Postado em 21 de março de 2007, quarta

Editor, edições, autores

Não discuto que o Livreiro-Editor é destinado a ganhar dinheiro. Deve ganhar dinheiro como se vendesse carne, peixe ou frutas. O essencial é que não distribua o produto avariado e meio podre. Poderá inundar o mercado de livros fáceis e bonitos por fora, mas inúteis e até dispensáveis. Cada ano podíamos fazer um exame de consciência para os nossos editores. Separar as edições que trazem dinheiro e as que, necessariamente, constituirão o auxílio do livreiro à cultura do país. Como a ninguém é dado o direito de monopolizar patriotismo, sabemos que o patriotismo de um editor é perder, isto é, deixar de ganhar, alguns contos de réis, oferecendo ao seu país dois ou três livros por ano pouco vendíveis e possivelmente encalhados nas prateleiras. Mas esses dois ou três livros são cheques que algum dia serão descontados. Seria curioso estabelecer a relação entre as toneladas de romances traduzidos ou copiados para o português, e os volumes de caráter científico oferecido ao público leitor. Como os editores têm os seus técnicos, os orientadores, as traduções dependem das simpatias individuais ou políticas desses órgãos. Tanto mais estridentemente libertário mais prisioneiro de sua casta, algemado ao seu grupo que o conduz para os horizontes imóveis da unilateralidade.

Quando um editor se filia a um grupo ou centraliza um grupo perde o direito a essa participação livre à cultura independente. Condiciona seu esforço dentro dos moldes afetuosos da preferência. Pode ser que a explicação seja coincidir a sua simpatia com a simpatia coletiva, isto é, do mercado comprador. O que se nota é a conquista do mercado para esses favoritos, a insistência do reclame, a obstinação na vulgarização quotidiana, o cuidado das capas bonitas, a rapidez das reedições mesmo quando a inicial não se esgotou. Tudo isso é banal e não pertence ao Brasil. Está no Rio de Janeiro, em Buenos Aires, em Cabul, em Ragun e em Bangkok.

Um índice para a utilidade editorial é recordar os nomes revelados ou defendidos por ela. Um editor deve “satisfazer” ao gosto do público numa percentagem de 98%. E deixar dois por cento, para atender ao gosto de quem não é público nem pensa por números de maioria, nem obedece ao imperativo de ir-na-corrente nem passivamente repetir o gosto-porque-todos-gostam. Não é possível dar sempre chocolates ao bebê chorão e guloso...

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 27 de abril de 1948

 
Postado em 14 de março de 2007, quarta

História de Comerciantes e Industriais

O sucesso não justifica a moral se esta realmente é uma convenção. Pode-se vencer na vida economicamente e continuar moralmente derrotado, vencido por dentro, condenado ao ódio, ao esquecimento que é vingança coletiva.

Vezes penso nesses industriais e comerciantes, vencedores na economia, generais de tática irresistível, conquistando mercados, criando atividades, ultrapassando fronteiras, convenções e limites. Elogiando-lhe o esforço, cumprimos a missão brasileira de valorizar o trabalho nacional, erguido lentamente da cota zero às estrelas. Raros herdaram alguma coisa além do nome. Chegam as cucurutas da fortuna, semeando fábricas, multiplicando usinas, espalhando ouro, como Grandes Fadas, generosas e fartas.

Curiosamente, apesar de humanos e amantes da exaltação divulgativa da energia pessoal, esses homens contentam a vaidade com o incenso de uma hora. Um banquete, uma estátua, nome numa rua, nome num edifício, encheu as medidas do mais exigente. Perde a memória do estudante brasileiro a história desses grandes trabalhadores. Como só o conhecemos envelhecidos milionários, meio displicente, devotos com medo da morte e do inferno, vivemos tão distante de admirar-lhe a vida anterior, intensa e formidável, modelo indiscutível de vontade inarredável, como se tivessem vivido dentro de uma caverna, na era neolítica, donos de renas e caçadores de ursos.

A Bibliografia nesse terreno é, no Brasil, a mais pobre, a mais rara e a mais melancólica. Uma vida destas, escrita num ritmo de exaltação, dá no timbre da comicidade integral. Só admiramos o que compreendemos. Compreender é acompanhar o diagrama de percurso e não obrigar-se ao salto vertical de um brinde de aniversário.

Quando esses grandes comerciantes, reis de indústrias, conquistadores de terras e de mercados vão morrendo, os nomes murcham depressa. Podíamos aqui perguntar pelo nome de uns cinqüenta, levados para o Outro Mundo.

Por que não contam a história de sua vida e do seu trabalho? É exemplo e estímulo a melhor herança, a única acima do Tempo, comedor de ouro e de famas alicerçadas em facilidades douradas.

Tenho tristeza quando não posso evocar, os nossos magníficos trabalhadores, os que valorizaram e venceram pelo trabalho. Olho para toda parte procurando os elementos que ajudarão esses nomes através do tempo. Caridade...

Nosso Senhor Jesus Cristo teve quatro livros contando sua vida. E não precisava desses biografistas. Mas os Evangelhos falaram, para sempre, da passagem e das vozes do Salvador.

Castro Alves sabendo muito bem quem era, disse num verso famoso:
No chão da História o passo meu verás!
O chão da História, onde os passos ficam é o livro.

Por isso ainda hoje vemos as pegadas gigantescas de Castro Alves, rumando para a imortalidade...

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 9 de abril de 1948

 
Postado em 7 de março de 2007, quarta

Natal, cidade do barulho...

Começando a crescer, Natal está assimilando mais depressa os vícios que as virtudes das cidades grandes. O pior, um dos piores vícios de uma cidade é o barulho, o ruído dispensável, a hipertensão sonora, fábrica de neurastênicos e alérgicos. Há uma legislação do silêncio destinada a opor uma barreira legal à origem dos ruídos exagerados. Londres, New York, Washington, Chicago, Roma, Bruxelas, Paris, têm sua legislação do silêncio em pleno funcionamento. O Rio de Janeiro, sede natural da barulheira, tenta vez por outra um paliativo que desaparece noutra semana. Os congressos médicos, as reuniões técnicas de engenharia, arquiteturial e sanitarista, afirmam a obrigatoriedade de evitar os rumores demasiados em benefício da coletividade, respeitando os direitos naturais do povo.

Moro justamente na artéria principal da cidade e por onde corre o sangue mais violento e barulhento do Natal. Tenho ficado observando automóveis, caminhões e bondes, motocicletas, bicicletas e carroças em passagem diurna e noturna. Os veículos mais bem educados são justamente as carroças, com a rodagem de borracha espessa e o burro primorosamente silencioso. O dono é que, às vezes, vai discutindo com o ajudante ou com outro amigo distante ou com ele mesmo os altos problemas individuais do comer e do beber, ajudado por quem bebe água e come capim. Os bondes natalenses são instrumentos modernos de medir a resistência nervosa das criaturas insensíveis. Os motores representam, com precisão matemática, as cenas de bombardeamento rítmico da Sicília pela esquerda aliada ou o surdo e majestoso fogo-de-barragem na invasão da Normandia. Os klaxons e buzinas foram admiravelmente escolhidos entre as coleções mais estridentes e completas das lanchas-relâmpagos da Polícia Marítima de New York e das sereias do incêndio. Algumas avisam, com precisão e eficiência, a população de Macaíba quando passam pela Junqueira Aires. Escapação aberta, carburador desregulado, dando descargas magníficas, lembrando metralhadoras pesadas, são elementos comuns ao dinamismo da cidade que se torna civilizada com essa visão tempestuosa da vida e dos seres.

Os rádios particulares também são moderníssimos. O volume é perceptível na ilha do Disko ou nas solidões geladas do Alaska. Queira ou não queira, educamo-nos nos programas espirituosos e nas novelas muito bem feitas.

Delícia... Não há como uma cidade civilizada...

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 13 de março de 1948

 
Postado em 28 de fevereiro de 2007, quarta

Temas africanos na literatura oral Aimoré

O Prof. Egon Schaden, da Universidade de São Paulo, lembrou-se de mim com uma separata do seu Mitos e Contos dos Ngu’d-Kra’g, nome dado pelos Aimorés à própria tribo. Os indígenas Tenóke e Jukuaté foram os informadores, ambos cinqüentões e não davam mostras de grande vivacidade de espírito.

O Prof. Schaden mostrou a percentagem européia dos temas e a influência catequista, com as deformações vivas da mentalidade local, misturando Adão com os animais falantes e pensantes e dando nascimento mesmo a uma criatura chamada Amén, corporificação do amen latino. Ha Ndiv Nosso Senhor que é Deus Nosso Senhor, agindo como indígena e mesmo o Capeto que é o Capeta, o Demônio alerta, tentador e esperto. Indicou os temas africanos entre os Aimorés. Quero salientá-los.

No conto Ndiv Nosso Senhor e os Animais há convergência temática africana. Certamente não é possível fixar procedência, indicar a fonte original. Talvez os assuntos negros sejam árabes. Não os conheço senão nos registros de missionários brancos, porém ouvidos e grafados nÁfrica.

Traduzi o Folk Tales of Angola, de Heli Chatelain e agora estou terminando as anotações e a versão do prefácio, geografia, etc. Nas estórias dos Aimorés, Nosso Senhor para prender o Coelho que estava furtando o feijoal deixou cera de abelha, naturalmente com a forma vaga de um animal. O Coelho avistou a cera, dirigiu-lhe a palavra e como não merecesse contestação zangou-se e bateu com as mãos, patas e focinho, ficando grudado. Nosso Senhor encontrou-o preso e mandou que o filho o levasse à mãe para matar e comer. O Coelho enganou o filho de Nosso Senhor, comeu um frango e acabou fugindo. É o tema do Tar Baby de que o Prof. Aurélio M. Espinosa disse-me possuir 318 versões. A variante dos Aimorés é semelhante a registrada na Geórgia, nas plantações de algodão, por Chandless Harris.

O episódio em que Ndiv Nosso Senhor atira o sapo dentro dágua, para matá-lo, convencido que o batráquio não pereceria pelo fogo nem socado a pilão, é o conto de Angola, Mutu Mbaxi, entre o Homem e a Tartaruga, o Jabuti astucioso que também possui um ciclo amazônico (C. F. Hartt, Amazonian Tortoise Myths, traduzido e anotado e entregue à Editorial Agir do Rio de Janeiro). Chandless Harris recolheu uma versão norte-americana entre o Coelho e a Raposa e eu inclui a variante sertaneja entre o Sapo e o Homem, Contos Tradicionais do Brasil, 247, O Sapo com Medo D’água.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 11 de fevereiro de 1948

 
Postado em 21 de fevereiro de 2007, quarta

Tuixána de sete fôlegos

Arthur César Ferreira Reis publicou A Fronteira Colonial com a Guiana Francesa. Tomo inicial da série Limites e Demarcações na Amazônia Brasileira, abrindo a biblioteca da Comissão Brasileira Demarcadora de Limites, dirigida pelo Comte. Braz Dias de Aguiar. Arthur C. F. Reis é um dos raros desmentidores do dogma tradicional luso-brasileiro de que todo historiador deve escrever pessimamente. Deve ter o estilo severo e essa severidade é sonolência, lentidão, tropeço, pobreza vocabular, estilo engole-a-pedra, algodão em rama, cimento armado, elo clorofórmio. Enfrentando os assuntos mais secos e hostis, esse tuixána sereno consegue cobrir a tristeza do areal com uma vestimenta policolor de tajás bonitos.

Um volume sobre a fronteira colonial do Brasil com a Guiana Francesa deve assombrar nossos olhos afeitos às leituras curiosas. É uma viagem lenta dentro de tratados e datas, avançados e recuos, planos de expansão e retiradas, derrotas e vitórias conforme a posição das pedras reais no tabuleiro político da Europa.

Para que a História venha até o regresso da Caiana ao domínio da França em 1817, muito caminho foi andado na floresta e nos rios, Macapá enxergou sua fortaleza, Melo Palheta trouxe o café e o Marquês de Pombal mandou o irmão governar o setentrião brasileiro... Não explico, no clima psicológico brasileiro, esse fabuloso Arthur C. F. Reis. Um após outros os volumes deixam suas mãos, maciços, compactos, com uma documentação surpreendente.

Desmancha tabus de História, encontra relatórios milagrosos, esclarece escuros, fixa as fisionomias raras e lindas de geógrafos e administradores coloniais, ensina, numa impressionante aula régia, a conquista espiritual do Amazonas, evoca as figuras enormes de prelados, chefes, bandeirantes, jornalistas, resume a História do Amazonas em capítulos que são sínteses magníficas, conhece tudo, leu quase tudo, tem tempo para tudo. Esse é um dos raros pajés de sete fôlegos, de que falava Taracuá ao Conde de Stradelli, capazes dos milagres porque sabem os mistérios das coisas com fôlego e sem fôlego. O segredo é o método, o amor pelo trabalho independente do prêmio e da compreensão, a tenacidade, o orgulho tranqüilo em servir o seu País, a teima histórica em não deixar a guarita destacada na mata virgem onde o historiador olha e defende o sono dos irmãos.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 24 de janeiro de 1948

 
Postado em 14 de fevereiro de 2007, quarta

A letra das músicas carnavalescas

No terceiro dia de Carnaval, ou melhor, na terceira noite, um amigo disse-me que a Polícia do Rio de Janeiro proibira que se cantasse a letra de três músicas carnavalescas.

A proibição viverá depois da música com letra impressa em milhares de exemplares, gravada em discos, espalhada por todo Brasil e gritada nas estações de rádios e amplificadoras. Lógico, muito lógico, é que a proibição, na espécie apenas bom senso e bom gosto, tivesse vindo em tempo útil, antes da impressão e da gravação da letra, uma delas apenas pornográfica. Se me permitem, a proibição da Polícia carioca...já veio tarde...

Meia dúzia de idiotas (pertenço a essa meia dúzia) há anos e anos vêm lutando contra a vulgaridade criminosa das letras que sujam as músicas do Carnaval, músicas sempre deliciosas de graça melódica; vivazes, sugerindo movimento, alacridade, bom humor.

Nenhuma autoridade entendeu de apertar a garganta desse vozeirão deseducador e ensopado de vulgaridade, estupidez e fofice de incrível mediocridade, alagando a memória infantil brasileira, envenenando as horas do Carnaval, dando aos bailes sociais onde são cantadas, sem intenção, o aspecto de uma pornéia ou de um manicômio em dia de verificação de equilíbrio mental.

Incrível que tanta música bonita seja inutilizada pela ignorância de letras absolutamente cretinas, sem sentido, sem gramática, sem moral e sem vergonha.

Aqui não está nenhum assalto feroz contra o delírio da cura carnavalesca, nem ao tão natural e sentido Jus Lubi, o direito de divertir-se. O que se afirma é que o Brasil tem o direito, pelo Ministério da Educação, pela Polícia, pelas Secretarias de Educação Estaduais, de obstar a propagação anual de uma maré de porcaria condensada no condimento mais sugestivo e gostoso desse Mundo: - a música carnavalesca.

Agora que o Carnaval passou e o vento levou os confetes e trouxe o arrependimento, não era plausível que a Polícia do Distrito Federal entrasse em entendimentos com outros órgãos dos famosos canais competentes e criasse um organismo qualquer, o mais simples possível e o menos burocrático do Mundo, destinado a limpar as letras das futuras músicas populares? Não era mais lógico do que proibir comer o doce depois dele engolido?

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 18 de fevereiro de 1948

 
Postado em 7 de fevereiro de 2007, quarta

Nós somos as belezinhas...

Ano passado, no Carnaval, tive a honra de assistir à passagem de um grupo de foliões vestidos de mocinhas, saia azul, casquete de suspensório, soquetes nos pés e lacinho róseo, amarrando-lhe a cabeça inspirada. Esquecia-me de ajuntar que as bocas tinham os lábios pintados de batom e havia rodas de rouge, forte como placas de tomates, nas bochechas sorridentes, jiga-joga aperitival, trejeitos alusivos ao sexo imitado. O grupo desfilou saracoteando, balançando quadris, em tão gostosamente cantando, cantando, cantando.

Gosto não se discute. Vamos respeitar esses rapazes maiores de 26 anos que se divertem semelhando exteriormente moças, meninas e mulheres. Deixemos que a pele de ovelha não dê ao lobo o temperamento do animal deliberadamente simulado. Parece que o estribilho da canção entoada pelas bocas besuntadas de vermelhão afirmava, candidamente:
- Nós somos as belezinhas!...

E era mesmo belezinha no sentido psicanalítico do vocábulo. O velho Freud deu-se ao trabalho de estudar a significação profunda, inconsciente, recalcada para o mais ignorado desvão do subconsciente, desses gestos e situações que julgávamos apenas divertimentos inocentes, gracinhas infantis, pilhérias destinadas ao riso sem conseqüência. São, bem diversamente, atestados gritantes, uivos alucinantes de fome, carências, falhas, desejos, vontades obscuras que se exteriorizam daquela forma e maneira, sendo para o psiquiatra, o psicanalista, o estudioso da psicologia social, claros e nítidos depoimentos de mentalidade, desvios, apelos, tentações, angústias, delírios. Um camarada vestido de bailarina, com a gelatinosa trepidação dos glúteos, era uma coisa muito engraçada antes de Freud. Hoje, para os olhos experimentados, é o mesmo que rezar na testa um cartaz, dando a verdade bem triste e bem dispensável de saber-se se não fosse o saiote de bailarina vestido por quem não o é.

Enfim o disfarce carnavalesco é um elemento sugestivo e poderoso para estudar-se a vida interior do folião inocente que o vestiu. Faz de conta que é uma ficha, contando uma porção de coisas que o divertido amigo não desejava tornar tão pública e tão visível.

Até aqui é a lição terrível de Sigmund Freud.

Há muitas e muitas centenas de séculos Jeová confidenciava com Moisés, seu eleito, atravessando o deserto com o povo de Israel, fugindo do Egito. E Jeová entendeu de incluir, na tabela das coisas defesas, o que tanto se usa no Carnaval gostoso. Estas são as palavras que Moisés falou a todo Israel daquem do Jordão, no deserto, na planície defronte do Mar de Suf, que chamamos Mar Vermelho, entre o Paran e Tofel, e Laban e Hazerot e Dizaáb:
- Não haverá trajo dhomem na mulher, e não vestirá o homem vestido de mulher: porque qualquer que faz isto, abominação é ao Senhor Deus!

Assim falou Moisés, varão reto diante do Eterno. E se o leitor quiser verificar a saborosa verdade, procure a Bíblia, o Deuteronômio, capítulo XII.

Nós somos as belezinhas! Cantavam os homens tão bem humorados. Será que Jeová dirá o mesmo?

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 5 de fevereiro de 1948

 
Postado em 31 de janeiro de 2007, quarta

Sociologia e o Carnaval

O Carnaval aproxima-se e com ele o estudo da psicologia popular aplicada. Não há época melhor para medirmos a resistência individual e coletiva em face de virtudes ou vícios. E, etnograficamente, compararmos o desaparecimento ou persistência de tradições carnavalescas, uso ou esquecimentos de gestos, cantigas, palhas e hábitos velhos. O Carnaval é um documento irrespondível. Para a burguesia capitalista o Carnaval é uma escapação da sobrecarga. Uma evasão das preocupações trágicas do dia quotidiano. O valor da observação está em ver de como o homem se diverte ou julga divertir-se. O essencial, no domínio psicológico, é constatar como ele aplica o seu tempo e em que direção escolheu a técnica para esquecer-se do trabalho terrível dos outros dias.

Toda a gente sabe que o Carnaval é uma festa popular que reúne muitas festas populares de séculos e séculos, vindas de Roma, da Grécia, dos cultos de orgias na Ásia Menor, no Oriente próximo. É uma espécie de festa-das-festas em que tudo se permite porque o homem está homenageando as forças livres da fecundação e da germinação, restos de cultos aos deuses rurais, propiciando as colheitas fecundas e abundantes. Também ocorrem festas de caráter social, como as Saturnais e Lupercais, em Grécia e Roma, que tinham, de modo geral, o mesmo aspecto do Carnaval, disfarces, gritos, movimentação, cantigas, liberdade, bebidas e alegria tumultuosa. Basta um pormenor carnavalesco para mostrar sua antiguidade. Durante os três dias de Carnaval há um irresistível desejo de pilheriar, dizer em voz alta as brincadeiras mais inopinadas e possivelmente agressivas. Tem uma vaga idéia de que tudo é permitido e legal, inclusive o desrespeito, a insolência, a deseducação. E quando alguém protesta, surpreende-se, reagindo, a explicação é sumária e típica: Não se zangue, homem, é Carnaval, Carnaval é isso mesmo...

Carnaval como sinônimo de licenciosidade, irresponsabilidade, garantia tradicional das loucuras, comprova sua duração no Tempo e o espírito de sua função sacra e orgiástica. Reparem, nessas horas de liberdade, como falam, cantam e gritam homens que passam o ano cheios de gravidade, porejando circunspeção, irradiando protocolo. Estudem no delírio do Passo a necessidade de movimento, de gesticulação, e trejeitos. Tudo aquilo estava comprimido, apertado, guardando nos refolhos da Vontade, aguardando a oportunidade para manifestar-se. Vejam também, pelas fantasias dos ricos e pelos disfarces improvisados pelos pobres, o senso da decoração, do colorido, da ornamentação de cada um. Vejam a predominância das cores primitivas, vermelho especialmente, vermelho sangue de boi. Vejam as facilidades com que os grupos, cordões, blocos se organizam na rua e escolhem chefes, no fenômeno natural da sociabilidade. E a parte da improvisação musical. De expressão mímica. As reações populares aos acontecimentos, cantigas, caricaturas, críticas. E os ditos, anedotas, reparas, respostas, perguntas de achatar. E anote-se a alimentação especial desses dias tanto nas residências como nas ruas. O que se come durante o Carnaval seria objeto de uma pesquisa sugestiva. E os homens que se vestem de mulher e as mulheres que se vestem de homem, abominação que Jeová condenou no Deuteronômio? Há no Carnaval todos os elementos para estudo, alegria, esquecimento e loucura. Dirá melhor Bauville:

- Le carnaval s’amuse!
Viens le chanter, ma Muse...

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 22 de janeiro de 1948

 
 

Cascudo iniciou-se no jornalismo em A Imprensa, jornal de propriedade do seu pai...

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Digitação e revisão das Actas: Daliana Cascudo
Fotos: De Cascudo - Acervo do Memorial Câmara Cascudo;
Máquina de escrever, placa, casa de Cascudo - Sandro Fortunato;
Fotos que ilustram os textos - Canindé Soares e Sandro Fortunato

 

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