| Postado
em 30 de junho de 2005 |
|
::
Chico Xavier: a história por trás
da reportagem de O Cruzeiro

Há
três anos, enquanto o Brasil comemorava
o pentacampeonato mundial de futebol, Chico
Xavier deixou este mundo. Mineiro de
Pedro Leopoldo, filho de João
Cândido Xavier e de Maria
João de Deus, deixou mais de 400
obras psicografadas e 25 milhões de exemplares
vendidos, em mais de 70 anos de atividade.
Um
dos mais polêmicos momentos da vida de Chico
aconteceu em 1944. A viúva
e os três filhos do escritor Humberto
de Campos moveram um ação
contra ele. Como titulares dos direitos autorais,
queriam explicações sobre as cinco
obras “ditadas
por Humberto Campos a Chico Xavier”
sem que eles recebessem nada por isso.
Se
a Justiça negasse a autenticidade da obra,
Chico estaria sujeito a pagar indenização
por perdas e danos e poderia ser preso por falsidade
ideológica. Se reconhece as obras como
de Humberto de Campos, estaria atestando a existência
de vida após a morte.
A
imprensa alimentou o caso e a dupla mais famosa
do jornalismo brasileiro foi até Pedro
Leopoldo entrevistar Chico Xavier. Percebendo
que não seriam atendidos, David
Nasser e Jean Manzon,
de O Cruzeiro, disseram
ser jornalistas estrangeiros para conseguir a
matéria. Se os espíritos existissem,
avisariam Chico da farsa.
Ao
final do encontro, Chico autografou alguns livros
com os quais presenteou os repórteres.
Feito o serviço, trataram de sair logo
da cidade. A matéria tomou 10 páginas
da edição de 12 de agosto
de 1944. Chico ficou apavorado. Aquilo
poderia prejudicá-lo ainda mais.
Trinta
anos depois, em uma entrevista ao jornal carioca
O Dia, David Nasser
definiria Chico Xavier como “o
maior remorso da minha vida”.
Ele contou que dois dias depois do encontro, enquanto
escrevia a matéria, já de madrugada,
Jean Manzon ligou para ele:
-
David, você trouxe aquele livro que o homem
nos ofereceu?
- Claro que sim.
- Pois bem, abra-o na primeira página e
leia a dedicatória.
O
jornalista correu para o livro e leu: “Ao
irmão David Nasser, oferece Emmanuel”.
Segundo
Nasser, ele, Manzon e o motorista fizeram um pacto
de silêncio sobre o episódio e a
matéria foi publicada sem que a dedicatória
do guia espiritual de Chico Xavier fosse mencionada.
|
|
|
| |
| Postado
em 18 de junho de 2005 |
|
::
Site reproduz entrevista histórica de Lula
O
site Para
Lula ler na cama, que está
sendo lançado esta semana, apresenta a
última entrevista de Lula, momentos antes
da prisão durante a histórica greve
de 41 dias em 1980.
A
entrevista foi originalmente publicada na revista
O Cruzeiro de 30 de
abril de 1980. Naquela época, o título
já não pertencia aos Diários
Associados. A revista era editada, no Rio de Janeiro,
por Alexandre von Baumgarten.
Quando
foi feita, o PT – Partido dos Trabalhadores
havia acabado de ser criado e o sindicalista
Lula dizia não ter pretensões
de se candidatar a nada. Hoje, 25 anos depois
e com Lula presidente, a entrevista serve como
documento histórico destacando
as mudanças do país e também
da vida pessoal do entrevistado.
Para
Lula ler na cama não é um site
de oposição ao atual governo federal
nem de críticas ao presidente. Como dito
em seu editorial, trata-se de “um
ato de desagravo ao nosso país”.
Pensado em meados de 2003, só agora, em
junho de 2005, os site se torna realidade.
O
nome foi inspirado no livro de David Nasser,
Para Dutra ler na cama, de 1947. Nasser
dizia na apresentação do livro:
“Dizem
que as tragédias do povo não
chega aos ouvidos do homem que está no
poder. Dizem que ele ignora as proporções
bárbaras a que chegou esta vida que o povo
está vivendo”.
Nos dias de hoje, com ajuda da Internet, Para
Lula ler na cama acredita ser mais fácil
fazer com que isso chegue a quem está no
poder.
Em
sua versão de lançamento, o site
apresenta ainda um depoimento do Velho
da Praça – um homem que
fica nas ruas de Brasília lembrando aos
motoristas e pedestres os antigos valores do Partido
dos Trabalhadores, uma área de notícias
e outras sugestões de leitura para o presidente.
Para
Lula ler na cama – www.paralula.com.br
|
|
|
| |
| Postado
em 1° de junho de 2005 |
|
::
Memória Viva de Carlos Lacerda

A
produção do site sobre Carlos
Lacerda já foi iniciada. Em pesquisa
feita junto aos freqüentadores do Memória
Viva no ano passado, o nome de
Lacerda foi o mais lembrado – espontaneamente
– para que ganhasse um site.
Jornalista,
escritor, empresário e político,
Carlos Lacerda foi o primeiro governador
da Guanabara e, talvez, o último
dos grandes nomes da política brasileira
capaz de inflamar paixões através
de um discurso. O nariz aquilino, os olhos vivos
e a voz que assustava os adversários –
para ficarmos nas explicações mais
leves – lhe valeram o apelido de “o
Corvo”,
dado por seus desafetos.
Também
ficou conhecido como Demolidor de presidentes.
Foi pivô da morte de Getúlio,
e dos afastamentos de Café Filho,
Jânio e Jango.
Passou os últimos nove anos de sua vida
com seus direitos políticos cassados pelo
regime que ajudou a criar com o golpe de 64 e
do qual viria a se tornar um dos principais opositores,
formando a Frente Ampla com Juscelino
Kubitschek e João Goulart.
O
site Memória Viva de Carlos Lacerda
pretende mostrar suas várias facetas: o
político, o jornalista, o escritor e o
empresário. No momento, mais de 100 imagens
do arquivo pessoal de Lacerda estão sendo
trabalhadas. O site apresentará também
artigos, entrevistas e cartas. A previsão
inicial é de que ele seja disponibilizado
em meados de julho.
|
|
|
| |
| Postado
em 10 de abril de 2005 |
|
::
Actas Diurnas a partir de junho
A
partir de junho, Memória
Viva começa a ampliar os
sites biográficos já existentes
em seu acervo. Dentre as primeiras novidades a
serem implantadas, estão as Actas
Diurnas de Luís
da Câmara Cascudo. Atualmente,
20 delas podem ser encontradas no site na seção
Livros. Uma nova crônica será disponibilizada
a cada semana.
Logo
abaixo, a Acta Diurna de 13 de junho de
1947.
Dize-me
o que comes...
Todas
as vezes que viajo para o interior do Estado vou
dando “alteração”
nos cardápios oficiais. Recuso servi-me
das trapalhadas fingidamente elegantes e peço
os pratos simples, tradicionais e saborosos que
não aparecem na mesa e ficam lá
dentro, como servos reais e fortes, substituídos
momentaneamente pelos empregados anêmicos
e amarelinhos mas muito bem vestidos.
Peço
carne de sol assada, farofa de cebola, carneiro,
os doces que foram as delícias dos sesmeiros
do século XVII, doces de palmatória,
de leite, tapioca de côco polvilhada de
canela, baba-de-moça, doce de laranja com
cravo dentro, sabores que têm uma história
e uma responsabilidade na manutenção
da força física do sertanejo e sua
participação na economia nacional
do Nordeste. Cada país possui sua cozinha
que é uma fisionomia. Nós comemos
um prato em casa e fingimos comer outro num banquete.
Essa hipocrisia findará como findam todas
as convenções sustentadas pela mentira
da civilização. Banquete será
um dia que com a comida razoável e gostosa
que amamos, e não aqueles trocinhos sem
identificação que passam sujando
os pratos e justificando a homenagem ao Homem
que fica presidindo e mastigando em seco.
Não
vou agora até a revolução
ao cardápio do banquete. Chamo apenas a
atenção para a necessária
e urgente valorização da nossa cozinha
e a coragem nacional de exibi-la e oferecê-la
sem a ocultar e esconder como se fosse pecado
mortal contra o bom gosto.
Entre
um resto de peixe frio com o molho amarelo e pegagento
da maionese e uma tora de carne do sertão,
gorda, macia, grossa, assada na hora, não
há duas atitudes compatíveis com
o paladar nordestino. Um churrasco, que tem história
real no passado continental, uma feijoada completa,
o cozido com todos os pertences, o peixe cozido
com pirão, vatapá que traz todos
os vícios e virtudes da grande Bahia, são
elementos constantes de uma civilização,
traços indisfarçáveis de
uma nacionalidade, com o puchero uruguaio, o cocido
espanhol, a polenta napolitana, o porridge da
Escócia, o bacalhau à portuguesa,
o borsch russo, a sexa sueca, o cuscús
árabe, a tortilha mexicana, o tofu do Japão,
knackebrood da Finlândia, o bife inglês,
a salada francesa.
Um
povo que defende os seus pratos nacionais, defende
o território. Quem disse? Um patriota português
pouco entusiasta, Fialho de Almeida...
Dize-me
o que comes e direi se és realmente homem
do teu país!
|
|
|
| |
| Postado
em 27 de março de 2005 |
|

Renato
Russo, morto em 1996, completaria 45
anos neste domingo, dia 27 de março.
Para
Renato, não havia praia ou motivo para
alegria. Brasília era (era?) puro tédio.
Seus amigos, como ele, eram filhos de diplomatas.
Todos já haviam morado em outros países
e, naquela época - final dos anos 70, início
dos 80 - a influência principal era o punk.
Russo era uma invenção. “Eu
sou fã do Fernando Pessoa e, quando descobri
que ele tinha heterônimos, eu inventei logo
os meus. Eu ‘tinha’
uma banda chamada Forty Second Street Band (...)
Eu era um cara chamado Eric Russel. Achava esse
nome a coisa mais linda do mundo (...) Depois,
tinha o Rousseau, o Jean-Jacques: eu gostava daquela
coisa do nobre selvagem... Daí, tinha o
Henri Rousseau, um pintor que eu amo, e o Bertrand
Russel, que eu acho um cara muito legal”.
Em casa, Russo era Junior e, claro, tinha o nome
do pai, Renato Manfredini.
Renato
costumava preservar sua intimidade. No sétimo
CD da Legião Urbana, A
Tempestade, último lançado
com Renato ainda vivo, aparece uma forte referência
aos pais e a sua solidão na canção
(como ele também preferia e não
música) Esperando por mim:
Acho
que você não percebeu / Que o meu
sorriso era sincero / Sou tão cínico
às vezes / O tempo todo / Estou tentando
me defender / Digam o que disserem / O mal do
século é a solidão / Cada
um de nós imerso em sua própria
arrogância / Esperando por um pouco de afeição
(...) Hoje à tarde foi um dia bom / Saí
pra caminhar com meu pai / Conversamos sobre coisas
da vida / tivemos um momento de paz (...) Meu
pai sempre esteve esperando por mim / E o que
disserem / Minha mãe sempre esteve esperando
por mim. Antes disso somente - se é
que se pode usar esta palavra ao se referir a
uma das mais marcantes canções criadas
por Renato - em Pais e Filhos havia tido
uma referência tão forte. A letra
é uma das mais estudadas e analisadas.
Ela é construída com falas de três
personagens: pais, filhos e uma terceira pessoa.
São frases comuns ditas por pais e filhos,
aparentemente sem uma sequência lógica,
ligadas pela fala da terceira pessoa.
Outro
ponto marcante nesta canção é
a referência ao suicídio, tema incomum
na música brasileira: Ninguém
sabe o que aconteceu / Ela se jogou da janela
do quinto andar / Nada é fácil de
entender. O tema pode parecer incomum na
música brasileira mas é recorrente
na obra de Renato Russo. Clarrise, de
Uma outra estação (álbum
da Legião lançado após a
morte de Renato) não havia sido incluída
em CDs anteriores porque temiam que pudesse causar
uma onda de suicídios. Não fala
diretamente, mas sugere: E
Clarice está trancada no banheiro / E faz
marcas no seu corpo com seu pequeno canivete /
Deitada no canto, seus tornozelos sangram.
Dezesseis, de A Tempestade (de
longe, o mais melancólico de todos os álbuns
da Legião) também sugere, mais declaradamente,
o suicídio de Johnny no final da letra:
E até
hoje, quem se lembra / Diz que não foi
o caminhão / Nem a curva fatal / E nem
a explosão / Johnny era fera demais / Pra
vacilar assim / E o que dizem é que foi
tudo / Por causa de um coração partido.
A versão de Metrópole (gravada
no Dois) dos tempos do Aborto
Elétrico é a mais punk:
Faça
um favor a si mesmo: cometa suicídio /
Se jogue do andar mais alto de um dos seus edifícios.
A versão gravada é completamente
diferente.
Na
verdade, a morte era uma constante tanto nas atitudes
como nas letras de Renato, que fazia parte de
uma geração depressiva, criada durante
a ditadura militar. Na hora que foi permitido
botar a boca no mundo, havia tanto represado que
o resultado foi o que se viu. O mais interessante
é como isto aconteceu. Ao contrário
de seus antecessores e pensadores que os influenciaram,
os sentimentos colocados nas s letras de Renato
não ficaram presos aos livros e a grupos
de intelectuais. Eles explodiram no palco, em
uma cena pop rock que fez toda uma geração
- e continua fazendo na seguinte - decorar cada
verso escrito pelos dois. No caso de Renato, de
uma maneira ainda mais forte, que se assemelhava
ao fanatismo religioso. O que Renato dizia no
palco e nos discos era pura contestação,
mas não era contestado. Até isto
ele contestou: Vamos
celebrar a estupidez humana / A estupidez de todas
as nações / O meu país e
sua corja de assassinos / Covardes, estupradores
e ladrões / Vamos celebrar a estupidez
do povo / Nossa polícia e televisão
/ Vamos celebrar nosso governo / E nosso estado
que não é nação (...)Vamos
comemorar como idiotas / A cada fevereiro e feriado
(...)Vamos celebrar a aberração
/ De toda a nossa falta de bom senso (...) Já
que também podemos celebrar / A estupidez
de quem cantou esta canção.
Os
shows eram verdadeiros cultos. Nenhum será
esquecido mas alguns, em especial, deixaram marcas
mais fortes. O de Brasília, no final dos
anos 80, quando um maluco pulou no pescoço
de Renato e, depois, o cantor desafiou os seguranças,
“pára
agora, solta ele! Tu levas um microfone na cabeça,
meu irmão”.
Depois o quebra-quebra foi generalizado e que
o era esperado como a volta dos filhos pródigos,
acabou virando uma grande confusão. O de
Natal (RN), em meados de 90, onde também
sobraram críticas à técnica
e depois do qual, segundo reza a lenda, Renato
teria reunido a banda e contado que estava com
AIDS.
Renato
não falava de sua doença. Era portador
do vírus desde 1989 (quando Cazuza já
estava muito debilitado e gravando, em cadeiras
de roda e até deitado, o álbum Burguesia)
e em 1995, em entrevistas, continuava negando.
Renato morreria no ano seguinte, no dia 11 de
outubro de 1996.
Em
1997, viriam O último solo (de
Renato) e Uma outra estação
(da Legião), com sobras de estúdio.
Em 98, a gravadora lançou Mais do Mesmo,
uma coletânea. Em 1999, o Acústico,
gravado em 1992 e onde se percebe o discurso panfletário
sobre o cuidado nas relações sexuais,
encampado por Renato desde que soube da doença.
Em seguida, foi lançado o duplo Como
é que se diz eu te amo, registro de
um show ao vivo no qual o sarcasmo de Renato é
o que há de mais valioso. Novidades mesmo,
com músicas inéditas, só
se esperam para daqui a uma década quando
o filho de Renato tiver idade para decidir o que
fazer com o espólio do cantor. Até
lá, como o próprio Renato Russo
parecia profetizar já no disco Dois,
Mas
já disse que não tem / E você
ainda quer mais / Por que você não
me deixa em paz? (...) Sempre mais do mesmo /
Não era isso que você queria ouvir?
Excerto
do texto Malditos
Arianos, de Sandro Fortunato
|
|
|
| |
| Postado
em 15 de fevereiro de 2005 |
|
::
Alceu Penna e suas famosas garotas
A
revista O Cruzeiro foi
lançada com estardalhaço em novembro
de 1928. Seu proprietário, Assis
Chateaubriand, apoiou Getúlio
na Revolução de 30. Dois anos depois,
rompeu com Vargas e sofreu as
conseqüências. Dentre elas, teve a
circulação de O Cruzeiro
proibida.
Foi
justamente nessa época que chegou ao Rio
de Janeiro, então capital federal, um menino
de 17 anos, vindo de Curvelo, Minas Gerais. Seu
nome era Alceu de Paula Penna
e sua idéia era vencer na vida como desenhista.
Não pensou pequeno e, logo que chegou na
capital, foi procurar seu grande ídolo,
J. Carlos, na redação
de O Malho. Foi elogiado,
mas avisado que não poderia ser aproveitado
ali.
O
primeiro veículo importante a publicar
seu trabalho foi O Jornal,
também de Assis Chateaubriand. Com isso,
ele acaba tendo acesso à redação
de O Cruzeiro, que pertencia ao mesmo
grupo. Um dia, Alceu Penna se enche de coragem
e mostra ao secretário de redação
da revista, Accioly Netto, alguns
trabalhos que ele vinha fazendo para que servissem
como capa de O Cruzeiro.
Accioly
estava implementando mudanças na revista.
As edições de carnaval e o público
feminino seriam privilegiados. Logo, Penna estaria
fazendo capas para O Cruzeiro e, a partir
daí, começa a colecionar sucessos
e prêmios em todos os concursos que se dispõe
a participar.
No
final da década de 1930, as pin-up
girls já haviam invadido
a imprensa americana e Accioly resolve encomendar
a Alceu Penna uma série de pin-ups
brasileiras. O desenhista já tinha interesse
no assunto e assim surgiram As Garotas
do Alceu, um sucesso que atravessou duas
décadas e meia.
“Nos
amávamos as Garotas do Alceu. Durante anos,
todas as moças bonitas deste país
– dos fins da tarde nas calçadas
da Praia de Icaraí, em Niterói,
e das filas do Cine Metro, no Rio, aos footings
das pracinhas do interior – se penteavam,
se sentavam, gesticulavam, sorriam e se vestiam
como as Garotas do Alceu. E nos encantavam e nos
faziam sonhar. Tanto que, muitos de nós
– quase todos os que se casaram naquela
época – nos tornamos, um pouco, genros
do Alceu”,
explicaria, muitos anos mais tarde, outro mineiro,
também desenhista e que também passou
por O Cruzeiro: Ziraldo.
Alceu
produziu quadrinhos, desenhou moda e fantasias
de carnaval, influenciou tendências publicitárias
e o design das páginas de jornais e revistas.
“Tornou-se
o primeiro e único brasileiro a publicar
na revista americana Esquire; ensinou
Carmen Miranda a gingar com a
saia e escolheu as roupas do Bando da
Lua; vestiu Marta Rocha
no Concurso Miss Universo, em 1954; fez os figurinos
dos espetáculos dos cassinos e dos teatros
cariocas; e levou a moda brasileira para todo
o planeta com os figurinos que ele mesmo criou
para os monumentais eventos da Rhodia na década
de 1960”,
como se lê no livro Alceu Penna
e as Garotas do Brasil, de Gonçalo
Junior (Cluq – Clube dos Quadrinhos,
2004).
O
livro apresenta mais de duzentas imagens e conta
que, entre 1938 e 1941, Penna adaptou para o tablóide
O Globo Juvenil, de
Roberto Marinho, clássicos
da literatura mundial como O sonho de uma
noite de verão, de William Shakespeare;
Alice no País das Maravilhas,
de Lewis Carrol; Um yankee na corte do Rei
Artur, de Mark Twain; O fantasma de Canterville,
de Oscar Wilde; e O Mágico de Oz,
de L. Frank Baum.
Alceu
ainda produziu quadrinhos na década de
1950, na revista feminina A Cigarra,
também de Assis Chateaubriand, em parceria
com Álvaro Armando. Os
dois criaram o personagem Marido de Madame.
Alceu
Penna faleceu em janeiro de 1980, poucos dias
depois de ter completado 65 anos.
>>
Veja
mais Garotas do Alceu no Flog Memória Viva
|
|
|
| |
| Postado
em 11 de fevereiro de 2005 |
|
::
J. Carlos, o cronista do lápis
Da
mesma forma que é necessário recorrer
às fotos de Malta e Ferrez
para conhecer o Rio do início do século
XX, é imprescindível buscar o trabalho
de J. Carlos para entender o
carioca da primeira metade daquele século.
José
Carlos de Brito e Cunha nasceu no dia
18 de junho de 1884. Quando estreou na imprensa
brasileira, na revista O Tagarela, tinha apenas
18 anos. Em 1908, ainda um rapaz, estava presente,
desde o primeiro número, em uma revista
que marcaria época: Careta. Uma
de muitas. Como caricaturista, ilustrador ou editor,
passou por O Malho, Século
XX, Leitura Para Todos, Eu Sei Tudo, Revista da
Semana, Ilustração Brasileira, O
Tico-Tico, Fon-Fon, A Avenida, O Filhote da Careta,
O Juquinha, D. Quixote, A Cigarra, A Vida Moderna,
Revista Nacional, O Cruzeiro, Cinearte, A Noite,
Lanterna, A Nação, A Hora, Beira-Mar...
Em
1921, J. Carlos assumiu a direção
das publicações da empresa O
Malho, afastando-se a contragosto da
Careta. Nessa época, Álvaro
Moreyra, seu companheiro de trabalho,
escreveu:
“Um
dia, decerto, no começo do próximo
século, o Rio de Janeiro não possuirá
mais a carioca; as raparigas das margens da Guanabara
não se distinguirão das raparigas
do resto do Planeta: idênticas preocupações,
atitude iguais, o mesmo modo de vestir, gravidade,
pessimismo... Nesse dia, um curioso de
coisas do passado encontrará,
nas páginas de uma revista, as figuras
de J. Carlos; encontrará a melindrosa,
que ele inventou e que constituiu o modelo das
nossas lindas contemporâneas.
O
Rio de Janeiro de antigamente há de ressuscitar
na expressão ingênua e irônica
dos olhos que viram os primeiros aeroplanos; nas
bocas talhadas à feição de
beijos; no ritmo ondulante da carne envolta em
sedas leves, luminosas, fugidias. E o curioso
sentirá saudades do velho tempo que não
conheceu... Velho tempo! Bom tempo! E compreenderá
o sentido das praias, povoando-as das imagens
guardadas no traço sutil do artista e verá,
tal qual não vira antes, a luz das manhãs,
a sombra dos crepúsculos, o luar das noites
altas. Lenta, a maravilha despercebida se revelará.
A cidade romântica, erma das suas transeuntes,
voltará à fascinação
abandonada... O ente que olhar, daqui
a cem anos, as obras-primas de J. Carlos, poderá
viver a vida que andamos vivendo...”
J.
Carlos amava o Rio, de onde saiu poucas vezes.
Isso talvez tenha pesado em sua resposta negativa
ao convite de Walt Disney para
que trabalhasse em seus estúdios. Disney
esteve no Brasil em 1941, lançando o filme
Fantasia. Dentre as
diversas homenagens que recebeu, havia uma exposição
reunindo desenhos dos melhores caricaturistas
brasileiros. Em um almoço oferecido pelo
Ministério das Relações Exteriores
do Brasil, Disney fez questão de sentar-se
ao lado de J. Carlos e o convidou a fazer parte
de sua equipe nos Estados Unidos. J. Carlos recusou.
Algum tempo depois, enviou a Walt Disney o desenho
de um papagaio vestido com o uniforme da Força
Expedicionária Brasileira, abraçado
ao Pato Donald... É preciso
contar o resto?
Foram
quase cinqüenta anos de trabalho.
Sóbrio, sisudo, pontual, bom pai de família,
era completamente diferente do típico profissional
de imprensa de sua época. Isso durou até
29 de setembro de 1950. Vítima de um edema
cerebral, tombou sobre sua mesa de trabalho na
redação da Careta. Morreu, três
dias depois, aos 66 anos de idade.
O
cronista do lápis, que contou a História
e imortalizou os tipos de sua cidade, foi assim
lembrado por Genolino Amado:
“Realmente, no espírito de
J. Carlos parece ter habitado o espírito
do Rio. Talvez não possa existir harmonia
mais perfeita de alguém com a sua terra,
com a sua gente (...) E não poderíamos
imaginar tendo nascido noutra cidade. Aquele
que pretendia somente graça acabou fazendo
História”.
>>
Veja
ilustrações de J. Carlos no Flog
Memória Viva

|
|
|
| |
| Postado
em 1° de fevereiro de 2005 |
|
::
A verdadeira história da Madeira-Mamoré
A
história da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré
contada em Mad Maria,
série da Rede Globo, começa em 1911,
no governo do Marechal Hermes da Fonseca, oitavo
presidente do Brasil. Mas a verdadeira história
da Madeira-Mamoré – a Estrada do
Inferno, como ficou conhecida – começa
em meados do século XIX.
Em
1870, o Coronel George Earl Church,
aventureiro e geógrafo norte-americano,
conseguiu a título pessoal o que o governo
da Bolívia tentava havia anos: uma concessão
do Governo Imperial, dada por D. Pedro
II, para que se construísse uma
ferrovia em Rondônia.
Em
1877, Church fecha contrato com a Phillip
& Thomas Collins, da Filadélfia,
tradicional construtora de ferrovias da Pensilvânia.
A empresa começou a enviar homens –
americanos, irlandeses e italianos – para
o Brasil no início do ano seguinte. Em
junho, dos 550 homens que trabalhavam na construção
da ferrovia em Santo Antônio, 260
estavam com malária.
A
4 de julho, dia da Independência Americana,
acendiam-se as fornalhas da primeira locomotiva,
a Coronel Church. Em 117 dias de trabalho
foram feitos 3 quilômetros de vias provisórias
e 800 metros de permanentes. O engenheiro-chefe
da expedição, Bird, já estava
com a saúde seriamente abalada e voltou
para os Estados Unidos. A esta altura, dos 700
homens vindos dos Estados Unidos, cerca de 200
podiam manter-se em pé. Vencidos os seis
primeiros meses, prazo estipulado pelos contratos,
começou a debandada dos estrangeiros. Além
da malária, os índios também
matavam os intrusos. Em setembro, dos homens vindos
da Filadélfia, só restavam 150.
Em outubro, trabalhadores brasileiros entram em
ação. Chegam a Santo Antônio,
325 cearenses.
Até
maio de 1879, a Phillip & Thomas Collins havia
gasto meio milhão de dólares
na obra. Seus prejuízos totais chegavam
a 800 mil dólares, sem qualquer compensação.
Vinte e cinco por cento dos americanos que se
incorporaram na empresa morreram. Um índice
de mortalidade duas vezes e meia superior ao da
Guerra de Secessão.
Em
1882, nenhuma empresa estrangeira tinha qualquer
interesse na obra. Várias expedições
brasileiras foram enviadas ao local, mas o assunto
foi esquecido e só retomado em 1903. Por
força de um acordo internacional entre
Brasil e Bolívia – acordo que anexou
o Acre ao território brasileiro –
o governo retomava seu compromisso com a construção
da ferrovia.
Em
1906, foi constituída a The Madeira-Mamoré
Railway Co. São escassos e falhos
os documentos existentes a respeito da construção
da estrada entre 1907 e 1912, quando foi concluída.
Durante este último período, mais
de 30 mil doentes foram atendidos no Hospital
da Candelária, em Santo Antônio.
Acredita-se que 16 mil pessoas morreram durante
toda a história da construção
da Ferrovia Madeira-Mamoré.
Em
1972, a Madeira-Mamoré
foi desativada.
MAD
MARIA – O historiador Manoel
Rodrigues Ferreira, autor do livro A
Ferrovia do Diabo, que relata a
história da construção da
ferrovia Madeira-Mamoré, entrou com um
pedido de medida liminar na Vara Federal de São
Paulo requerendo a proibição de
veiculação da minissérie
Mad Maria. Segundo, Ferreira, a emissora
mostraria uma minissérie que, além
de não ser verdade histórica, foi
obtida pelo poder da corrupção,
já que o governo do Estado de Rondônia
investiu, segundo o próprio governador,
Ivo Cassol (PSDB), R$ 1,5 milhão.
Além
da costumeira falta de compromisso histórico
das produções dos núcleos
de dramaturgia, os críticos de TV, que
elogiaram o início da série, temem
que a história se transforme em um folhetim
banal, a exemplo de outros trabalhos do gênero.
A produção de Mad Maria custou à
Globo 7 milhões de reais.
FOTOS
– Veja fotos da Madeira-Mamoré,
feitas pelo repórter Jorge Ferreira
para a revista O Cruzeiro,
em 1959, no Flog
Memória Viva.
|
|
|
| |
| Postado
em 20 de janeiro de 2005 |
|
::
Flog Rio Antigo

Para
homenagear a cidade de São Sebastião
do Rio de Janeiro, que completa 440
anos em 1° de março deste
ano, o site Memória
Viva está lançando
uma nova área denominada Flog Rio
Antigo. São mais de 500 imagens
registradas por Marc Ferrez,
Augusto Malta, George
Leuzinger, E. A. Mortimer
e outros fotógrafos.
Marc
Ferrez – a foto acima é dele
– nasceu no Rio em 7 de dezembro de 1843.
Fotografou não só o Rio, mas todo
o Brasil, durante 60 anos. Era
especializado em vistas panorâmicas, mas
soube também retratar os tipos humanos.
Sua série de vendedores ambulantes feita
por volta de 1895 chama atenção.
Ferrez os fotografava onde os encontrasse. Além
da máquina, carregava uma lona que colocava
atrás dos fotografados, improvisando um
estúdio ao ar livre.
Augusto
Malta nasceu no dia 14 de maio de 1864 em Alagoas.
Foi para o Rio aos 24 anos e fez de tudo um pouco:
foi guarda-livros, teve uma casa de molhados,
vendeu fazendas (tecidos) por amostras, visitando
sua freguesia montado numa bicicleta. Foi nessa
época que um amigo lhe propôs trocar
a bicicleta por uma máquina fotográfica.
Malta já tinha 36 anos. Na nova função,
tomou contato com o prefeito Pereira Passos
que, admirando seu trabalho, criou para ele, em
julho de 1903, o cargo de fotógrafo municipal.
A partir daí, Malta acompanhou, dia a dia,
o crescimento do Rio de Janeiro.
Cinco
fotos serão disponibilizadas por semana,
uma por dia, de segunda a sexta. As imagens são
acompanhadas por textos explicativos
e mostram o Rio em seus tempos de capital
federal, crescendo e chamando a atenção
do mundo por suas belezas naturais e suas tendências
cosmopolitas.
Para
fazer essa viagem, é
só clicar aqui.
|
|
|
| |
| Postado
em 9 de novembro de 2004 |
|
::
Torquato Neto - 60 anos
O
texto que segue é de autoria da publicitária
Mayra Cunha, do blog Milk
Shake. Torquato Neto
era primo direto de seu pai, o jornalista Paulo
José Cunha. A reprodução
foi autorizada pela autora.
Existirmos
- a que será que se destina?

Hoje
é aniversário de nascimento (e morte)
do poeta Torquato Neto, meu primo.
Torquato
foi um poeta daqueles de vida curta. Sua obra
publicada se resume a um único livro, Os
Últimos Dias de Paupéria, que
está pra ser reeditado há anos e
nunca sai. E tem muita coisa inédita espalhada
ainda por aí. Eu mesma não
tenho um exemplar do livro. Qualquer
dia desses me faço de doida
e roubo do papai ou do Zélder!! Risos.
No
dia de seu aniversário de 28 anos,
Torquato saiu para comemorar com a esposa, o filho
de 2 anos e os amigos. Ao voltar pra casa, no
Rio de Janeiro, esperou todos irem dormir, se
trancou no banheiro e, literalmente, abriu o gás.
Ficou lá escrevendo até não
poder mais. Morreu numa madrugada
do ano de 1972.
Muitos
o tem como genial. E foi mesmo.
Nome importante do movimento Tropicalista, é
o autor de letras de músicas que o povo
canta sem nem saber que são dele. Soy
louco por ti, América, Geléia
Geral e Go Back são algumas
só pra não deixar de citar. Foi
poeta e letrista de marca maior. Um teresinense
que morava no Rio e era chamado de baiano, por
sempre andar com Caetano, Tom Zé
e Gil (aliás, li outro dia que
foi com quem o Gil fez mais parcerias). E adoraaaava
cajuína. Agora sim eu
cheguei ao ponto que eu queria chegar...
Certo
dia, depois de muitos anos de sua morte, Caetano
Veloso foi fazer um show em Teresina,
no Piauí. Como sempre fazia, ligou pro
pai do Torquato (que eu chamo
de Vovô Heli, por ser meu padrinho querido)
dizendo que gostaria de encontrá-lo. O
suposto diálogo foi esse (óbvio
que eu vou escrever do meu jeito, né? Não
faço a mínima idéia de como
essa conversa se deu de fato):
-
Oi, Caetano, meu filho (ele chama todo
mundo de meu filho, deve ter chamado o Caetano
também), venha almoçar aqui
em casa.
E
lá se foi Caetano almoçar na casa
da tia avó mais fofa que eu já tive:
Vovó Saló (mãe
de Torquato). Foi recebido com todas as honras
piauienses e falou que gostaria de experimentar
a famosa cajuína. Disse
que Torquato falava demais nisso. Que era a melhor
bebida que existia no mundo (pra quem não
sabe do que se trata, é uma espécie
de suco de caju que não é travoso
e não leva uma gota de água. O líquido
é tirado todinho da fruta... diliça!!).
Depois
do almoço e de muita conversa, Caetano
foi descansar numa rede (claro!) antes de voltar
pro hotel. Vovô Heli saiu pra trabalhar,
mas antes pegou uma rosa da roseira
que ficava na frente da casa (affe! Como eu me
arrebentei naqueles espinhos quando era criança!!!)
e colocou em cima da mesa, ao lado dele. Quando
acordou, viu a rosa e não se fez de rogado.
Pouco tempo depois compôs Cajuína
dedicada ao vovô Heli. (Que fofo!!!):
Existirmos
- a que será que se destina?
Pois quando tu me deste a rosa pequenina
Viram a rosa aí, gente??
Vi que és um homem lindo e que se acaso
a sina
Quem é o homem lindo?? Vovô
Heli!! Um copo de cajuína pra quem acertou!
Do menino infeliz não se nos ilumina
E o menino?? Outro copo pra quem disse
Torquato!! Dessa vez, gelado!
Tampouco turva-se a lágrima nordestina
Apenas a matéria vida era tão
fina
E éramos olharmo-nos, intacta retina:
A cajuína cristalina em Teresina.
Lindo,
não? Pois é. Essa é a história
que um dia minha família me contou lá
em Teresina. Nem sei se os detalhes são
esses mesmos. Mas entendi assim e aí vai
a minha interpretação. Posso ter
mudado pequenos detalhes que não interferem
no final das contas.
Dizem
as más línguas que vovô Heli
ainda guarda o papel com a letra da música
escrita à mão por Caetano. Vovó
Saló já foi se encontrar com o filho
há alguns anos. E ele, se estivesse vivo
até hoje, estaria completando 60
anos. Imaginem o que a memória
cultural desse país não perdeu,
já que este homem produziu como um louco
somente por 28 anos. O lance é aproveitar
o que ele deixou.
É
isso aí. Deu até saudade
da família, do Piauí e do vovô
Heli. Taí, vou tomar uma bela de uma cajuína
hoje em homenagem a todo mundo!!
Tim
Tim!
Beijinhos
saudosos.
|
|
|
| |
| Postado
em 27 de outubro de 2004 |
|
::
A história do "cecê"
Qualquer
um com mais de 30, em qualquer lugar do Brasil,
já ouviu algo do tipo “Huuum,
que cheirinho de cecê!”
ou “Vai
tomar um banho para tirar esse cecê”.
Cecê,
todo mundo sabe, é fedor no corpo. Mas
de onde tiraram essa palavra? Veja este anúncio
do lendário sabonete Lifebuoy:
“Nada
de C.C. comigo...”
Abaixo da destacada sigla, seu significado: “Cheiro
de Corpo”.
“Cecê”
– em vez de “C.C.”
– “é
fato gráfico recente”,
segundo o Houaiss. Recente em
termos etimológicos. Existe desde 1987.
Foi
a partir da campanha do sabonete Lifebuoy que
apareceu a palavra cecê. “C.C”
virou “cecê”
pelo mesmo processo de lexicalização
que fez “LP”
(Long Play) virar Elepê.
Há
um texto do escritor João Ubaldo
Ribeiro intitulado “Essas
mulheres de hoje em dia” (outubro
de 1999), no qual ele diz que “o
Lifebuoy, que estigmatizava com a ameaça
de CC ( iniciais de “cheiro de corpo”,
para informação de vocês,
jovens insensatos, que acham que a palavra “cecê”
deve ter vindo do latim ou do inglês)...”
Mas o termo vem mesmo do inglês. A sigla
é uma tradução do original:
“B.O.”,
que significa Body Odor.
Essa
campanha agressiva começou nos Estados
Unidos com historietas que mostravam como uma
garota bonitinha não era tirada para dançar
numa festa ou como o “cavalheiro”
achava melhor escutar em outra sala as músicas
de uma garota ao piano. Tudo por causa do “B.O.”.
E
se você encontrar por aí algum texto
ou alguém dizendo que o termo surgiu na
década de 50, diga à pessoa que
ela está equivocada. Os dicionários
Aurélio e Houaiss datam o aparecimento
de cecê – a palavra, não o
fato em si – da década de
40, no que estão certíssimos.
A primeira propaganda que ilustra este texto é
de uma O Cruzeiro de
1947.
|
|
|
| |
| Postado
em 5 de outubro de 2004 |
|
::
Crimes, jornalismo e História
Você
viu o Linha Direta Justiça,
na última quinta de setembro? Aquele que
reprisou o caso da Fera da Penha. Eu trabalho
com preservação da memória.
Vivo revirando a vida de muita gente. Às
vezes, gente que foi muito famosa e está
esquecida; em outras, gente que gostaria de ser
completamente esquecida. Linha Direta Justiça,
segundo o anunciado, uma “série
jornalística...”,
aborda casos antigos. Todos já prescritos.
A Fera da Penha cometeu um crime terrível.
Matou uma criança de 4 anos - Tânia,
na foto - e ateou fogo ao corpo. Foi
condenada à pena máxima: 30 anos.
Saiu com 15, por bom comportamento. Nunca havia
feito nada parecido antes. Nunca fez nada parecido
depois. Isso foi em 1960. A mulher que ficou conhecida
como a Fera da Penha tinha 22 anos e descobriu
que o namorado (pai de Tânia) era casado.
Enlouqueceu e resolveu tirar do namorado o que
ele mais amava: a filha. Ela foi libertada há
quase 40 anos. Trabalhou, dedicou-se à
atividades filantrópicas. Hoje tem 65 anos.
Pergunto: você acha certo jogar uma história
dessas em horário nobre, no canal de TV
mais assistido do país, quando as partes
envolvidas - ré confessa que pagou o estipulado
pela Lei e parentes da garota assassinada - se
recusam a falar sobre o assunto e não participam
do programa? Imagine que VOCÊ
fosse um dos personagens dessa história.
Enquanto você
pensa, vou dar outra informação.
Esse programa já havia sido exibido há
exatos 11 meses. Foi reprisado porque o que estava
para ser exibido - também sem consentimento
ou participação de qualquer envolvido
- foi impedido de ir ao ar. Também falava
de um caso famoso, ocorrido há mais de
50 anos, que envolve uma morte, no qual o acusado
também cumpriu pena... O que querem expondo
um senhor que hoje tem 75 anos, que nunca cometeu
um ato ilícito antes do episódio
em questão, tampouco depois de solto e
que, juram muitos, nem foi o culpado? Eu conversei
com ele há poucos dias. O que querem expondo
a família da vítima que guarda até
hoje a dor de ter perdido um ente querido? Você
já perdeu alguém muito amado? Em
condições trágicas? Gosta
de ficar falando sobre isso? Também conversei
com familiares da vítima.
Que caso é
esse? Quem são as pessoas? Não tenho
direito algum de dizer. A não ser que elas
permitam. Posso garantir que todas estão
cansadas desse jornalismo sensacionalista, dos
urubus que ficam voando ao redor da desgraça
alheia. Essas histórias são muito
maiores que a história pessoal de cada
um dos envolvidos. Mas nem por isso alguém,
alguma empresa ou veículo de comunicação
pode se apoderar dela.
É preciso
tratar pessoas como pessoas. Não como personagens.
Estes são matéria para escritores,
que podem manipular as histórias como bem
quiserem. Jornalista lida com gente de verdade.
Antes de mais nada, é preciso ter respeito.
|
|
|
|
|
|