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Postado em 28 de setembro de 2005, quarta

Até Deus precisa dos sinos!

A frase é uma paráfrase de Chateaubriand. Traduz-se que a Igreja de Deus não dispensará os instrumentos de aviso, chamado, reunindo, alertando seus fiéis. Não há Exército sem clarins. Nem cidade sem comunicações de telefone e rádio. Com a organização da defesa civil vimos o papel salientíssimo das sirenes fazendo a cobertura sonora da população, afastando-a do perigo, disciplinando-a.

Uma propaganda é tão indispensável quanto a produção regular. Propaganda do país e não dos seus dirigentes. Dos produtos e não dos homens. Divulgar livros, filmes, idéias e fotografias e não retratos individuais com relatórios administrativos. O Conde dEu me disse que o grande mal feito à Família Imperial era a bajulação (o príncipe dizia outro nome mais delicado) da imprensa monarquista. Nada irrita mais do que o elogio insistente. Acaba dando vontade de ir-contra, só pelo gosto de discordar.

O General Aristides, o grego que nunca mentira e era a expressão mais alta da dignidade moral nas horas crepusculares da Grécia anárquica, foi exilado. Para exilar-se alguém escrevia-se o nome da vítima numa casca de ostra Ostrakon, daí a palavra ostracismo. Um camponês pediu ao próprio Aristides, que ele não conhecia pessoalmente, o obséquio de escrever seu nome na casca de ostra – Por que desejas exilar Aristides? Perguntou o herói magnânimo – Por que estou farto de ouvir chamá-lo virtuoso, impecável, perfeito.

E Aristides, compreendendo, escreveu o próprio nome na ostra que o expulsava da pátria. Americanos e ingleses, com produção industrial e cultural que dispensa corretagem em qualquer praça, mantêm seus adidos culturais e econômicos. Nós achamos que é despesa dispensável. Há poucos anos, Agosto de 1940, Leopoldo Stokowski esteve no Rio de Janeiro regendo um conjunto de 18 músicos da Filarmônica da Filadélfia e centenas de rapazes e mocinhas selecionadas entre 15.000 estudantes das Escolas de Música dos Estados Unidos. O conjunto se chamava All American Youth Orchestra e viajava em cruzeiro especial no Good W. II. Muito que bem. Pois, meus senhores, Stokowski, um dos mais populares regentes do Mundo, nunca ouvira falar em Carlos Gomes que nós julgamos mais conhecido que a luz do Sol. Entenderam?

Se a Igreja não dispensa a chamada dos sinos porque a dispensará o Brasil?

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 12 de setembro de 1947

 
Postado em 21 de setembro de 2005, quarta

Opinião de Mestres

Há alguns anos passados conversava-se numa residência amiga no Rio de Janeiro. Um grande escritor, infelizmente morto, dava opiniões sobre as influências do escravo africano no Brasil.

Eram as mais completas, absolutas, determinantes. Lá para as tantas explicou que os versos encadeados, as pretensões poéticas, constituíam outro elemento que devíamos aos africanos. Completavam eles, desta forma, ao verso que faltava à solfa, repetindo-o. O dono da casa, professor de literatura, teve sorriso bem educado e silenciou. Não ignorava que os tais versos eram o processo paralelístico português, empregado há séculos em Portugal, abundante nos cancioneiros, comum aos poetas clássicos, era o cosante, o verso encadeado. Datava das manhãs da história literária na Península.

É uma lição que existe nos compêndios escolares de história da literatura. O Paralelismo.

Depois o escritor ensinou-me que devíamos a dança de roda, para adultos, também aos africanos. Perguntei se os portugueses não a tinham conhecido e praticado. Não. Só a praticaram depois que o africano escravo chegou a Portugal. Arrisquei (pertenço ao número dos que a dança de roda era, fisiologicamente, dança coletiva e devia existir em qualquer parte onde tivesse existido o homem). O escritor sorriu, superior:- São opiniões. A dança de roda, a dança de círculo, é negra.

Veio outra conversa, fomos jantar. E o tempo passou. Ontem vi os trabalhos arqueológicos de França e Inglaterra, a cópia dos relevos do homem da pedra polida deixado no solo com a sua presença. Rastros, vestígios de armas, arrastamento de peças de caça. Lá estão as danças de roda. O círculo imenso dos pés fortemente firmados nos calcanhares em torno do dançarino, ou sacerdote evocador, que ficava no centro. A dança de roda é eminentemente coletiva porque todos podem participar de sua execução. Fiquei pensando no amigo. Ele escreveu essa opinião? Reaparecerá em livro? Ficará ensinando...errado.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 3 de setembro de 1947

 
Postado em 14 de setembro de 2005, quarta

Viagem e Cultura

Miguel de Unamuno ensinava que muito viajante vive apenas fugindo de um para outro país. É uma festa dos olhos, de superfície, de alegria fácil e boa, mas sem modificação substancial na inteligência e nos processos íntimos de raciocínio.

A viagem educa, dizem. Educa como função complementar, completando, finalizando, aguçando os elementos adquiridos na instrução anterior. Por si só, isoladamente, a viagem nada vale. É apenas uma mudança de lugar. Ninguém transforma a inteligência porque se deslocou dum lugar para outro canto.

Os conhecimentos da viagem, sem o fundamento da educação prévia, o lastro de cultura inicial, são rudimentos de processos que não adiantam a elevação da mentalidade. Nem uma fração de milímetro conseguirá o viajante sem saber ver e observar.

Saberá o que é obrigado pelas exigências alfandegárias, pelos usos do povo estrangeiro, pela novidade da alimentação. Verá cidades e paisagem sem a intensidade de um sentimento interior. Registrará a visão das cousas com a fidelidade padronizada e fria de uma máquina registradora. Taime escreveu que melhor a ter viajado do que viajar. As jornadas escolares têm o valor educacional porque são temas de comentários, uma verificação psicológica, a constatação do que se sabe no livro e se aprende pela visão imediata e pessoal.

Esse conjunto determinará a impressão, o juízo, a idéia sobre o que-se-viu. A viagem em si, desajudada pelos fatores educacionais, do elemento cultural é um prazer indiscutível, mas infecundo. Exclui-se, forçosamente, o talento, a criatura inculta cuja inteligência vai criando a reação cultural pela observação direta e única. A força dessas inteligências supre a cultura pela agudeza da observação, da educação, do reparo. Falando-se do homem normal, comum, diário, a crítica da viagem subordinará sua inteligência à uma pequena série de conhecimentos valorizadores dos objetos, pessoas e cousas vistas.

Lembremos que o Machado de Assis foi eleito, em pleito livre, indiscutido e majoritário, o nosso modelo intelectual, o escritor tipo superior, apontado para a imitação.

E Machado de Assis nunca saiu do Rio de Janeiro...

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 30 de agosto de 1947

 
Postado em 7 de setembro de 2005, quarta

Velhas árvores

Em Montevidéu, certas ruas fazem curvas para respeitar uma velha árvore. Teixeira Soares, um dos nossos ensaístas mais ágeis, 1° Secretário da Embaixada do Brasil no Uruguai, chamava-me a atenção para esse carinho platino pelas árvores. Na calle Dieghiero, onde reside Belloni de Carreta, há um grande plátano no meio da rua, no meio da rua, repito, cercado de leve gradil. Não é árvore histórica. É apenas uma árvore que merece viver e vive a despeito do trânsito, automóveis, circulação e outros problemas que vieram a nascer quando ela já estava velha. O Sr. José Antônio Gonçalves de Melo, Neto, no seu Tempos de Flamengos, transcreve uma memória do Príncipe Maurício de Nassau ensinando a replantar árvores adultas. O ex-governador do Brasil Holandês transplantara dois mil coqueiros, de 60 e 70 pés de altura, para o parque do seu palácio no Recife, o Palácio das Torres. E confessa ter, em sua vida, plantado ou replantado mais de 400.000 árvores. É um dos títulos mais bonitos que o velho Nassau-Siegen possui aos meus olhos.

Natal, há vinte e cinco anos passados, tinha arborização razoável. Atendendo a ensolarização de uma cidade tropical, certas ruas possuíam alas de mongubeiras, moldurando-as em toda extensão. Da Praça Carlos Gomes até a Rua Juvino Barreto corriam, paralelas, suas filas de árvores, copadas. Toda a Avenida Jundiaí era arborizada, densamente, em ambos os lados. À Praça Augusto Severo, pelada atualmente como uma cabeça calva, era um parque delicioso. Um arquiteto, amoroso das árvores, Herculano Ramos, repetira o Príncipe de Nassau, trazendo árvores velhas, árvores adultas, e replantando-as. Do dia para a noite, em vez de um pântano onde as rãs coaxavam, nasceu um parque digno das saudades que desperta.

Diante do Hotel Avenida, na Duque de Caxias, nesse tempo Avenida Sachet, Herculano Ramos trouxe um trapiazeiro enorme e plantou-o.

Houve um episódio que divertiu a cidade inteira. Herculano tinha bigodes enormes, bigodes de guerreiro gaulês, longos, pendentes. O Capitão Brito, do Batalhão de Segurança, usava uma barba cerrada, comprida, barba de Rei da Assíria. Brito apostou a barba contra o bigode de Herculano Ramos como o trapiazeiro não resistia a mudança e havia de morrer. Meses depois Herculano viajou. Voltando, Brito foi recebê-lo a bordo, entregando-lhe a barba. O trapiazeiro vivia. A penitência foi trocada por duas dúzias de cerveja. O trapiazeiro, anos depois, foi destruído a machado.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 8 de setembro de 1947

 

Cascudo iniciou-se no jornalismo em A Imprensa, jornal de propriedade do seu pai...

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Digitação e revisão das Actas: Daliana Cascudo
Fotos: De Cascudo - Acervo do Memorial Câmara Cascudo;
Máquina de escrever, placa, casa de Cascudo e fotos eventuais - Sandro Fortunato;
Fotos que ilustram os textos - Canindé Soares.

 

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