Retorna para a página inicial
 
Postado em 27 de julho de 2005, quarta

Triste fim das casas ilustres

Uma das mais lindas Casas Grandes do Rio Grande do Norte desabou e está desaparecendo. Foi um lugar de história viva e de festas esplêndidas. A região está cheia de lendas e de tradições encantadoras. Exerceu, durante anos, uma sugestão suprema de elegância e de bom gosto. Era a casa-grande de Ferreiro Torto, perto de Macaíba.

Os holandeses já encontraram o engenho de fogo-morto em 1633. Até o século XIX aquartelou os famosos Terços dos Paulistas. Em meados da centúria ergueu-se a residência ampla, imponente, confortável. Manteve um espírito senhorial de alegria, distinção, comunicabilidade.

Morreu sem merecer um registro maior. Não apareceu quem recordasse a casa de Ferreiro Torto. Breve conversarei sobre ela.

Fico pensando noutras casas históricas ou tornadas históricas pelo nascimento de glórias culturais. Sempre são defendidas e transformadas em pequenos museus de recordação, guardando relíquias do escritor ou do músico, do artista nascido entre aquelas paredes. Os ingleses e norte-americanos possuem centos desses sugestivos ‘Hallas Collection’ e ‘Memoriais’ destinados a manter no espírito popular, na alma das crianças, a presença do nome cultuado.

No Rio de Janeiro há a casa de Rui Barbosa, antiga residência do mestre. Mas a casa onde Rui Barbosa nasceu em Baía, na própria capital do Estado, foi deixada desabar sem maiores gritos. Onde Machado de Assis residiu tantos anos e escreveu tantos livros e onde morreu, a casa na rua do Cosmo Velho, já existe, vendida, derrubada, substituída por palacete particular. Tudo se processou num ambiente de desinteresse sereno, de risonha displicência, de conformismo superior.

Em Natal, localizou-se a casa do nascimento de Ferreira Itajubá. As do nascimento e morte de Segundo Wanderley desapareceram, a primeira está na praça Sete de Setembro e a segunda onde se ergueu o Centro de Saúde. Onde faleceu Auta de Souza devia merecer, urgentemente, uma placa e aqui deixo o meu apelo à Academia.

Possa um pedido sereno do pintor José Pancetti, dirigido ao governador do estado do Rio de Janeiro, evitar que a casa onde nasceu Casimiro de Abreu, em Barra de São João continue sendo visitada pelas cobras e esperando no Tempo os benefícios do desabamento.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 24 de julho de 1947

 
Postado em 20 de julho de 2005, quarta

O Tonel das Danaides

As Danaides eram cinqüenta filhas de Danao, rei de Argos. Seu irmão, Egito, tinha cinqüenta filhos. Mandou a filharada masculina casar com as primas. Danao não queria o casamento. Combinou com as filhas um plano.

Os cinqüenta recém-casados tiveram a mais estranha noite de núpcias de que há notícias no mundo.

Foram todos assassinados pelas esposas. Só escapou um, Linceu, poupado por sua mulher, Hipernestra.

Júpiter condenou as Danaides às penas do Tártaro, que era o inferno daquele tempo.

As Danaides enchiam um tonel sem fundo. Séculos e séculos, sem pausa, sem descanso, sem interrupção, as moças carregaram água, despejando-a no barril furado.

Teodoro de Banville contou o fim dessas Danaides, na Lanterna Mágica.

Os Titãs venceram os Deuses. O Tártaro ficou sem chefe, despovoado de sofredores, todos perdoados.

Astério anuncia a terminação da sentença:
- Acabou vosso suplício. Largai essa penitência. O tonel está cheio.
As Danaides pararam, pela primeira vez, há milênios. Enxugaram a fronte, descendo as bilhas infatigáveis. E dizem confusas e desapontadas:
- Está cheio o tonel? Pois bem! Que havemos de fazer?
Já estavam habituadas com o trabalho contínuo, mesmo inútil.

Não perguntem, pois, amigos, por que escrevo sempre, com ou sem leitores, com ou sem compreensão, estímulo ou tolerância.

Deixem-me com o meu barril sem fundo. A tarefa finda significaria o repouso incômodo, a displicência, a preguiça mortal.

Por isso, mesmo sem ter ofendido Apolo, encho, obstinado e tranqüilo, a talha imperfeita, escondido num recanto de província.

Quando não mais ouvirem o rumor da água agitada, não se dirá que Júpiter sucumbiu.

Será que, para sempre, desfaleceu na Morte, o braço humilde do trabalhador...

Luís da Câmara Cascudo
A República, 25 de setembro de 1943

 
Postado em 13 de julho de 2005, quarta

Pela Capela de Cunhaú

Na tarde de 15 de novembro evoquei a história da Capela de Cunhaú diante das moças do Club Maria de La Luz, olhando as ruínas, vendo as nódoas de cera das velas votivas. Há trezentos anos que as populações vizinhas, do vizinhário, mantêm culto teimoso às ALMAS SANTAS DE CUNHAÚ. Como os bretões, os norte-rio-grandenses do agreste, canonizaram os seus santos, alheios ainda ao antropomorfismo das representações materiais.

Fiquei com Edgar Barbosa, perdão, com o Juiz de Direito Edgar Barbosa trocando mágoas pelo abandono das ruínas. E acalorados fizemos pacto de uma campanha obstinada pela defesa das ruínas, duplamente sagradas pelo heroísmo da Fé e do Martírio, até que se estabeleça a capelinha modesta e para ela volte, em lenta procissão romântica, a doce Nossa Senhora das Candeias, que testemunhou o massacre de 16 de julho de 1645.

Juro à fé do meu grau que há muitos anos me bato por esse ideal como Dom Quixote por Dulcinéia del Toboso. Já escrevi, falei e pedi a meio mundo. O Forte dos Reis Magos e a capela de Cunhaú têm sido constantes tão vivas e permanentes na minha atividade provinciana como dois movimentos fisiológicos da respiração.

Agora volto ao campo, rearmado de coragem e com um companheiro, cavalgando outro rossinante, lado a lado, na campanha da teimosia bem intencionada. A Capela de Cunhaú é o santuário do Rio Grande do Norte. Lugar de morte pelo ódio e em louvor da fidelidade à tríade antiga consagradora, a Deus, ao Rei e à Família. A Pátria, terra dos pais, era a soma desses elementos.

Será possível a continuação desse abandono injustificado? Tanta verba espalhada e nessa chuva benéfica de ouro não caberão algumas moedas na mãozinha branca de Nossa Senhora das Candeias?

Cunhaú se reergueria com pouco dinheiro. Um técnico do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional daria conta imediata dos problemas que são pequeninos e mínimos. Os auxílios haviam de vir de toda parte. Todos os homens, todas as mulheres, todas as crianças de Canguaretama, ajudariam com o possível.

Ninguém vai esperar, num colapso de burrice herética, a recusa a um apoio à Capela histórica, sagrada, tradicional e evocadora. Creio firmemente que os senhores Bispos de Caicó e de Mossoró emprestariam todo o apoio. De cada paróquia do Rio Grande do Norte havia de vir uma pedra, com o nome da Paróquia, solidárias para a reconstrução da velha e gloriosa Capelinha mutilada. E no dia da consagração, Pontifical, com três Bispos!

Vamos galopar, Edgar Barbosa, lança na mão, contra os moinhos cujas asas se movem, mas não saem do lugar...

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 3 de dezembro de 1949

 
Postado em 6 de julho de 2005, quarta

Patavina

Que quer dizer patavina? Coisa nenhuma. Nada. Reforça a frase em que se nega o conhecimento de alguém. Ele não sabe patavina de História, dirá que o criticado é mesmo jejuno de assuntos históricos.

De onde virá o patavina?

Vem de longe, no tempo e na história, merecendo recordação.

As palavras, como tudo nesse mundo, têm sua história, seu passado, através da memória humana. A pressa em que vivemos, encurtando a existência e voando para a morte, afasta muito curioso, muita informação deliciosa.

Curioso é que Patavina significava vocábulo relativo aos motivos materiais e culturais alusivos à moeda e não ao conhecimento intelectual como atualmente usamos.

Até o século XV era popularíssimo o jogral do vagabundo músico que ia de castelo em castelo, de povoação em povoação, de feira em feira, contando estórias ou cantando rimances de cavalaria, aventuras espantosas de cavaleiros andantes que venciam dragões e exércitos, defendendo os humildes, os pobres, os oprimidos, vivendo por sua Dama. Esses rimances, chamados pelos franceses chanson de geste povoavam de encanto o espírito das populações e o pensamento dos fidalgos, nas altas salas dos castelos que coroavam montanhas.

Ouvir uma canção ou uma estória era delícia para todo infansão, rico-homem, burguês, vilão ou servo de gleba. Se um jogral chegava a uma parada sem dinheiro para satisfazer ao pedágio exigido, bastava entoar uma canção. Estava pago o direito ao trânsito. Havia uma Ordennance que autorizava essa moeda maravilhosa na França, na dulce France dos cours d’amour e jogos florais, das línguas d’Oil e d’Oc.

Naqueles tempos, que muita gente ilustre chama de ignominiosos tempos e épocas de obscurantismo, a Idade Média, pagava-se direito e posse com a moeda divina da palavra, cantando uma canção ou contando uma estória. Santa Rosa de Viterbo informou, no ELUCIDÁRIO, que em 1193, El-Rei Dom Sancho 1° de Portugal, doou um casal em Canelas de Poiáres do Douro aos farsantes (que representavam farsas, pantomimas, entremezes, pequenas comédias cômicas) Bonamis e seu irmão.

Acompanhado em troca de um arremedilho, debemus Domino nostro Regi pro roboratione unum arremedillum. Arremedilho era uma farsa mímica, uma comédia sem palavras, apenas vivida na gesticulação, gênero que os Romanos adoravam.

Nesse ambiente de jogral e jogralice nascera ‘patavina’, de poitevine, poitevin, de Poitiers, capital de Poitou, na França, terra de jograis afamados. Cunhava-se a poitevine, moeda com que se pagava o jogral. A Poitevine, Potevina, Patavina, valia um ceitil, dizendo de sua insignificância como unidade.

Teófilo Braga, no volume da Introdução à História da Literatura Portuguesa, Porto, 1870, 199 páginas, ensina: -A moeda com que no século XIII se pagava aos jograis que vulgarizavam as Canções de Gesta, era uma espécie de ceitil chamado poitevine; na nossa gíria popular ainda se emprega a palavra patavina como sinal do diminuto valor de uma coisa.

Dessa patavina, Camilo Castelo Branco criou o patavinice, sinônimo de ignorância e parvoíce.

Essa é a História da Patavina. Não é muito popular mesmo para os letrados profissionais. Ainda em 1913, Cândido de Figueiredo ignorava-a...

Luís da Câmara Cascudo
A República, 1° de novembro de 1944

 

Cascudo iniciou-se no jornalismo em A Imprensa, jornal de propriedade do seu pai...

Leia mais

Arquivos

Novembro de 2005
Outubro de 2005
Setembro de 2005
Agosto de 2005
Julho de 2005
Junho de 2005

 

Digitação e revisão das Actas: Daliana Cascudo
Fotos: De Cascudo - Acervo do Memorial Câmara Cascudo;
Máquina de escrever, placa, casa de Cascudo e fotos eventuais - Sandro Fortunato;
Fotos que ilustram os textos - Canindé Soares.

 

Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com