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    Acta Diurna 8  
    Natal-RN, 19 de julho de 1947  

Hábito de monge e pele de lobo...

     O hábito não faz o monge mas quem não quiser ser lobo não lhe vista a pele...

     Onde está a verdade nesse adágio popular? Creio que a característica do lobo não é a pele mas o dente, isto é, a ação.

     Ação de lobo fixa o lobo. Jumento com pele de leão continua jumento. E jumento em duplicata, carregando o troféu da valentia e sendo a expressão tardigrada da inteligência remanchona.

     Na discussão havida na Itália sobre o uso público da batina no clero católico houve justamente noutras palavras a argumentação acima. Ninguém proibia o uso da batina, mas em face das necessidades modernas da movimentação, rapidez e conforto, de outros problemas de espaço e tempo chamavam os padres ao serviço da Fé, a batina era, materialmente (só materialmente, subentenda-se) um estorvo e um elemento, em muitas ocasiões, dispensável. Lembro-me aqui a peroração do cardeal Leme, beijando a própria batina, seu amor único.

     Lembro que o cardeal Leme nunca se encontrou na necessidade de uma ação violenta, de uma movimentação excessiva, da desolação ante trabalhos que sua inteligência radiosa não podia prever em toda sua extensão. A batina não faz o padre. Nunca o fez. Caracteriza-o, distingue-o, distingue-o entre todos lembrando-lhe a divindade da missão, a altura das responsabilidades, o peso da tradição vinte vezes secular. É como a farda, os sinais exteriores de uma força sistemática num plano uniforme de ação comum.

     Certo, certo, que o símbolo é milagroso. A águia napoleônica presa no topo das bandeiras imperiais era um pedaço de bronze. Por ele milhares de homens morriam sem recuar e um soldado da Velha Guarda preferiria mil mortes à perda de águia, símbolo da presença viva do Imperador!

     O hábito dos monges uniformiza-os mas não os distinguirá aos olhos de Deus se os méritos individuais não os acompanharem, tecendo eles próprios o brial da renúncia, da coragem e da dedicação.

     A batina é a couraça visível, a farda gloriosa de um exército que combate a dois mil anos. Mas, nem todas as ações exigem a farda e no exército são elas múltiplas. Sem farda, o voluntário Camerino encheu-se de glória. O essencial é a força interior, o ímpeto, a grandeza de vontade, de sacrifícios, de decisão. Honremos a batina. A batina é o padre mas o padre não é apenas a batina.

 

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