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6 de junho de 1908
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HENRIETTE

      Paulo Gomes era um homem feliz, mas, como não há ventura completa, tinha, como todos os mortaes, um grande desgosto – ser negro e legitimo: retinto e de ventas esborrachadas.
      Era rico. Em S. Paulo, por morte de fazendeiro, que passava por seu pae, á falta de herdeiros legítimos, elle, simples legitimado, recebeu por herança vastíssimas fazendas.
      Cultivou-as, desenvolveu-as, melhorou-as. Fez-se archi-millionario e começou a gozar a invejada felicidade de ser rico.
      Cubiçou a felicidade de ser instruído. Adquirio bibliothecas, tomou professores, estudou. Fez-se instruído e começou a gozar a felicidade superior da illustração.
      O saber trouxe-lhe a natural ambição de viajar, de conhecer os mundos distantes, os gloriosos paizes de que, com tanto enthusiasmo falavam os seus autores preferidos. Entregou as suas fazendas a um honesto administrador, preparou as malas, reduzio a libras sonoras alguns milhares de contos papel, metteu-se a bórdo de um bello mastodonte transatlântico e começou a gozar a felicidade bohemia das viagens.
      Viu mares e terras, cortou todos os mares, pisou todas as terras, excepto as africanas, pois não queria conhecer a tostada terra donde lhe viera, com os seus antepassados, a côr pretíssima.
      Installou-se em Paris, onde seu dinheiro fazia esquecer as inconveniências da sua côr.
      Mas em Pariass teve a notável desventura, talvez ventura, de apanhar a sua primeira paixão.
      Apaixonou-se por uma fancezita sabiamente loira, diabolicamente alegre e possuindo, como todas as francezas, a graça alacre e captivante das francezas.
      Muito soffreu, com essa paixão, o pobre Paulo Gomes.
      Ella tão loira, elle tão preto! Ella tão alegre, elle tão sucumbido! Ella franceza, elle brasileiro! Finalmente, ella tão finamente elegante, elle tão grosseiramente rastaquera.
      Mas teve fim a sua desventura. Della passou o triste Paulo Gomes, para a mais delirante de todas as alegrias quando, um dia, Henriette, a francezita adorada, mostrando os claros dentes a rir, declarou-se-lhe expontaneamente, doidinha pela sua horrível carantonha.

 
      Casaram-se. Vieram residir no Brasil. Amavam-se. Nunca se viu maior felicidade nem casal mais unido.
      Paulo Gomes rico, erudito, viajado, doidamente amado, gozando as saborosas venturas do dinheiro, fruindo as felicidades da instrucção, saboreando as suas recordações de viagem; ruminando as alegrias do amor, sentia, perpetua, ferir-lhe a alma a invencível tristeza de ser negro.
 
      Por isso, ancioso, cheio de esperanças, palpitou-lhe o coração, quando, lendo uma revista norte-americana, deparou com o annuncio de um remedio maravilhoso que transformava a nigérrima côr dos pretos na côr alvissima dos brancos.
      Encommendou a uma agencia norte-americana o remedio maravilhoso e, durante três mezes, com os sobressaltos de quem espera a salvação, esperou o maravilhoso remedio.
      Recebeu-o, por fim. Houve uma festa esplendida na sua alma.
      Uma noite, apagada a luz, estendido ao longo da francezita loira, Paulo Gomes bebeu de um trago o remedio maravilhoso.
      Bebeu e dormio feliz.
      Ao outro dia accordou infeliz. Aos gritos escandalisados da esposa, que o desconhecera, Paulo Gomes esntou-se na cama. Explicou-lhe o caso e, oh! Desventura, a cor branca dava-lhe um destaque hediondo a chateza brutal das ventas, á grossura africana dos beiços, aos duros crespos da carapinha.
      Henriette fulminou-o:
      - Separemo-nos. Vae-te. És horrível, pareces um macaco pintado de branco.
      - Mas Henriette.
      - Deixa-me! Perdete o que eu amava.
      - Pois tu amavas...
      - Sim, amava a tua côr. Amava o preto e detesto o branco. Vou procurar outro preto.
       Partio Henriette.
      Paulo Gomes é o mais infeliz dos pretos e dos ricos; é o mais desgraçado dos homens instruidos e viajados, e o mais desventuroso dos apaixonados!
      
Maldito remedio!
      São muito esquisitas as francezas!

Frei Antonio

 
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