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Enchente e dilúvio 0

Há dias passados, casualmente numa sorveteria, ouvi um grupo de rapazes as impressões iniciais da vida literária, as primeiras amarguras, as decepções que anunciam a existência inteira do lutador.

O rapaz deixara de tomar o sorvete de mangaba para contar a injustiça. Entendi pelo pouco ouvido que tenho, tratar-se de citação de trabalho pessoal sem a menor alusão ao autor. Aproveitara-se de produção sua, não para um plágio, mas para ilustração individual e silenciara o nome do ajudador.

Fui tomando sorvete menos gelado e mais doce que as recordações de trinta anos “de batente”. Ali estava apenas subindo os primeiros degraus da escala sem fim, um quase menino, magoado, decepcionado, surpreso com a maravilhosa, prodigiosa, infinita e policolor versatilidade da perfídia humana em geral e intelectual no particular.

Se conhecesse os rapazes da conversa no “Cruzeiro”, contaria deliciosas histórias pessoais, inacreditáveis, mas inteiramente verídicas. Um senhor ia fazer uma conferência e procurou-me para pedir esclarecimentos. Não era das minhas relações e não o conhecia muito, apesar de ilustre nas rodas políticas e sociais. Expôs e facilitei o quanto podia. Facilitei é um eufemismo. Dei-lhe dezenas de notas que copiara nos arquivos. Notas, explicações, informações de jornais velhos, meses e meses, sem descontinuar. O homem encheu o caderno e fez a conferência no “Carlos Gomes”, com música, gente muita assistindo, mundo oficial, etc. Mandara-me um convite. Ouvi que as minhas notas eram oitenta por cento fundamentais de tudo quanto dissera. Apenas o nome do informador, daquele que buscara os elementos, não saiu. Silencioso. Parecia que a criatura estava convencida de que o meu dever era cansar-me para arranjar-lhe as notas indispensáveis ao seu brilho. Nem uma palavra…

Se fosse esperar uma palavra, uma simples palavra de agradecimento ou de polidez das pessoas distinguidas pelo nosso trabalho, haveria suicídio diário. Algumas estão certas da nossa obrigação. Outras interpelam, meio indignadas como se faltássemos a um dever:- O senhor não escreveu sobre fulano? Ele era tão merecedor quanto sicrano…

Outros zangam porque não entendem o que escreveu. Crônicas carinhosas foram desfiguradas pela ignorância de leitores. Egoísmo, ciúmes, fofices, orgulhos, abastardam intenções expressas em palavras. Raramente, muito raramente, alguém dedica uma palavra de agradecimento. Sucede, no comum, dizer:- “Gostei muito…” Só.

Fôssemos fazer depender um trabalho intelectual da compreensão, do estímulo, da animação alheia! Fôssemos esperar solidariedade de quantos, logicamente, deviam ter! Ninguém escrevia uma palavra, pintaria um quadro, fixaria uma nota de música. Esquecimento, preterição, injustiça, são formas comuns diárias, naturais, tanto aqui como em qualquer parte do mundo. E no final das contas o culpado, o criminoso, o errado, o exigente, é a própria vítima.

Humberto de Campos conta uma velha anedota que serve para aplicar ao caso. No céu um grupo de Almas estava rodeando um recém-chegado que contava sua morte trágica na enchente do rio São Francisco. Faria todas as cores e pormenores, avivando o cataclismo, as águas subindo, cobrindo povoações, florestas, serrotes. Todas as Almas estavam de boca aberta. Distante, distraída, indiferente, completamente alheia, uma Alma olhava para fora como se não tivesse o menor interesse na conversa tão apaixonante. A vítima, dona do assunto, não se conteve e perguntou:- Finalmente aquela Alma que não está prestando atenção saberá o que vem a ser uma enchente no rio São Francisco? Compreenderá o horror único de uma inundação do São Francisco?

Uma Alma respondeu, tímida:- Não sei bem se aquela Alma sabe o que é uma enchente no Rio São Francisco. Posso apenas dizer que ela assistiu ao Dilúvio. É Noé…

Assim estou eu. Não vou ficar assombrado com pequeninas enchentes que cobrem os primeiros passos literários. Envelheço escrevendo, e escrevendo na província. Já tenho visto maiores águas, uivantes e tumultuosas. Sou também Noé…

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 10 de julho de 1948

Natal é a terra do já teve… 0

É uma frase muito velha e empregada por nós todos. Dirá que tivemos muitas coisas dignas de viver e que morreram. Significa um melancólico atestado negativo das nossas virtudes de resistência e de estímulo ao que devia continuar existindo e não existe.

Terra-do-já-teve não é elogio nem glória. É um epitáfio triste. Proclama também uma verdade que se procura esquecer, na eterna tendência humana da pilhéria fácil e da justiça difícil. A verdade é que há uma linha, uma fila de criaturas humanas fundando, criando, instalando sociedades, centros de vida social, ou desportiva, pondo nesse ato toda emoção, toda esperança, todo desejo de ser útil à sua província e cidade. E há também uma fila, uma linha de criaturas humanas encarregadas de desmoralizar pela pilhéria, matar pela distância, enfraquecer pela sabotagem, diminuir pelo ridículo, todo o esforço alheio.

Um vai plantando e o outro vai arrancando a semente do solo. De quem a culpa da falta de flor, de sombra e de fruto? Se não há um ambiente de compreensão, a zona de conforto, não é possível vida organizada. Toda criação é um complexo em que nenhum elemento pode faltar.

Assim, os que negam, os que não comparecem, os que julgam espírito a invenção anedótica, ridicularizadora, contra toda novidade, toda criação, todo sonho, são os responsáveis pela solidão, pela esterilidade, pelo silêncio, pela monotonia, pelo desnível, pelo atraso. Há, no mundo vivo, um exemplo dessas atividades asfixiantes, esforço para anular, gente-do-contra, amigo-da-onça, furiosa com a existência alheia, incapaz das alegrias da solidariedade e de entender alguma coisa fora dos domínios materiais, imediatos e práticos. Ferdinand Ossendowski fala nas colônias de bacilos dos Beggiatoae, precursoras da morte dos mares e dos lagos, decompondo-se os sais de que são formadas, desprendem o hidrogênio sulfurado que mata toda a vida nesses lugares. Quando esse hidrogênio sulfurado é em quantidade decisiva, nada mais existe nos lagos, nos reservatórios, em certos recantos do mar. Tudo sucumbiu. Mas a Beggiatoae continua fabricando o seu veneno, agora inútil, por um determinismo biológico, o bacilo extermina toda a fauna e a flora dos reservatórios e depois deles, morre também envenenada pelo que espalhou. Depois da solidão vital, o assassino suicida-se. Assim, pessimismo, doença de fígado, despreocupação, ignorância, preguiça, inveja, são outras tantas colônias de Beggiatoae, matando e morrendo. A lápide tem o conhecido epitáfio:- Já teve e morreu porque não deixaram viver.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 24 de junho de 1948

Se trabalhássemos mais e falássemos menos… 0

Há meses um jornal trazia a frase acima dita por um deputado francês. Não guardei o nome. A tradução pode ser feita assim:- Estamos na hora do castro, trabalhando, e não na hora do papagaio, batendo papo.

Cecil Rodes que fez o império britânico na África do Sul, o homem que deu nome a um país, a Rodésia, um dos arquitetos do mundo, não estava satisfeito com a sua tarefa. Suas últimas palavras foram:- So little done, so much to do! Tão pouco feito, e tanto por fazer!…

Uma das medidas sinceras do exame, antes da crítica, é esquemar secamente o que está feito realmente, positivamente, materialmente, por alguém que pretendemos elogiar ou agredir com sinceridade. Se queremos apenas agredir, não é preciso o exame nem a verificação. Agride-se sem conhecer o que se ataca.

É um processo velho, mas muito desmoralizado. Concordo em que é o método mais fácil e mais cômodo. Eça de Queiroz já contou, há meio século, como foi que o agrediu o Bey de Tunes num dia em que não tinha assunto para o jornal.

Vez por outra passo o meu galho de urtiga nos costados patrícios apelando, reclamando, sobretudo. Ouvido ou não, ficou o vestígio de uma ação. So much to do, tanto por fazer!

A nossa imprensa vem de 1832, 116 anos feitos, e não temos uma História da Imprensa. Não temos um estudo econômico-financeiro que abranja os três séculos de nossa existência histórica. Não temos uma história da nossa Literatura.

A última História do Rio Grande do Norte data de 1921! Não temos uma resenha histórica da vida esportiva, terrestre e náutica. Não temos a crônica das atividades médicas no Natal. Não temos uma história política. Tudo quanto estou dizendo é relativamente fácil porque todos os documentos estão aqui, na cidade. Os nossos vizinhos do sul e do norte já publicaram todos esses livros ou quase todos. E foram impressos na província porque não há editor do Rio de Janeiro e São Paulo que se interesse em empatar cinqüenta mil cruzeiros por um assunto provinciano, e de província pequena e sem ser mercado compensador. Devia ser escrito e editado aqui mesmo. Comprado e lido.

Não falta o elemento humano, inteligência, vivacidade, visão. Falta vontade ou falta o hábito de pesquisar, reunir e compor?

Neste 1948, Natal completa os seus 349 anos de existência. De 1900 para cá a vida intelectual vibrou e sumiu. Não seria tempo de manter, ou lutar para reconquistar o nível que tínhamos há trinta anos passados?

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 23 de junho de 1948

O homem que queria abraçar a locomotiva 0

Num velho número de jornal antigo leio que a 16 de julho de 1919 seguiu para a Paraíba um comboio da Great Western com comissão ilustre destinada a saudar o Presidente eleito da República, voltando dos Estados Unidos.

Na estação de Itamataí… Não, o melhor é copiar do original.

“O trem ia em grande velocidade, ao sair de uma curva, quando vários passageiros viram um homem caminhar de encontro ao trem, gesticulando de braços abertos. A máquina apitou amiudamente e o maquinista vendo que o homem caminhava apressadamente para o trem tratou de parar a máquina, não podendo evitar que a tromba o apanhasse jogando-o fora da linha… Esse desastre impressionou um pouco aos passageiros, que tomando todo interesse pela vítima, souberam que era um pobre louco, que, na véspera, havia corrido na estação de Itamataí contra um automóvel com o qual queria se abraçar.”

Abane a cabeça, leitor, abane a cabeça, como por outros motivos, sugeria Machado de Assis. Veja em que gesto se manifestou a loucura desse demente romântico, desse sentimental maluco, desse alienado singular. Abraçar uma locomotiva, abraçar um automóvel.

Creio que ninguém pensará no símbolo e os passageiros eminentes no comboio representativo (ia nele meu Pai) não se preocuparam em saber o nome do doido, apesar da presença de jornalistas e de algum interesse pela vítima que foi levada para Guarabira. Desapareceu no tempo e no interesse. Lembrei-me lendo a aventura singular, de minutos apenas, de conversar dois minutos sobre esse misterioso maníaco, surgindo andando de braços abertos ao encontro de uma locomotiva em velocidade, não refeito ainda da tentativa de abraçar o automóvel na manhã anterior.

Não vamos discutir que muita gente, de grande, nobre, luminosa e linda vida interior, continua avançando contra a máquina em função e sonhando abraçá-la para humanizá-la no sentido do útil e do cordial.

As últimas catástrofes sucedem no macrocosmo, o homem anônimo de Itamataí corre para a locomotiva negra da Great Western.

Não sei se entendes, leitor desocupado ou de suspeita antipatia, o tema desse motivo. Em boa verdade, o mundo verdadeiro e humano será defendido, feito, proclamado pelas criaturas que tiveram a coragem do sacrifício, de vencer a máquina pelo abraço, fazê-la regressar a sua condição de colaborante, serviçal e auxiliar e não dirigente, dominadora e tutelar do homem que a criou.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 15 de junho de 1948

Guardarás o domingo… 0

Guardarás o sábado, disse o Senhor a Moisés. Os judeus, religiosamente, o guardaram enquanto não tiveram domínio comercial. Depois ninguém aceita, sendo dono de casa, a semana inglesa, o meio sábado. Os cristãos passaram para o domingo, dando-lhes nome de Dia do Senhor, Dies Dominica, Dies Solis, Sonnntag, Sunday, Diamanche, Dia do Sol. Nos candomblés e macumbas, fiéis aos deuses sudaneses, o Domingo é dedicado a todos os Orixás de Xangô até Orixalá.

O domingo é dia de alto respeito silencioso na Europa, especialmente nos países luteranos, anglicanos, calvinistas, etc. O católico vai ao teatro, às corridas, às farras no domingo. O protestante tem uma veneração real ao Dia do Senhor. Muito mais bem comportado aos olhos do Eterno que o católico romano, displicente e engraçadinho por natureza.

Há uns sessenta anos o Príncipe de Gales, depois Eduardo VII, Rei da Inglaterra, o homem mais elegante da Europa, já com mais de cinqüenta anos de idade, telegrafou à sua veneranda mamãe, em Londres, pedindo-lhe permissão para assistir uma corrida em honra de sua Alteza. A Rainha Vitória respondeu apenas com uma simples palavra: Não. E o Príncipe de Gales não foi às corridas, homem de meio século, gozador da vida.

Todos nós passamos esses sessenta anos achando graça no carrancismo da Rainha Vitória. Fosse hoje… Que diferença… Que gente atrasada e fóssil!

Há dias, 20 de maio deste 1948, o Primeiro Ministro da Grã Bretanha, Attlee do Partido Trabalhista, isto é, Socialista, protestou veemente em telegrama pelos jornais, para que toda gente ficasse sabendo de sua opinião, contra a idéia da Princesa Elisabeth, herdeira do trono, e do seu ilustre esposo, o Duque de Edimburgo, às corridas em Paris. Attlee declara em alto e bom som que essa distração de cavalos e teatro aos domingos “é contrária a todas as melhores tradições do povo britânico e oferece à Nação um exemplo lamentável. É de esperar sinceramente que os conselheiros de suas Altezas Reais respeitem para o futuro os princípios religiosos da nossa tradição cristã!”.

Assim falou Attlee, Primeiro Ministro do Governo de sua Majestade Britânica.

É assim na Inglaterra. Guardarás o domingo. Mesmo em Paris, mesmo sendo-se a futura Rainha, mesmo em lua-de-mel, mesmo dos olhos fiscais, guardarás o domingo, igualmente ordenou o Senhor teu Deus.

E a declaração é do “Premier”, solene, indignado, devoto à sua lei divina.

Rule Britannia!

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 14 de junho de 1948

Olhando para o Rio Potengi 0

O Rio Potengi, que deu nome à Capitania, Província e Estado, o Rio Grande dos Portugueses, o Fluminis Grandis de Barléu, não figura no brasão d’armas da Cidade assim como o Forte ilustre. O nosso brasão d’armas, diga-se de passagem, é belíssimo em sua nobre simplicidade. Essa omissão carece de intenção crítica. Mas, como diria Rudyard Kipling, isto é outra história…

Os natalenses que tem felicidade de viver depois da Rua Grande que chama Praça André de Albuquerque conhecem muito bem, de vista diurna e noturna, o Rio Potengi, com suas águas verdes e lindas. Os outros cidadãos, com ou sem vontade, foram afastados do rio nativo, taba dos Potiguares, indomáveis, guerreiros, comedores de camarão. O Rio quer dizer justamente:- Rio dos camarões…

É uma dificuldade casa que tenha vista sobre as águas bonitas e tradicionais. Tampam-na o casario e não há esperanças de um miradouro, uma pracinha dando a visão panorâmica para o Potengi histórico.

Houve um homem que pensou nessa alameda-jardim, subindo toda Avenida Junqueira Aires, desde a Praça Augusto Severo até o “square” Pedro Velho. Na parte direita de quem sobe a Junqueira Aires seria proibido construir.

Esqueci-me de dizer que esse homem foi Presidente da Província do Rio Grande do Norte há oitenta e cinco anos. Governou-nos de 1o. de julho de 1852 a 24 de outubro de 1853. Chamava-se Antônio Francisco Pereira de Carvalho, bacharel pernambucano, pai de um outro Antônio Francisco Pereira de Carvalho que também governou o Rio Grande do Norte, novembro de 1886 a agosto de 1888 e que inaugurou, a 21 de junho de 1888, a Fábrica de Fiação e Tecidos Natal, primeira e única até este 1948, e de quem resta a grande chaminé inútil, com a data. Mas, repito, isto é outra história.

Pereira de Carvalho Pai, o Presidente de 1852, era apelidado “Carvalho Amarelo”, malcriado, neurastênico, mas homem rijo, direito, honesto e como vêem com idéias que pouca gente teve. Propôs ele que não fosse dada licença para construir na destra da subida, do aterro que ligava os dois bairros, Cidade Alta e Ribeira. Naquele tempo não havia senão uma ou outra casinha de palha e barro. A sugestão do Presidente vigorou e depois é que a tornaram sem efeito no governo do grande Antonio Bernardes de Passos. Se a idéia tem resistido teríamos uma das alamedas-passeios mais bonitas do Brasil.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 11 de junho de 1948

A natureza copia a arte… 0

Oscar Wilde dizia que a Natureza copiava a Arte. Não vamos discutir o paradoxo. Olhamos crepúsculos porque os pintores fixaram para nós as cores sugestivas. E os crepúsculos tentaram repetir, no imenso horizonte, a policromia da paleta empunhada pela mão humana. Certo que o documento de Zola credencia muito mais do que pensamos a simples imaginação literária. Um problema psicológico, um tecido de episódios determinando um clima decisivo para uma ação única, julgadamente criação mental, dentro da credibilidade mais viva em potencial existiu real e positiva, houve, no sentido exato do vocábulo. Parece que as figuras humanas nasceram depois da forma intelectual. Gastão Cruls, no A Criação e o Criador, romanceou o tema.

Há um conto de Peregrino Júnior, O Paroara, resumindo um dos dramas mais fortes do trabalhador nordestino na Amazônia. Emigrado por amor, Sebastião, anos depois, sabe que Ziloca, a menina que ficou no Jardim de Angicos, ainda o espera, teimosa, fiel, cheia de esperança. O seringueiro multiplica o trabalho. Arrasta o “saldo” milagroso.Toma o “gaiola” para Belém, caminho do sul, rumando Jardim de Angicos, para ver e ter Ziloca. É a festa de Nossa Senhora de Nazaré. Sebastião está aturdido, encantado, deslumbrado. Vê o povo, a alegria, o movimento. Está tonto de felicidade. Um desconhecido amável convida-o para passear, comer, jogar. O Bastião joga a “vermelhinha”. Perde o direito a ser feliz. Retoma o “gaiola” para o Acre, para ir morrer num igarapé, paroara ingênuo e confiado, condenado e perdido na tragédia banal. É um dos contos conhecidos e citados. Encontrei a réplica em sangue e fogo, o documento humano, a “criatura”, vivendo e morrendo talqualmente sonhará o “criador”. Está n’A República, Natal, 20 de outubro de 1914. Sebastião chama-se Herculano. Vejam o drama sereno e terrível:

- “O paquete Olinda do Loyd Brasileiro achava-se desde ontem às 19 horas, ancorado fora da barra desta capital, procedente do Norte, aguardando o prático que o conduzisse para o ancoradouro interno. A bordo encontrava-se o cidadão Herculano Pereira da Rocha, passageiro de 3a. Classe, de nacionalidade brasileira, natural da Paraíba do Norte, contando 40 anos de idade presumíveis e embarcado no porto de Manaus com destino a Cabedelo. Hoje, por volta de 2h30, Herculano, por motivo ignorado, lançou-se ao mar. Dado o sinal pela tripulação e o alarme entre os passageiros, foram empregados todos os meios de salvação, sendo arriados escalares e atiradas de bordo bóias salva-vidas. O cadáver de Herculano foi mais tarde, encontrado na camboa do Jaguaribe, no rio Potengi, e dali retirado, fazendo-se-lhe, depois, a respectiva autópsia. Diz-se que o inditoso passageiro suicidara-se em conseqüência de ter perdido em jogo a bordo com outros companheiros o produto de suas economias feitas no extremo Norte. Seu corpo foi sepultado no Cemitério do Alecrim, tendo a polícia tomado conhecimento do fato”. O Paroara viera de Manaus, com suas economias, sonhando com a Paraíba, Brejo do Cruz, Misericórdia, Catolé do Rocha. Jogando para passar o tempo. Depois jogando para recobrar o perdido. Jogando para readquirir o direito de viver na sua terra. Jogando aflitivamente para livrar-se da morte. Perdeu a partida. Deu na camboa do Jaguaribe, inchado e verde. Está sepultado, sem lápide, no Cemitério do Alecrim.

Paroara…paroara…

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 24 de maio de 1948

O Macaco e a Cotia 0

Como desde o princípio do Mundo os pecadores emprestam seus pecados a quem não os têm, nos domínios da Novelística Popular há um pequenino conto que é uma obra prima. O Macaco está na beira da estrada, a cauda estendida, atravessando o caminho. Longe, vem vindo o carro de boi, gemendo, as duas imensas rodas maciças esmagando o barro.

No meio da via, erguida nas patinhas, uma Cotia come segurando a fruta com as mãos finas. Sem cauda, ágil, despreocupada, inofensiva, sem os prejuízos da semelhança humana, a Cotia está num dia feliz, de sol e de alimento. Vai daí começa o Macaco nos conselhos:- Camarada Cotia, tire o rabo do caminho que aí vem o carro de boi! Debalde a Cotia verificava a improcedência do aviso e todos os olhos animais testificaram identicamente, o Macaco continuava firme na admonitória dispensável:- Camarada Cotia, tire o rabo do caminho! E assim foi esquecido completamente que era ele próprio o portador da única e verdadeira cauda visível, material, conhecida, provada e sabida por todos os bichos do mundo.

- Camarada Cotia, tire o rabo do caminho! Que valia a Cotia explicar que não retiraria o que justamente lhe faltava e competia ao avisador, desmemoriado do próprio corpo, a medida exigida nos próximos animais? O carro veio vindo, gemendo, gemendo e as duas rodas pesadas passaram lentas, inexoráveis, trituradoras sobre a cauda do pobre do Macaco, tão bem intencionado na sua missão de enxergar o argueiro no olho do vizinho e não sentir a trave no seu mesmo. O Folk Lore tem uma riqueza infinita nesses pequeninos contos para distrair as crianças e ensinar aos Homens.

O Folk Lore da Inglaterra, que possui estórias semelhantes a esta, guarda uma cantiguinha popular que é a moral do conto secular:

If Every One Would See
To His Own Reformation,
How Very Easily
You Might Reform a Nation!

Uma tradução apressada e provisória será:

Se cada um pudesse ver
Sua própria correção
Era fácil atender
Aos direitos da nação!

Cada um ocupado em ver o argueiro, às vezes inexistente, no olho alheio, ou o amigo Macaco da estória, cuidando da cauda de quem não a tem, inteiramente olvidado do comprido apêndice, não é possível melhora, correção ou mesmo um sentido honesto de exame. Falta o que se chama “autocrítica”.

Era justamente o que faltava ao pobre Macaco…

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 20 de maio de 1948

A maravilha do desconhecido 0

Os Romanos ensinavam que a distância embelezava as coisas. E tanto mais desconhecidas quanto maravilhosas. “Omne Ignotum pro Magnífico” escreveu Tácito. Não apenas esse sentimento natural amplia o que se ignorava, mas há em nós um instinto inconsciente de valorizar o que não está sob os meios de verificação. Num velho e esquecido poeta português do fim do século XVII, Simão Machado, lê-se:

Se um estranho a terra vem
Dizeis todos em geral
Nunca aqui chegou ninguém,
E do vosso natural
Nada vos aparece bem.
Enfim por que natureza
E constelação do clima,
Esta canção portuguesa,
O nada estrangeiro estima,
O muito dos seus despreza.

Essa valorização do distante, do estrangeiro, pode ser um elemento de elevação cultural e prática. A faculdade da imitação é essencial como processo de adaptação e conquista. Um sociólogo, Gabriel Tarde, fundamentou na imitação o grau potencial do conhecimento civilizador; isto é, uma fórmula prática e filosófica para a circulação da ciência humana.

Não é brasileira essa virtude nem português. É universal. Com a saturação é que a influência se curva, regressando ao instinto nacional. Depois da explosão universalista de 1789, a França ficou nacionalista com Napoleão Bonaparte. Daí em diante “as idéias revolucionárias” já não eram gerais, naturais, privativas do homem, do anseio incomprimível de libertação. Eram princípios da política intelectual, filosófica, da França. O mesmo ocorre contemporaneamente com a Rússia. A “Terra dos Proletários” é a “Grande Rússia”. Semelhantemente se passou na Índia, na China, no Egito, na Assíria.

Há anos passados, na Itália, Giovani Papini divulgou um poeta africano interessantíssimo, de nome Damko. Os jornais e os críticos louvaram muito a sensibilidade negra de Damko e os psicólogos explicaram a elevação de uma mentalidade primária que sabe por instinto o que os ocidentais “ainda não sabem” pela pesquisa. Aconselharam a imitação de Damko e houve quem desse os pêsames a Papini por ter descoberto um espírito muito maior que ele próprio. Foi então que Papini informou, inocentemente, que Damko não existia e fora apenas uma invenção sua, brincadeira de horas vadias.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 7 de maio de 1948

Responder cartas… 0

Queixa-se muito o estrangeiro de que o brasileiro não responde cartas. Não responde apenas as cartas amáveis, mas fica calado nas cartas de consulta, de indispensável informação mesmo negativa.Queixo-me pouco dessa doença. Tenho uma percentagem muito alta nas cartas respondidas. Calculo em noventa por cento. Os dez por cento ficam na classe de pessoas importantes, colegas de estudos ou associações, institutos, repartições que amassam a carta em vez de respondê-la. Não é possível remédio contra essa classe porque ela está pertinho do Céu.

Certo. Deduzo, julgam dispensável dar a informação solicitada. Depois protestam pela ausência de citação, culpando o autor de algum livro como pessoa mal-informada ou propositadamente sabotadora.

A culpa, evidentemente, cabe ao acusador, quase sempre macaco que esquece a cauda e vive descobrindo rabo na cotia.

Um exemplo inesquecível passou-se comigo. Escrevia o Marquês de Olinda e seu Tempo em 1929 aqui na Província, juntando documentos com uma paciência que só era igual à teima.

Numa manhã escrevi quatro cartas, datilografadas como sempre e seguiram pelo correio, registradas. Os destinatários eram importantíssimos: Monsieur Chiappe, Prefeito de Polícia em Paris, Dr. Fezas Vidal, Reitor da Universidade de Coimbra, Príncipe Max de Saxe, professor da Universidade de Friburgo, Dr. Antônio Azeredo, vice-presidente do Senado Federal.

Solicitava informações valiosas e confesso, sem esperança de recebê-las. Era apenas para satisfazer o direito do pedido, e não as tivesse, fizera tudo para obtê-las.

Meses depois as respostas foram chegando. Mr. Chiappe mandou cópia do relatório da Polícia de Paris em 1828 quando acompanhava Pedro de Araújo Lima. Prof. Fezas Vidal mandou todos os documentos relativos à vida universitária do futuro Marquês de Olinda e seus três diplomas, bacharelato, licenciato e doutoramento. O Príncipe Max de Saxe mandou as notas sobre a descendência do seu avô, numa letra enorme e num alemão terrível que Waldemar de Almeida traduziu.

O pedido do Dr. Antônio Azeredo era o mais fácil. Solicitava, por compra, dádiva, empréstimo, o volume dos Anais do Senado do Império do ano de 1856. Era o único que me faltava.

Nunca obtive resposta.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 29 de maio de 1948

Temporada 2008 0

O Blog do Cascudo retorna nesta quarta, 30 de julho, data em que estaremos lembrando os 22 anos de encantamento do Mestre.

Digitação e revisão das Actas: Daliana Cascudo
Fotos que ilustram os textos - Canindé Soares e Sandro Fortunato