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    Acta Diurna 10  
    Natal-RN, 16 de agosto de 1947  

Mestre Filó

     Nos últimos anos de sua vida, Filadelfo Tomás Marinho, Mestre Filó, visitava-me aos sábados, ao pender do Sol, na fresca da tarde, para conversar, evocar, sonhar.

     Conversa de gente antiga é História, é Etnografia, é Folk Lore. Não é vida alheia nem habilidade de espalhar caco de vidro nos pés do próximo. Não há nada mais agradável para mim que esses assuntos de outrora, bem longe do que Maurice Maeterlinck chamava "o trágico cotidiano". Mestre Filó, no meu almanaque militar, tinha honra de almirante. Recebia-o de pé com doce em prato de porcelana e café em bandeja de prata.

     Comandara, de 28 de agosto a 21 de setembro de 1922, uma folhinha de barcos de pesca do Natal ao rio de Janeiro.

     Os três barcos, República, Pinta e Ires tinham recebido todas as festas, aclamações populares, discursos trovejantes, abraços do presidente da república. Os heróis quase morrem de fome anos depois, abandonados, esquecidos, ridicularizados.

     Quem pode continuar pescando, em barco alheio continuou. Outros emigram. Uns se fizeram cabeceiros, carregando algodão. Outros fazendo esteiras, vivendo nas praias humildes, Caraúbas, Pitangui, resistindo com meia ração.

     Lembro agora Mestre Filó, o comandante, o patrão do República, o modelo apontado de patriotismo, o marinheiro nato, sangue de corsário na guerra contra a miséria. É a Mestre Filó que Catulo da Paixão Cearense dedicou o poema Pescadores, descrevendo a travessia, com os postulanos de olho, legítimo cabo a cabo, abrindo no bom tempo e enfrentando a tempestade. Mestre Filó contava sua vida de pescador. Centenas de notas escrevi ouvindo-o falar de pescarias, fantasmas, supertições, estórias do mar alto, ciência dos pesqueiros, as técnicas de caminho-e-assento, peixes encantados, o cação espelho, as trouxas de roupa boiando, a procissão dos afogados na Noite de Finados, com aquela que Mitral contou no Rodano, os choros, cantos, músicas ouvidas nas horas longas na espera dos peraus quanto d’Alva, terra assentada, quando o vento gemedor descai como cantiguinha de menino adormecendo...

     Contava-me que a sereia existe, que o mar é povoado como a terra, que lá no fundo do abismo há cidade, palácios, belezas, mistérios. Contava-me que o mar continha um Deus, cheio de poderes e segredos. Eu acreditava em tudo.

     Morreu nas Rocas, 7 de Novembro de 1944, no outeiro, olhando Natal. Deus te salve, Mestre Filó, meu mestre, Príncipe de Netuno, pescador do Brasil!

 

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