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Postado em 13 de dezembro de 2006, quarta

Chee Chow

Em chinês Chee Chow significa o sete místico, as sete peças engenhosas. São sete pedacinhos de madeira, marfim, jade, ouro, figuras geométricas, acomodáveis entre si, sob qualquer ângulo, e formando casas, bichos, coisas variadas.

Cinco peças são triângulos isósceles. Há um paralelogramo e um quadrilátero. Com esses retalhos o chinês passa horas e horas arrumando e desarrumando, construindo e destruindo, tentando novas formas, tipos originais.

Com as sete peças do Chee Chow permitem mil e duzentas combinações.

A regra preliminar é armar as figuras sem recorrer a explicação que ensina a disposição dos elementos, a carpintaria do jogo. Na China é fácil encontrar Chang-Kai-Schek ou o Presidente da República, um general do exército vermelho ou o arcebispo de Cantão, inteiramente absorvidos no manejo das sete pecinhas.

Chinês que não brinca com o Chee Chow não é chinês.

Quando fui para a Europa, a bordo do Santa Cruz, vi o Chee Chow matar as horas lentas do dia. Missionários, viajantes, industriais, senhoras, debruçavam-se tentando combinações novas do Chee Chow. Sempre no salão havia alguém com as sete plaquinhas verdes de Chee Chow. Acabei tomando interesse. Em Portugal e Espanha deparei noutras vezes com o passatempo chinês e, dentro do imenso e reboanteConstellation que sobrevoava o Saara e o Atlântico, o Chee Chow estava presente.

Fiquei respeitando esse jogo infantil e primário. Há mais de três mil anos que os filósofos, os imperadores, os guerreiros e os bonzos da China o conhecem e o amam.

Confucius era grande jogador de Chee Chow. Trinta séculos depois, era devoto de Chee Chow o fundador da República Chinesa. O último imperador, o menino Pu Yi, abandonou o Palácio do Jade da Cidade Sagrada levando na mão a caixinha de xarão com o seu Chee Chow.

Americanos e ingleses aceitaram e divulgaram o jogo de paciência, vindo de tão nobre passado político, militar, intelectual e elegante. Fábricas na Inglaterra e nos Estados Unidos estão espalhando o milenar passatempo pelo mundo ocidental.

Por isso, aqui na cidade do Natal, o Chee Chow chegou e tem amigos.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 17 de janeiro de 1948

 
Postado em 6 de dezembro de 2006, quarta

O Milagre da Montanha

Falando aos gregos, depois de Maratone, Temistócles, num arroubo, valorizava o elemento humano, princípio e fim das civilizações. O general ateniense perorava: - A pátria não está nas muralhas, mas nos homens. São esses cidadãos e não os edifícios, que fazem as cidades.

Muitos esquecem essa imagem. E vêem nas cidades os edifícios, as fábricas os laboratórios, os quartéis. Falam nas cidades grandes, nos rios vencidos pelas pontes, nas montanhas derrotadas pelos túneis. Do trabalho humano, pequenino, diário, obstinado, maravilhoso, pouco, muito pouco falamos. Há quase trinta anos que sugiro uma nova redação nos compêndios de História do Brasil. Sugiro que se inclua o trabalho humano na conquista da terra, na fixação da cidade, na criação do plantio, na semeadura das indústrias. Insisto em dizer que uma indústria que nasce, amplia-se, desdobra-se, determina um acréscimo demográfico, uma técnica, uma visão nova, uma geração de trabalhadores, atira a bandeira do Brasil para todos os lados, limpa e bonita, erguida em mãos fortes, levando uma expressão consoladora de vitória pacífica, de campanha sem sangue, de vidas magníficas curvadas numa tarefa que explica o esplendor. Li esse lindo Milagre da Montanha, de Álvaro Franco e Sinhorinha Maia Ramos de Franco. O milagre é a cidade de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul. Campo dos Bugres que acabou erguendo para o céu uma floresta de chaminés fumegantes, atestando o labor ininterrupto dos homens.

E outro milagre é o esforço de um italianozinho, Abramo Eberle, com 16 anos, comprando por seiscentos mil réis, em 1896, ao Pai, uma funilaria humilde. Seu primeiro trabalho foi uma lâmpada de flandres, lamparina cuja luz indecisa aluminou o primeiro serão, teimoso, na noite fria. Cinqüenta anos depois essa lamparina é um símbolo, força inicial de quinze mil tipos de objetos criados pela mão magnífica que a fizera, pequenina e fiel. A Metalúrgica Abramo Eberle Ltda fornece quase tudo a quase todos os brasileiros. E a obra intelectual de Álvaro Franco a resume, inteira e comunicativa em sua simplicidade humana, defendendo-a da incompreensão e da indiferença.

Estátua, festa, nome da rua, placa de bronze, dinheiro, batismo de arranha-céu, discurso, banquete, baile, tudo passa ou tudo fica sem expressão na memória coletiva. O livro fica. Acima de tudo, o livro fica contando a história daquele que trabalhou, amou, sofreu. A indústria de Abramo Eberle continuará nas mãos fiéis dos filhos. A lamparina não se apagará. O livro, verídico, contará aos futuros a vida bonita do forjador que venceu a Morte...

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 9 de janeiro de 1948

 
Postado em 30 de agosto de 2006, quarta

Frutas

Natal velha possuía poucas fruteiras e mesmo os antigos eram admiradores muito restritos de frutas. Laranjas, bananas, mamões bastavam para o regime. Não herdamos o gosto pela fruticultura nem os devotamentos de sua inclusão nos nossos cardápios.

De um reparo antigo, de 33 anos, relembro: - Os antepassados não nos legaram, talvez, duas centenas de árvores frutíferas. Não existe em toda cidade uma vintena de mangueiras seculares, e há quinze anos passados o sapotizeiro era inteiramente desconhecido entre nós, como o era igualmente o abacateiro... Os primeiros habitantes levaram tão longe o seu desamor pelo cultivo dos pomares, que, mesmo em relação às poucas árvores que plantaram, não tiveram o menor cuidado na seleção das sementes sucedendo serem os seus frutos pouco saborosos, quando não intragáveis. (A República, 14/11/14). A nota fixa o estado da cidade do Natal em 1914. No primeiro ano da administração de Ferreira Chaves.

Os frutos dos tabuleiros e praias, cajueiros, mangabas, maçarandubas, guagirus, oitis, ubáias, araçás, camboins (abundante na parte sul da cidade, dando nome a uma rua, entre a Pio X e a av. Apodi, a rua do Camboin), pitombas não constituíam, como as duas primeiras, espécies regulares de consumo, indicadas nas mesas, inseparáveis em certas épocas.

Ferreira Chaves divulgou a manga-rosa, outrora raríssima, vendida a preços altíssimos (um cruzado!) e vindas do Recife. Eram mais consideradas pela beleza e aveludado da coloração que pelo sabor, mesmo excelente, mas tornado acre no custo acima da pecúnia vulgar. Ferreira Chaves espalhou as mangas-rosas, presenteando as mudas, mandando-as aos amigos, pedindo-lhes que plantassem e tomando interesse como se tratasse de uma afilhada.

As mangas-rosas popularizaram-se, multiplicadas até o infinito. Hoje são banais. Não foi possível obter resultado com as laranjas-seletas, laranjas-limas e as chamadas da Baia, enormes e sem caroço. Nem as uvas mereceram as simpatias teimosas. Certo é que, de 1914 a 1947, o caminho andado foi muito grande. E muita melhoria houve, tomando por base a denúncia citada.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 31 de outubro de 1947

 
Postado em 23 de agosto de 2006, quarta

Internacional da Poesia

Na sessão de encerramento da Comissão Executiva do Congresso Luso Brasileiro de Folk Lore em Lisboa, o Sr. Antônio Ferro fez um discurso sugestivo. Discurso conversando e sem pretensão de eloqüência. Não ergueu a voz. A sala era pequena e acolhedora. O Palácio da Foz, em vermelho e branco, é um dos mais lindos da Europa. Casa fidalga do século XVIII, cheia de recordações graciosas, de festas que deixaram saudades, de elegância, de bom gosto, ambiente em que a conversa era uma Arte e o espírito um estado normal da inteligência. O Sr. Antônio Ferro, fixando a importância essencial da defesa do Folk Lore, como fisionomia coletiva em sua expressão natural e poderosa de beleza, lembrou que o povo imprime aos seus objetos um pormenor de graça, de colorido e de emoção incomparável e lógico. A poesia e o canto, o desenho coreográfico e a indumentária, todo material etnográfico, constitui uma força viva, mobilizada automaticamente para a guarda da alma popular na profundeza de sua sinceridade, do seu direito de expressar-se sem obediência e submissão ao Ganon exterior, efêmero e sucessivo, da Moda...

A valorização do Folk Lore pelos Governos é um ato natural. Tão natural como a organização de suas Forças Militares. É um exército invisível e perpétuo, vivendo nas almas, de geração em geração, defendendo o País, idioma, hábito, cultura oral, costume, a técnica secular conquistadora de maravilhas. Se os Governos forem, um a um, valorizando, sistematizando, divulgando, fixando o seu Folk Lore, estarão criando uma Internacional de Poesia, pacífica, invencível, a mais natural, a mais democrática, a mais profunda de todas as organizações sociais, unindo, através dos idiomas e das religiões, das culturas e das civilizações, do tempo e do espaço, todos os homens, de todas as raças, numa continuidade de beleza, de lirismo, de confiança e de solidarismo humano. Os temas cantados em todas as línguas, em cem fórmulas musicais, dizem um mapa comum, determinando a aproximação, o entendimento, o conhecimento intelectual pela sensibilidade da tradição. Será uma Internacional de Poesia em serviço, em defesa e conservação da Paz. Folk Lore é cultura popular, independente, omnimoda, universal e nacional, coletiva, é una, milenar e presente. Valorizá-lo, como o faz o Governo de Portugal, é assumir uma atitude em serviço da Paz pela presença afetuosa da inteligência anônima dos povos.

O Sr. Antônio Ferro fez, sem intenção e sem vaidade, o seu discurso de inauguração do Congresso. E, velho enamorado da Arte Popular Portuguesa, expôs, aos seus companheiros do Folk Lore Brasileiro, o programa inicial de sua doutrina radicular e natural.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 27 de dezembro de 1947

 
Postado em 16 de agosto de 2006, quarta

Espanha... Espanha...

Depois de ler as correspondências, os observadores imparciais e os telegramas desinteressados, cheguei a conclusão de que a Espanha estava desaparecendo da face do mundo, envolta em chamas, molhada de sangue, cheia de violência, bestialidade e opressão horrenda. Por toda a parte patrulhas guardando escombros fumegantes. Descargas de fuzilamento. Fome. Fome. Fome. Escuridão. Fim de um dramalhão romântico com clarões de fogo fátuo, visão do cemitério e descidas de brancas almas do outro mundo. Essa era a Espanha sob o domínio do caudilho Franco.

Quando cheguei a Vigo, admirei um pouco a tranqüilidade da gente que olhava o grande navio. Meu passaporte não estava visado para a Espanha. O navio arribara. Não conhecia vivalma em Vigo. Não dei um passo para descer. As exigências seriam demasiado ferozes para quem desejasse ir à Espanha com passaporte, quanto mais em se tratando de um passageiro sem documentos. O pessoal de bordo levou-me o caso à Polícia. Uma hora depois estava autorizado a descer e andar por onde quisesse. Revirei Vigo para lá e para cá. Fui a Baiona. Fui a Santiago de Compostela. Dois meses depois repassaria o rio Minho indo de Caminha a La Guardia. Comi nos restaurantes melhores e nas ‘fondas’ típicas. Não vi gente morrendo de fome nem condenada a morrer de frio. Havia tudo para o dinheiro. Pouca gasolina, mas os automóveis iam rodando. Os comboios não pararam. Toda a Galiza litoral é zona de pescaria, moderna, intensa. As longas composições ferroviárias espalham o pescado por todas as regiões. A abundância de frutos e de vinhos garantem o resto. Naturalmente o espanhol não come como comia antes da Guerra Civil, cataclismo que devastou a terra e arrancou as raízes da tranqüilidade nacional. Mas na situação da Espanha estão os povos felizes. Melhor, um pouco, que a Espanha, existe Portugal e talvez Suíça e Suécia. O resto está passando meia fome para exportar e conquistar as divisas. Essa é a verdade clara e alta. O contrário é intencionalismo de qualquer lado e de qualquer cor.

De conversa em conversa ia-se adivinhando algo de nuevo. Muita indignação contra os vermelhos. Casos de arrepiar, narrados com veemência de voz e tempestade de gesto. Ninguém é mais eloqüente que um espanhol. Vi o trabalho admirável de homens e de mulheres. A confiança em vencer. Vencer o quê? Vencer a campanha de ódio em que confundem governo e povo espanhol. Decisão em resistir. É a impressão de quem haja visto, mesmo parcialmente, a vieja Espanha.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 24 de dezembro de 1947

 
Postado em 9 de agosto de 2006, quarta

Eça de Queiroz contra a nobreza?

O centenário natalício de Eça de Queiroz teve a homenagem de duzentos volumes e dois mil artigos. Certamente uma alta e boa percentagem dá uma lembrança saudosa do Santo Ofício.

Muito autor serviu-se de Eça de Queiroz para porta-voz de palavreado pessoal. Outros encheram o escritor de cores e trapos que lhes sobraram das alminhas da cor de café-com-leite, como o daquele tenente coronel de Garcia Lorca.

Raros olharam mesmo para o Homem, para o ambiente vivido, para a época, especialmente para as idéias categóricas que viviam dentro da cabeça dos amigos e do próprio Eça de Queiroz. Fui um leitor teimoso, decorador de Eça de Queiroz. Raro será o episódio que não o tenha de cor e salteado. Fui em Portugal um peregrinador, visitando onde Eça de Queiroz passara, residência dos amigos, o monumento na praça Barão de Quintela, o túmulo simples no cemitério lisboeta.

Um dos dogmas ensinados como uma dedução dos livros de Eça de Queiroz era a sátira à Nobreza titulada de Portugal. Todos os nobres que ele registrou foram Ribamar, Abranhos, Gouvarinho, fixados na escala social mais alta e na tabela mental mais baixa.

O autor convivera com os tipos mais expressivos da velha e legítima nobreza de Portugal. Fora amigo de Arnoso, Pindela, Ficalho, Rezende, amigo íntimo. Casou com uma filha do Conde de Rezende. Hoje, os descendentes de Eça de Queiroz estão confundidos com os Rezendes depois de múltiplos matrimônios.

O Conde dAurora examinou esse aspecto numa conferência de notável repercussão, Eça de Queiroz e a Nobreza. Evidenciou que a nobreza evocada pelo escritor fora a falsa aristocracia nascida da eleição, os nobres da política partidária, titulares e jamais fidalgos, vivendo nas cidades, agarrados às funções do mando artificial, longe da terra, distante do trabalho, esquecidos de todos os elementos típicos da Nobreza, radicada a gleba, cercada de povo, vivendo como uma grande árvore, para espalhar a sombra e o fruto. Mostrou que ninguém mais nobre, intelectualmente, que Eça de Queiroz. E sua obra, sob a influência incomparável da esposa, Dona Emília de Castro (Rezende) fora uma exaltação às formas palpitantes e eternas da Nobreza do esforço e da inteligência. E uma sátira definitiva aos condes e barões ministeriais, sem o sangue da terra e da tradição. Uma das mais autênticas e lindas homenagens a Eça de Queiroz foi a conferência do Conde dAurora.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 22 de dezembro de 1947

 
Postado em 2 de agosto de 2006, quarta

A primeira coragem...

O conde João Maurício de Nassau investiu na cidade do Salvador em Abril-Maio de 1633 e foi repelido. Essa derrota diminuiu-lhe o prestígio junto ao Conselho dos PIX. O halo de invencibilidade interrompera-se e o fidalgo contou maior número de críticas de adversários, e candidatos ao seu cargo, oferecendo-se a administrar o Brasil Holandês com menos pompa, menos nos preços e maior eficácia. Essa tentativa sobre a Bahia marca o ponto mais alto na carreira militar de Nassau. Houve gesto posterior valente e muita atitude digna de registro ainda foi feita e Barleu anotou no cronicão louvador. Mas a importância pinacular de uma conquista à capital do Brasil Português, sede holandesa treze anos antes, ofuscaria a gesta anterior. Falhando, Nassau foi descendo, degrau a degrau, para o embate miúdo e voraz com os subalternos alvoroçados ante a possibilidade da herança.

Repelido, destroçado, em Maio de 1638, a vitória trouxe os prêmios aos valentes. O napolitano Conde de Ragnuolo passou a Príncipe. O Governador Penri da Silva é agraciado com o título de Conde de São Lourenço e houve distribuição de comendas, brasões e pensões por Felipe III d’Espanha e Portugal. Entre os distinguidos estava o nosso Dom Antônio Felipe Camarão recebendo uma comenda nos Moinhos de Soure.

Mas há muito escuro na organização dessa vitória decisiva na história do Brasil. O que se sabe, documentativamente, é que Bagnuolo e o Governador eram desafetos. Quando Nassau apareceu, foram ambos reconhecer o estado da força inimiga e Bagnuolo ao voltar declarou incapaz de defender a Bahia e foi-se meter no seu arraial, sem dar um passo diante do inimigo. O Governador fez outro tanto, isto é, nada fez, porque não lhe competia a parte militar. Os grandes chefes estavam esperando ordens que não vinham. Ia-se perder a cidade com Souto, Camarão, Barbalho Bezerra, impacientes de luta? Houve uma coragem, a primeira coragem que desperta, coisifica, reúne os vacilantes e decide. Foi o vereador mais velho do Senado da Câmara, o Sargento Mor João Álvares da Fonseca Coutinho. Vendo o princípio de abandono, o pânico, Coutinho faz tocar o sino da Câmara. Agrupou os vereadores e foi à frente deles, em nome de Deus e de El Rei, pedir e exigir que a cidade fosse defendida por quem tivesse espada e a soubesse honrar. Tudo se organizou. O Governador aceitou renunciar a jurisdição urbana e Coutinho decidiu Bagnuolo a chefiar a defensão. O napolitano, interesseiro, recebeu todos os oferecimentos e promessas. Coutinho foi a primeira coragem. Sem ele Nassau tomaria a cidade ante a desorganização interior.

Na vitória, Coutinho teve apenas um hábito de Cristo com a pensão de sessenta mil réis. É um pequenino nome que se esconde na ressonância dos chefes vencedores. No Porto conheci a Dom Antônio Xavier da Gama Pereira Coutinho (Soydos), descendente do Sargento Mor João Álvares da Fonseca Coutinho. O neto repôs o avô no justo lugar. Reunindo documentação irrespondível, treze certidões preciosas, examinando historiadores de todos os tempos, Dom Antônio Pereira Coutinho escreveu um ensaio que esclarece, nítida e completamente, o papel dos chefes e a voz oportuna do vereador mais velho, tangendo o sino comunal da cidade, congregando, pacificando, animando, unindo todos para o combate. O ensaio responde a uma necessidade de informação. E fixa uma fisionomia seiscentista, cheia de valor moral e de grandeza de espírito, o talento-de-servir, tão raro, tão alto, quase divino.

E para os historiadores do Brasil, Dom Antônio Pereira Coutinho expôs, como um mestre, proposições meridianamente certas. A iniciativa da defesa da Bahia é lidimamente portuguesa

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 20 de dezembro de 1947

 
Postado em 26 de julho de 2006, quarta

Coleções Africanas

Na Exposição do Mundo Português as colônias africanas enviaram para Lisboa coleções magníficas no domínio etnográfico. Dificilmente será possível outra visão mais completa da vida comum, doméstica, guerreira, religiosa, da Guiné, do Congo, de Angola e Moçambique.

Vieram as cubatas com os utensílios diários. Vieram as armas dos guerreiros, lanças, adagas, escudos, dardos, enfeites de chefes, sobas, sobetes, régulos, penachos, cintas de capins, de peles, cadeiras trabalhadas, objetos decorativos, milhares de pequeninas estatuetas, imagens e deuses graúdos e miúdos do céu africano, maravilhas negras de cor, originalidade, beleza nova para nossos olhos americanos.

A Exposição do Mundo Português foi visitada por mais de um milhão de pessoas. Estudiosos e técnicos de todas as nacionalidades estavam presentes, enviados pelos seus governos. O Brasil mandou delegados eminentes, historiadores, poetas, jurisconsultos, soldados, oradores. A tradição deixada é de alta e sonora admiração.

Mas o Presidente Getúlio Vargas não mandou a Portugal um etnógrafo, nem um arqueólogo, nem um antropologista, nem um curioso de Folk Lore. As riquezas expostas interessavam muito e muito ao Brasil. Era uma ocasião única de confrontar e estudar material etnográfico africano, de tantas regiões, além da documentação fotográfica. O Governo Português ofereceria o que se pedisse das coleções. Especialmente em se tratando do Brasil a oferta seria graciosa. Ninguém se interessou pelas coleções africanas. Ficaram meses desafiando a cobiça. Dispersaram-se para sempre.

Foram para colecionadores. Para museus europeus. Alguma coisa que ficou em Portugal andei visitando, rosnando de raiva. Em Coimbra, no Portugal-para-os-pequeninos e no Museu de Etnografia, que Francisco Lage dirige em Lisboa, ficou um saldo desse mundo negro, tão rico em sugestão e memória para nós. Perdemos para sempre essas coleções. Nem as vimos. Nenhuma página, nenhum livro de informação etnográfica pôde aparecer, escrito por mão de brasileiro. O governo não quis mandar dois ou três da meia dúzia de lunáticos etnográficos. Outros, com muitíssimo menor interesse cultural, saborearam a lição e ficaram com cada belezinha que nem tenho coragem de recordar...

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 19 de dezembro de 1947

 
Postado em 19 de julho de 2006, quarta

A bilha d’água da ermida de São Jorge

A batalha de Aljubarrota foi ao entardecer de uma segunda-feira, 14 de Agosto de 1385. Decidiu-se a autonomia de Portugal. O Rei de Castela, casado com a filha única de dom Fernando, o derradeiro Rei português da dinastia que Afonso Henrique iniciara, viera conquistar pelas armas o que dizia pertencer-lhe pela herança. O Exército castelhano era dez vezes maior. Dom João I, Mestre de Aviz, Rei jurado nas Cortes de Coimbra e defendido pelo povo, jogava toda a sorte num encontro guerreiro. O Condestável era Nuno Álvares Pereira, flor de Cavalaria, o Galaaz de Portugal, último Cavaleiro do São Graal, puro, forte e bom. Dom Nuno Álvares Pereira entricheirou-se numa elevação, esperando a carga da cavalaria castelhana na floresta de lanças que os peões enfiavam no chão, para agüentar o embate contra o peito das montadas. Ninguém esperava que os portugueses resistissem, mínimos e fracos, ante o esplendor castelhano, deslumbrante de luxo e pompa protocolar. Mas os portugueses venceram. Vi os troféus nas Igrejas. Vi o cimo do Rei no Museu Militar. A espada de Nuno Álvares. A cota defensiva em Guimarães. O oratório do rei de Castela, em prata cinzelada, foi abandonado e o Rei o doou à Matriz de Guimarães. Fui vê-lo.

Até os imensos caldeirões de cobre, cheios de sopa para a criadagem do rei de Castela, foram encontrados. Dom João ofereceu-os aos frades de Alcobaça. Estavam todos lá. Resta ainda um, enorme, na sala vazia do Capítulo, visitada por mim.

Um episódio famoso foi à sede do Condestável. Sofreu-a o dia inteiro para não abandonar o Exército. Na Luta prometeu construir uma ermida a um santo de sua devoção. São Jorge. Venceu a luta e construiu a ermida, num lindo românico acolhedor.

A Capela fica à margem da rodovia moderníssima, no caminho para o Mosteiro da Batalha, para o Norte, para Fátima, indo-se de Lisboa, à direita... Há um muro de meio metro, com entrada ampla e fácil que jamais se fecha.

Junto à porta, em oferecimento perpétuo à sede terrível que o Condestável, o Santo Condestável, padeceu em Aljubarrota, há uma bilha d’água fresca e um copo de barro, à disposição de quem passe, a qualquer hora do dia ou da noite.

Inda agora na capela
De São Jorge, lá se vê
Em memória da batalha,
A bilha da nossa fé.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 15 de dezembro de 1947

 
Postado em 12 de julho de 2006, quarta

A visão imóvel

ossuímos uma visão interior de objetos, entidades, valores, avaliados numa escala criada pela nossa simpatia. Cada coisa significa o que queremos que signifique e não o que realmente vale e se constitui.

Esse fenômeno de deformação inconsciente é comum. Nomes, civilizações, doutrinas, passam para a nossa sensibilidade através de leituras, informações verbais e possivelmente viagens. Os anos passam, mas a visão inicial, gravada na placa ainda virgem da sensibilidade pessoal, resiste às modificações posteriores quando não verificadas diretamente. A impressão primeira tornou-se convenção, dogma, tabu e todo raciocínio que vier depois filtrar-se-á através dos juízos velhos e já acomodados ao nosso maquinismo psicológico. O que se ajustar, fica incorporado ao corpo velhinho do juízo formado.

O que contrariar, está errado. É crime, blasfêmia. No mínimo de observação. Não há namorado distante, anos e anos, da namorada, que a julgue diferente da época em que a deixou. A mocidade viajou nos olhos do ausente. Ninguém admite uma transformação. O Tempo não existe. O natalense que vive fora da sua cidade há meio século tem na memória visual a paisagem antiga, Natal do seu tempo. Evoca-o, descreve-o, fica casas, costumes, fisionomias. Quando há o encontro desse exilado natalense com um outro conterrâneo, moço e atual, há uma divergência totalitária. Não se entendem. Cada um possui a sua Natal, com povo, costumes, fisionomias diversas. De raro em raro é que surge uma coincidência. Contam de um velho natalense que vivera longamente no sul do país, regressado para ver a cidade, comentava assombrado:
- Menino! Do meu tempo só encontrei Chico Herôncio e o mar!...

Tudo mudara. A visão imóvel é a soma dos valores fixados na memória. Muita gente tem a visão de um Portugal de 1908 ou 1910 imóvel dentro da memória. Está convencido que nenhuma força modificaria o Portugal julgado verídico. Pensam num e é outro Portugal. Diversíssimo. Nada anedótico. Nada imóvel. Mas teimam. Portugal é o outro, o interior imóvel, anedótico, amorfo. Não serve depoimento de quem viu. Basta a força da inércia de quem teima.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 13 de dezembro de 1947

 
Postado em 5 de julho de 2006, quarta

A primeira barba

Leonardo Mota registra essa tradição, Violeiros do Norte, 240:- Antigamente, para um rapaz sertanejo fazer a barba pela primeira vez, tinha de pedir licença ao pai. Ainda hoje em lugarejos do alto sertão nordestino perdura este costume. O Padre Vicente Bezerra, Vigário da freguesia cearense de Aurora, andava em desobriga pelas capelas de sua paróquia, quando um rapagão matuto lhe perguntou:- Seu Vigário, a gente fazê a barba pela primeira vez, sem licença do pai da gente, é pecado venial ou mortal? Todos os estudiosos do Brasil tradicional fixaram esse costume. Ainda o alcancei no sertão e todos sabem de sua veracidade. Recebemo-lo de Portugal. Leite de Vasconcelos registrara:- O rapaz que se barbeia a primeira vez, e não o fazia antigamente sem licença do pai, e sem este declarar ao barbeiro que a concedia (costume ainda agora vigente, por exemplo, na Estremadura, no Algarve, etc.), passa, por assim dizer, da adolescência à juventude: quase se torna, ou torna-se viril. Essa é a informação do maior etnográfico de Portugal.

Fazer a barba não era senão um ato de iniciação, um verdadeiro rito de passagem como classificará Van Gennep. A passagem de uma a outra fase da vida sempre se acompanhava, nas sociedades primitivas, de ritos e cerimoniais destinados a deixar no espírito moço uma funda impressão duradoura. A barba anunciava a idade viril e para seu ingresso, além do empurrão decisivo da natureza, havia o convencionalismo doméstico, exigindo reverenciais que se articulavam com dezenas de cultos desaparecidos, mas residindo nos hábitos e temidos nas superstições. Em Roma a primeira barba era cercada de cerimoniais religiosos, havendo o ato de oferecê-lo a um deus, Depositio Barbae. Os primeiros pêlos da face e queixo eram postos numa bola ou caixa de ouro e consagrados a uma divindade. O Imperador Nero – conta-nos Suetônio – oferecera a sua primeira barba a Júpiter Capitalino, numa caixa de ouro, ornada das mais preciosas pérolas; barbam primam possuit, conditamque in aurean pyxidem, et pretiossimis margaritis adornatam Jovi Capitolino consecravit. Essa é a origem do respeito à primeira barba, da necessidade de uma permissão. São vestígios de cultos domésticos, rito de passagem, cerimonial de iniciação.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 30 de outubro de 1947

 
Postado em 29 de março de 2006, quarta

A estória singular...

O casal residia numa cidade tranqüila. A mulher mudou de gênio e tornou a casa difícil. Discussões, disputas, bate-boca diário. Os vizinhos falando. O bairro sabendo. A cidade comentando... A vida ficou impossível. O homem exasperava-se, ameaçava, pedia, sossegava. Depois o círculo recomeçava, pedia, sossegava. Depois o círculo recomeçava. Assim o tempo passou sem melhoria. Notaram que a mulher desaparecera. O marido não explicou. Não disse palavra aos vizinhos. A Polícia mandou-o buscar e interrogou-o. Disse então que a mulher fugira de casa há um mês sem deixar indício da viagem. A Polícia mandou investigar e não encontrou ponto com ponto.

Correu o boato que o marido matara a mulher e a enterrara no campo. O homem não adiantava pormenor quanto ao sumiço da cônjuge. Prenderam-no. Começou inquérito. Testemunhas, depoimentos longos, curiosidades. As estórias eram terríveis. Tinham ouvido, certa noite, gemidos, rumor de luta abafada. Outros, no escuro, julgam ter entrevisto a figura do assassino carregando o cadáver da vítima para enterrá-lo misteriosamente. Procurou-se o corpo. O homem negava obstinado. As provas iam nascendo e caindo na cabeça do acusado. O inquérito terminou, seguiu para o juiz de Direito e o promotor denunciou. O homem, preso há três, quatro meses, protestava. A Justiça seguiu, triturando, na caçada da verificação e do esclarecimento. Numa cidade próxima uma criada de servir, doente, triste, teve um súbito acesso de loucura. Os donos da casa chamaram a Polícia e esta levou a mulher para o hospício. Trataram-na pacientemente. A mulher sossegou. E na manhã seguinte, tranqüilamente, disse que era casada com o Sr. Antônio Marinho Falcão, residente na cidade de Guarabira e que fugira do marido sem rastos e que este devia tê-la procurado como agulha no palheiro. O delegado de Polícia, Alfredo Campos, ouviu os patrões da mulherzinha, na Praça Senador Guerra, cidade do Natal, e telegrafou para Guarabira dizendo que possivelmente a pseuda defunta desaparecida fosse a alienada recolhida ao Hospício. No dia 17 de Novembro de 1919 o Sr. Antônio Marinho Falcão, livre da culpa de uxoricídio, chegou de Guarabira e levou, no dia seguinte, a mulher. Acabou-se a estória. Outrora era assunto de um bom drama em três atos.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 11 de novembro de 1947

 
Postado em 22 de março de 2006, quarta

Lauro Sodré e o Rio Grande do Norte

As gerações moças ignoram a história política do Brasil. Conhecemos apenas a tempestade eleitoral com seus vulcões de lama. Como não possuímos o historiador político, o conhecimento das fases anteriores é precário, fixado ao sabor das simpatias pessoais. No Rio Grande do Norte, por exemplo, há uma atitude de coragem coletiva, de fidelidade moral, de satisfação ao dever, sumamente consagrada às nossas afirmativas de soberania espiritual no domínio partidário e nunca relembrada.

É uma história que não vem na História. Presidia o Brasil Prudente de Morais, cuja sucessão ia-se discutir-se. O chefe político supremo era Francisco Glicerio, o general Glicerio que dá nome a uma rua da nossa cidade. Glicerio fundara e dirigia o Partido Republicano Federal, o famoso P.R.F. Graças ao deputado J. J. Seabra o P.R.F. cindiu-se, ficando parte sob a orientação de Prudente e o restante fiel a Glicerio.

Entre os fiéis, Pedro Velho e com ele o Rio Grande do Norte. O Partido fez então duas convenções. A prudentista escolheu Campos Sales e Rosa e Silva para presidente e vice-presidente. A patrulha de Glicerio indicou Lauro Sodré e Fernando Lobo como candidatos.

A propaganda era intensa, não diretamente ao povo que naquele tempo existia bem precariamente como elemento decidinte, mas aos chefes, governadores, senadores e deputados. A máquina universal do louvor e do pavor, da carícia e da ameaça, funcionou sonoramente.

Para muitos chefes de grandes Estados era um atrevimento do Rio Grande do Norte jurar fidelidade na oposição ao candidato do presidente da República, Campos Sales, então governador de São Paulo. Pedro Velho teimou em cumprir quanto prometera. A candidatura de Lauro Sodré foi extremamente popular no Rio Grande do Norte. Vivavam o nome do candidato até nas festas religiosas. A eleição ocorreu a 1o. de Março de 1898. Dois Estados, apenas dois Estados, Paraná no Sul e Rio Grande do Norte no setentrião, levaram às urnas Lauro Sodré e Fernando Lobo. Campos Sales ganhou com vantagem. Ficou a Pedro Velho as alegrias do dever cumprido. Era uma derrota que o glorificava. Lauro Sodré viveu mais quarenta anos. E dizia, referindo-se ao Rio Grande do Norte, - Moralmente, é um dos maiores Estados do Brasil!...

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 6 de novembro de 1947

 
Postado em 15 de março de 2006, quarta

Viagem às ruínas históricas

Aqui trago aos olhos modernos uma carta de 33 anos passados. Escreveu-lhe a Henrique Castriciano, de Nápoles, ao seu amigo Rodrigues de Carvalho. É uma impressão rápida da viagem sentimental feita pelo poeta às ruínas históricas, às terras de lenda, de tradição indefinida no escuro do passado. Carta íntima, bem merece fazê-la voltar ao sol de 1947 porque os reparos não perderam cor e vibração, oportunidade e justiça na aplicação e lembrança.

Meu caro Rodrigues. Recebi, há três dias a tua carta. Recebi-a com pequena demora, pois mandei que a minha correspondência viesse para aqui, uma vez que pretendia, como fiz, voltar por Jerusalém do Egito, tendo-me demorado uma semana na Terra Santa.

As ruínas do Egito são as que há de mais assombroso. Fui a Tebas, a cidade de cem portas, e fiquei atordoado. Tanta coisa grande e desfeita! Passou por ali uma grande civilização e dela só restam alguns destroços de arte.

Vi a estátua de Memon.

O colosso lá está, mas já escalavrado e não diz mais patavina, salvo... salvo quando alguém se trepa o que é difícil porque aquilo é estupidamente grande, e se põe a bater nos flancos da figura. Ao passar por lá, o sacripante de um egípcio ofereceu-me para fazer a estátua falar como nos outros tempos, mediante uma piastra (pouco mais de 100 réis). Bateu com um pedaço de ferro e a velha Memon falou... como qualquer aresta dos rochedos do teu sertãozinho. E se visse a figura do sacripante. De camisa azul e completamente nu das coxas para baixo! Jerusalém causou-me uma profunda tristeza. O santo sepulcro e as outras coisas arranjadas pela suja mão humana dão uma impressão desagradável.

Mas a paisagem acorda na gente uma imensa lembrança dos mortos amados, dos velhos, dos que nos meteram a cartilha na mão. Vi o Jordão, o Mar Morto, o Jardim das Oliveiras, a Casa de Marta, o Monte da Tentação, etc.

E tudo me despertou uma saudade pungente dos tempos de meninice. Estou farto de ruínas. Ainda agora chego de Pompéia e Egito e Jerusalém e tudo quanto cheira a destroços só serve para a gente arraigar-se à idéia que Gonçalves Dias sintetizou:- Tudo é vão, tudo é vão, exceto a Morte!

Não merecia leitura?

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 28 de outubro de 1947

 
Postado em 8 de março de 2006, quarta

Aluisio de Azevedo

Tenho notado que entre as obras completas que estão aparecendo abundantemente de mortos e vivos, nenhum editor incluiu Aluisio de Azevedo. Será que não há mercado para seus livros? Ou não há mercado porque os livros estão esgotados? Certamente não haverá o entusiasmo de 1888-1900 por Aluisio, o grande, elegante e forte Rui Vaz que Coelho Neto fixou na Conquista. Não haveria o entusiasmo pelos processos naturalistas da época, seu relativo pudor em face ao que temos lido nos contemporâneos. Zola, Maupassant, foram mestres mas não determinaram caminhos senão inicialmente. Aluisio abandonou logo a mania de imitar a série dos Rougon Maequart. Possuiu fisionomia indiscutida. Como nenhum outro fixou a paisagem social brasileira em certas classes e momentos atravessados. O Cortiço e Casa de Pensão representam o que melhor possuímos no romance brasileiro de costumes até os primeiros anos do século XIX. Equilíbrio e segurança, simplicidade e sugestão foram os elementos naturais de Aluisio. Aproximar O Cortiço ou Casa de Pensão de um dos nossos romances made às pressas é consagrar o labor, a lentidão de um artista que grava, para durar, e não o instantâneo que o tempo amarelará.

O naturalismo zolaresco foi tão dominante que não se concebia o romance sem a maneira do falso solitário de Meudon. Aluisio não reagiu, mas modificou e sua maneira ainda é sensivelmente a mesma do Brasil. Ninguém, exceto José Américo de Almeida no primeiro romance, Bagaceira, deixou de ser fixado pelo sensível radar da influência de Aluisio.

Devo ainda dizer que a influência independe do conhecimento. Não ler Aluisio não significará a libertação de sua influência. Pode-se ser influenciado por um elemento aluisiano, indiretamente. Morto em Buenos Aires em 1913, o corpo de Aluisio Azevedo seis anos depois veio para o Brasil. Do Rio viajou para o Maranhão, a bordo do Baía, acompanhado por Arthur Azevedo Filho, seu sobrinho.

Em Natal o navio chegou a 23 de outubro de 1919. H. Castriciano, Galdino Lima, Palmira, Carolina, Lauro Wanderley, Luis Potiguar Fernandes, Adauto da Câmara, Alfredo Campos, Flodoaldo de Góis, Francisco Palma, J. C. Britto, João Soares de Araújo e eu, Palmira e Carolina levaram flores. Foi a nossa homenagem...

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 27 de outubro de 1947

 
Postado em 1° de março de 2006, quarta

Criados de servir

Uma das críticas mais ferozes e repetidas aos Maias de Eça de Queiroz é sobre a conversa de gente de sociedade alta, falando, longamente, de criados. Eça se defendia fazendo ter copiado as cenas da própria natureza social do ambiente. Era o mais comum e mais encontrado de todos os assuntos. E os Maias são de 1888, tempo de vida doce, de servos submissos, sorridentes e bons. João do Rio, tão esquecido, perguntava em 1911 se dentro de dez anos o Rio de Janeiro teria ainda criados.

A conversa absorvente, maciça, indispensável quando duas senhoras se avistam e têm tempo de sentar e falar, é o problema da criadagem, a cozinheira, a copeira, a ama de criança, astral, rara, preciosa como um lírio azul. Revistas cariocas têm dado reportagens curiosas sobre o tema, dando depoimentos de empregadas, a tabela dos preços e o protocolo das exigências, sempre ascendentes.

Lógico é que o problema se agravaria com a facilidade da vida noutros aspectos, noutras atividades, funções que uma cidade apresenta mais e mais. Os norte-americanos que sofrem de tecnicismo já pensaram nesse plano e há técnicos no sentido da criadagem. Um desses ‘experts’ Edith M. Barber, autora do popular Speaking or Servants (Nova York), depois de muita conversa mole atinou que a educação doméstica resolverá o problema.

Sabem como resolverá? Dispensando-se a empregada porque cada moça que se casar é dona e criada de casa. A aparelhagem elétrica, mecânica, simplificará os encargos. Lavar pratos, dissolver gorduras, fazer café, torrar pão, bater sorvete, uma maquinazinha vai prestando obsequiosos serviços. E o almoço? E o jantar – compra-se feitos no ‘restaurante’ em pratos de papel, atirados fora depois de cada refeição. A geladeira guarda e conserva os frios para as fomes imprevistas.

Argumenta-se que esse quadro é índice de um rendimento mensal dez vezes superior à média de um funcionário público... estadual e honesto. Urge, dentro de toda legislação, ouso da caderneta doméstica, a responsabilidade real da empregada e concomitantemente sua credencial nos sucessivos empregos. E um tratamento de acordo com o tempo que não é 1888 de Eça de Queiroz nem 1911 de João do Rio.

Mas, o problema em Natal? Está resolvido. Como resolvido? Sofrendo-se...

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 21 de outubro de 1947

 
Postado em 22 de fevereiro de 2006, quarta

Não compararás

No meu Decálogo há o mandamento rejeitando a comparação como método e como processo mental de seleção. Não compararás!

Duas coisas iguais a uma terceira são iguais entre si. Pode ser a coisa abstrata, convencional, número, risco. Materialmente nada é igual entre si. Nem duas gotas de sangue, nem duas folhas da mesma árvore, nem dois fios do mesmo cabelo. Diferenciam-se formal e forçosamente.

No grupo humano a diversidade é infinita e descobriram que no próprio indivíduo não há dois momentos num dia em que ele esteja igual, isto é, semelhante psico e fisiologicamente ao que estava dez ou vinte horas antes.

Assim, comparar é um processo que deve ir sendo, pouco a pouco, recolhido aos meus pedagógicos, como aposentado, inútil e perigoso.

Comparar-se uma civilização com outra, um país com outro, é tentar medir um cataclismo. As ondas do mar são idênticas em substância e nenhuma repete a forma anterior. E há quem diga que a própria composição varia, dependendo de luz, pressão, fundo marinho, microrganismo, correntes, etc. Imagine-se uma comparação entre crianças ou entre métodos de progresso, isto que fixa a maneira de trabalho coletivo no tempo!

E há quem anuncie livros e faça conferências comparando o Brasil e Estados Unidos. Brasil e Argentina. Brasil e Rússia!... E dizemos facilmente:- se eu fosse fulano!... Esquecidos que se fôssemos o outro não teríamos as características pessoais distintas. O processo intelectual de Plutarco e as Vidas Paralelas devia e podia ser excelente no tempo vivido por Plutarco. Hoje será apenas um método de exasperar o gênero humano. Há poucos dias ouvimos um professor norte-americano numa conferência no Instituto Histórico negar eficiência nos exames anuais como processo de aquilatação para média escolar. E não deu uma só palavra sobre o teste, o teste que o Brasil está empregando como a suprema maravilha para escolher os capazes e os aptos. Há quem negue alguma coisa de útil nos testes sob explicação de que a aferição fixa um momento apenas de elaboração feliz e coincidente, mas possivelmente o momento pode não repetir-se. O método real, humano e lógico ainda é do velho Aristóteles:- ver, ouvir, anotar e julgar do que se acompanhou no fim de algum tempo. Não compararás. Em verdade vos digo que a Comparação é o oitavo pecado mortal.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 18 de outubro de 1947

 
Postado em 23 de novembro de 2005, quarta

O direito de não ouvir

Há em todos os países do Mundo a Legislação do Silêncio, defendendo a população dos ruídos inúteis, do barulho indispensável, das sonoridades discutíveis.

Médicos e educadores sabem o que vem a ser um ruído, um rumor, um barulho e sua influência no sistema nervoso infantil e adulto. Envenena-se pelo rumor como pela via oral, engolindo-se o tóxico. O rumor gasta a energia, dispersa a atenção, deseduca o sentido, exaspera a percepção, desvia a mentalidade. Prefeitos, sanitaristas, educadores, psiquiatras conseguiram dos Governos essa Legislação do Silêncio, obrigando, democraticamente, a maioria respeitar a unidade, ou essa unidade acatar a decisão da maioria quando fundamentada em lógica científica. Em qualquer cidade-grande, dessas que Verhaeren denominou tentaculares, há uma série de obrigações impostas pelo dever de respeitar-se o silêncio, ou prazer do próximo... Não é possível, num apartamento, abrir-se o volume de voz a um rádio e deixar um samba abalando todo o edifício sob pretexto de que o dono do aparelho é livre e não tem contas a prestar com as orelhas alheias, não é lógico que toda a gente se interesse pelo mesmo programa e procure contagiar essa simpatia pelo estridor instrumental ou vocal. A popularidade, cada vez maior do rádio, a quase obra de possuí-lo, não implica numa proclamação de direito sobre o sossego ou idiossincrasias circunvizinhas.

Um amigo da rua Princesa Isabel não podia conservar o mesmo timbre de voz graças ao berreiro do rádio parede-meias. Por que você não pede para o seu vizinho gozar o rádio sozinho, sem esse fervoroso entusiasmo comunicativo?

- Não peço, não senhor. Vingo-me. Quando ele quer dormir, eu ligo o meu rádio para os programas mais idiotas e deixo gritar a vontade...

A função educadora do rádio, nesse caso, é diametralmente oposta a uma finalidade elementar de bom comportamento. O melhor é ter um rádio e ouvi-lo sempre. Ouvi-lo em nossa sala sem a participação dos outros que, podem ou não, estar em momento de boa recepção mental. Digo essas coisas em tese generalisadíssima. Os meus dois vizinhos são modelos de possuidores de rádios. Sei que existem os aparelhos porque vejo a denúncia nas antenas.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 11 de outubro de 1947

 
Postado em 16 de novembro de 2005, quarta

Me disseram...

Permito-me. Ó manes de Castilho Antônio e do finado Candido de Figueiredo, dar o título acima ser agravo premeditado aos policiadores pronominais. Uma frase muito comum é:- Não sei bem... me disseram.

Serve de habeas-corpus à vaguidade da fonte originária informativa e dentro dessa irresponsabilidade espolinha-se, livre, a imaginação solta do narrador. É pois, do domínio psicológico, um elemento de clara e nítida força.

Voltaire, quando lhe perguntavam o princípio de uma notícia, respondia:- Não estou certo porque me disseram...

Entretanto esse me-disseram é o agente transmissor de 99% das notícias do Comum, reportagem dos jornais-falados cotidianos, mantidos nas ruas pela força redatorial do anonimato. Sustentados pela pujança seivosa da inventiva sem possibilidades do ônus da prova. Ninguém exige a documentação nem as credenciais do depoente interessado na divulgação gratuita. E continua o boato.

O veículo alaga tão materialmente o ambiente com os informes sem carimbo, que as imagens da replecção denunciam o aspecto vivo:- a rua está cheia... a cidade está cheia...

Cheia de que? Cheia do me-disseram...

Esse elemento – um processo de poderosa intensidade social para retardar, acelerar, deter nomes, famas, desejos, sucessos. Estou traduzindo apenas a ária de Demi Basílio, a ária-de-calunia, no Barbeiro de Sevilha. Mas o me-disseram pode ser favorável, simpático e mesmo bajulativo. É possível determinar a auréola doirada da Fama sem a necessidade da produção ou mesmo a função humana o trabalho intelectual quando o dístico haloador pertence à classe dos letrados. Possível dispor, pelo me-disseram, um cenário que dispensa o ator, esforça-se muito. Basta aparecer e receber as palmas. Já se sabe que é gênio sem precisar um minuto de comprovação. Nas horas vermelhas de uma agitação revolucionária, o julgamento de vida e morte depende unicamente desse método sem identificação de culpa e prêmio.

Espalha-se o rumor e esse rumor cria a figura do delito ou da glória individual sem que a vítima ou herói haja merecido a coroa para a cabeça ou a corda para o pescoço.

Me disseram que era assim...

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 14 de outubro de 1947

 
Postado em 9 de novembro de 2005, quarta

Vespúcio não subiu o rio Assu

Depois da publicação do Falsos Precursores de Cabral, do historiador Duarte Leite (1922) não apareceu resposta para defender a prioridade espanhola no descobrimento do litoral brasileiro. Diego de Lepe, Pinzon, Alonso de Hojeda continuam chegando à terra do Brasil para quem não leu o monumental trabalho do grau e pesquisador português. Não lhe deram resposta. Duarte Leite exibira documentação excepcionalmente valiosa pela interpretação científica excluindo, prática e realmente, as viagens dos castelhanos ao Brasil antes de 1500. Vamos convencionar que Alonso de Hojeda tenha atravessado a equinocial e molhado a proa de sua nau nas águas barrentas do rio Assu em junho de 1499. Estou certo que não se deu tal episódio mas combinemos na impossível veracidade do facto. A bordo da nau de Hojeda vinha o florentino Américo Vespúcio, a mais feliz e discutida figura de aventureiro de que há notícia naquele final do XV e começo de XVI século.

Este Vespúcio que não descobriu coisa alguma na sua vida deu nome ao continente inteiro. Colombo e Pedro Álvares Cabral não tiveram essa honra. Vespúcio é oficialmente o pai de uma criança inteiramente estranha às suas atividades. Aqui no Rio Grande do Norte há uma lenda, teimosa como jumento andaluz, dando mestre Vespúcio como descobridor do Apodi, imaginem, nem mais e nem menos que uma subida pelo rio Assu e fundação de feitorias lá em cima! Não há, naturalmente, uma só letra de verdade nessa tradição oral, invenção pura, mas sempre citada como verdadeira. O próprio Vespúcio escreveu quatro cartas, Lettera, aos amigos, contando as façanhas. Na segunda das Lettera conta que viu terra alagada e baixa, sulcada por grandíssimos rios que a inundavam. Debalde tentou Hojeda abordá-la. Não conseguindo, levantou âncoras e velejou entre levante e sudeste pela costa adiante, isto é, para o sul e por espaço de quarenta léguas tentaram desembarcar, mas foi tempo perdido. Estou copiando as frases do mestre Vespúcio na segunda Lettera. Onde está a documentação de Vespúcio subindo o rio Assu? Onde ficou registro da fundação e alguma coisa nessa parte norte rio-grandense onde o florentino não pode pisar? Não era tempo de acabar com essas visagens do outro tempo? A História é uma senhora extremamente séria...

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 13 de outubro de 1947

 
Postado em 2 de novembro de 2005, quarta

Uma conspiração visível

Estou lendo no Digest of the Americas, da Andrux Press, que o geógrafo Prof. Hans Ahlman afirma que desde 1900 a temperatura do Ártico subiu dez graus centígrados, elevando-se o nível das águas do oceano e os gigantescos glaciares se dissolvem como manteiga em chapa quente.

No centro dÁfrica os lagos secam e, na parte ocidental, desapareceram nascentes e o imenso Lago Vitória desceu dezessete centímetros nos últimos dez anos.

O professor Hans Ahlman apela para uma campanha de estudos de caráter internacional. Trata-se de conspiração real, absoluta, ostensivamente feita aos olhos dos sábios, contra a integridade, equilíbrio e perpetuidade do Homem na Terra.

A circulação das águas nos lençóis subterrâneos será multiplicada pelo acréscimo desses volumes monstruosos e como processo fixar-se-á apenas em um hemisfério, ou melhor, numa região determinada cuja coordenada geográfica não posso precisar, deduz-se que haverá um desequilíbrio da massa terráquea, desequilíbrio cujas proporções são incalculáveis, imprevisíveis e cataclísmicas.

Até aqui estou comentando o sábio professor da Suécia, Hans Ahlman. Não vou adiante. Fico, entretanto, perguntando a mim mesmo porque essa conspiração dos elementos naturais contra o Rei da Criação, o Homo Sapiens, o Bicho Homem, todo poderoso criador da ciência e da técnica. Certamente os elementos realizaram um congresso e os ‘leaders’ discursaram sobre o assunto milenar. Há milhares e milhares de anos que o Homem se apossou da Terra e disciplinou, dentro do possível, os elementos naturais, as forças vivas da Natureza, dispondo-as ao seu serviço. Esgotou mares, furou montanhas, desviou rios, amordaçou cachoeiras, arrasou serras, trepou colinas, cavou mistérios. Andou debaixo da terra e na estratosfera. Os elementos consentiam em tudo, confiantes no papel de uma colaboração para a Felicidade, a Paz no Trabalho, a Harmonia, a Alegria de viver e de ser útil.

Devem, os elementos, ter chegado a essa conclusão: foram utilizados para o egoísmo e para a morte. Quererão expulsar o homem da terra em que ele é hóspede e se julga dominador?

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 1 de outubro de 1947

 
Postado em 26 de outubro de 2005, quarta

Comerciantes... historiadores

Nunca mais tive o prazer de ler um livro de recordações e de notas escritas por um comerciante. No século XIX tivemos alguns cheios de informação preciosa. Não é possível ver-se o panorama da História Brasileira das primeiras décadas do século XIX sem as páginas de Henry Koster, de John Luccok.

Esses depoimentos dizem o país pela voz estrangeira, alheia ao sangue e sem as concordâncias psicológicas que em nós agem como determinantes fisiológicas. Pela situação, o comerciante era um informador social valioso. O contacto com as classes diversas, o estudo nato da mentalidade do ‘freguês’, os processos incontáveis para a reação financeira do mercado, a compreensão, o espírito de assimilação para os objetos novos, o poder aquisitivo do aparelhamento cada ano renovado pela mecânica, a curiosidade de provar e conhecer quanto apareça constituem os traços fisionômicos da massa humana que o olho do comerciante demorará em analisar e reter.

A maioria dos comerciantes foi atirada ao balcão, como se dizia outrora, ainda menina, tendo no sangue os mesmos desejos de empinar corujas, de banhos na maré, de caju nos taboleiros e de jogar castanha. A posição, atrás do balcão, defendia a criança, como a promovendo ao respeito e a majestade do trato com as moedas prestigiosas e, ontem, manejar as primeiras máquinas registradoras, engolindo o dinheiro e descomendo um papelzinho impresso.

O balcão era o observatório e raro comerciante ficou destituído de finura para dizer e pormenorizar as características dos fregueses, as manias e formas normais de cada um aparecer, pedir, pagar, reclamar, ir-se embora. Filho do comerciante, de velho comerciante, conheci os graúdos e os pequenos. Os grandes exportadores da Rua do Comércio, fornecedores de navios, recebendo em grosso. E conheci os pequenos, distribuidores, lojistas, donos das casas que espalhavam a mercadoria nas mil mãos do povo. Havia outra classe, a dos bodegueiros, a mais curiosa e rica de experiência, em contacto imediato com o povo e suas atividades.

Conheci negociantes excepcionalmente espirituosos, alertas, cheios de remoques. Meu Pai ainda é lembrado. De raras letras e muita vivacidade, chegou a primeira fila. Foi o único comerciante que manteve, sem interesse, doze anos, um diário. Ele e seus colegas sabiam e sabem a História viva. Mas não a escrevem...

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 30 de setembro de 1947

 
Postado em 19 de outubro de 2005, quarta

Para voltar à fonte

La Gazette des Letres de Paris publica uma pequena carta do Senhor Louis Perche sugerindo um prêmio de 30.000 francos destinados a um escritor do Perigord residindo em Paris para que visite o Petit Pays e possa revigorar as forças criadoras no contato da terra Natal. Como o processo de escrever não é exclusivamente a dança dos dedos na máquina ou o impulso da caneta automática, mas a visão dos elementos inspiradores ou sugestionados do pensamento criador, esse prêmio anuncia verdadeiramente o romance mais vivo e mais humano porque é um regresso às fontes da experiência da cidade grande com sua batalha decepcionante e suas glórias melancólicas.

O Sr. Louis Perche tem toda razão. É o mesmo problema em qualquer parte do mundo. O provinciano leva para a capital um material acumulado e complexo, que é usado em cessar. Confunde-se mesmo o realismo da lembrança com a transfiguração do possibilismo. As figuras e cenas evocadas vão passando e o suprimento é feito pela imaginação.

Certamente há outro motivo mais urgente e mais lógico. É a necessidade de descentralização intelectual da capital maior. O macrocefalismo administrativo absorve as forças vivas e fixa pelo clima julgadamente promissor a ilusão do conforto para o escritor. Fogem todos para a cidade, dizendo a frase comum de que a terra grande é o cenário indispensável para o seu talento. A província, com o pauperismo financeiro e a incompreensão dos conterrâneos, que o hábito da amizade banaliza o escritor, não promete senão a relativa tranqüilidade e a renúncia diária aos vôos maiores. Todas as águias não admitem o sacrifício das asas, e a possibilidade de torna-se ave de galinheiro. E a cidade vai obrigando esses sonhadores a um parasitismo econômico, a uma subalternidade funcional desmoralizante, imposta cruelmente pela vida áspera e tumultuosa. A impressão é que o talento não justifica o baixo preço de seu emprego e as humilhações sucessivas que não são a etapa da adaptação social.

Para cada vitorioso há noventa que partiram o bico querendo cantar e fazem na cidade o que não julgavam fazer na terra pequena da província.

Um prêmio que trouxesse o provinciano para rever sua terra, seria uma lição prodigiosa de amor. Das promessas da cidade estamos fartos de saber que são mentiras.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 19 de junho de 1950

 
Postado em 12 de outubro de 2005, quarta

Nossos Irmãos, os Índios

Ninguém pediu minha opinião sobre o serviço de proteção aos índios mas estou convencido da espontaneidade da opinião pessoal. Voto contra.

O índio deve ser deixado em paz. Deixado na sua vida sem problemas maiores e nem as misérias funcionais da nossa civilização. Não abandonamos os nossos irmãos índios, mas defendemos sua felicidade que terminará desde que comece a conhecer o progresso e a beleza da vida atormentada.

Devemos fixar uma linha intransponível entre os terrenos nacionais. Pena de morte a quem violasse o território indígena. Basta a lembrança de um povo feliz para trazer um pouco de felicidade aos que não a podem ter, civilizados demais por fora e bárbaros demais por dentro.

Que vamos dar aos nossos irmãos indígenas em troca de sua liberdade, de sua livre movimentação, de sua existência sadia, primitiva, caçando, pescando, dançando, cantando, brigando sob as estrelas e a luz do sol de sua tradição milenar?

Não temos nem o necessário para atender as exigências da população civilizada. Estamos num regimen atordoador no domínio da produção. O custo de vida é vertiginoso, imprevisto e misterioso, como um disco voador. Os problemas sanitários e educacionais começam apenas timidamente. A engenharia sanitária iniciou sua campanha que durará dezenas de anos para tornar confortáveis pequenas áreas demográficas. Uma política delirante e criminosa de centralização asfixia lentamente as províncias brasileiras. O êxodo do trabalhador rural é diário. As zonas das futuras searas são virgens. Os vales úmidos apodrecem e o Rio de Janeiro cada vez mais ergue seus arranha-céus e grita o dogma mentiroso de que não haverá salvação para fora de seus muros.

Deficits orçamentários. Técnica de exportação por mero interesse grupalista. Alta fictícia. Estamos todos empenhados em uma reajustação administrativa urgente, na redistribuição dos trabalhos, na fixação do homem no campo, não para entregá-lo à morte lenta e a sucção dos financiadores, mas para fazê-lo um pequeno produtor livre, fundando sua economia pessoal. Que temos nós para dar aos índios, que não têm um só dos nossos problemas? Que piedade maluca é a nossa, levando para o índio o nosso veneno e pensando que o civilizamos, adoecendo-o, envilecendo-o, acabrunhando-o?... A proteção real e lógica é defender suas terras, sua produção, sua pessoa.

É defendê-lo de nós. Levá-lo de nosso contato. Distanciá-lo da nossa civilização impetuosa, impiedosa e sangrenta. Deixem os nossos índios viverem.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 7 de junho de 1950

 
Postado em 5 de outubro de 2005, quarta

O Primeiro Norte-rio-grandense Bacharel em Olinda

Chamava-se José Joaquim Geminiano de Morais Navarro. O Curso Jurídico de Olinda instalou-se a 15 de maio de 1828, no mosteiro de São Bento. As aulas abriram-se a 2 de junho. Estavam matriculados quarenta e um estudantes. Em setembro de1832, prestavam os derradeiros exames. O Curso Jurídico de São Paulo, criado na mesma lei de 11 de agosto de 1827, instalara-se a 1o. de março de 1828, no convento de São Francisco e bacharelara a sua primeira turma de seis bacharéis, um ano antes, em novembro de 1831. Entre os quarenta e um diplomados de Olinda tínhamos um único conterrâneo, o Dr. José Joaquim Geminiano de Morais Navarro, já sem o Geminiano na lista de formatura.

Não deixou maiores rastos na terra natal, esse nosso distante iniciador da série patrícia dos advogados. Sabemos muito pouco de sua história. Fiz uma pesquisa longa para apurar-lhe as andanças anteriores e posteriores ao curso olindense.

José Joaquim Geminiano nasceu em Natal a 19 de dezembro de 1799. O pai, Padre Antônio Caetano do Rego Barros, era da primeira nobreza local, proprietário, irmão do coronel José Joaquim do Rego Barros, membro do governo republicano de 1817, homem rico prestigioso, tendo sido o presidente da Junta Constitucional Provisória, que administrou o Rio Grande do Norte de 3 de dezembro de 1821 a 7 de fevereiro de 1822. O nome do “sobrinho” deve ter sido homenagem ao tio ilustre. Depressa o rapaz aparece nos acontecimentos da época. Devia ser inteligente, vivaz e ousado. No juramento da Constituição que as Cortes estavam fazendo em Lisboa, vereação solene em Natal, a 24 de maio de 1821, José Joaquim Geminiano assinou, já importante. Na misteriosa concordata que os representantes do Rio Grande do Norte e de Pernambuco assinam em Recife, de auxílio mútuo, a 3 de agosto de 1824, José Joaquim Geminiano é um dos três delegados oficiais por sua Província. Os outros dois foram, o Padre Francisco da Cesta Seixas e José Joaquim Fernandes Barros. O “embaixador” tinha vinte e cinco anos. Precocidade diplomática...

Bacharel em 1832, logo a 15 de julho de 1833 é nomeado pela Regência em nome de Sua Majestade o Imperador, Presidente da Província de Sergipe. Toma posse a 29 de setembro do mesmo ano.

Não sei como se houve em seu governo. A 13 de fevereiro de 1835 passou a administração sergipana ao Dr. Manuel Ribeiro da Silva Lisbôa, o nosso Presidente Parrudo, que seria Presidente do Rio Grande do Norte e assassinado em Natal, com morte bárbara e tradição suja, no tocante à moralidade dos costumes.

Os seus patrícios quase o esquecem. Apenas revejo seu nome comprido na lista dos votados, a 10 de novembro de 1834, para deputados à primeira Assembléia Legislativa Provincial. E assim mesmo obteve... um voto.

Quase teria sido a carreira de José Joaquim Geminiano (na Carta Imperial está o Geminiano) depois de fevereiro de 1835? Ignoro. Encontro filhos seus terminando estudos jurídicos em Recife e nascidos na capital pernambucana. Aí deve ter residido e, até prova em contrário, viajado para o outro-mundo.

São estas as polegadas que adiantei na história de José Joaquim Geminiano de Morais Navarro, o primeiro norte-rio-grandense que se bacharelou em Direito na amada terra do Brasil.

Luís da Câmara Cascudo
A República, 21 de dezembro de 1939

 
Postado em 28 de setembro de 2005, quarta

Até Deus precisa dos sinos!

A frase é uma paráfrase de Chateaubriand. Traduz-se que a Igreja de Deus não dispensará os instrumentos de aviso, chamado, reunindo, alertando seus fiéis. Não há Exército sem clarins. Nem cidade sem comunicações de telefone e rádio. Com a organização da defesa civil vimos o papel salientíssimo das sirenes fazendo a cobertura sonora da população, afastando-a do perigo, disciplinando-a.

Uma propaganda é tão indispensável quanto a produção regular. Propaganda do país e não dos seus dirigentes. Dos produtos e não dos homens. Divulgar livros, filmes, idéias e fotografias e não retratos individuais com relatórios administrativos. O Conde dEu me disse que o grande mal feito à Família Imperial era a bajulação (o príncipe dizia outro nome mais delicado) da imprensa monarquista. Nada irrita mais do que o elogio insistente. Acaba dando vontade de ir-contra, só pelo gosto de discordar.

O General Aristides, o grego que nunca mentira e era a expressão mais alta da dignidade moral nas horas crepusculares da Grécia anárquica, foi exilado. Para exilar-se alguém escrevia-se o nome da vítima numa casca de ostra Ostrakon, daí a palavra ostracismo. Um camponês pediu ao próprio Aristides, que ele não conhecia pessoalmente, o obséquio de escrever seu nome na casca de ostra – Por que desejas exilar Aristides? Perguntou o herói magnânimo – Por que estou farto de ouvir chamá-lo virtuoso, impecável, perfeito.

E Aristides, compreendendo, escreveu o próprio nome na ostra que o expulsava da pátria. Americanos e ingleses, com produção industrial e cultural que dispensa corretagem em qualquer praça, mantêm seus adidos culturais e econômicos. Nós achamos que é despesa dispensável. Há poucos anos, Agosto de 1940, Leopoldo Stokowski esteve no Rio de Janeiro regendo um conjunto de 18 músicos da Filarmônica da Filadélfia e centenas de rapazes e mocinhas selecionadas entre 15.000 estudantes das Escolas de Música dos Estados Unidos. O conjunto se chamava All American Youth Orchestra e viajava em cruzeiro especial no Good W. II. Muito que bem. Pois, meus senhores, Stokowski, um dos mais populares regentes do Mundo, nunca ouvira falar em Carlos Gomes que nós julgamos mais conhecido que a luz do Sol. Entenderam?

Se a Igreja não dispensa a chamada dos sinos porque a dispensará o Brasil?

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 12 de setembro de 1947

 
Postado em 21 de setembro de 2005, quarta

Opinião de Mestres

Há alguns anos passados conversava-se numa residência amiga no Rio de Janeiro. Um grande escritor, infelizmente morto, dava opiniões sobre as influências do escravo africano no Brasil.

Eram as mais completas, absolutas, determinantes. Lá para as tantas explicou que os versos encadeados, as pretensões poéticas, constituíam outro elemento que devíamos aos africanos. Completavam eles, desta forma, ao verso que faltava à solfa, repetindo-o. O dono da casa, professor de literatura, teve sorriso bem educado e silenciou. Não ignorava que os tais versos eram o processo paralelístico português, empregado há séculos em Portugal, abundante nos cancioneiros, comum aos poetas clássicos, era o cosante, o verso encadeado. Datava das manhãs da história literária na Península.

É uma lição que existe nos compêndios escolares de história da literatura. O Paralelismo.

Depois o escritor ensinou-me que devíamos a dança de roda, para adultos, também aos africanos. Perguntei se os portugueses não a tinham conhecido e praticado. Não. Só a praticaram depois que o africano escravo chegou a Portugal. Arrisquei (pertenço ao número dos que a dança de roda era, fisiologicamente, dança coletiva e devia existir em qualquer parte onde tivesse existido o homem). O escritor sorriu, superior:- São opiniões. A dança de roda, a dança de círculo, é negra.

Veio outra conversa, fomos jantar. E o tempo passou. Ontem vi os trabalhos arqueológicos de França e Inglaterra, a cópia dos relevos do homem da pedra polida deixado no solo com a sua presença. Rastros, vestígios de armas, arrastamento de peças de caça. Lá estão as danças de roda. O círculo imenso dos pés fortemente firmados nos calcanhares em torno do dançarino, ou sacerdote evocador, que ficava no centro. A dança de roda é eminentemente coletiva porque todos podem participar de sua execução. Fiquei pensando no amigo. Ele escreveu essa opinião? Reaparecerá em livro? Ficará ensinando...errado.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 3 de setembro de 1947

 
Postado em 14 de setembro de 2005, quarta

Viagem e Cultura

Miguel de Unamuno ensinava que muito viajante vive apenas fugindo de um para outro país. É uma festa dos olhos, de superfície, de alegria fácil e boa, mas sem modificação substancial na inteligência e nos processos íntimos de raciocínio.

A viagem educa, dizem. Educa como função complementar, completando, finalizando, aguçando os elementos adquiridos na instrução anterior. Por si só, isoladamente, a viagem nada vale. É apenas uma mudança de lugar. Ninguém transforma a inteligência porque se deslocou dum lugar para outro canto.

Os conhecimentos da viagem, sem o fundamento da educação prévia, o lastro de cultura inicial, são rudimentos de processos que não adiantam a elevação da mentalidade. Nem uma fração de milímetro conseguirá o viajante sem saber ver e observar.

Saberá o que é obrigado pelas exigências alfandegárias, pelos usos do povo estrangeiro, pela novidade da alimentação. Verá cidades e paisagem sem a intensidade de um sentimento interior. Registrará a visão das cousas com a fidelidade padronizada e fria de uma máquina registradora. Taime escreveu que melhor a ter viajado do que viajar. As jornadas escolares têm o valor educacional porque são temas de comentários, uma verificação psicológica, a constatação do que se sabe no livro e se aprende pela visão imediata e pessoal.

Esse conjunto determinará a impressão, o juízo, a idéia sobre o que-se-viu. A viagem em si, desajudada pelos fatores educacionais, do elemento cultural é um prazer indiscutível, mas infecundo. Exclui-se, forçosamente, o talento, a criatura inculta cuja inteligência vai criando a reação cultural pela observação direta e única. A força dessas inteligências supre a cultura pela agudeza da observação, da educação, do reparo. Falando-se do homem normal, comum, diário, a crítica da viagem subordinará sua inteligência à uma pequena série de conhecimentos valorizadores dos objetos, pessoas e cousas vistas.

Lembremos que o Machado de Assis foi eleito, em pleito livre, indiscutido e majoritário, o nosso modelo intelectual, o escritor tipo superior, apontado para a imitação.

E Machado de Assis nunca saiu do Rio de Janeiro...

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 30 de agosto de 1947

 
Postado em 7 de setembro de 2005, quarta

Velhas árvores

Em Montevidéu, certas ruas fazem curvas para respeitar uma velha árvore. Teixeira Soares, um dos nossos ensaístas mais ágeis, 1° Secretário da Embaixada do Brasil no Uruguai, chamava-me a atenção para esse carinho platino pelas árvores. Na calle Dieghiero, onde reside Belloni de Carreta, há um grande plátano no meio da rua, no meio da rua, repito, cercado de leve gradil. Não é árvore histórica. É apenas uma árvore que merece viver e vive a despeito do trânsito, automóveis, circulação e outros problemas que vieram a nascer quando ela já estava velha. O Sr. José Antônio Gonçalves de Melo, Neto, no seu Tempos de Flamengos, transcreve uma memória do Príncipe Maurício de Nassau ensinando a replantar árvores adultas. O ex-governador do Brasil Holandês transplantara dois mil coqueiros, de 60 e 70 pés de altura, para o parque do seu palácio no Recife, o Palácio das Torres. E confessa ter, em sua vida, plantado ou replantado mais de 400.000 árvores. É um dos títulos mais bonitos que o velho Nassau-Siegen possui aos meus olhos.

Natal, há vinte e cinco anos passados, tinha arborização razoável. Atendendo a ensolarização de uma cidade tropical, certas ruas possuíam alas de mongubeiras, moldurando-as em toda extensão. Da Praça Carlos Gomes até a Rua Juvino Barreto corriam, paralelas, suas filas de árvores, copadas. Toda a Avenida Jundiaí era arborizada, densamente, em ambos os lados. À Praça Augusto Severo, pelada atualmente como uma cabeça calva, era um parque delicioso. Um arquiteto, amoroso das árvores, Herculano Ramos, repetira o Príncipe de Nassau, trazendo árvores velhas, árvores adultas, e replantando-as. Do dia para a noite, em vez de um pântano onde as rãs coaxavam, nasceu um parque digno das saudades que desperta.

Diante do Hotel Avenida, na Duque de Caxias, nesse tempo Avenida Sachet, Herculano Ramos trouxe um trapiazeiro enorme e plantou-o.

Houve um episódio que divertiu a cidade inteira. Herculano tinha bigodes enormes, bigodes de guerreiro gaulês, longos, pendentes. O Capitão Brito, do Batalhão de Segurança, usava uma barba cerrada, comprida, barba de Rei da Assíria. Brito apostou a barba contra o bigode de Herculano Ramos como o trapiazeiro não resistia a mudança e havia de morrer. Meses depois Herculano viajou. Voltando, Brito foi recebê-lo a bordo, entregando-lhe a barba. O trapiazeiro vivia. A penitência foi trocada por duas dúzias de cerveja. O trapiazeiro, anos depois, foi destruído a machado.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 8 de setembro de 1947

 
Postado em 31 de agosto de 2005, quarta

Mil Homens

Onde está a Escola Doméstica havia, no meu tempo de menino, uns alicerces escuros e povoados de mato. Era ponto de briga infantil e do amor adulto. Hoje o amor não escolhe ponto e tem a cidade inteira por mensagem. E é assim mesmo com a briga.

No governo Ferreira Chaves, 1914 – 1930, construíram a Escola Doméstica. Antes, durante um ano, houve uma espécie de armazém com curiosidades enviadas ao Governador pelos amigos. Era tanta curiosidade que o salão encheu e a Vila Cincinato, hoje Potiguar, não cabia os testemunhos de amizade. Um desses presentes era uma onça. Uma onça pequena. Não muito pequena, mas de garras prontas, rosnando sempre, fazendo caretas e tufando os bigodes quando alguém se aproximava da jaula. Um dia a onça se soltou. Imagem o pânico. Polícia procurando, pavor, o medo se espalhando como um mau cheiro. Finalmente descobriram que a onça estava pouco distante da jaula, escondida, acoroada num bosquezinho, dentro das divisões do alicerce. Fez-se uma expedição.

Um camarada forte, alegre, de imenso bigode branco, com um chapéu de palha de mandarim, irradiando simpatia, naturalidade, acompanhou a expedição. Chegou, mostraram a onça, franzindo o focinho, rosnando. O camarada sorriu, deu uns passos, rindo:- isso é lá bicho para dar trabalho a homem!...Foi e grudou, com a mão a onça pelo pescoço, como um gato desmoralizado. E levou-a, suspensa, rosnando, humilhada, rebaixada ao posto melancólico de animal doméstico. A oncinha arranhara-o nos pulsos e no braço, mas o camarada, sem perder o riso, levou-a sacudindo-a dentro da jaula. Perguntei, suando de emoção entusiasta:- quem é, hein, quem é? – Não conhece? Antônio Milhomem! Era um velho amigo de meu Pai. Ia à nossa casa. Foi o meu primeiro herói. O homem forte, simples, natural, sereno, na convicção tranqüila da coragem, da confiança pessoal.

No meu tempo não havia esse herói imaginário de agora, mentira de desenho, Super-Homem, Capitão Marvel, gente que apanha avião no ar e bota navio debaixo do braço. Os heróis eram raros, mas verdadeiros, de carne e osso, valendo no heroísmo relativo mais verídico.

Antônio Milhomem faleceu a 12 de Janeiro de 1934, com mais de 70 anos. Era uma fisionomia humana e sugestiva que ficou na minha memória.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 14 de agosto de 1947

 
Postado em 24 de agosto de 2005, quarta

Jornalistas velhos...

A Associação Norte Rio Grandense tem todos os elementos para evocar as fisionomias dos velhos colegas de outrora.

Não é compreensível que continue esse silêncio dado a morte civil, a segunda e pior morte que é o olvido aos jornalistas do passado, iniciadores das atividades da Província e mantenedores do espírito livre de propaganda e de discussão, de exame e de crítica nos limites espirituais da época. Com imprensa, há cento e quinze anos, há necessariamente muito nome digno de uma simpatia e merecedor duma ressurreição.

Para que alguém se detenha para estudar essas sombras tão poderosas e temidas outrora, acompanhar-lhes vida, ação e pensamento, fazer viver o ambiente, com as idéias vitoriosas do tempo, seus amores e paixões, é preciso existir um liame prendendo o morto ao vivo, um sutil e resistente fio moral que reúne na mesma afetuosa lembrança os desaparecidos elos da mesma cadeia de força e de coragem cultural e política, numa continuidade de esforço. A Associação Norte Rio Grandense de Imprensa, que assisti fundar e assinei sua ata inicial no salão da saudosa A REPÚBLICA, é sociedade de classe para defender os companheiros vivos e também um instituto de cultura para estudar os confrades mortos.

Não merece nome de associação a que fixar um problema apenas por um ângulo. Como não há corpo unidimensional, é impossível que a memória não traga até a própria ação, nomes, datas, gestos, movimentos daqueles que constituíram a forma vivente da classe, sua velocidade inicial; os que começaram andando, sonhando, sofrendo no caminho que nós continuamos pisando em cima de xique-xique e mussambé, flor macia de espirradeira e bordos agudos de caco de vidro. No meio de tudo há sempre alegria, entusiasmo, esperança, fé. Não somos maiores nem menores que os antepassados ou os contemporâneos, patrícios e estrangeiros. Somos intrinsecamente idênticos. Reagindo na mecânica dos mesmos interesses, aquecidos por um calor mais ou menos intensivo de idealismo.

A melhor, a mais profunda, natural e positiva maneira de provarmos a posse de uma consciência na atividade exercida é a memória, a homenagem aos PRIMEIROS, aos VELHOS, as águas que vinham de nascente e de que somos a foz antes da dispersão no oceano sem praias...

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 13 de agosto de 1947

 
Postado em 17 de agosto de 2005, quarta

Sensacionalismo da banalidade

Toda a vez que se pretende diminuir a exploração da notícia sensacional em matéria criminosa há uma tempestade.

Diz-se que há um assalto à liberdade no registro do hediondo e do repugnante. Não é surpresa nem descoberta mirabolante a sugestão desses assuntos para a proliferação do crime por um dos elementos mais poderosos e psicologicamente irresistíveis:- a força da imitação. Fotografias minuciosas de cenas de sangue, registros pormenorizados de violências e brutalidades, aparatosa encenação de fotógrafos e repórteres, dedicando-se páginas inteiras de revistas e jornais a um ladrão, um gatuno, a um malandro valentão fazem de Zé da Ilha, Dois-e-meio, Bicudo, glórias vivas atiradas à notoriedade com o lastro de notícias, telegramas e filmes. Já não cito aqui os nomes do pé, maravilhas de todas as cores, cuja glória, financiada tecnicamente, coloca seus cultores na fila máxima das atividades admirativas.

Sabemos muito bem que é uma evidência de círculo vicioso. A popularidade é mantida pela propaganda e esta é sustentada pela popularidade. A função justifica o órgão. Mesmo que essa função seja indispensável é desculpável porque é popular. É a lógica dos-que-gostam. Com papel caro, tinta caríssima, mão de obra de altura astronômica, uma notícia extensa sobre crimes, alastrando-se em colunas e colunas, custa bastante. Mas o público quer esse acepipe ácido, indispensável ao seu estômago. O jornal serve o que a fome coletiva exige.

Curiosamente, em todos os congressos jornalísticos do mundo, em todas as sessões de clubes, associações, institutos, sociedades e círculos jornalísticos de qualquer parte insular ou continental, todos, do diretor ao revisor, do linotipista ao pessoal da distribuição e gerência sabem, defendem e declaram que o Jornal é, antes de tudo, acima de tudo, no fim de tudo, um elemento de educação, um auxílio à educação. Se estamos sem contrariar, sem corrigir, sem desviar, sem opor à corrente humana a crítica, o reparo, a sugestão, o esclarecimento, deixando que se processe o deslocamento da massa pela sua própria impulsão desagregatória, onde anda o princípio de educação sob cuja égide vive a imprensa?

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 31 de julho de 1947

 
Postado em 10 de agosto de 2005, quarta

Inquietação literária

Escrevendo de Lausanne para um amigo, Henrique Castriciano acusava a inquietação do letrado e do semi-letrado como responsável pela confusão dos domínios educacionais. Há, para quem recebe o primeiro verniz literário, a falsa sensação de superioridade, uma unção distanciadora do ‘comum’ e do ‘habitual’. Julga-se pertencer à uma classe nova, privilegiada, distinta das demais, podendo ostentar as insígnias de posto indiscutido e real.

H. Castriciano não aplicava a teoria nesse setor mas na displicência, na ausência de espírito público de colaboração, na preguiça com que assistimos as grandes iniciativas nascerem e testemunhamos sua morte sem um gesto de auxílio.

Para nós o Governo deve fazer tudo, prever tudo, inesgotável de recursos e de espírito divinatório, chegando a prever o que nos cabia realizar e defender.

Essa inquietação explica pela fragilidade de sua base cultural, o instinto crítico insopitável, esse prurido de expor, revolver, examinar o esforço alheio mesmo sem a mais longínqua possibilidade de corrigi-lo ou melhorá-lo. Não se trata de remendão dizendo seu reparo ao quadro de Apele mas de tentativa constante desses juízos. O remendão grego, que Plínio registrou na sua História Natural, 35, 36, calou-se ouvindo a admoestação do pintor. Suponhamos que continua-se falando e criticando do sapato para cima até o cucuruto da cabeça, inconsciente e obstinado na liberdade do comentário dispensável, inútil, ridículo. Essa atitude é um fruto da inquietação literária que, como vinho novo, sobe depressa à cabeça quando esgotada a primeira taça.

A felicidade da improvisação crítica sem os fundamentos da cultura mas apenas como expressão do gosto pessoal, da sensibilidade individual, da maneira de ver do leitor, poderá constituir critério apreciativo, fórmula valorizante da obra literária. Se há quem negue, a crítica concebida nos modelos da invenção e da mobilidade mental...

Esses comentários vêm com achega no momento em que se discute a maior ou menor influência do mestiçamento nos processos da aculturação brasileira. Dou ao mestiço como responsável por esse método de maravilhosa rapidez aquisitiva, ligação, aglutinamento de todos os valores, amalgamados, confusos, úteis e inúteis ao conhecimento, à ciência que é a sabedoria serena, como dizem os chineses. A inquietação literária corresponderá ao que se chama ‘sangue novo’ na etiologia social e popular.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 28 de julho de 1947

 
Postado em 3 de agosto de 2005, quarta

Mestre Afrânio

Sócrates negava o poder da Morte. Para ele a verdadeira Morte era o Esquecimento. A morte pode retirar a criatura da vida e colocá-la, inteirinha, dentro de um pensamento pelo milagre da saudade e pelo processo da memória. O esquecimento envolve o nome num manto de cinza. E cada dia nova chuva de cinzas cai do céu, reforçando as camadas que separam quem viveu dos que vivem.

Não, estou assombrado com o meio silêncio, as primeiras cinzas, sobre o túmulo que se abriu em janeiro para guardar Afrânio Peixoto, meu velho amigo professor de animação e estímulo, Mestre Afrânio como sempre o chamei.

Professor de Higiene e de Medicina Legal, ‘emeritus’ em várias Universidades, poeta, crítico, romancista, orador, ensaísta raro, foi, acima de tudo, um ‘scholar’, um letrado, um ‘clérigo’, como se dizia outrora. Teve a ciência diluída, pronta, apta ao serviço imediato da cultura, a palavra fácil, colorida, vibrante, capaz de retirá-la dos escaninhos do cérebro e acudi-la, como um relâmpago, amplo e luminoso, nos olhos de todos, já materializado, tornado matéria rutilante.

Sabia de tudo, entendia tudo, pensara em tudo. Tinha um raciocínio para todas as faces do problema humano. E também a coragem de dizer.

Teve o heroísmo de ir contra a corrente, recolocar o homem que a adoração vai transformando em tabu, na posição lógica e terrena de apreciação e discordância. Mostrou um panorama do movimento bandeirante noutro ângulo da visada, diverso do comum e do que se tornou oficial. Evidenciou que a sociologia de Euclides da Cunha, o pensamento, o protesto euclideano, é inteiramente distanciado das miras onde o imobilizaram. Euclides, tribuno do povo, elevou o jagunço de Antônio Conselheiro para o plano heróico, estudando as raízes psicológicas de sua vitalidade moral, mantidas pela austeridade espartana da alimentação e pelo esforço diário no trabalho, resignação e vontade viva em face dos elementos contrários.

Afrânio Peixoto, não somente era e seria bastante, um grande professor, digno de Oxford e de Harvard, um estudioso de História, Folk Lore, o primeiro camoniano do Brasil, mas exerceu a profissão com alegria de servir e de criar inteligências, determinando o hábito da observação e da documentação pessoal. Ironista sutil, imenso coração, viveu na intensidade que esperava de Deus.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 16 de junho de 1947

 
Postado em 27 de julho de 2005, quarta

Triste fim das casas ilustres

Uma das mais lindas Casas Grandes do Rio Grande do Norte desabou e está desaparecendo. Foi um lugar de história viva e de festas esplêndidas. A região está cheia de lendas e de tradições encantadoras. Exerceu, durante anos, uma sugestão suprema de elegância e de bom gosto. Era a casa-grande de Ferreiro Torto, perto de Macaíba.

Os holandeses já encontraram o engenho de fogo-morto em 1633. Até o século XIX aquartelou os famosos Terços dos Paulistas. Em meados da centúria ergueu-se a residência ampla, imponente, confortável. Manteve um espírito senhorial de alegria, distinção, comunicabilidade.

Morreu sem merecer um registro maior. Não apareceu quem recordasse a casa de Ferreiro Torto. Breve conversarei sobre ela.

Fico pensando noutras casas históricas ou tornadas históricas pelo nascimento de glórias culturais. Sempre são defendidas e transformadas em pequenos museus de recordação, guardando relíquias do escritor ou do músico, do artista nascido entre aquelas paredes. Os ingleses e norte-americanos possuem centos desses sugestivos ‘Hallas Collection’ e ‘Memoriais’ destinados a manter no espírito popular, na alma das crianças, a presença do nome cultuado.

No Rio de Janeiro há a casa de Rui Barbosa, antiga residência do mestre. Mas a casa onde Rui Barbosa nasceu em Baía, na própria capital do Estado, foi deixada desabar sem maiores gritos. Onde Machado de Assis residiu tantos anos e escreveu tantos livros e onde morreu, a casa na rua do Cosmo Velho, já existe, vendida, derrubada, substituída por palacete particular. Tudo se processou num ambiente de desinteresse sereno, de risonha displicência, de conformismo superior.

Em Natal, localizou-se a casa do nascimento de Ferreira Itajubá. As do nascimento e morte de Segundo Wanderley desapareceram, a primeira está na praça Sete de Setembro e a segunda onde se ergueu o Centro de Saúde. Onde faleceu Auta de Souza devia merecer, urgentemente, uma placa e aqui deixo o meu apelo à Academia.

Possa um pedido sereno do pintor José Pancetti, dirigido ao governador do estado do Rio de Janeiro, evitar que a casa onde nasceu Casimiro de Abreu, em Barra de São João continue sendo visitada pelas cobras e esperando no Tempo os benefícios do desabamento.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 24 de julho de 1947

 
Postado em 20 de julho de 2005, quarta

O Tonel das Danaides

As Danaides eram cinqüenta filhas de Danao, rei de Argos. Seu irmão, Egito, tinha cinqüenta filhos. Mandou a filharada masculina casar com as primas. Danao não queria o casamento. Combinou com as filhas um plano.

Os cinqüenta recém-casados tiveram a mais estranha noite de núpcias de que há notícias no mundo.

Foram todos assassinados pelas esposas. Só escapou um, Linceu, poupado por sua mulher, Hipernestra.

Júpiter condenou as Danaides às penas do Tártaro, que era o inferno daquele tempo.

As Danaides enchiam um tonel sem fundo. Séculos e séculos, sem pausa, sem descanso, sem interrupção, as moças carregaram água, despejando-a no barril furado.

Teodoro de Banville contou o fim dessas Danaides, na Lanterna Mágica.

Os Titãs venceram os Deuses. O Tártaro ficou sem chefe, despovoado de sofredores, todos perdoados.

Astério anuncia a terminação da sentença:
- Acabou vosso suplício. Largai essa penitência. O tonel está cheio.
As Danaides pararam, pela primeira vez, há milênios. Enxugaram a fronte, descendo as bilhas infatigáveis. E dizem confusas e desapontadas:
- Está cheio o tonel? Pois bem! Que havemos de fazer?
Já estavam habituadas com o trabalho contínuo, mesmo inútil.

Não perguntem, pois, amigos, por que escrevo sempre, com ou sem leitores, com ou sem compreensão, estímulo ou tolerância.

Deixem-me com o meu barril sem fundo. A tarefa finda significaria o repouso incômodo, a displicência, a preguiça mortal.

Por isso, mesmo sem ter ofendido Apolo, encho, obstinado e tranqüilo, a talha imperfeita, escondido num recanto de província.

Quando não mais ouvirem o rumor da água agitada, não se dirá que Júpiter sucumbiu.

Será que, para sempre, desfaleceu na Morte, o braço humilde do trabalhador...

Luís da Câmara Cascudo
A República, 25 de setembro de 1943

 
Postado em 13 de julho de 2005, quarta

Pela Capela de Cunhaú

Na tarde de 15 de novembro evoquei a história da Capela de Cunhaú diante das moças do Club Maria de La Luz, olhando as ruínas, vendo as nódoas de cera das velas votivas. Há trezentos anos que as populações vizinhas, do vizinhário, mantêm culto teimoso às ALMAS SANTAS DE CUNHAÚ. Como os bretões, os norte-rio-grandenses do agreste, canonizaram os seus santos, alheios ainda ao antropomorfismo das representações materiais.

Fiquei com Edgar Barbosa, perdão, com o Juiz de Direito Edgar Barbosa trocando mágoas pelo abandono das ruínas. E acalorados fizemos pacto de uma campanha obstinada pela defesa das ruínas, duplamente sagradas pelo heroísmo da Fé e do Martírio, até que se estabeleça a capelinha modesta e para ela volte, em lenta procissão romântica, a doce Nossa Senhora das Candeias, que testemunhou o massacre de 16 de julho de 1645.

Juro à fé do meu grau que há muitos anos me bato por esse ideal como Dom Quixote por Dulcinéia del Toboso. Já escrevi, falei e pedi a meio mundo. O Forte dos Reis Magos e a capela de Cunhaú têm sido constantes tão vivas e permanentes na minha atividade provinciana como dois movimentos fisiológicos da respiração.

Agora volto ao campo, rearmado de coragem e com um companheiro, cavalgando outro rossinante, lado a lado, na campanha da teimosia bem intencionada. A Capela de Cunhaú é o santuário do Rio Grande do Norte. Lugar de morte pelo ódio e em louvor da fidelidade à tríade antiga consagradora, a Deus, ao Rei e à Família. A Pátria, terra dos pais, era a soma desses elementos.

Será possível a continuação desse abandono injustificado? Tanta verba espalhada e nessa chuva benéfica de ouro não caberão algumas moedas na mãozinha branca de Nossa Senhora das Candeias?

Cunhaú se reergueria com pouco dinheiro. Um técnico do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional daria conta imediata dos problemas que são pequeninos e mínimos. Os auxílios haviam de vir de toda parte. Todos os homens, todas as mulheres, todas as crianças de Canguaretama, ajudariam com o possível.

Ninguém vai esperar, num colapso de burrice herética, a recusa a um apoio à Capela histórica, sagrada, tradicional e evocadora. Creio firmemente que os senhores Bispos de Caicó e de Mossoró emprestariam todo o apoio. De cada paróquia do Rio Grande do Norte havia de vir uma pedra, com o nome da Paróquia, solidárias para a reconstrução da velha e gloriosa Capelinha mutilada. E no dia da consagração, Pontifical, com três Bispos!

Vamos galopar, Edgar Barbosa, lança na mão, contra os moinhos cujas asas se movem, mas não saem do lugar...

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 3 de dezembro de 1949

 
Postado em 6 de julho de 2005, quarta

Patavina

Que quer dizer patavina? Coisa nenhuma. Nada. Reforça a frase em que se nega o conhecimento de alguém. Ele não sabe patavina de História, dirá que o criticado é mesmo jejuno de assuntos históricos.

De onde virá o patavina?

Vem de longe, no tempo e na história, merecendo recordação.

As palavras, como tudo nesse mundo, têm sua história, seu passado, através da memória humana. A pressa em que vivemos, encurtando a existência e voando para a morte, afasta muito curioso, muita informação deliciosa.

Curioso é que Patavina significava vocábulo relativo aos motivos materiais e culturais alusivos à moeda e não ao conhecimento intelectual como atualmente usamos.

Até o século XV era popularíssimo o jogral do vagabundo músico que ia de castelo em castelo, de povoação em povoação, de feira em feira, contando estórias ou cantando rimances de cavalaria, aventuras espantosas de cavaleiros andantes que venciam dragões e exércitos, defendendo os humildes, os pobres, os oprimidos, vivendo por sua Dama. Esses rimances, chamados pelos franceses chanson de geste povoavam de encanto o espírito das populações e o pensamento dos fidalgos, nas altas salas dos castelos que coroavam montanhas.

Ouvir uma canção ou uma estória era delícia para todo infansão, rico-homem, burguês, vilão ou servo de gleba. Se um jogral chegava a uma parada sem dinheiro para satisfazer ao pedágio exigido, bastava entoar uma canção. Estava pago o direito ao trânsito. Havia uma Ordennance que autorizava essa moeda maravilhosa na França, na dulce France dos cours d’amour e jogos florais, das línguas d’Oil e d’Oc.

Naqueles tempos, que muita gente ilustre chama de ignominiosos tempos e épocas de obscurantismo, a Idade Média, pagava-se direito e posse com a moeda divina da palavra, cantando uma canção ou contando uma estória. Santa Rosa de Viterbo informou, no ELUCIDÁRIO, que em 1193, El-Rei Dom Sancho 1° de Portugal, doou um casal em Canelas de Poiáres do Douro aos farsantes (que representavam farsas, pantomimas, entremezes, pequenas comédias cômicas) Bonamis e seu irmão.

Acompanhado em troca de um arremedilho, debemus Domino nostro Regi pro roboratione unum arremedillum. Arremedilho era uma farsa mímica, uma comédia sem palavras, apenas vivida na gesticulação, gênero que os Romanos adoravam.

Nesse ambiente de jogral e jogralice nascera ‘patavina’, de poitevine, poitevin, de Poitiers, capital de Poitou, na França, terra de jograis afamados. Cunhava-se a poitevine, moeda com que se pagava o jogral. A Poitevine, Potevina, Patavina, valia um ceitil, dizendo de sua insignificância como unidade.

Teófilo Braga, no volume da Introdução à História da Literatura Portuguesa, Porto, 1870, 199 páginas, ensina: -A moeda com que no século XIII se pagava aos jograis que vulgarizavam as Canções de Gesta, era uma espécie de ceitil chamado poitevine; na nossa gíria popular ainda se emprega a palavra patavina como sinal do diminuto valor de uma coisa.

Dessa patavina, Camilo Castelo Branco criou o patavinice, sinônimo de ignorância e parvoíce.

Essa é a História da Patavina. Não é muito popular mesmo para os letrados profissionais. Ainda em 1913, Cândido de Figueiredo ignorava-a...

Luís da Câmara Cascudo
A República, 1° de novembro de 1944

 
Postado em 29 de junho de 2005, quarta

Olhos da cidade...

Uma cidade olha para os horizontes livres, para a paisagem bonita ao redor, com os olhos dos miradouros. São lugares abertos, mirantes com pérgolas, com alguns bancos, um recanto oferecido para a visão panorâmica dos arredores citadinos.

Quando uma cidade cresce, subindo e descendo as colinas, cobrindo com o casario as eminências e declives, é natural que o habitante pobre ou rico tenha o direito a uma impressão de beleza, tanto mais rara quanto maior a cidade se torna.

Os moradores ricos escolhem os pontos mais pitorescos e erguem as residências olhando o rio, o mar, a montanha, o infinito. E chamamos a esse elemento A VISTA, isto é, OLHOS. Dizemos:- a casa de fulano tem uma vista lindíssima.

Aqueles que não têm dinheiro ficam obrigados a dispensar a vista sobre os aspectos sugestivos da cidade.

Atualmente o direito humano vai alcançando essas prerrogativas que eram privilégios alheios. O morador mais pobre está pedindo também que a Cidade lhe dê uma Vista, um ponto bonito, uma alegria visual, interrompendo a melancolia do labor diário, do trágico-cotidiano, como dizia Maeterlinck.

A valorização dos terrenos ergue a vaidade humana pelas orelhas e a leva até perto das estrelas. Pelo gosto natural da burguesia não havia jardim público nem parque, nem alameda, nem miradouro. Tudo era terreno-para-construir. Interessa apenas o individual, o dependente da vontade personalíssima. Quem irá lembrar-se do direito de alguém ter diante dos olhos uma paisagem ridente ou um muro banal?

Essa possibilidade está se firmando como um direito natural, uma das prerrogativas de qualquer criatura humana.

As cidades começaram a oferecer aos seus moradores as perspectivas indefinidas da paisagem circunjacente. São os Miradouros.

Diga-se que o Miradouro não é um direito oferecido ao turista, ao viajante, ao estrangeiro, mas ao homem da cidade, ao morador, ao habitante, o elemento diário e comum.

Possa esse direito afirmar-se ao lado do patrimônio natural da cultura, como um facto visível e próprio da cidade moderna.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 5 de janeiro de 1947

 
Postado em 22 de junho de 2005, quarta

O luto foi branco?

Antigamente o luto era vestir-se uma pessoa de branco ou de preto?

O luto era vestir-se de branco.

O branco era a cor da homenagem aos Mortos. Em Portugal o uso se manteve por séculos e séculos.

Em Castelha o luto era a roupa negra. Como havia estreita e ativa comunicação entre os dois países, com marcada influência castelhana, a moda começou a dominar os portugueses. Mas exigiu centenas de anos para que o velho costume desaparecesse.

A rainha Dona Leonor Teles, em 1383, usou vestido negro pela morte do seu marido, El-Rei D. Fernando.

Em Toledo, nas exéquias, o rei de Castelha, genro do morto, e sua mulher, vestiam preto, mas todos os fidalgos portugueses compareceram de branco.

O vestido negro dizia pano de doo, de dó, dolum. O luto branco era o burel, de linho alvo. Os castelhanos usavam o doo e os portugueses o burel.

No enterro Del-Rei D. João I, em 1433, o rei D. Duarte assistiu de doo, negro. Seus irmãos, os infantes, de burel, branco.

Assim, no século XV ainda o modo do luto negro estava indecisa na Corte portuguesa, entre os próprios membros da família real.

Em 1521, Dia de Santa Luzia, 13 de dezembro, morreu Dom Manuel o venturoso, rei que vira o caminho para as Índias e o achamento da Ilha de Vera Cruz, povoada de ibirapitangas preciosas. O corpo do rei foi transladado com dois mil cavaleiros e seiscentas tochas. O povo acompanhou no pranto como se usava.

Um poeta da Corte, Garcia de Resende, achou que as lamentações não correspondiam ao grande soberano. E sabem por quê? Porque o burel, isto é, o luto branco, tinha sido defendido (proibido) e só podia usar o doo, luto negro, tal qual em nossos dias.

Na estrofe 260 da MISCELANEA, informa o poeta:

Vimos gram pranto fazer
pelos Reis quando morriam;
burel, grande doo trazer,
causa muy digna de ser
pois tam gram perda perdiam.
Vimos burel defendido,
e vimos pouco sentido
um Rei que depois morreu,
porque o doo se perdeu,
foi também nojo perdido.

Está claro que a mágoa do povo era a perda de uma tradição imemorial, obrigada pelas leis, leis contra o uso, fonte delas.

Apesar dessa legislação, no século em que o Brasil foi colonizado, o luto branco continuou.

Vestígios dessa tradição ainda são visíveis nos usos e costumes no interior do Brasil.

Luís da Câmara Cascudo
A República, 17 de abril de 1945

 
Postado em 15 de junho de 2005, quarta

Sapato emborcado

Sancho Pansa não acreditava nas bruxas, mas tinha medo delas. Yo no lo creo em las brujas, pero que las hay, las hay, dizia.

Nós tão civilizados que estamos destruindo um Mundo para construir outro à nossa imagem e semelhança, estamos fiéis à longa noite do Passado. Milhares de anos passaram por nós. Civilizações, doutrinas, religiões sucederam-se. Nós somos um resumo dessa sucessão de Mundos desaparecidos. De todos guardamos alguma coisa. Resquício, traços. Superstições. A superstição é um vestígio de uma religião que morreu. Ficamos com um ou outro elemento, como se conservássemos folhas secas em recordação de uma época que passara em nossa lembrança. Nem tudo morre, dizia Horácio, há dois mil anos. Muita coisa resiste ao que chamava Ferreira Itajubá, a cheia assoladora dos anos...

Nós ficamos com gestos, idiossincrasias, recalques. Não sabemos porque. Não imaginamos a força do subconsciente, dominador, na voz surda, irresistível, do instinto. Um desses gestos incontidos, maquinais, alheios à vontade disciplinadora, é repor na posição natural o sapato que se emborcou. Por quê? Ninguém sabe. Apenas não é bom o sapato emborcado. E por que não é bom? E por que essa pressa com que a mão cuidadosa se estende para repô-lo onde e como devia ficar?

É um vestígio de organização social milenar. Todo o Mundo que ambientava o conceito sociológico, psicológico, político, religioso, concordante, desceu para as profundas do abismo da História. Resta um ou outro motivo, boiando a tona da civilização do século XX.

O sapato emborcado é um desses derelictos sem rumo, encalhados no automatismo de nosso mecanismo nervoso. A sandália, o sapato, a bota é a imagem do pé. O pé, fundamento, sustentação e base do corpo, está com a palmilha para baixo quando estamos na vertical. Quando está horizontal, estamos nós deitados. E se a palmilha estiver para cima em que posição estará o corpo? Estaríamos com a cabeça para baixo.

Vindo das civilizações orientais para o Império Romano, houve, durante séculos, o martírio da crucificação e da penduração pelos pés, com a cabeça para baixo. Era a morte oprobidosa, humilhante, a degradação. Havia o suplício dos pobres, degolação pela espada. A degolação pelo machado era a dos pobres, criminosos comuns.

Jesus Cristo foi crucificado com a cabeça para o alto, entre dois ladrões. A cruz era suplício dos mais humildes e resteiros condenados.

Com a cabeça para baixo ainda era situação mais inferior aos olhos fiscais do direito consuetudinário.

Como o criminoso havia sido supliciado com a cabeça para baixo, no lugar dos pés, punham-lhe na sepultura (quando a família ou alguém requeria o cadáver abandonado) o calçado do uso, mas na posição invertida, emborcado. Assim foi martirizado São Pedro, o primeiro Papa.

Sapato emborcado era sinal desse opróbio horribilíssimo. Quando, casualmente, uma sandália virava para o chão, imediatamente o cidadão romano a desvirava, afastando o agouro...

Hoje, sem se saber porque, ninguém encontra sapato emborcado que não o revire, dizendo, abaixo:- Deus te livre...

Esta é a História do sapato emborcado. Apesar de tudo nós somos como o velho e querido Sancho Pansa:- temos medo do que dizemos não existir...

Luís da Câmara Cascudo
A República, 31 de dezembro de 1944

 
Postado em 8 de junho de 2005, quarta

O que quer dizer “Acta Diurna”?

Perguntam a mim porque dei semelhante título a esta secção. Que quer dizer ACTA DIURNA?

ACTA DIURNA era uma espécie de jornal diário, uma folha onde os acontecimentos do dia eram fixados pelas autoridades de Roma, para conhecimento do povo. Pregavam-na a uma parede num dos edifícios do FÓRUM. No ano 131, antes de Cristo, já existia a ACTA DIURNA, informando ao cidadão romano as novidades ou diretivas governamentais.

Júlio César, cinqüenta e nove anos antes do nascimento de Cristo tornou a ACTA DIURNA oficial, de aposição obrigatória num determinado logradouro público.

Conservo o título em latim. Por isso aparece o ACTA com a segunda consoante do alfabeto. ACTA significa, no latim, ações, obras, feitos, façanhas. DIURNA é o que se pratica sob o sol, no espaço de um dia, ou diariamente.

Suetônio, que bem conheceu a ACTA DIURNA, dizia-a efemérides diárias, o registro dos sucessos urbanos, políticos e administrativos, sociais ou literários. A minha é uma ACTA DIURNA que recorda o pensamento que presidiu meu dia. Fixo a minha impressão diária sobre o livro, uma figura ou um episódio, atual ou antigo.

Dei-lhe batismo latino porque a intenção cultural é honrar o passado, nas suas lutas, alegrias, tragédias e curiosidades. E, se matéria nova aparece, comentada, é ainda o desejo de conservá-la no tempo para os olhos amigos de alguns leitores fiéis, nas páginas tradicionais dA República, o mais velho dos jornais conterrâneos.

Luís da Câmara Cascudo
A República, 03 de agosto de 1943

 

Cascudo iniciou-se no jornalismo em A Imprensa, jornal de propriedade do seu pai...

Leia mais

Digitação e revisão das Actas: Daliana Cascudo
Fotos: De Cascudo - Acervo do Memorial Câmara Cascudo;
Máquina de escrever, placa, casa de Cascudo e fotos eventuais - Sandro Fortunato;
Fotos que ilustram os textos - Canindé Soares.

 

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