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Acta Diurna
19 Ecce iterum Eça de Queiroz No Círculo Eça de Queiroz foi nos oferecido um jantar que Antônio Eça de Quieroz presidiu encantadoramente. Conversou muito sobre o pai e lamentou que o apresentassem como um “esquerdista”, um republicano. Os críticos fazem de Eça de Queiroz sua propriedade e o interpretam ao sabor de predileções pessoais. O Círculo Eça de Queiroz conserva relíquias do escritor, manuscritos, retratos, objetos de uso e uma deliciosa coleção de bonecos de trapo representando os personagens criados por ele. Também aí se realizou o almoço com que Antônio Ferro homenageou os seus hóspedes do Brasil, “Os homens do Folk Lore”, estudiosos devotos e pesquisadores desinteressados da demopsicologia do lindo país inesquecível. Saindo do Círculo, que fica numa praça, desce-se para a Rua Garret onde estão casas que Eça de Queiros fixou, livraria Bertrand, a Havaneza, e, na extremidade da praça Camões onde o altíssimo poeta olha o futuro, cercado pelos cronistas e comentadores quinhentistas. Fui saudar aí a João de Barros, donatário do Rio Grande do Norte, o historiador das “Décadas”. Os primeiros dias foram inconscientemente, dedicados a Eça de Queiroz. Envolveu-me a atmosfera do Maias e do Primo Basílio. A praça Barão de Quintela fica a dez ou vinte metros da praça Camões. Na Quintela, antiga praça do Alecrim, está o monumento. Passo sempre por aí, devagar, recordando, ressuscitando, namorando o escritor, face pendida para a mulher seminua que é a Verdade, mal vedada pelo manto diáfano da fantasia. As ruas estreitas, os casarões altos, cobertos de azulejos, os varandins de ferro barroco, as figuras que passeiam, evocam a paisagem social que Eça de Queiroz conheceu. Vou tentando identificar os tipos, sentindo-os próximos, eternos na limpidez do traço inimitável do menino da Póvoa do Varzim. Certo e certo é que Lisboa é cidade renovada e sugestiva pelas suas avenidas, bairros modernos, abundância inacreditável de condução, movimento e vida contemporânea. Inútil pilheriar sobre a “cidade conservadora” quando ela apresenta os aspectos sedutores de uma contemporaneidade total. O encanto é que os bairros antigos, históricos, permanecem, quase totalmente vivos e com sua população fiel. Madragoa com suas varinas, Lapa fidalga (onde morava Damasco Cândido de Salceder, Mouraria de vielas, vias angustiosas, arcos, guitarras e soluços de “Fado”, Alfama cristã e moura, sonora de pregões e cantos, misteriosa ao luar, o Bairro Alto evocador de Marialvas, cholos, fadistas, vinho verde, cantigas de amor, estão ao alcance dos olhos. E, por toda a parte, Eça de Queiroz.
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