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6
de junho de 1908 |
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A
POLITICA ACTUAL
“Interview”
com o Dr. Cassiano do Nascimento
-
Tenha a bondade de entrar.
O sr. Cassiano do Nascimento
recebe-nos hospitaleiramente á porta do seu gabinete de estudo.
Há tres minutos que lhe batíamos a porta de sua casa
á rua Paysandú. Uma creada levou-nos o cartão,
foi a figura bonacheirona do Sr. Cassiano quem em pessoa nos conduziu
no gabinete. É uma vasta sala, com tres janellas para o jardim,
uma larga mesa no centro, onde o illustre leader estuda.
Pelas paredes sobem estantes de livros e livros nas estantes. A
frente um retrato de Gambeta, um outro de Julio de Castillo. A mobília
é simples, mas muito ampla, muito confortável dando
a impressão que são moveis feitos de propósito
para o sr. Cassiano. Sob os pés de s. ex. estende-se como
couro cortido de uma onça cangussú que s. ex. nos
affirma não ser do Rio Grande do Sul.
Sentámo-nos. O sr. Cassiano,
amavelmente, refestelado na sua cadeira, sorri-nos com bondade:
- Queira dizer-me o motivo
pelo qual me dá a honra de sua visita.
Sorrimos enleiado para s. ex. Aquela phrase “a honra de sua
visita” confundiu-nos. Queríamos de s. ex. apenas um
interview.

- Apenas?
S. ex. dá uma boa risada,
muito franca, bonacheirona como a figura. A risada de s. ex. deixa-nos
a vontade.
- Interview? Sobre
o que?
- Política.
A phisionomia de s. ex. já
não é a mesma. Altera-se de chofre. Em todo caso há
um tom de cortezia, a cortezia de quem tem em sua casa, uma visita
a ouvir.
Abrimo-nos. O estado geral
da política actual é interessantíssimo, curiosíssimo,
há um lusco-fusco partidário na phrase do sr. Barbosa
de Lima, uma confusão na phrase do sr. Pedro Moacyr e s.
ex. podia dizer-nos alguma cousa a respeito.
- Que vou eu dizer? Não
sei de nada.
- Mas v. ex. é o leader...
- Talvez seja esta a mais forte
razão, para que eu não diga cousa alguma. Como toda
gente sabe esta minha posição de leader,
principalmente no momento actual é melindrosa.
- Melindrosa? Mas v. ex. é
a figura do presidente da Republica, a figura do sr. Pinheiro Machado.
Francamente, não comprehendemos
o que s. ex. nos dizia.
- Eu me explico. Ninguém
ignora que entre o presidente da Republica e o general Pinheiro
não existem relações muito lizas. Todo mundo
sabe disso. Ninguém também ignora que o general Pinheiro
há muito tempo me traz aqui na garganta.
- Sim?
- Ó! Isto é publico
e notório. Não se recorda que eu quiz ser presidente
do Rio Grande? Porque não fui? Pela opposição
formal do sr. Pinheiro. Quis ser vice-presidente. Não foi
possível. Porque? Pela mesma opposição.
- Mas a que allude essa opposição?
- Pelo meu gênio independente
e a outras razões que peço permissão para calar.
Mas como eu dizia , entre eu e o general Pinheiro as coisas de muito
tempo para cá andam pretas (a phrase é textual).
- Mas como foi possível então
que o general propoz o nome de v. ex. para leader?
- Propoz? Ahi está um
perfeito engano. O meu nome foi proposto pelo próprio presidente
da Republica.
Francamente,
não comprehendemos s. ex.
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- Eu me explico.
O general Pinheiro foi ao palácio Rio Negro. Foi propor o
nome do Rivadavia ou o do Homero Baptista. Estas coisas fazem-se
com certo jeito, uma certa cortezia. O general chegou a dizer esta
phrase: “a bancada do Rio Grande muito estimaria que o leader
sahisse della...” Foi o mal. O sr. Affonso Penna é
esperto e atalhou: - “É verdade vocês têm
lá o Cassiano e fica o Cassiano”. Nessas condições
o general ficou arrolhado (a phrase é textual), não
pòde dizer coisa alguma e acceitou. Cahiu na cilada.
-
Mas que intenção tinha o presidente da Republica em
armar essa cilada.
-
A coisa é clara: entre o presidente e o general as coisas
não andam muito lisas, entre eu e o general andam crespas
as coisas. Tire as conclusões.
- Ah!
-
É evidente. O presidente fez tudo para contrariar o general.
-
E v. ex. actualmente está em boas relações
com o general?
- O sr. está
adiantando muito.
-
Num caso de rompimento quem v. ex. acompanharia?
-
É muito adiantar. Mas parece que pelo que lhe tenho dito
eu devo acompanhar o presidente.
-
E crê no rompimento? S. ex. tem um gesto de quem não
leva absolutamente o rompimento a serio.
-
Póde ser, pode ser... Mas não há razões
para isso.
-
Mas essas partidas do presidente acabarão por desesperar
o general.
-
Não creia. Em política as coisas differem muito. O
general não é tolo romper.
-
?
-
Perfeitamente. O presidente é sempre o presidente. Repare
o que se está dando agora. Há apenas zumbidos de que
o general não tem a força de outrora. Que tem acontecido?
A côrte do general já não é a mesma,
á romaria á rua Haddock Lobo já não
é uma romaria. O general é bastante intelligente para
ver isso. O dia em que elle romper estará mesmo cahido.
-
Mas sua força, o seu prestigio no Rio Grande.
S.
ex. sorriu.
Um
lindo gato felpudo veio somnolenamente enroscar-se ás pernas
de s. ex. S. ex. tomou-o nas mãos e acariciou-lhe o pello
de setim. Ficamos silenciosos por algum tempo. Lá fóra
o sol do domingo vibrava, a cor do poente doirava as arvores do
jardim. Um canário numa gaiola de arame gorgeiava admiravelmente.
S
ex. continuava acarinhar o gato. Arrisquei mais uma pergunta. –
Nessa posição de passadiço v. ex, está
naturalmente contrariado? S. ex. teve um gesto de profunda negativa:
- Não. Dá-me prazer. Sou homem de luta. Parece até
que tenho mais saúde, tenho notado que estou mais esperto,
mais trafego.
Notamos
que s. ex. estava disposto a calar-se. Despedimonos. Foi s. ex.
quem nos veiu trazer á porta. Aqui fora fulgia o poente pelo
céo e pelos morros.

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