| Postado
em 13 de dezembro de 2006, quarta |
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Chee
Chow
Em chinês Chee Chow significa o “sete
místico”,
as sete peças engenhosas. São sete pedacinhos
de madeira, marfim, jade, ouro, figuras geométricas,
acomodáveis entre si, sob qualquer ângulo,
e formando casas, bichos, coisas variadas.
Cinco
peças são triângulos isósceles.
Há um paralelogramo e um quadrilátero.
Com esses retalhos o chinês passa horas e horas
arrumando e desarrumando, construindo e destruindo,
tentando novas formas, tipos originais.
Com
as sete peças do Chee Chow permitem mil e duzentas
combinações.
A
regra preliminar é armar as figuras sem recorrer
a explicação que ensina a disposição
dos elementos, a carpintaria do jogo. Na China é
fácil encontrar Chang-Kai-Schek ou o Presidente
da República, um general do exército vermelho
ou o arcebispo de Cantão, inteiramente absorvidos
no manejo das sete pecinhas.
Chinês
que não brinca com o Chee Chow não é
chinês.
Quando
fui para a Europa, a bordo do “Santa
Cruz”,
vi o Chee Chow matar as horas lentas do dia. Missionários,
viajantes, industriais, senhoras, debruçavam-se
tentando combinações novas do Chee Chow.
Sempre no salão havia alguém com as sete
plaquinhas verdes de Chee Chow. Acabei tomando interesse.
Em Portugal e Espanha deparei noutras vezes com o passatempo
chinês e, dentro do imenso e reboante
“Constellation”
que sobrevoava o Saara e o Atlântico, o Chee Chow
estava presente.
Fiquei
respeitando esse jogo infantil e primário. Há
mais de três mil anos que os filósofos,
os imperadores, os guerreiros e os bonzos da China o
conhecem e o amam.
Confucius
era grande jogador de Chee Chow. Trinta séculos
depois, era devoto de Chee Chow o fundador da República
Chinesa. O último imperador, o menino Pu Yi,
abandonou o Palácio do Jade da Cidade Sagrada
levando na mão a caixinha de xarão com
o seu Chee Chow.
Americanos
e ingleses aceitaram e divulgaram o jogo de paciência,
vindo de tão nobre passado político, militar,
intelectual e elegante. Fábricas na Inglaterra
e nos Estados Unidos estão espalhando o milenar
passatempo pelo mundo ocidental.
Por
isso, aqui na cidade do Natal, o Chee Chow chegou e
tem amigos.
Luís
da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 17 de janeiro de 1948
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| Postado
em 6 de dezembro de 2006, quarta |
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O
Milagre da Montanha
Falando aos gregos, depois de Maratone, Temistócles,
num arroubo, valorizava o elemento humano, princípio
e fim das civilizações. O general ateniense
perorava: “-
A pátria não está nas muralhas,
mas nos homens. São esses cidadãos e não
os edifícios, que fazem as cidades”.
Muitos
esquecem essa imagem. E vêem nas cidades os edifícios,
as fábricas os laboratórios, os quartéis.
Falam nas cidades grandes, nos rios vencidos pelas pontes,
nas montanhas derrotadas pelos túneis. Do trabalho
humano, pequenino, diário, obstinado, maravilhoso,
pouco, muito pouco falamos. Há quase trinta anos
que sugiro uma nova redação nos compêndios
de História do Brasil. Sugiro que se inclua o
trabalho humano na conquista da terra, na fixação
da cidade, na criação do plantio, na semeadura
das indústrias. Insisto em dizer que uma indústria
que nasce, amplia-se, desdobra-se, determina um acréscimo
demográfico, uma técnica, uma visão
nova, uma geração de trabalhadores, atira
a bandeira do Brasil para todos os lados, limpa e bonita,
erguida em mãos fortes, levando uma expressão
consoladora de vitória pacífica, de campanha
sem sangue, de vidas magníficas curvadas numa
tarefa que explica o esplendor. Li esse lindo Milagre
da Montanha, de Álvaro Franco e Sinhorinha Maia
Ramos de Franco. O milagre é a cidade de Caxias
do Sul, no Rio Grande do Sul. Campo dos Bugres que acabou
erguendo para o céu uma floresta de chaminés
fumegantes, atestando o labor ininterrupto dos homens.
E
outro milagre é o esforço de um italianozinho,
Abramo Eberle, com 16 anos, comprando por seiscentos
mil réis, em 1896, ao Pai, uma funilaria humilde.
Seu primeiro trabalho foi uma lâmpada de flandres,
lamparina cuja luz indecisa aluminou o primeiro serão,
teimoso, na noite fria. Cinqüenta anos depois essa
lamparina é um símbolo, força inicial
de quinze mil tipos de objetos criados pela mão
magnífica que a fizera, pequenina e fiel. A “Metalúrgica
Abramo Eberle Ltda”
fornece quase tudo a quase todos os brasileiros. E a
obra intelectual de Álvaro Franco a resume, inteira
e comunicativa em sua simplicidade humana, defendendo-a
da incompreensão e da indiferença.
Estátua,
festa, nome da rua, placa de bronze, dinheiro, batismo
de arranha-céu, discurso, banquete, baile, tudo
passa ou tudo fica sem expressão na memória
coletiva. O livro fica. Acima de tudo, o livro fica
contando a história daquele que trabalhou, amou,
sofreu. A indústria de Abramo Eberle continuará
nas mãos fiéis dos filhos. A lamparina
não se apagará. O livro, verídico,
contará aos futuros a vida bonita do forjador
que venceu a Morte...
Luís
da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 9 de janeiro de 1948
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| Postado
em 30 de agosto de 2006, quarta |
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Frutas

Natal velha possuía poucas fruteiras e mesmo
os “antigos”
eram admiradores muito restritos de frutas. Laranjas,
bananas, mamões bastavam para o regime. Não
herdamos o gosto pela fruticultura nem os devotamentos
de sua inclusão nos nossos cardápios.
De
um reparo antigo, de 33 anos, relembro: - “Os
antepassados não nos legaram, talvez, duas centenas
de árvores frutíferas. Não existe
em toda cidade uma vintena de mangueiras seculares,
e há quinze anos passados o sapotizeiro era inteiramente
desconhecido entre nós, como o era igualmente
o abacateiro... Os primeiros habitantes levaram tão
longe o seu desamor pelo cultivo dos pomares, que, mesmo
em relação às poucas árvores
que plantaram, não tiveram o menor cuidado na
seleção das sementes sucedendo serem os
seus frutos pouco saborosos, quando não intragáveis”.
(A República, 14/11/14). A nota fixa
o estado da cidade do Natal em 1914. No primeiro ano
da administração de Ferreira Chaves.
Os
frutos dos tabuleiros e praias, cajueiros, mangabas,
maçarandubas, guagirus, oitis, ubáias,
araçás, camboins (abundante na parte sul
da cidade, dando nome a uma rua, entre a Pio X e a av.
Apodi, a rua do Camboin), pitombas não constituíam,
como as duas primeiras, espécies regulares de
consumo, indicadas nas mesas, inseparáveis em
certas épocas.
Ferreira
Chaves divulgou a manga-rosa, outrora raríssima,
vendida a preços altíssimos (um cruzado!)
e vindas do Recife. Eram mais consideradas pela beleza
e aveludado da coloração que pelo sabor,
mesmo excelente, mas tornado acre no custo acima da
pecúnia vulgar. Ferreira Chaves espalhou as mangas-rosas,
presenteando as mudas, mandando-as aos amigos, pedindo-lhes
que plantassem e tomando interesse como se tratasse
de uma afilhada.
As
mangas-rosas popularizaram-se, multiplicadas até
o infinito. Hoje são banais. Não foi possível
obter resultado com as laranjas-seletas, laranjas-limas
e as chamadas “da
Baia”,
enormes e sem caroço. Nem as uvas mereceram as
simpatias teimosas. Certo é que, de 1914 a 1947,
o caminho andado foi muito grande. E muita melhoria
houve, tomando por base a denúncia citada.
Luís
da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 31 de outubro de 1947
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| Postado
em 23 de agosto de 2006, quarta |
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Internacional
da Poesia
Na sessão de encerramento da Comissão
Executiva do Congresso Luso Brasileiro de Folk Lore
em Lisboa, o Sr. Antônio Ferro fez um discurso
sugestivo. Discurso conversando e sem pretensão
de eloqüência. Não ergueu a voz. A
sala era pequena e acolhedora. O Palácio da Foz,
em vermelho e branco, é um dos mais lindos da
Europa. Casa fidalga do século XVIII, cheia de
recordações graciosas, de festas que deixaram
saudades, de elegância, de bom gosto, ambiente
em que a conversa era uma Arte e o espírito um
estado normal da inteligência. O Sr. Antônio
Ferro, fixando a importância essencial da defesa
do Folk Lore, como fisionomia coletiva em sua expressão
natural e poderosa de beleza, lembrou que o povo imprime
aos seus objetos um pormenor de graça, de colorido
e de emoção incomparável e lógico.
A poesia e o canto, o desenho coreográfico e
a indumentária, todo material etnográfico,
constitui uma força viva, mobilizada automaticamente
para a guarda da alma popular na profundeza de sua sinceridade,
do seu direito de expressar-se sem obediência
e submissão ao Ganon exterior, efêmero
e sucessivo, da Moda...
A
valorização do Folk Lore pelos Governos
é um ato natural. Tão natural como a organização
de suas Forças Militares. É um exército
invisível e perpétuo, vivendo nas almas,
de geração em geração, defendendo
o País, idioma, hábito, cultura oral,
costume, a técnica secular conquistadora de maravilhas.
Se os Governos forem, um a um, valorizando, sistematizando,
divulgando, fixando o seu Folk Lore, estarão
criando uma Internacional de Poesia, pacífica,
invencível, a mais natural, a mais democrática,
a mais profunda de todas as organizações
sociais, unindo, através dos idiomas e das religiões,
das culturas e das civilizações, do tempo
e do espaço, todos os homens, de todas as raças,
numa continuidade de beleza, de lirismo, de confiança
e de solidarismo humano. Os temas cantados em todas
as línguas, em cem fórmulas musicais,
dizem um mapa comum, determinando a aproximação,
o entendimento, o conhecimento intelectual pela sensibilidade
da tradição. Será uma Internacional
de Poesia em serviço, em defesa e conservação
da Paz. Folk Lore é cultura popular, independente,
omnimoda, universal e nacional, coletiva, é una,
milenar e presente. Valorizá-lo, como o faz o
Governo de Portugal, é assumir uma atitude em
serviço da Paz pela presença afetuosa
da inteligência anônima dos povos.
O Sr. Antônio Ferro fez, sem intenção
e sem vaidade, o seu discurso de inauguração
do Congresso. E, velho enamorado da Arte Popular Portuguesa,
expôs, aos seus companheiros do Folk Lore Brasileiro,
o programa inicial de sua doutrina radicular e natural.
Luís
da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 27 de dezembro de 1947
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| Postado
em 16 de agosto de 2006, quarta |
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Espanha...
Espanha...
Depois de ler as “correspondências”,
os “observadores
imparciais”
e os telegramas desinteressados, cheguei a conclusão
de que a Espanha estava desaparecendo da face do mundo,
envolta em chamas, molhada de sangue, cheia de violência,
bestialidade e opressão horrenda. Por toda a
parte patrulhas guardando escombros fumegantes. Descargas
de fuzilamento. Fome. Fome. Fome. Escuridão.
Fim de um dramalhão romântico com clarões
de fogo fátuo, visão do cemitério
e descidas de brancas almas do outro mundo. Essa era
a Espanha sob o domínio do caudilho Franco.
Quando
cheguei a Vigo, admirei um pouco a tranqüilidade
da gente que olhava o grande navio. Meu passaporte não
estava visado para a Espanha. O navio arribara. Não
conhecia viv’alma
em Vigo. Não dei um passo para descer. As exigências
seriam demasiado ferozes para quem desejasse ir à
Espanha com passaporte, quanto mais em se tratando de
um passageiro sem documentos. O pessoal de bordo levou-me
o caso à Polícia. Uma hora depois estava
autorizado a descer e andar por onde quisesse. Revirei
Vigo para lá e para cá. Fui a Baiona.
Fui a Santiago de Compostela. Dois meses depois repassaria
o rio Minho indo de Caminha a La Guardia. Comi nos restaurantes
melhores e nas ‘fondas’ típicas.
Não vi gente morrendo de fome nem condenada a
morrer de frio. Havia tudo para o dinheiro. Pouca gasolina,
mas os automóveis iam rodando. Os comboios não
pararam. Toda a Galiza litoral é zona de pescaria,
moderna, intensa. As longas composições
ferroviárias espalham o pescado por todas as
regiões. A abundância de frutos e de vinhos
garantem o resto. Naturalmente o espanhol não
come como comia antes da Guerra Civil, cataclismo que
devastou a terra e arrancou as raízes da tranqüilidade
nacional. Mas na situação da Espanha estão
os povos felizes. Melhor, um pouco, que a Espanha, existe
Portugal e talvez Suíça e Suécia.
O “resto”
está passando meia fome para exportar e conquistar
as divisas. Essa é a verdade clara e alta. O
contrário é intencionalismo de qualquer
lado e de qualquer cor.
De
conversa em conversa ia-se adivinhando “algo
de nuevo”.
Muita indignação contra os “vermelhos”.
Casos de arrepiar, narrados com veemência de voz
e tempestade de gesto. Ninguém é mais
eloqüente que um espanhol. Vi o trabalho admirável
de homens e de mulheres. A confiança em vencer.
Vencer o quê? Vencer a campanha de ódio
em que confundem governo e povo espanhol. Decisão
em resistir. É a impressão de quem haja
visto, mesmo parcialmente, a “vieja”
Espanha.
Luís
da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 24 de dezembro de 1947
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| Postado
em 9 de agosto de 2006, quarta |
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Eça
de Queiroz contra a nobreza?
O centenário natalício de Eça de
Queiroz teve a homenagem de duzentos volumes e dois
mil artigos. Certamente uma alta e boa percentagem dá
uma lembrança saudosa do Santo Ofício.
Muito
autor serviu-se de Eça de Queiroz para porta-voz
de palavreado pessoal. Outros encheram o escritor de
cores e trapos que lhes sobraram das alminhas da cor
de café-com-leite, como o daquele tenente coronel
de Garcia Lorca.
Raros
olharam mesmo para o Homem, para o ambiente vivido,
para a época, especialmente para as idéias
categóricas que viviam dentro da cabeça
dos amigos e do próprio Eça de Queiroz.
Fui um leitor teimoso, decorador de Eça de Queiroz.
Raro será o episódio que não o
tenha de cor e salteado. Fui em Portugal um peregrinador,
visitando onde Eça de Queiroz passara, residência
dos amigos, o monumento na praça Barão
de Quintela, o túmulo simples no cemitério
lisboeta.
Um
dos dogmas ensinados como uma dedução
dos livros de Eça de Queiroz era a sátira
à Nobreza titulada de Portugal. Todos os nobres
que ele registrou foram Ribamar, Abranhos, Gouvarinho,
fixados na escala social mais alta e na tabela mental
mais baixa.
O
autor convivera com os tipos mais expressivos da velha
e legítima nobreza de Portugal. Fora amigo de
Arnoso, Pindela, Ficalho, Rezende, amigo íntimo.
Casou com uma filha do Conde de Rezende. Hoje, os descendentes
de Eça de Queiroz estão confundidos com
os Rezendes depois de múltiplos matrimônios.
O
Conde d’Aurora
examinou esse aspecto numa conferência de notável
repercussão, Eça de Queiroz e a Nobreza.
Evidenciou que a “nobreza”
evocada pelo escritor fora a falsa aristocracia nascida
da eleição, os “nobres”
da política partidária, titulares e jamais
fidalgos, vivendo nas cidades, agarrados às funções
do mando artificial, longe da terra, distante do trabalho,
esquecidos de todos os elementos típicos da Nobreza,
radicada a gleba, cercada de povo, vivendo como uma
grande árvore, para espalhar a sombra e o fruto.
Mostrou que ninguém mais nobre, intelectualmente,
que Eça de Queiroz. E sua obra, sob a influência
incomparável da esposa, Dona Emília de
Castro (Rezende) fora uma exaltação às
formas palpitantes e eternas da Nobreza do esforço
e da inteligência. E uma sátira definitiva
aos condes e barões ministeriais, sem o sangue
da terra e da tradição. Uma das mais autênticas
e lindas homenagens a Eça de Queiroz foi a conferência
do Conde d’Aurora.
Luís
da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 22 de dezembro de 1947
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| Postado
em 2 de agosto de 2006, quarta |
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A
primeira coragem...
O conde João Maurício de Nassau investiu
na cidade do Salvador em Abril-Maio de 1633 e foi repelido.
Essa derrota diminuiu-lhe o prestígio junto ao
Conselho dos PIX. O halo de invencibilidade interrompera-se
e o fidalgo contou maior número de críticas
de adversários, e candidatos ao seu cargo, oferecendo-se
a administrar o Brasil Holandês com menos pompa,
menos nos preços e maior eficácia. Essa
tentativa sobre a Bahia marca o ponto mais alto na carreira
militar de Nassau. Houve gesto posterior valente e muita
atitude digna de registro ainda foi feita e Barleu anotou
no cronicão louvador. Mas a importância
pinacular de uma conquista à capital do Brasil
Português, sede holandesa treze anos antes, ofuscaria
a gesta anterior. Falhando, Nassau foi descendo, degrau
a degrau, para o embate miúdo e voraz com os
subalternos alvoroçados ante a possibilidade
da herança.
Repelido,
destroçado, em Maio de 1638, a vitória
trouxe os prêmios aos valentes. O napolitano Conde
de Ragnuolo passou a Príncipe. O Governador Penri
da Silva é agraciado com o título de Conde
de São Lourenço e houve distribuição
de comendas, brasões e pensões por Felipe
III d’Espanha e Portugal. Entre os distinguidos
estava o nosso Dom Antônio Felipe Camarão
recebendo uma comenda nos Moinhos de Soure.
Mas
há muito escuro na organização
dessa vitória decisiva na história do
Brasil. O que se sabe, documentativamente, é
que Bagnuolo e o Governador eram desafetos. Quando Nassau
apareceu, foram ambos reconhecer o estado da força
inimiga e Bagnuolo ao voltar declarou incapaz de defender
a Bahia e foi-se meter no seu arraial, sem dar um passo
diante do inimigo. O Governador fez outro tanto, isto
é, nada fez, porque não lhe competia a
parte militar. Os grandes chefes estavam esperando ordens
que não vinham. Ia-se perder a cidade com Souto,
Camarão, Barbalho Bezerra, impacientes de luta?
Houve uma coragem, a primeira coragem que desperta,
coisifica, reúne os vacilantes e decide. Foi
o vereador mais velho do Senado da Câmara, o Sargento
Mor João Álvares da Fonseca Coutinho.
Vendo o princípio de abandono, o pânico,
Coutinho faz tocar o sino da Câmara. Agrupou os
vereadores e foi à frente deles, em nome de Deus
e de El Rei, pedir e exigir que a cidade fosse defendida
por quem tivesse espada e a soubesse honrar. Tudo se
organizou. O Governador aceitou renunciar a jurisdição
urbana e Coutinho decidiu Bagnuolo a chefiar a defensão.
O napolitano, interesseiro, recebeu todos os oferecimentos
e promessas. Coutinho foi a primeira coragem. Sem ele
Nassau tomaria a cidade ante a desorganização
interior.
Na
vitória, Coutinho teve apenas um hábito
de Cristo com a pensão de sessenta mil réis.
É um pequenino nome que se esconde na ressonância
dos chefes vencedores. No Porto conheci a Dom Antônio
Xavier da Gama Pereira Coutinho (Soydos), descendente
do Sargento Mor João Álvares da Fonseca
Coutinho. O neto repôs o avô no justo lugar.
Reunindo documentação irrespondível,
treze certidões preciosas, examinando historiadores
de todos os tempos, Dom Antônio Pereira Coutinho
escreveu um ensaio que esclarece, nítida e completamente,
o papel dos chefes e a voz oportuna do vereador mais
velho, tangendo o sino comunal da cidade, congregando,
pacificando, animando, unindo todos para o combate.
O ensaio responde a uma necessidade de informação.
E fixa uma fisionomia seiscentista, cheia de valor moral
e de grandeza de espírito, o talento-de-servir,
tão raro, tão alto, quase divino.
E
para os historiadores do Brasil, Dom Antônio Pereira
Coutinho expôs, como um mestre, proposições
meridianamente certas. A iniciativa da defesa da Bahia
é lidimamente portuguesa
Luís
da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 20 de dezembro de 1947
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| Postado
em 26 de julho de 2006, quarta |
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Coleções
Africanas
Na Exposição do Mundo Português
as colônias africanas enviaram para Lisboa coleções
magníficas no domínio etnográfico.
Dificilmente será possível outra visão
mais completa da vida comum, doméstica, guerreira,
religiosa, da Guiné, do Congo, de Angola e Moçambique.
Vieram
as cubatas com os utensílios diários.
Vieram as armas dos guerreiros, lanças, adagas,
escudos, dardos, enfeites de chefes, sobas, sobetes,
régulos, penachos, cintas de capins, de peles,
cadeiras trabalhadas, objetos decorativos, milhares
de pequeninas estatuetas, imagens e deuses graúdos
e miúdos do céu africano, maravilhas negras
de cor, originalidade, beleza nova para nossos olhos
americanos.
A
Exposição do Mundo Português foi
visitada por mais de um milhão de pessoas. Estudiosos
e técnicos de todas as nacionalidades estavam
presentes, enviados pelos seus governos. O Brasil mandou
delegados eminentes, historiadores, poetas, jurisconsultos,
soldados, oradores. A tradição deixada
é de alta e sonora admiração.
Mas
o Presidente Getúlio Vargas não mandou
a Portugal um etnógrafo, nem um arqueólogo,
nem um antropologista, nem um curioso de Folk Lore.
As riquezas expostas interessavam muito e muito ao Brasil.
Era uma ocasião única de confrontar e
estudar material etnográfico africano, de tantas
regiões, além da documentação
fotográfica. O Governo Português ofereceria
o que se pedisse das coleções. Especialmente
em se tratando do Brasil a oferta seria graciosa. Ninguém
se interessou pelas coleções africanas.
Ficaram meses desafiando a cobiça. Dispersaram-se
para sempre.
Foram para colecionadores. Para museus europeus. Alguma
coisa que ficou em Portugal andei visitando, rosnando
de raiva. Em Coimbra, no Portugal-para-os-pequeninos
e no Museu de Etnografia, que Francisco Lage dirige
em Lisboa, ficou um saldo desse mundo negro, tão
rico em sugestão e memória para nós.
Perdemos para sempre essas coleções. Nem
as vimos. Nenhuma página, nenhum livro de informação
etnográfica pôde aparecer, escrito por
mão de brasileiro. O governo não quis
mandar dois ou três da meia dúzia de lunáticos
etnográficos. Outros, com muitíssimo menor
interesse cultural, saborearam a lição
e ficaram com cada belezinha que nem tenho coragem de
recordar...
Luís
da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 19 de dezembro de 1947
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| Postado
em 19 de julho de 2006, quarta |
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A
bilha d’água da ermida de São Jorge
A
batalha de Aljubarrota foi ao entardecer de uma segunda-feira,
14 de Agosto de 1385. Decidiu-se a autonomia de Portugal.
O Rei de Castela, casado com a filha única de
dom Fernando, o derradeiro Rei português da dinastia
que Afonso Henrique iniciara, viera conquistar pelas
armas o que dizia pertencer-lhe pela herança.
O Exército castelhano era dez vezes maior. Dom
João I, Mestre de Aviz, Rei jurado nas Cortes
de Coimbra e defendido pelo povo, jogava toda a sorte
num encontro guerreiro. O Condestável era Nuno
Álvares Pereira, flor de Cavalaria, o Galaaz
de Portugal, último Cavaleiro do São Graal,
puro, forte e bom. Dom Nuno Álvares Pereira entricheirou-se
numa elevação, esperando a carga da cavalaria
castelhana na floresta de lanças que os peões
enfiavam no chão, para agüentar o embate
contra o peito das montadas. Ninguém esperava
que os portugueses resistissem, mínimos e fracos,
ante o esplendor castelhano, deslumbrante de luxo e
pompa protocolar. Mas os portugueses venceram. Vi os
troféus nas Igrejas. Vi o cimo do Rei no Museu
Militar. A espada de Nuno Álvares. A cota defensiva
em Guimarães. O oratório do rei de Castela,
em prata cinzelada, foi abandonado e o Rei o doou à
Matriz de Guimarães. Fui vê-lo.
Até
os imensos caldeirões de cobre, cheios de sopa
para a criadagem do rei de Castela, foram encontrados.
Dom João ofereceu-os aos frades de Alcobaça.
Estavam todos lá. Resta ainda um, enorme, na
sala vazia do Capítulo, visitada por mim.
Um
episódio famoso foi à sede do Condestável.
Sofreu-a o dia inteiro para não abandonar o Exército.
Na Luta prometeu construir uma ermida a um santo de
sua devoção. São Jorge. Venceu
a luta e construiu a ermida, num lindo românico
acolhedor.
A
Capela fica à margem da rodovia moderníssima,
no caminho para o Mosteiro da Batalha, para o Norte,
para Fátima, indo-se de Lisboa, à direita...
Há um muro de meio metro, com entrada ampla e
fácil que jamais se fecha.
Junto
à porta, em oferecimento perpétuo à
sede terrível que o Condestável, o Santo
Condestável, padeceu em Aljubarrota, há
uma bilha d’água fresca e um copo de barro,
à disposição de quem passe, a qualquer
hora do dia ou da noite.
Inda
agora na capela
De São Jorge, lá se vê
Em memória da batalha,
A bilha da nossa fé.
Luís
da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 15 de dezembro de 1947
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| Postado
em 12 de julho de 2006, quarta |
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A
visão imóvel
ossuímos uma visão interior de objetos,
entidades, valores, avaliados numa escala criada pela
nossa simpatia. Cada coisa significa o que queremos
que signifique e não o que realmente vale e se
constitui.
Esse
fenômeno de deformação inconsciente
é comum. Nomes, civilizações, doutrinas,
passam para a nossa sensibilidade através de
leituras, informações verbais e possivelmente
viagens. Os anos passam, mas a visão inicial,
gravada na placa ainda virgem da sensibilidade pessoal,
resiste às modificações posteriores
quando não verificadas diretamente. A impressão
primeira tornou-se convenção, dogma, tabu
e todo raciocínio que vier depois filtrar-se-á
através dos juízos velhos e já
acomodados ao nosso maquinismo psicológico. O
que se ajustar, fica incorporado ao corpo velhinho do
“juízo
formado”.
O
que contrariar, está errado. É crime,
blasfêmia. No mínimo de observação.
Não há namorado distante, anos e anos,
da namorada, que a julgue diferente da época
em que a deixou. A mocidade viajou nos olhos do ausente.
Ninguém admite uma transformação.
O Tempo não existe. O natalense que vive fora
da sua cidade há meio século tem na memória
visual a paisagem antiga, Natal do seu tempo. Evoca-o,
descreve-o, fica casas, costumes, fisionomias. Quando
há o encontro desse exilado natalense com um
outro conterrâneo, moço e atual, há
uma divergência totalitária. Não
se entendem. Cada um possui a sua Natal, com povo, costumes,
fisionomias diversas. De raro em raro é que surge
uma coincidência. Contam de um velho natalense
que vivera longamente no sul do país, regressado
para ver a cidade, comentava assombrado:
- Menino! Do meu tempo só encontrei Chico Herôncio
e o mar!...
Tudo
mudara. A visão imóvel é a soma
dos valores fixados na memória. Muita gente tem
a visão de um Portugal de 1908 ou 1910 imóvel
dentro da memória. Está convencido que
nenhuma força modificaria o Portugal julgado
verídico. Pensam num e é outro Portugal.
Diversíssimo. Nada anedótico. Nada imóvel.
Mas teimam. Portugal é o outro, o interior imóvel,
anedótico, amorfo. Não serve depoimento
de quem viu. Basta a força da inércia
de quem teima.
Luís
da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 13 de dezembro de 1947
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| Postado
em 5 de julho de 2006, quarta |
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A
primeira barba
Leonardo
Mota registra essa tradição, Violeiros
do Norte, 240:- “Antigamente,
para um rapaz sertanejo fazer a barba pela primeira
vez, tinha de pedir licença ao pai. Ainda hoje
em lugarejos do alto sertão nordestino perdura
este costume. O Padre Vicente Bezerra, Vigário
da freguesia cearense de Aurora, andava em desobriga
pelas capelas de sua paróquia, quando um rapagão
matuto lhe perguntou:- Seu Vigário, a gente fazê
a barba pela primeira vez, sem licença do pai
da gente, é pecado venial ou mortal?”
Todos os estudiosos do Brasil tradicional fixaram esse
costume. Ainda o alcancei no sertão e todos sabem
de sua veracidade. Recebemo-lo de Portugal. Leite de
Vasconcelos registrara:- “O
rapaz que se barbeia a primeira vez, e não o
fazia antigamente sem licença do pai, e sem este
declarar ao barbeiro que a concedia (costume ainda agora
vigente, por exemplo, na Estremadura, no Algarve, etc.),
passa, por assim dizer, da adolescência à
juventude: quase se torna, ou torna-se viril.”
Essa é a informação do maior etnográfico
de Portugal.
Fazer
a barba não era senão um ato de iniciação,
um verdadeiro rito de passagem como classificará
Van Gennep. A passagem de uma a outra fase da vida sempre
se acompanhava, nas sociedades primitivas, de ritos
e cerimoniais destinados a deixar no espírito
moço uma funda impressão duradoura. A
barba anunciava a idade viril e para seu ingresso, além
do empurrão decisivo da natureza, havia o convencionalismo
doméstico, exigindo reverenciais que se articulavam
com dezenas de cultos desaparecidos, mas residindo nos
hábitos e temidos nas superstições.
Em Roma a primeira barba era cercada de cerimoniais
religiosos, havendo o ato de oferecê-lo a um deus,
Depositio Barbae. Os primeiros pêlos da face e
queixo eram postos numa bola ou caixa de ouro e consagrados
a uma divindade. O Imperador Nero – conta-nos
Suetônio – oferecera a sua primeira barba
a Júpiter Capitalino, numa caixa de ouro, ornada
das mais preciosas pérolas; “barbam
primam possuit, conditamque in aurean pyxidem, et pretiossimis
margaritis adornatam Jovi Capitolino consecravit”.
Essa é a origem do respeito à primeira
barba, da necessidade de uma permissão. São
vestígios de cultos domésticos, rito de
passagem, cerimonial de iniciação.
Luís
da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 30 de outubro de 1947
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| Postado
em 29 de março de 2006, quarta |
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A
estória singular...
O
casal residia numa cidade tranqüila. A mulher mudou
de gênio e tornou a casa difícil. Discussões,
disputas, bate-boca diário. Os vizinhos falando.
O bairro sabendo. A cidade comentando... A vida ficou
impossível. O homem exasperava-se, ameaçava,
pedia, sossegava. Depois o círculo recomeçava,
pedia, sossegava. Depois o círculo recomeçava.
Assim o tempo passou sem melhoria. Notaram que a mulher
desaparecera. O marido não explicou. Não
disse palavra aos vizinhos. A Polícia mandou-o
buscar e interrogou-o. Disse então que a mulher
fugira de casa há um mês sem deixar indício
da viagem. A Polícia mandou investigar e não
encontrou ponto com ponto.
Correu
o boato que o marido matara a mulher e a enterrara no
campo. O homem não adiantava pormenor quanto
ao sumiço da cônjuge. Prenderam-no. Começou
inquérito. Testemunhas, depoimentos longos, curiosidades.
As estórias eram terríveis. Tinham ouvido,
certa noite, gemidos, rumor de luta abafada. Outros,
no escuro, julgam ter entrevisto a figura do assassino
carregando o cadáver da vítima para enterrá-lo
misteriosamente. Procurou-se o corpo. O homem negava
obstinado. As provas iam nascendo e caindo na cabeça
do acusado. O inquérito terminou, seguiu para
o juiz de Direito e o promotor denunciou. O homem, preso
há três, quatro meses, protestava. A Justiça
seguiu, triturando, na caçada da verificação
e do esclarecimento. Numa cidade próxima uma
criada de servir, doente, triste, teve um súbito
acesso de loucura. Os donos da casa chamaram a Polícia
e esta levou a mulher para o hospício. Trataram-na
pacientemente. A mulher sossegou. E na manhã
seguinte, tranqüilamente, disse que era casada
com o Sr. Antônio Marinho Falcão, residente
na cidade de Guarabira e que fugira do marido sem rastos
e que este devia tê-la procurado como agulha no
palheiro. O delegado de Polícia, Alfredo Campos,
ouviu os patrões da mulherzinha, na Praça
Senador Guerra, cidade do Natal, e telegrafou para Guarabira
dizendo que possivelmente a pseuda defunta desaparecida
fosse a alienada recolhida ao Hospício. No dia
17 de Novembro de 1919 o Sr. Antônio Marinho Falcão,
livre da culpa de uxoricídio, chegou de Guarabira
e levou, no dia seguinte, a mulher. Acabou-se a estória.
Outrora era assunto de um bom drama em três atos.
Luís
da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 11 de novembro de 1947
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| Postado
em 22 de março de 2006, quarta |
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Lauro
Sodré e o Rio Grande do Norte
As
gerações moças ignoram a história
política do Brasil. Conhecemos apenas a tempestade
eleitoral com seus vulcões de lama. Como não
possuímos o historiador político, o conhecimento
das fases anteriores é precário, fixado
ao sabor das simpatias pessoais. No Rio Grande do Norte,
por exemplo, há uma atitude de coragem coletiva,
de fidelidade moral, de satisfação ao
dever, sumamente consagrada às nossas afirmativas
de soberania espiritual no domínio partidário
e nunca relembrada.
É
uma história que não vem na História.
Presidia o Brasil Prudente de Morais, cuja sucessão
ia-se discutir-se. O chefe político supremo era
Francisco Glicerio, o “general
Glicerio”
que dá nome a uma rua da nossa cidade. Glicerio
fundara e dirigia o Partido Republicano Federal, o famoso
P.R.F. Graças ao deputado J. J. Seabra o P.R.F.
cindiu-se, ficando parte sob a orientação
de Prudente e o restante fiel a Glicerio.
Entre
os fiéis, Pedro Velho e com ele o Rio Grande
do Norte. O Partido fez então duas convenções.
A “prudentista”
escolheu Campos Sales e Rosa e Silva para presidente
e vice-presidente. A patrulha de Glicerio indicou Lauro
Sodré e Fernando Lobo como candidatos.
A
propaganda era intensa, não diretamente ao povo
que naquele tempo existia bem precariamente como elemento
decidinte, mas aos chefes, governadores, senadores e
deputados. A máquina universal do louvor e do
pavor, da carícia e da ameaça, funcionou
sonoramente.
Para
muitos chefes de grandes Estados era um atrevimento
do Rio Grande do Norte jurar fidelidade na oposição
ao candidato do presidente da República, Campos
Sales, então governador de São Paulo.
Pedro Velho teimou em cumprir quanto prometera. A candidatura
de Lauro Sodré foi extremamente popular no Rio
Grande do Norte. Vivavam o nome do candidato até
nas festas religiosas. A eleição ocorreu
a 1o. de Março de 1898. Dois Estados, apenas
dois Estados, Paraná no Sul e Rio Grande do Norte
no setentrião, levaram às urnas Lauro
Sodré e Fernando Lobo. Campos Sales ganhou com
vantagem. Ficou a Pedro Velho as alegrias do dever cumprido.
Era uma derrota que o glorificava. Lauro Sodré
viveu mais quarenta anos. E dizia, referindo-se ao Rio
Grande do Norte, - Moralmente, é um dos maiores
Estados do Brasil!...
Luís
da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 6 de novembro de 1947
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| Postado
em 15 de março de 2006, quarta |
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Viagem
às ruínas históricas
Aqui
trago aos olhos modernos uma carta de 33 anos passados.
Escreveu-lhe a Henrique Castriciano, de Nápoles,
ao seu amigo Rodrigues de Carvalho. É uma impressão
rápida da viagem sentimental feita pelo poeta
às ruínas históricas, às
terras de lenda, de tradição indefinida
no escuro do passado. Carta íntima, bem merece
fazê-la voltar ao sol de 1947 porque os reparos
não perderam cor e vibração, oportunidade
e justiça na aplicação e lembrança.
“Meu
caro Rodrigues. Recebi, há três dias a
tua carta. Recebi-a com pequena demora, pois mandei
que a minha correspondência viesse para aqui,
uma vez que pretendia, como fiz, voltar por Jerusalém
do Egito, tendo-me demorado uma semana na Terra Santa.
As
ruínas do Egito são as que há de
mais assombroso. Fui a Tebas, a cidade de cem portas,
e fiquei atordoado. Tanta coisa grande e desfeita! Passou
por ali uma grande civilização e dela
só restam alguns destroços de arte.
Vi
a estátua de Memon.
O
colosso lá está, mas já escalavrado
e não diz mais patavina, salvo... salvo quando
alguém se trepa o que é difícil
porque aquilo é estupidamente grande, e se põe
a bater nos flancos da figura. Ao passar por lá,
o sacripante de um egípcio ofereceu-me para fazer
a estátua falar como nos outros tempos, mediante
uma piastra (pouco mais de 100 réis). Bateu com
um pedaço de ferro e a velha Memon falou... como
qualquer aresta dos rochedos do teu sertãozinho.
E se visse a figura do sacripante. De camisa azul e
completamente nu das coxas para baixo! Jerusalém
causou-me uma profunda tristeza. O santo sepulcro e
as outras coisas arranjadas pela suja mão humana
dão uma impressão desagradável.
Mas
a paisagem acorda na gente uma imensa lembrança
dos mortos amados, dos velhos, dos que nos meteram a
cartilha na mão. Vi o Jordão, o Mar Morto,
o Jardim das Oliveiras, a Casa de Marta, o Monte da
Tentação, etc.
E
tudo me despertou uma saudade pungente dos tempos de
meninice. Estou farto de ruínas. Ainda agora
chego de Pompéia e Egito e Jerusalém e
tudo quanto cheira a destroços só serve
para a gente arraigar-se à idéia que Gonçalves
Dias sintetizou:- Tudo é vão, tudo é
vão, exceto a Morte!”
Não
merecia leitura?
Luís
da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 28 de outubro de 1947
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| Postado
em 8 de março de 2006, quarta |
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Aluisio
de Azevedo
Tenho
notado que entre as obras completas que estão
aparecendo abundantemente de mortos e vivos, nenhum
editor incluiu Aluisio de Azevedo. Será que não
há mercado para seus livros? Ou não há
mercado porque os livros estão esgotados? Certamente
não haverá o entusiasmo de 1888-1900 por
Aluisio, o grande, elegante e forte Rui Vaz que Coelho
Neto fixou na Conquista. Não haveria
o entusiasmo pelos processos naturalistas da época,
seu relativo pudor em face ao que temos lido nos contemporâneos.
Zola, Maupassant, foram mestres mas não determinaram
caminhos senão inicialmente. Aluisio abandonou
logo a mania de imitar a série dos Rougon Maequart.
Possuiu fisionomia indiscutida. Como nenhum outro fixou
a paisagem social brasileira em certas classes e momentos
atravessados. O Cortiço e Casa de
Pensão representam o que melhor possuímos
no romance brasileiro de costumes até os primeiros
anos do século XIX. Equilíbrio e segurança,
simplicidade e sugestão foram os elementos naturais
de Aluisio. Aproximar O Cortiço ou Casa
de Pensão de um dos nossos romances ‘made
às pressas’
é consagrar o labor, a lentidão de um
artista que grava, para durar, e não o ‘instantâneo’
que o tempo amarelará.
O
naturalismo zolaresco foi tão dominante que não
se concebia o romance sem a maneira do falso solitário
de Meudon. Aluisio não reagiu, mas modificou
e sua maneira ainda é sensivelmente a mesma do
Brasil. Ninguém, exceto José Américo
de Almeida no primeiro romance, Bagaceira,
deixou de ser fixado pelo sensível radar da influência
de Aluisio.
Devo
ainda dizer que a influência independe do conhecimento.
Não ler Aluisio não significará
a libertação de sua influência.
Pode-se ser influenciado por um elemento aluisiano,
indiretamente. Morto em Buenos Aires em 1913, o corpo
de Aluisio Azevedo seis anos depois veio para o Brasil.
Do Rio viajou para o Maranhão, a bordo do Baía,
acompanhado por Arthur Azevedo Filho, seu sobrinho.
Em
Natal o navio chegou a 23 de outubro de 1919. H. Castriciano,
Galdino Lima, Palmira, Carolina, Lauro Wanderley, Luis
Potiguar Fernandes, Adauto da Câmara, Alfredo
Campos, Flodoaldo de Góis, Francisco Palma, J.
C. Britto, João Soares de Araújo e eu,
Palmira e Carolina levaram flores. Foi a nossa homenagem...
Luís
da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 27 de outubro de 1947
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| Postado
em 1° de março de 2006, quarta |
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Criados
de servir
Uma
das críticas mais ferozes e repetidas aos Maias
de Eça de Queiroz é sobre a conversa de
gente de sociedade alta, falando, longamente, de criados.
Eça se defendia fazendo ter copiado as cenas
da própria natureza social do ambiente. Era o
mais comum e mais encontrado de todos os assuntos. E
os Maias são de 1888, tempo de vida doce, de
servos submissos, sorridentes e bons. João do
Rio, tão esquecido, perguntava em 1911 se dentro
de dez anos o Rio de Janeiro teria ainda criados.
A
conversa absorvente, maciça, indispensável
quando duas senhoras se avistam e têm tempo de
sentar e falar, é o problema da criadagem, a
cozinheira, a copeira, a ama de criança, astral,
rara, preciosa como um lírio azul. Revistas cariocas
têm dado reportagens curiosas sobre o tema, dando
depoimentos de empregadas, a tabela dos preços
e o protocolo das exigências, sempre ascendentes.
Lógico
é que o problema se agravaria com a facilidade
da vida noutros aspectos, noutras atividades, funções
que uma cidade apresenta mais e mais. Os norte-americanos
que sofrem de tecnicismo já pensaram nesse plano
e há técnicos no sentido da criadagem.
Um desses ‘experts’ Edith M. Barber,
autora do popular Speaking or Servants (Nova
York), depois de muita conversa mole atinou que a educação
doméstica resolverá o problema.
Sabem
como resolverá? Dispensando-se a empregada porque
cada moça que se casar é dona e criada
de casa. A aparelhagem elétrica, mecânica,
simplificará os encargos. Lavar pratos, dissolver
gorduras, fazer café, torrar pão, bater
sorvete, uma maquinazinha vai prestando obsequiosos
serviços. E o almoço? E o jantar –
compra-se feitos no ‘restaurante’ em pratos
de papel, atirados fora depois de cada refeição.
A geladeira guarda e conserva os frios para as fomes
imprevistas.
Argumenta-se
que esse quadro é índice de um rendimento
mensal dez vezes superior à média de um
funcionário público... estadual e honesto.
Urge, dentro de toda legislação, ouso
da caderneta doméstica, a responsabilidade real
da empregada e concomitantemente sua credencial nos
sucessivos empregos. E um tratamento de acordo com o
tempo que não é 1888 de Eça de
Queiroz nem 1911 de João do Rio.
Mas,
o problema em Natal? Está resolvido. Como resolvido?
Sofrendo-se...
Luís
da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 21 de outubro de 1947
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| Postado
em 22 de fevereiro de 2006, quarta |
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Não
compararás
No
meu Decálogo há o mandamento rejeitando
a comparação como método e como
processo mental de seleção. Não
compararás!
Duas coisas iguais a uma terceira são iguais
entre si. Pode ser a coisa abstrata, convencional, número,
risco. Materialmente nada é igual entre si. Nem
duas gotas de sangue, nem duas folhas da mesma árvore,
nem dois fios do mesmo cabelo. Diferenciam-se formal
e forçosamente.
No
grupo humano a diversidade é infinita e descobriram
que no próprio indivíduo não há
dois momentos num dia em que ele esteja igual, isto
é, semelhante psico e fisiologicamente ao que
estava dez ou vinte horas antes.
Assim,
comparar é um processo que deve ir sendo, pouco
a pouco, recolhido aos meus pedagógicos, como
aposentado, inútil e perigoso.
Comparar-se
uma civilização com outra, um país
com outro, é tentar medir um cataclismo. As ondas
do mar são idênticas em substância
e nenhuma repete a forma anterior. E há quem
diga que a própria composição varia,
dependendo de luz, pressão, fundo marinho, microrganismo,
correntes, etc. Imagine-se uma comparação
entre crianças ou entre métodos de progresso,
isto que fixa a maneira de trabalho coletivo no tempo!
E
há quem anuncie livros e faça conferências
comparando o Brasil e Estados Unidos. Brasil e Argentina.
Brasil e Rússia!... E dizemos facilmente:- se
eu fosse fulano!... Esquecidos que se fôssemos
o outro não teríamos as características
pessoais distintas. O processo intelectual de Plutarco
e as Vidas Paralelas devia e podia ser excelente no
tempo vivido por Plutarco. Hoje será apenas um
método de exasperar o gênero humano. Há
poucos dias ouvimos um professor norte-americano numa
conferência no Instituto Histórico negar
eficiência nos exames anuais como processo de
aquilatação para média escolar.
E não deu uma só palavra sobre o teste,
o teste que o Brasil está empregando como a suprema
maravilha para escolher os capazes e os aptos. Há
quem negue alguma coisa de útil nos testes sob
explicação de que a aferição
fixa um momento apenas de elaboração feliz
e coincidente, mas possivelmente o momento pode não
repetir-se. O método real, humano e lógico
ainda é do velho Aristóteles:- ver, ouvir,
anotar e julgar do que se acompanhou no fim de algum
tempo. Não compararás. Em verdade vos
digo que a Comparação é o oitavo
pecado mortal.
Luís
da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 18 de outubro de 1947
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| Postado
em 23 de novembro de 2005, quarta |
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O
direito de não ouvir

Há
em todos os países do Mundo a Legislação
do Silêncio, defendendo a população
dos ruídos inúteis, do barulho indispensável,
das sonoridades discutíveis.
Médicos
e educadores sabem o que vem a ser um ruído,
um rumor, um barulho e sua influência no sistema
nervoso infantil e adulto. Envenena-se pelo rumor como
pela via oral, engolindo-se o tóxico. O rumor
gasta a energia, dispersa a atenção, deseduca
o sentido, exaspera a percepção, desvia
a mentalidade. Prefeitos, sanitaristas, educadores,
psiquiatras conseguiram dos Governos essa Legislação
do Silêncio, obrigando, democraticamente, a maioria
respeitar a unidade, ou essa unidade acatar a decisão
da maioria quando fundamentada em lógica científica.
Em qualquer cidade-grande, dessas que Verhaeren denominou
“tentaculares”,
há uma série de obrigações
impostas pelo dever de respeitar-se o silêncio,
ou prazer do próximo... Não é possível,
num apartamento, abrir-se o volume de voz a um rádio
e deixar um samba abalando todo o edifício sob
pretexto de que o dono do aparelho é livre e
não tem contas a prestar com as orelhas alheias,
não é lógico que toda a gente se
interesse pelo mesmo programa e procure contagiar essa
simpatia pelo estridor instrumental ou vocal. A popularidade,
cada vez maior do rádio, a quase obra de possuí-lo,
não implica numa proclamação de
direito sobre o sossego ou idiossincrasias circunvizinhas.
Um
amigo da rua Princesa Isabel não podia conservar
o mesmo timbre de voz graças ao berreiro do rádio
parede-meias. Por que você não pede para
o seu vizinho gozar o rádio sozinho, sem esse
fervoroso entusiasmo comunicativo?
-
Não peço, não senhor. Vingo-me.
Quando ele quer dormir, eu ligo o meu rádio para
os programas mais idiotas e deixo gritar a vontade...
A
função educadora do rádio, nesse
caso, é diametralmente oposta a uma finalidade
elementar de bom comportamento. O melhor é ter
um rádio e ouvi-lo sempre. Ouvi-lo em nossa sala
sem a participação dos outros que, podem
ou não, estar em momento de boa recepção
mental. Digo essas coisas em tese generalisadíssima.
Os meus dois vizinhos são modelos de possuidores
de rádios. Sei que existem os aparelhos porque
vejo a denúncia nas antenas.
Luís
da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 11 de outubro de 1947
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| Postado
em 16 de novembro de 2005, quarta |
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Me
disseram...
Permito-me.
Ó manes de Castilho Antônio e do finado
Candido de Figueiredo, dar o título acima ser
agravo premeditado aos policiadores pronominais. Uma
frase muito comum é:- Não sei bem... me
disseram.
Serve
de habeas-corpus à vaguidade da fonte originária
informativa e dentro dessa irresponsabilidade espolinha-se,
livre, a imaginação solta do narrador.
É pois, do domínio psicológico,
um elemento de clara e nítida força.
Voltaire,
quando lhe perguntavam o princípio de uma notícia,
respondia:- Não estou certo porque me disseram...
Entretanto
esse “me-disseram”
é o agente transmissor de 99% das notícias
do Comum, reportagem dos jornais-falados cotidianos,
mantidos nas ruas pela força redatorial do anonimato.
Sustentados pela pujança seivosa da inventiva
sem possibilidades do ônus da prova. Ninguém
exige a documentação nem as credenciais
do depoente interessado na divulgação
gratuita. E continua o boato.
O
veículo alaga tão materialmente o ambiente
com os informes sem carimbo, que as imagens da replecção
denunciam o aspecto vivo:- a rua está cheia...
a cidade está cheia...
Cheia
de que? Cheia do “me-disseram”...
Esse
elemento – um processo de poderosa intensidade
social para retardar, acelerar, deter nomes, famas,
desejos, sucessos. Estou traduzindo apenas a ária
de Demi Basílio, a ária-de-calunia, no
Barbeiro de Sevilha. Mas o “me-disseram”
pode ser favorável, simpático e mesmo
bajulativo. É possível determinar a auréola
doirada da Fama sem a necessidade da produção
ou mesmo a função humana o trabalho intelectual
quando o dístico haloador pertence à classe
dos letrados. Possível dispor, pelo “me-disseram”,
um cenário que dispensa o ator, esforça-se
muito. Basta aparecer e receber as palmas. Já
se sabe que é gênio sem precisar um minuto
de comprovação. Nas horas vermelhas de
uma agitação revolucionária, o
julgamento de vida e morte depende unicamente desse
método sem identificação de culpa
e prêmio.
Espalha-se
o rumor e esse rumor cria a figura do delito ou da glória
individual sem que a vítima ou herói haja
merecido a coroa para a cabeça ou a corda para
o pescoço.
Me
disseram que era assim...
Luís
da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 14 de outubro de 1947
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| Postado
em 9 de novembro de 2005, quarta |
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Vespúcio
não subiu o rio Assu
Depois
da publicação do Falsos Precursores
de Cabral, do historiador Duarte Leite (1922) não
apareceu resposta para defender a prioridade espanhola
no descobrimento do litoral brasileiro. Diego de Lepe,
Pinzon, Alonso de Hojeda continuam chegando à
terra do Brasil para quem não leu o monumental
trabalho do grau e pesquisador português. Não
lhe deram resposta. Duarte Leite exibira documentação
excepcionalmente valiosa pela interpretação
científica excluindo, prática e realmente,
as viagens dos castelhanos ao Brasil antes de 1500.
Vamos convencionar que Alonso de Hojeda tenha atravessado
a equinocial e molhado a proa de sua nau nas águas
barrentas do rio Assu em ju | | | |