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    Acta Diurna 1  
    Natal-RN, 13 de junho de 1947  

Dize-me o que comes...

     Todas as vezes que viajo para o interior do Estado vou dando “alteração” nos cardápios oficiais. Recuso servi-me das trapalhadas fingidamente elegantes e peço os pratos simples, tradicionais e saborosos que não aparecem na mesa e ficam lá dentro, como servos reais e fortes, substituídos momentaneamente pelos empregados anêmicos e amarelinhos mas muito bem vestidos.

     Peço carne de sol assada, farofa de cebola, carneiro, os doces que foram as delícias dos sesmeiros do século XVII, doces de palmatória, de leite, tapioca de côco polvilhada de canela, baba-de-moça, doce de laranja com cravo dentro, sabores que têm uma história e uma responsabilidade na manutenção da força física do sertanejo e sua participação na economia nacional do Nordeste. Cada país possui sua cozinha que é uma fisionomia. Nós comemos um prato em casa e fingimos comer outro num banquete. Essa hipocrisia findará como findam todas as convenções sustentadas pela mentira da civilização. Banquete será um dia que com a comida razoável e gostosa que amamos, e não aqueles trocinhos sem identificação que passam sujando os pratos e justificando a homenagem ao Homem que fica presidindo e mastigando em seco.

     Não vou agora até a revolução ao cardápio do banquete. Chamo apenas a atenção para a necessária e urgente valorização da nossa cozinha e a coragem nacional de exibi-la e oferecê-la sem a ocultar e esconder como se fosse pecado mortal contra o bom gosto.

     Entre um resto de peixe frio com o molho amarelo e pegagento da maionese e uma tora de carne do sertão, gorda, macia, grossa, assada na hora, não há duas atitudes compatíveis com o paladar nordestino. Um churrasco, que tem história real no passado continental, uma feijoada completa, o cozido com todos os pertences, o peixe cozido com pirão, vatapá que traz todos os vícios e virtudes da grande Bahia, são elementos constantes de uma civilização, traços indisfarçáveis de uma nacionalidade, com o puchero uruguaio, o cocido espanhol, a polenta napolitana, o porridge da Escócia, o bacalhau à portuguesa, o borsch russo, a sexa sueca, o cuscús árabe, a tortilha mexicana, o tofu do Japão, knackebrood da Finlândia, o bife inglês, a salada francesa.

     Um povo que defende os seus pratos nacionais, defende o território. Quem disse? Um patriota português pouco entusiasta, Fialho de Almeida...

     Dize-me o que comes e direi se és realmente homem do teu país!

 

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