acordo com o tempo que não é 1888 de Eça de Queiroz nem 1911 de João do Rio.

Mas, o problema em Natal? Está resolvido. Como resolvido? Sofrendo-se...

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 21 de outubro de 1947

 
Postado em 22 de fevereiro de 2006, quarta

Não compararás

No meu Decálogo há o mandamento rejeitando a comparação como método e como processo mental de seleção. Não compararás!

Duas coisas iguais a uma terceira são iguais entre si. Pode ser a coisa abstrata, convencional, número, risco. Materialmente nada é igual entre si. Nem duas gotas de sangue, nem duas folhas da mesma árvore, nem dois fios do mesmo cabelo. Diferenciam-se formal e forçosamente.

No grupo humano a diversidade é infinita e descobriram que no próprio indivíduo não há dois momentos num dia em que ele esteja igual, isto é, semelhante psico e fisiologicamente ao que estava dez ou vinte horas antes.

Assim, comparar é um processo que deve ir sendo, pouco a pouco, recolhido aos meus pedagógicos, como aposentado, inútil e perigoso.

Comparar-se uma civilização com outra, um país com outro, é tentar medir um cataclismo. As ondas do mar são idênticas em substância e nenhuma repete a forma anterior. E há quem diga que a própria composição varia, dependendo de luz, pressão, fundo marinho, microrganismo, correntes, etc. Imagine-se uma comparação entre crianças ou entre métodos de progresso, isto que fixa a maneira de trabalho coletivo no tempo!

E há quem anuncie livros e faça conferências comparando o Brasil e Estados Unidos. Brasil e Argentina. Brasil e Rússia!... E dizemos facilmente:- se eu fosse fulano!... Esquecidos que se fôssemos o outro não teríamos as características pessoais distintas. O processo intelectual de Plutarco e as Vidas Paralelas devia e podia ser excelente no tempo vivido por Plutarco. Hoje será apenas um método de exasperar o gênero humano. Há poucos dias ouvimos um professor norte-americano numa conferência no Instituto Histórico negar eficiência nos exames anuais como processo de aquilatação para média escolar. E não deu uma só palavra sobre o teste, o teste que o Brasil está empregando como a suprema maravilha para escolher os capazes e os aptos. Há quem negue alguma coisa de útil nos testes sob explicação de que a aferição fixa um momento apenas de elaboração feliz e coincidente, mas possivelmente o momento pode não repetir-se. O método real, humano e lógico ainda é do velho Aristóteles:- ver, ouvir, anotar e julgar do que se acompanhou no fim de algum tempo. Não compararás. Em verdade vos digo que a Comparação é o oitavo pecado mortal.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 18 de outubro de 1947

 
Postado em 23 de novembro de 2005, quarta

O direito de não ouvir

Há em todos os países do Mundo a Legislação do Silêncio, defendendo a população dos ruídos inúteis, do barulho indispensável, das sonoridades discutíveis.

Médicos e educadores sabem o que vem a ser um ruído, um rumor, um barulho e sua influência no sistema nervoso infantil e adulto. Envenena-se pelo rumor como pela via oral, engolindo-se o tóxico. O rumor gasta a energia, dispersa a atenção, deseduca o sentido, exaspera a percepção, desvia a mentalidade. Prefeitos, sanitaristas, educadores, psiquiatras conseguiram dos Governos essa Legislação do Silêncio, obrigando, democraticamente, a maioria respeitar a unidade, ou essa unidade acatar a decisão da maioria quando fundamentada em lógica científica. Em qualquer cidade-grande, dessas que Verhaeren denominou tentaculares, há uma série de obrigações impostas pelo dever de respeitar-se o silêncio, ou prazer do próximo... Não é possível, num apartamento, abrir-se o volume de voz a um rádio e deixar um samba abalando todo o edifício sob pretexto de que o dono do aparelho é livre e não tem contas a prestar com as orelhas alheias, não é lógico que toda a gente se interesse pelo mesmo programa e procure contagiar essa simpatia pelo estridor instrumental ou vocal. A popularidade, cada vez maior do rádio, a quase obra de possuí-lo, não implica numa proclamação de direito sobre o sossego ou idiossincrasias circunvizinhas.

Um amigo da rua Princesa Isabel não podia conservar o mesmo timbre de voz graças ao berreiro do rádio parede-meias. Por que você não pede para o seu vizinho gozar o rádio sozinho, sem esse fervoroso entusiasmo comunicativo?

- Não peço, não senhor. Vingo-me. Quando ele quer dormir, eu ligo o meu rádio para os programas mais idiotas e deixo gritar a vontade...

A função educadora do rádio, nesse caso, é diametralmente oposta a uma finalidade elementar de bom comportamento. O melhor é ter um rádio e ouvi-lo sempre. Ouvi-lo em nossa sala sem a participação dos outros que, podem ou não, estar em momento de boa recepção mental. Digo essas coisas em tese generalisadíssima. Os meus dois vizinhos são modelos de possuidores de rádios. Sei que existem os aparelhos porque vejo a denúncia nas antenas.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 11 de outubro de 1947

 
Postado em 16 de novembro de 2005, quarta

Me disseram...

Permito-me. Ó manes de Castilho Antônio e do finado Candido de Figueiredo, dar o título acima ser agravo premeditado aos policiadores pronominais. Uma frase muito comum é:- Não sei bem... me disseram.

Serve de habeas-corpus à vaguidade da fonte originária informativa e dentro dessa irresponsabilidade espolinha-se, livre, a imaginação solta do narrador. É pois, do domínio psicológico, um elemento de clara e nítida força.

Voltaire, quando lhe perguntavam o princípio de uma notícia, respondia:- Não estou certo porque me disseram...

Entretanto esse me-disseram é o agente transmissor de 99% das notícias do Comum, reportagem dos jornais-falados cotidianos, mantidos nas ruas pela força redatorial do anonimato. Sustentados pela pujança seivosa da inventiva sem possibilidades do ônus da prova. Ninguém exige a documentação nem as credenciais do depoente interessado na divulgação gratuita. E continua o boato.

O veículo alaga tão materialmente o ambiente com os informes sem carimbo, que as imagens da replecção denunciam o aspecto vivo:- a rua está cheia... a cidade está cheia...

Cheia de que? Cheia do me-disseram...

Esse elemento – um processo de poderosa intensidade social para retardar, acelerar, deter nomes, famas, desejos, sucessos. Estou traduzindo apenas a ária de Demi Basílio, a ária-de-calunia, no Barbeiro de Sevilha. Mas o me-disseram pode ser favorável, simpático e mesmo bajulativo. É possível determinar a auréola doirada da Fama sem a necessidade da produção ou mesmo a função humana o trabalho intelectual quando o dístico haloador pertence à classe dos letrados. Possível dispor, pelo me-disseram, um cenário que dispensa o ator, esforça-se muito. Basta aparecer e receber as palmas. Já se sabe que é gênio sem precisar um minuto de comprovação. Nas horas vermelhas de uma agitação revolucionária, o julgamento de vida e morte depende unicamente desse método sem identificação de culpa e prêmio.

Espalha-se o rumor e esse rumor cria a figura do delito ou da glória individual sem que a vítima ou herói haja merecido a coroa para a cabeça ou a corda para o pescoço.

Me disseram que era assim...

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 14 de outubro de 1947

 
Postado em 9 de novembro de 2005, quarta

Vespúcio não subiu o rio Assu

Depois da publicação do Falsos Precursores de Cabral, do historiador Duarte Leite (1922) não apareceu resposta para defender a prioridade espanhola no descobrimento do litoral brasileiro. Diego de Lepe, Pinzon, Alonso de Hojeda continuam chegando à terra do Brasil para quem não leu o monumental trabalho do grau e pesquisador português. Não lhe deram resposta. Duarte Leite exibira documentação excepcionalmente valiosa pela interpretação científica excluindo, prática e realmente, as viagens dos castelhanos ao Brasil antes de 1500. Vamos convencionar que Alonso de Hojeda tenha atravessado a equinocial e molhado a proa de sua nau nas águas barrentas do rio Assu em ju