Dez
31
Há dias passados, casualmente numa sorveteria, ouvi um grupo de rapazes as impressões iniciais da vida literária, as primeiras amarguras, as decepções que anunciam a existência inteira do lutador.
O rapaz deixara de tomar o sorvete de mangaba para contar a injustiça. Entendi pelo pouco ouvido que tenho, tratar-se de citação de trabalho pessoal sem a menor alusão ao autor. Aproveitara-se de produção sua, não para um plágio, mas para ilustração individual e silenciara o nome do ajudador.
Fui tomando sorvete menos gelado e mais doce que as recordações de trinta anos “de batente”. Ali estava apenas subindo os primeiros degraus da escala sem fim, um quase menino, magoado, decepcionado, surpreso com a maravilhosa, prodigiosa, infinita e policolor versatilidade da perfídia humana em geral e intelectual no particular.
Se conhecesse os rapazes da conversa no “Cruzeiro”, contaria deliciosas histórias pessoais, inacreditáveis, mas inteiramente verídicas. Um senhor ia fazer uma conferência e procurou-me para pedir esclarecimentos. Não era das minhas relações e não o conhecia muito, apesar de ilustre nas rodas políticas e sociais. Expôs e facilitei o quanto podia. Facilitei é um eufemismo. Dei-lhe dezenas de notas que copiara nos arquivos. Notas, explicações, informações de jornais velhos, meses e meses, sem descontinuar. O homem encheu o caderno e fez a conferência no “Carlos Gomes”, com música, gente muita assistindo, mundo oficial, etc. Mandara-me um convite. Ouvi que as minhas notas eram oitenta por cento fundamentais de tudo quanto dissera. Apenas o nome do informador, daquele que buscara os elementos, não saiu. Silencioso. Parecia que a criatura estava convencida de que o meu dever era cansar-me para arranjar-lhe as notas indispensáveis ao seu brilho. Nem uma palavra…
Se fosse esperar uma palavra, uma simples palavra de agradecimento ou de polidez das pessoas distinguidas pelo nosso trabalho, haveria suicídio diário. Algumas estão certas da nossa obrigação. Outras interpelam, meio indignadas como se faltássemos a um dever:- O senhor não escreveu sobre fulano? Ele era tão merecedor quanto sicrano…
Outros zangam porque não entendem o que escreveu. Crônicas carinhosas foram desfiguradas pela ignorância de leitores. Egoísmo, ciúmes, fofices, orgulhos, abastardam intenções expressas em palavras. Raramente, muito raramente, alguém dedica uma palavra de agradecimento. Sucede, no comum, dizer:- “Gostei muito…” Só.
Fôssemos fazer depender um trabalho intelectual da compreensão, do estímulo, da animação alheia! Fôssemos esperar solidariedade de quantos, logicamente, deviam ter! Ninguém escrevia uma palavra, pintaria um quadro, fixaria uma nota de música. Esquecimento, preterição, injustiça, são formas comuns diárias, naturais, tanto aqui como em qualquer parte do mundo. E no final das contas o culpado, o criminoso, o errado, o exigente, é a própria vítima.
Humberto de Campos conta uma velha anedota que serve para aplicar ao caso. No céu um grupo de Almas estava rodeando um recém-chegado que contava sua morte trágica na enchente do rio São Francisco. Faria todas as cores e pormenores, avivando o cataclismo, as águas subindo, cobrindo povoações, florestas, serrotes. Todas as Almas estavam de boca aberta. Distante, distraída, indiferente, completamente alheia, uma Alma olhava para fora como se não tivesse o menor interesse na conversa tão apaixonante. A vítima, dona do assunto, não se conteve e perguntou:- Finalmente aquela Alma que não está prestando atenção saberá o que vem a ser uma enchente no rio São Francisco? Compreenderá o horror único de uma inundação do São Francisco?
Uma Alma respondeu, tímida:- Não sei bem se aquela Alma sabe o que é uma enchente no Rio São Francisco. Posso apenas dizer que ela assistiu ao Dilúvio. É Noé…
Assim estou eu. Não vou ficar assombrado com pequeninas enchentes que cobrem os primeiros passos literários. Envelheço escrevendo, e escrevendo na província. Já tenho visto maiores águas, uivantes e tumultuosas. Sou também Noé…
Diário de Natal, 10 de julho de 1948



