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    Acta Diurna 17  
    Natal-RN, 14 de outubro de 1947  

Me disseram...

     Permito-me. Ó manes de Castilho Antônio e do finado Candido de Figueiredo, dar o título acima ser agravo premeditado aos policiadores pronominais. Uma frase muito comum é: - Não sei bem... me disseram.

     Serve de habeas-corpus à vaguidade da fonte originária informativa e dentro dessa irresponsabilidade espolinha-se, livre, a imaginação solta do narrador. É pois, do domínio psicológico, um elemento de clara e nítida força.

     Voltaire, quando lhe perguntaram o princípio de uma notícia, respondia: -Não estou bem certo porque me disseram...

     Entretanto esse “me disseram” é o agente transmissor de 99% das notícias do comum, reportagem dos jornais-falados cotidianos, mantidos nas ruas pela forças redatorial do anonimato. Sustentados pela punjança seivosa da inventiva sem possibilidade do ônus da prova. Ninguém exige a documento nem as credencias do depoente interessado na divulgação gratuita. E continua o boato.

     O veículo alaga tão materialmente o ambiente com os informes sem carimbo, que as imagens da replecção denunciam o aspecto vivo: - a rua está cheia... a cidade está cheia...

     Cheia de que? Cheia do “me disseram”...

     Esse elemento – um processo de poderosa intensidade social para retardar, acelerar, deter nomes, famas, desejos, sucessos. Estou traduzindo apenas a ária de Demi Basílio, a ária-de-calunia, no Barbeiro de Sevilha. Mas o “me disseram” pode ser favorável, simpático e mesmo bajulativo. É possível determinar a auréola doirada da Fama sem a necessidade da produção ou mesmo a função humana o trabalho intelectual quando o dístico haloador pertence à classe dos letrados. Possível dispor, pelo “me disseram”, um cenário que dispensa o autor, esforça-se muito. Basta aparecer e receber as palmas. Já se sabe que é gênio sem precisar um minuto de comprovação. Nas horas vermelhos de uma agitação revolucionária, o julgamento de vida e morte depende unicamente desse método sem identificação de culpa e prêmio.

     Espalha-se o rumor e esse rumor cria a figura do delito ou da glória individual sem que a vítima ou herói haja merecido a coroa para a cabeça ou corda para o pescoço.

     Me disseram que era assim...

 

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